Tomoko Kimura Gaudioso: das salas de aula à sala de casa

Câmpus do Vale | Professora do Departamento de Línguas Modernas sente a falta do seu gabinete no Instituto de Letras, principal espaço da sua vida diária nas últimas quatro décadas

*Foto de capa: Arquivo pessoal

Em quatro décadas de atividades na UFRGS, a professora Tomoko Kimura Gaudioso, do Departamento de Línguas Modernas do Instituto de Letras, já passou por muitas situações, mas nunca pensou que poderia também enfrentar uma pandemia de proporção paralisante.

“Não tinha a menor ideia de que poderia haver algum dia em que teríamos que nos isolar por um tempo tão longo, como o que estamos vivenciando desde que a pandemia iniciou”, revela.

Tomoko começou sua relação com a Universidade na década de 1980 como professora do curso de extensão de língua japonesa. “O Câmpus do Vale ainda estava precário, de modo que a maioria dos cursos da UFRGS funcionava no Câmpus Central”, recorda. As primeiras aulas que ela ministrou foram no atual prédio do Instituto de Ciências Básicas da Saúde, mas logo passaram para o antigo prédio da Engenharia Química. “Era o famoso Quindão, pois o edifício era todo pintado na cor amarelo queimado, como o quindim”, relata.

Em 1986, abriu um concurso para docente de língua japonesa, no qual Tomoko foi aprovada. Era o início do bacharelado em Letras com ênfase em tradução japonês-português. A graduação começou tímida, mas na década de 1990, com o curso de extensão, já havia mais de uma centena de alunos estudando japonês na UFRGS. Sobre esses tempos, a professora relembra que, “além da vivência em sala de aula, havia muita integração entre os professores e alunos, criando atividades culturais ligadas ao Japão, além dos projetos formalizados”.

Mais ou menos por esta época, a docente se mudou junto com todo o departamento para o Câmpus do Vale. Já naquele tempo, algumas evoluções tecnológicas fizeram grande diferença na prática letiva, como a chegada de computadores mais modernos. “A aquisição do computador que pudesse digitar em japonês foi algo muito marcante para nós, docentes de língua japonesa. Finalmente, poderíamos ser libertados dos mimeógrafos, álcool e manchas azuis nas mãos!”

A professora Tomoko se adaptou muito bem ao Vale, mesmo com a distância. Ela mora a cerca de 10 quilômetros do câmpus, “e tem trinta e dois semáforos até chegar lá. O estresse de dirigir o carro é considerável, para eu evitar dizer que é horrível. Agora já disse!”, ela brinca. Mesmo assim, até desta viagem diária hoje ela sente falta.

Ao longo de seu tempo na UFRGS, o máximo que a professora havia ficado distante da universidade foi por um período de três meses, em razão de uma greve. “Foi a famosa ‘Greve dos Cem Dias’, quando muitas universidades pararam por longos três meses, e todos nós, professores, paramos as atividades. Aliás, três longos meses sem ir ao local do trabalho, isto é, salas de aula, alunos, gabinete de trabalho, colegas, reunião de colegiado, plenária e outras atividades presenciais.”

Hoje, a suspensão das atividades presenciais da UFRGS já superaram a marca de um ano. Neste período, do que Tomoko mais sente falta é do contato direto com os estudantes, na sala de aula ou em seu gabinete. “Meu gabinete era sempre frequentado pelos alunos com interesse em cultura japonesa, tanto do próprio curso de japonês e mesmo de outros cursos.” A docente nutre um carinho especial em relação ao seu gabinete, e por isso uma dúvida não sai de sua cabeça:

“Eu, que tinha o gabinete como espaço principal da vida diária, me pergunto: quando eu abrir a porta novamente, o que eu vou ver, cheirar e sentir?”

Assim como fora na década de 1990, as novas tecnologias foram fundamentais para a adaptação ao formato remoto, como Tomoko reconhece: “A nossa sorte, se é que podemos chamar de sorte, é a evolução da tecnologia da informação, possibilitando criar redes de comunicação, salas de aula virtual e meios de comunicação com alunos e colegas de trabalho”.

A professora promete manter algumas dessas novas ferramentas em sua prática letiva pós-pandemia. “Aproveitando as ferramentas da internet, passei a inserir novas informações relativas ao conhecimento que possa auxiliar na formação dos alunos, e pretendo continuar a realizar uma parte da didática que aprendi e desenvolvi nesse período de isolamento”, projeta.

Otimista, a docente reconhece os aspectos negativos da pandemia, mas não deixa também de fazer reflexões importantes sobre a situação atual.

“Vamos considerar que essa pandemia é uma sacudida, um choque, onde todos nós despertamos para uma nova realidade, novas tecnologias, novas ferramentas e, principalmente, novos conceitos de relações sociais. Estamos isolados, mas precisamos ao mesmo tempo estar unidos.”


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: