Trabalhadores do setor funerário de Porto Alegre enfrentam intensificação da rotina e medo da contaminação

Linha de frente | Ao realizar uma atividade que costuma ficar invisível, agentes funerários sentem a pressão da piora da pandemia e da demora da vacinação

*Foto de capa: Flávio Dutra/JU

Encontrar um tempo disponível para conversar com Victor Burzlaff não foi fácil. Ele trabalha como sepultador no Cemitério Jardim da Paz. Durante as últimas semanas, com o aumento do número de óbitos em Porto Alegre, o trabalho se intensificou. Entre uma tarefa e outra, conseguimos conversar por alguns minutos em chamada por telefone. 

Victor relata como tem sido a rotina nesses dias. Assim que chega ao serviço, passa na portaria e vê o que tem agendado para o trabalho. Ele divide as demandas com outros sete colegas. Se é preciso fazer o sepultamento de quinze em quinze minutos ou meia hora, como tem acontecido, se dividem em duas equipes “para conseguir vencer o dia”.

De forma tímida, conta que há 15 anos trabalha no cemitério, mas já chegou a trabalhar em outros setores: padaria, frigorífico, entregando jornal. Foi ali, porém, que aprendeu a ser como é hoje. “Eu olhava pras pessoas, não dava bola. Comum, como qualquer pessoa. Hoje não, hoje eu tenho um coração mais humano.”

Ele também trabalha junto com o filho no Cemitério e conta que, apesar da proximidade familiar, não dá moleza para o garoto.

O trabalho é cuidadoso, principalmente agora, tendo de seguir os protocolos de segurança da covid-19. Para ele, no entanto, a parte mais difícil é lidar com os familiares de quem costuma precisar dos seus serviços de sepultador. Tem familiar que, por conta do caixão fechado, não acredita que seja mesmo seu parente quem está lá dentro e desconta a frustração nos trabalhadores do cemitério. Victor conta que é preciso ter calma, afinal é mesmo um momento difícil.

Em Porto Alegre, março foi o pior mês da pandemia até agora, com o número de óbitos superando o de nascimentos: 3.221 contra 1.509. Esse aumento, provocado pelo maior contágio de covid-19, gerou dificuldades para o setor funerário, como a falta de materiais. 

Felipe Carneiro, sócio-diretor da Funerária Medianeira, conta que, pelo atraso dos fornecedores, chegou a ter alguns modelos de caixões que zeraram no estoque. Entre os que mais faltam estão os mais baratos. Felipe atribui a maior venda desse tipo, em função da pandemia, “pela questão de as pessoas estarem desempregadas”.

Das quatro fábricas com as quais trabalha, ele não conseguiu resposta e procurou fornecedores antigos que prometeram as entregas para junho. “Daí não adiantava, porque o meu problema tá sendo agora.” Para contornar a situação, o jeito, às vezes, é oferecer caixões mais caros por preços mais baixos. “A gente faz algumas negociações pra não perder o cliente e pra não deixar o cliente na mão também, né?”, observa Felipe.

Já nas funerárias do Grupo Mathias não houve falta, mas a demora também foi percebida. Além disso, a capacidade de funcionamento precisou ser ampliada. Daniel Mathias gerencia as seis funerárias do grupo em Porto Alegre e uma na cidade de Glorinha. Durante o mês de março, a empresa teve um aumento de 105% no atendimento em relação ao mesmo mês de 2020. Os funerais e as cremações dobraram, o que fez Daniel ter que pagar hora extra para os funcionários, além de aumentar a estrutura, comprando baús refrigerados para armazenar os corpos antes da cremação. 

Nesse período, o telefone não parou e o nível de estresse emocional e físico foi alto, tanto pelo volume de trabalho quanto pela necessidade de o serviço ser detalhista. “A gente não pode cometer erros, porque não estamos vendendo uma TV, né? A gente tá vendendo um serviço de despedida”, comenta.

Além do estresse com o aumento de trabalho, há ainda o medo da contaminação pelo vírus. Daniel não escapou da doença. Ficou 12 dias hospitalizado, precisou de oxigênio e teve 60% do pulmão comprometido. Depois de alguns dias de recuperação, perdeu o pai para a doença, que morreu no dia do Natal. Também perdeu três amigos para o vírus. “A gente tem cada vez mais medo, porque é uma coisa a que todo mundo está sujeito e, para nós, ele tá muito próximo.”

Menos prioritários dentro do grupo de prioridades 

No plano de vacinação brasileiro, os trabalhadores do sistema funerário são considerados prioridade, entrando no grupo de trabalhadores da saúde, os primeiros a serem vacinados. No entanto, o setor enfrentou demoras para poder se vacinar. Gerci Perrone, diretor do Cemitério Jardim da Paz e presidente da Associação Sulbrasileira de Cemitérios e Crematórios (ASBRACE), conta que chegaram a entrar com ação no judiciário ainda em março, solicitando a vacinação dos municípios que ainda não a haviam feito, mas não tiveram êxito, mesmo com recurso. 

Gerci, que fez as tentativas de acelerar o processo de vacinação, a começar pelos funcionários que têm contato direto com o corpo, relata que isso não é suficiente. A contaminação, afinal, também pode ocorrer de outras formas. “Não são só esses, tem todo o segmento. Eles têm uma interação com os colegas, né? Então, tu vai ter o contato com o pessoal do escritório, que tá ali dentro… Não existe somente um tipo de colaborador que pode se contaminar, ele pode também transmitir pros outros.”

Felipe Carneiro também relata que o medo da contaminação não está só no trato com o corpo, mas, principalmente, no lidar com os familiares. “O meu medo pessoal era muito mais dos familiares do que dos próprios mortos, porque, na maioria das vezes, os familiares estão contaminados também, e vão lá fazer o acerto do sepultamento.”

A situação é parecida nos cemitérios municipais. Alexsandro Costa trabalha no São João, o maior cemitério municipal de Porto Alegre, e conta que a preocupação é pela contaminação entre os funcionários em larga escala. O receio é que todos os funcionários sejam contaminados e que não haja mais pessoal para o trabalho. “Nós, ao estarmos vacinados, isso vai minimizar algumas coisas.” Quando conversamos, na metade de março, ele estava com um funcionário afastado com suspeita de covid-19. 

Apesar de achar positivo que a categoria tenha entrado na lista de vacinação juntamente com profissionais da saúde, ainda percebe as disparidades, principalmente por serem os últimos da categoria. “Se não tem nós, profissionais, pra fazer, não adianta… Pode ser o caixão mais bonito, ter tudo organizado… Se não tiver funcionário lá na porta para atender, não adianta”, lembra Alexsandro, que também é coordenador dos cemitérios municipais de Porto Alegre.

E o trabalho vai além das burocracias e do trato com o corpo. A lida com os familiares é uma das partes mais importantes, principalmente na pandemia.

“As famílias ficam aqui emocionadas. A gente dá uma atenção, tenta minimizar alguma coisa. Às vezes, a família quer estender um pouquinho mais o sepultamento, e a gente consegue. É o último momento, né? Então, além do nosso serviço operacional, a gente acaba até fazendo um trabalho de acolhimento.”

Alexsandro Costa

Com o começo da aplicação das doses da vacina na última sexta-feira, 9 de abril, alguns trabalhadores do Cemitério São João já comemoram. “Notei um alívio dos funcionários e a felicidade de todos os que estão na fila para serem vacinados, pois o grande medo era contaminar a equipe toda e seus familiares”, observa Alexsandro.

Quando a morte é parte do trabalho

Felipe Carneiro trabalha na funerária da família desde os 14 anos. Ainda na infância, lembra que a atividade tinha para ele uma aura de mistério, o que o mantinha afastado. Depois de um tempo se acostumou; quando viu, já estava colocando meia no pé de um corpo. Mas entende que o trabalho não é para todo mundo.

Daniel Mathias também convive com a morte desde muito cedo. Ainda muito jovem, trabalhou por um ano na funerária, depois ficou 12 anos afastado atuando em outros ramos. Confessa que, durante a época da faculdade, tinha vergonha de falar que a família trabalhava com serviços funerários, mas agora entende que é algo importante.

“Hoje em dia, eu visto um pouco essa camisa do ‘Daniel da funerária’. Em todos os ambientes, de amizades, do futebol… todo mundo me conhece assim. Então acabei tirando isso de mim quando realmente comecei a ver que eu ajudava as pessoas, que era um preconceito bobo, uma infantilidade”

Daniel Oberdan Mathias

Daniel está acostumado a ouvir piadas sobre o trabalho. Para alguns amigos, a pandemia o deixou milionário, às vezes até o chamam de papa-defunto. Apesar disso, ele entende as brincadeiras e sabe que é preciso saber filtrar.

Um complexo funerário muito particular

Há cerca de 30 anos, o sistema funerário de Porto Alegre enfrentava um quadro de desorganização. A fama dos “papa-defuntos” não era à toa. Em frente ao Hospital de Pronto Socorro da cidade, era comum que ficassem agentes funerários à espera de algum cliente. 

Fruto da pressão também de pequenas funerárias, que não conseguiam lucrar, decidiu-se organizar o sistema. Em 1996, então, a Lei Municipal n.º 373 criou regras para o sistema funerário da capital.

A lei delimitou a quantidade de funerárias da cidade, ao todo 23; nenhuma delas podia ficar muito próxima de hospitais. Além disso, os preços precisavam seguir certo padrão, e os caixões não podiam ser mostrados à frente do estabelecimento. Outro diferencial foi a criação da Central de Atendimento Funerário (CAF), que é responsável por administrar esse serviço, evitando violações.

Quem relembra parte da história desse serviço essencial é Marcos Andrade Neves. Marcos é antropólogo social e fez um estudo etnográfico do que entende como o complexo funerário de Porto Alegre. Para ele, a palavra complexo dá a dimensão de um sistema que envolve negociações econômicas, mas também emocionais.

Durante cerca de um mês ele acompanhou o trabalho em uma funerária. A partir do momento que o óbito era notificado, ia junto com a funerária recolher o corpo, assistia às negociações com a família, à preparação do corpo, ia ao cartório de registro de óbitos com os funcionários e à CAF. 

Tentando entender todos os atores que estão envolvidos no momento do óbito, Marcos pôde perceber que, apesar de ser um serviço importante, poucos têm conhecimento sobre ele.

“É uma coisa muito desconhecida, muito invisível na nossa dinâmica social e, ao mesmo tempo, é uma coisa que todo mundo vai, em algum momento, precisar utilizar”

Marcos Andrade Neves

Para ele, apesar de Porto Alegre ter um sistema considerado exemplar, cada cidade tem suas necessidades, e não existe um sistema funerário ideal. As 23 funerárias conseguem suprir as demandas, mas em tempos anormais, o setor tende a ficar estressado.

Marcos lembra quando, em 2013, durante o incêndio na Boate Kiss, estava em trabalho de campo e acompanhou os muitos corpos que precisaram ser trazidos para Porto Alegre, visto que Santa Maria não tinha capacidade, principalmente para o atendimento dos feridos. “Tem essas situações que estressam o setor, mas se sabe que é um evento específico, um desastre específico. Agora, a gente tá vivendo uma situação que é um desastre continuado e a gente não sabe quando vai acabar.”

Colapso que vai além da falta de vaga em cemitério

Segundo Gerci Perrone, Porto Alegre ainda tem capacidade para cerca de 4.000 novos sepultamentos, além de capacidade de ampliação, o que não colocaria a cidade em risco de colapso funerário. Em outras cidades do país, a situação por vezes foi diferente.

Durante o mês de janeiro, Manaus enfrentou um colapso hospitalar e funerário, com falta de leitos nos hospitais e pessoas sendo enterradas mesmo em valas comuns. Tendo de enfrentar dias com cerca de 200 enterros, a categoria de trabalhadores de cemitérios foi uma das mais afetadas.

Ana Joulie Araújo é psicóloga e uma das criadoras da RIAT Apoio Solidário. A RIAT, Rede Internacional de Acompanhamento Terapêutico, prestou suporte psicológico aos coveiros de Manaus durante o período de maior demanda. “Eles foram os sujeitos que nos chamaram a atenção e, quando a gente começou a ação solidária, eles foram um dos grupos de pessoas que a gente foi buscar para que tivessem esse suporte, a assistência psicológica”, relata.

Para Ana, essa categoria foi acometida de um alto nível de estresse, medo e impotência. Além de toda a demanda de trabalho, precisavam voltar para suas casas com o medo da contaminação – sua e de seus familiares. A busca por ajuda, no entanto, não partiu diretamente deles, o que Ana relaciona com a falta de cultura de cuidado com a saúde mental. “O que a gente escutou foi de um deles pegar a enxada, pegar o material de trabalho e paralisar”, relembra.

De acordo com a psicóloga, quem trabalha diretamente com a morte, seja um coveiro, seja o médico que precisa dar o laudo do óbito, acaba criando mecanismos de defesa para enfrentar a atividade e lidar com a vida cotidiana. “Porém, não isenta ele de sofrer as consequências, né? Chegar em casa e pensar: ‘Nossa, fiz tudo isso hoje, poderia ser um familiar meu’ ou ‘Sim, eu tive que enterrar um familiar meu, do meu vizinho, do meu amigo’.”

Todos os relatos recebidos durante o trabalho de auxílio psicológico, reflete Ana, são importantes para que se possa elaborar o luto presente nesse período, “o que, infelizmente, tem sido posto de lado”. 

“A gente está vivenciando um momento muito superficial. O cadáver do sujeito que teve covid-19, ele é quase descartado como lixo. Em Manaus, tinha os frigoríficos, os contêineres de frigorífico. Então o corpo realmente passou a ser só um objeto”

Ana Joulie Araújo

O tratamento desse luto é visto, segundo Marcos Andrade, a partir de duas narrativas: a do contágio e a do óbito. Para ele, o contágio é uma espécie de força motriz que dinamiza a pandemia, enquanto a taxa de óbitos é o final da narrativa. Isso tudo contribui para que quem trabalha diretamente com os mortos seja também um agente invisível.

“As pessoas não se dão conta de que o óbito não é o final da narrativa. A pessoa não desaparece depois de morrer. A partir do momento em que a pessoa morre alguém tem que buscar, tem que preparar, vestir, botar no caixão, enterrar ou cremar. Essa narrativa tende a ser ofuscada, por isso existe essa ideia de invisibilidade dos profissionais. Eles fazem um trabalho que precisa ser feito, mas, ao mesmo tempo, parece que não, porque a narrativa acabou no óbito”

Marcos Andrade Neves

Talvez, ele conclui, os sistemas funerários não colapsem em muitas cidades, como em Porto Alegre. Mas, para quem trabalha tendo de enterrar pessoas dia e noite, os recursos físicos e emocionais já estão esgotados.