Teleconsultoria médica dobra número de atendimentos

TelessaúdeRS | Serviço de 0800 de programa da UFRGS dá suporte a profissionais de atenção primária das 45 mil unidades de saúde do país

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Desde o início do que pode ser considerada a operação coronavírus desenvolvida pelo 0800 do TelessaúdeRS, em 12 de março,  aumentaram de 200 para 400 as ligações diárias de médicos e enfermeiros que buscam esclarecer dúvidas sobre o enfrentamento ao Covid-19. As perguntas mais frequentes, segundo a médica de teleconsulteria Renata Rosa de Carvalho, referem-se a diversos temas relacionados à pandemia: definição de casos suspeitos; uso de equipamentos individuais de segurança para as equipes de  saúde; orientação quanto ao manejo de outros sintomas clínicos, especialmente os respiratórios, e se tais casos podem ser classificados ou não como suspeitos de infecção pelo coronavírus.

O TelessaúdeRS é um projeto da UFRGS, que presta assessoria aos profissionais da atenção primária à saúde e dos demais níveis assistenciais do Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, desde que começou a campanha de atendimento especial às demandas referentes ao coronavírus, os profissionais têm atendido solicitações de toda a rede de saúde do país, sejam instituições públicas ou privadas, até mesmo de hospitais. De acordo com Renata, que também é médica de família e comunidade, o maior número de ligações chega de estados mais populosos, como Rio de Janeiro e São Paulo. “Esperávamos um aumento importante (de ligações), mas a demanda superou qualquer expectativa. Houve dia em que os atendentes recebem mil telefonemas”, ressalta. 

Para dar conta desse expressivo aumento de trabalho, o coordenador do TelessaúdeRS, Roberto Umpierre, médico com especialização em Saúde Pública, diz que obtiveram aprovação do Ministério da Saúde para a contratação de mais 20 médicos e 5 enfermeiros. Atualmente, estão em atividade 60 médicos e 15 voluntários, sendo que esses últimos aderiram ao programa numa parceria com o Hospital de Clínicas – são médicos residentes que destinam parte de suas horas para colaborar com o trabalho de atendimentos às unidades de saúde. Também fazem parte desse voluntariado alunos dos cursos de Enfermagem, Saúde Pública e Medicina da UFRGS, que colaboram na triagem dos telefonemas. 

“Esse é o serviço mais útil que o TelessaúdeRS vem desenvolvendo nos últimos dias”, enfatiza Roberto. Em razão disso, ampliaram o horário de funcionamento: até março, o 0800 recebia ligações das 8h às 17h30min, agora o serviço foi expandido para até as 20h. Criado em 2007, desde 2013, o programa da UFRGS passou a atender as 45 mil unidades de saúde de todo o país. De acordo com Roberto outras universidades também prestam serviços na área da saúde em âmbito nacional, como a UFMG por meio de assessoria telecardiológica e a UFSC com laudos de radiologia. 

Adequação da estrutura

Das 48 cabines de teleconsulta existentes na sede da TelessaúdeRS, na região central de Porto Alegre, estão sendo utilizadas 20 por turno, permitindo assim distanciamento adequado entre os profissionais como medida preventiva. Também as janelas são mantidas abertas para aumentar a segurança contra a contaminação. De acordo com o coordenador, além dos médicos e enfermeiros que estão trabalhando presencialmente, há aqueles que realizam o atendimento via 0800 em suas residências. 

Para que isso fosse possível, Roberto salienta a importância do trabalho prestado pelo Centro de Processamento de Dados (CPD) da Universidade. Foi o setor responsável pela gestão de informática da UFRGS que criou um serviço de VPN (Virtual Private Network) com as particularidades que permitissem o teletrabalho dos colaboradores em suas casas. Também foram realizados ajustes nas configurações de roteadores para permitir a comunicação entre as diversas redes envolvidas. 

Conforme técnicos do Departamento de Infraestrutura de TI do CPD, a rede de comunicação instalada (VPN) tem capacidade para prestar serviço a 200 colaboradores de forma simultânea, com margem de 20% para possível crescimento. Para tal, foi necessária a intervenção de três roteadores que conduzem o tráfego que chega de fora da rede UFRGS até o Datacenter que hospeda os serviços do TelessaúdeRS.

Na linha de frente

Renato está há mais de três mil quilômetros de sua terra natal. Ele nasceu na cidade de Condado, no interior de Pernambuco, e desde o dia 4 de dezembro do ano passado é médico em uma das unidades básicas de saúde na cidade de Teutônia, no Vale Taquari, Zona Central do RS. Quando morava em Olinda, onde cursou Medicina, na universidade estadual (UPE), levava apenas uma hora e quarenta minutos para estar com a família. Simbolicamente, para não perder o vínculo com suas origens, mantém o número de celular com o prefixo 81 e tem em destaque dois quadros na parede de seu consultório, um com o brasão da faculdade de Medicina e outro com a frase “O nosso ‘oxente’ carregamos com orgulho”. Renato Luiz Menezes de Lucena tem 24 anos de idade, graduou-se poucos dias antes de sua vinda para o sul do país – sendo essa a primeira viagem para fora de seu estado – ele integra o programa Mais Médicos, do governo federal.  

Por estar lotado em uma pequena unidade de saúde, ele é o único médico. Por isso, ele diz ser fundamental o serviço prestado pelo TelessaúdeRS. Contudo, além de  haver reduzido o número de consultas nos últimos dias, Renato comenta que suas ligação para o 0800 também têm diminuído. Isso tem ocorrido, explica, porque nas horas de folga uma de suas atividades é estudar todas as novas postagens feitas no site do programa de teleconsulta médica. São artigos e materiais informativos produzidos pela equipe dos profissionais de saúde que trabalham nesses projeto da UFRGS. De acordo com a assessora de imprensa do serviço, Camila Hofstetter Camini, o site foi reformulado recentemente para destacar esses conteúdos. “Eles são desenvolvidos com base nas principais dúvidas que recebemos e que estão na mídia”, complementa.

Além de sua atuação como médico na unidade de saúde, Renato integra o Comitê de Enfrentamento ao Coronavírus de Teotônia. Com base em seu relato, essa parece ser uma atividade mais difícil do que aquela que desempenha diariamente no posto. “O povo daqui da região é muito difícil, são pessoas de opinião forte, é difícil dialogar”, conta sobre um perfil que, na sua avaliação, é receptivo a discursos como a fala de Jair Bolsonaro na última semana, incentivando a retomada das atividades do comércio, “o pronunciamento do presidente reforça esse posicionamento”, diz Renato, em especial dos comerciantes que, segundo ele, começaram a pressionar a prefeitura e os políticos locais. “A ideia é resistir ao retorno e não abrir o comércio de uma vez só.”