Um acontecimento chamado Mangueira

Na Zona Oeste do Rio de Janeiro, o artista de rua Guilherme Kid criou grafite que faz referência à versão da bandeira nacional usada no encerramento do desfile da escola de samba em 2019 (Foto: Guilherme Kid)

Tudo vira narrativa. Eu gostaria de cantar, dançar ou mesmo desfilar. Mas, irremediavelmente, estou a escrever um texto. E isso é uma prisão, reconheço. E é essa exatamente a minha paradoxal distância/proximidade com a Estação Primeira de Mangueira em 2019. Distância porque o modo de expressão que uso ainda está preso à soberba da linguagem; proximidade, porque ouso, com a escrita, experimentar as singularidades selvagens que envolvem a intriga, o enredo criado pela Mangueira.

Expressaria muito melhor tudo o que quero dizer se cantasse, dançasse ou desfilasse na Sapucaí. Mas… escrevo. Esse é o limite.

Torno código o que é incodificável.
Torno história o que é tempo.
Torno prosa o que é poesia.
Torno narrativa o que, em si, é indecifrável.

Melhor seria o silêncio. Ele permite uma absoluta experiência chamada História para ninar gente grande.

Mas vou me aventurar com a linguagem.

O samba-enredo da Mangueira apresenta ideias muito interessantes sobre a história do Brasil, problematizando, efetivamente, uma série de personagens e eventos que, por muito tempo, não fizeram parte dos livros didáticos e das aulas de História. É bem verdade que Zumbi dos Palmares, a Revolta dos Malês, a Conquista (não o descobrimento), a tortura na época da ditadura civil-militar, o genocídio indígena fazem parte, hoje, da maioria das publicações didáticas e de muitas aulas de história Brasil afora. Faltam ainda outras tantas como Dandara, Luísa Mahin ou Leci Brandão. Há muito ainda o que fazer em termos de redefinir nossa História ensinada e muito mais ainda a fim de combater nossa memória racista. Mas desde a crítica à história dos heróis, à história factual e das datas comemorativas, lá nos anos 1980, o ensino de História tem se renovado e enfrentado seus principais dilemas. Vagarosamente, tem inserido novos temas, novos sujeitos e produzido narrativas que incluem em lugar de apagar. A própria Mangueira é protagonista de um samba-enredo memorável lá em 1988, quando questionava Cem Anos de Liberdade: Realidade ou Ilusão?

Mas, tudo o que podemos fazer em sala de aula ainda é pouco. E está na hora de aprender.

Aprender com a Mangueira. Não se trata de aprender a inserir novos personagens históricos (ainda que isso seja muito importante); não se trata apenas de repensar narrativas tradicionais, como a do descobrimento ou a da abolição assinada pela Princesa. Ainda que isso tudo seja um movimento necessário na escola e fora dela.

O que me parece que faz da Mangueira um acontecimento é outra coisa.

É o tempo.
É a liberdade.
É o entusiasmo.

O acontecimento é o carnavalizar. Quando algo acontece, mergulhamos no silêncio que, na sua passividade e padecimento, nos abre como uma pura escuta, preparando-nos para sermos tocados pelo acontecimento.

É o que faz a Mangueira: carnavaliza a realidade e a história e nos joga no jorro do tempo.

Um tempo carnavalizado.

Com a Mangueira aprendemos a mais difícil das lições: o que se diz do tempo não coincide com o próprio tempo.

Os modos de temporalizar o tempo que conhecemos são ficções históricas altamente sofisticadas, que têm se sustentado no apagamento, na invisibilidade, no genocídio, na violência e no racismo.

Saudamos cronologias, linhas de tempo, sucessões e, dessa forma, contamos histórias frias e distantes, acomodadas no passado e esquecidas em seus efeitos e em sua vitalidade.

O que a Mangueira fez foi carnavalizar o tempo, que, no canto dos intérpretes e no enredo que desfilou na avenida, tornou-se emaranhado, coexistência, rizoma.

O Acontecimento não é exatamente o fato “Mangueira 2019”, mas a carnavalização do tempo e da vida que acompanha o desfile como efeito atemporal, incorporal, virtual, intensivo.

Essa carnavalização não termina depois dos aproximados 82 minutos do desfile; ela não é do antes, do depois ou do agora. Ela é uma qualidade intensiva que nos impele a pensar, a escrever e a criar a vida. O acontecimento não tem contexto, não se pode o ver debruçado sobre uma linha. Ele atravessa e constitui a duração da nossa experiência. A Mangueira nos convida a um mergulho no elemento vital da criação. Uma vez destituída de seu contexto, desviada da linha que a situa numa cronologia, resta a perplexidade que a carnavalização do tempo e da vida efetua num desfile na Marquês de Sapucaí. Mangueira 2019 é o acontecimento em efetuação. Eis porque é muito difícil situar a carnavalização numa secessão, numa continuidade ou numa linha.

Portanto, não se trata de ver a carnavalização carregada de todas as individuações preconceituosas e discriminatórias, que a mostram como uma desorganização ou uma inversão. Não se trata também de reduzi-la às pessoas que a fazem brilhar ou aos eventos que descortina na história do Brasil. Porque o acontecimento é o tempo, a liberdade e o entusiasmo. Forças que movem a vida e criam novos olhares e novos dizeres sobre a nossa História.

O Desfile passou. O acontecimento é eterno, como é eterna a escuta que se abre para as existências, as vidas das pessoas, os corpos, as lutas, os encontros.

Um tempo carnavalizado não é linha nem sucessão, nem evolução, nem progresso, nem períodos ou etapas. É coexistência entre passado, presente e futuro. O passado, para a Mangueira, não passa, mas insiste e coexiste.

A História para ninar gente grande criticou profundamente uma temporalização criada desde o século XV, baseada num julgamento moral dos povos, na invenção do conceito de raça, no colonialismo e na emergência da colonialidade. Numa palavra: destruiu, peça a peça, a poderosa ficção chamada Evolução, que tem nos informado de que há povos primitivos e povos avançados; de que há o antiquado e o moderno; de que há a razão e o corpo; de que há a ciência e a arte; de que há homens inteligentes e mulheres sensíveis. Polos distanciados pelo valor, que gera preconceito, discriminação e dominação.

Mangueira não dá voz nem aprisiona em narrativa, nem escava lugar nos livros. Ela e o seu carnaval são gritos que, paradoxalmente, promovem o silêncio, para que se possa aprender com os povos negros, com os povos indígenas, com as mulheres, com as artistas. Carnavalizar a vida, não apenas para o dia do carnaval, mas para recriar as relações e potencializar novos encontros.

Mangueira nos promete um novo tempo. O tempo da liberdade. A liberdade de se deixar afetar pelos acontecimentos. A liberdade de carnavalizar a história e a vida. De escutar o ruminar, às vezes imperceptível, das temporalidades, das cosmologias, dos sonhos, da imaginação e do silêncio.

A liberdade de estar no silêncio. De não estar disposto, predisposto, indisposto. Livre para poder acolher a experiência. Desviado da linha, mergulhado no mistério do tempo que a Mangueira mostrou e afetou, com arte, ciência e corpo. Tudo ao mesmo tempo.

Nilton Mullet Pereira

*Professor da Faculdade de Educação/UFRGS