Uma história de luta pela preservação ambiental

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A Curicaca (Theristicus caudatus) é uma ave de penas claras e asas largas. Presente em grande parte do continente sul-americano e nos três estados do sul do Brasil, constrói seu ninho sobre os pinheiros, prática que dá origem ao nome: em tupi-guarani, kuri significa “araucária”, e akã, “copa”. O animal serviu de inspiração para um grupo de dez ativistas na hora de batizar a ONG que criavam para lutar pela preservação do meio ambiente no Rio Grande do Sul. Embora nomeie um instituto de preservação, a Curicaca não corre risco de extinção: a escolha aconteceu por uma ligação afetiva, já que as primeiras ações do grupo, em 1997, foram “acompanhadas” por pássaros da espécie na região dos Campos de Cima da Serra.

Hoje a ONG conta com mais de 70 associados e tem sede em Porto Alegre. Como não tem fins lucrativos, todos são voluntários, e é preciso buscar captação de recursos para executar as atividades. O projeto de redução da poluição por plástico aliado à observação de aves na Lagoa do Peixe, por exemplo, foi escolhido em votação para receber o apoio da European Outdoor Conservation Association (EOCA), que buscava iniciativas unindo prática de atividades ao ar livre e preservação do ambiente. O trabalho vai ser articulado com uma atividade que o Curicaca já desenvolve na região: a formação de guias para os turistas que visitam o local para observar aves. Considera, assim, o desenvolvimento das comunidades locais e moradores uma de suas diretrizes de trabalho.

Primeiro encontro do curso de condutores de ecoturismo no Parque Estadual de Itapeva, em Torres – RS, em maio de 2019 (Foto: Acervo Curicaca)
Reunião de planejamento do turismo de observação de aves no Parque Nacional da Lagoa do Peixe – Parque Nacional da Lagoa do Peixe, em outubro de 2018
(Foto: Acervo Curicaca)


Outro exemplo de ação continuada aconteceu na região do Parque da Itapeva, onde estudantes da educação básica participaram de formações por sete anos, lembrança apontada pelo coordenador técnico do grupo, Alexandre Krob, como mais marcante. “Nós chegamos a trabalhar com crianças desde o terceiro ano até quando eles já estavam passando para o ensino médio. A nossa coordenadora de educação, Patrícia Bohrer, fez seu mestrado a partir de um entendimento científico dessa experiência, o que começou a alicerçar nossa metodologia de educação”, comenta. Com aporte teórico e experiência prática, o Curicaca já formou cerca de 500 educadores ambientais em todo o estado, em cooperação com a Secretaria Estadual do Meio Ambiente. 

Atividades de educação ambiental com alunos e professores de Litora Norte – Visita ao Parque Nacional de Aparados da Serra, em novembro de 2009 (Foto: Acervo Curicaca)


Para driblar as restrições financeiras, outra tática usada pelo Curicaca é o trabalho em parcerias. A UFRGS é uma das mais antigas e importantes colaboradoras, com um trabalho de extensão que tem cerca de 15 anos, além de participações pontuais em outros projetos. Alexandre é agrônomo, o que facilitou a comunicação com essa área da Universidade, que coopera com o instituto desde sua fundação. “Naquela época [1997], a equipe do Curicaca estava fazendo, como em todas as nossas abordagens, um trabalho interdisciplinar e pensando no território não só em conservação stricto sensu, mas em oportunidades de ecodesenvolvimento em questões do sistema de produção agrícola sustentável, gestão de resíduos, planejamento estratégico, etc. Convidamos o pessoal da Agronomia, do setor de forrageiras, e formamos a primeira iniciativa no estado, fora da academia, de uso sustentável dos campos nativos.”

Projeto de conservação das dunas costeiras do Litoral Norte – Parque Estadual de Itapeva, Torres, em março de 2016 (Foto: Acervo Curicaca)
Dia de campo com pecuaristas familiares da Região dos Butiazais de Quaraí – Município de Quaraí , em agosto de 2018 (Foto: Acervo Curicaca)
Vivência na natureza com alunos de escola municipal de Quaraí – Localidade do Coatepe, em setembro de 2018 (Foto: Acervo Curicaca)
Eixos

O Curicaca define-se como uma ONG que atua “técnica e politicamente pela conservação da biodiversidade, a salvaguarda cultural e a promoção do ecodesenvolvimento”, com atuação de caráter ambientalista, social, educacional, cultural e científico. No escopo das atividades do grupo, ainda está a atuação em conselhos e políticas públicas, uma frente de trabalho que passa por um período de incertezas. Toda unidade de conservação é obrigada por lei a ter conselho, mas o governo federal, em decreto de maio, extinguiu conselhos e colegiados subordinados à sua administração, com a justificativa de combater a lentidão e a burocracia da máquina pública. A questão foi parar no Supremo Tribunal Federal, que barrou parcialmente o texto.

Alexandre considera que a atitude demonstra como o ativismo pela preservação do meio ambiente vem sendo combatido. “Do ponto de vista da política nacional, que talvez hoje esteja nos colocando mais em xeque, está havendo retrocessos brutais, principalmente nas conquistas em termos de legislação de instituições e órgãos de articulação dos conhecimentos técnicos e científicos para a gestão ambiental. É assustador pensar no tempo que levamos para construir isso tudo e pode ser bem difícil reconstruir depois.” 

“Assim como nos surpreendemos com as escolhas da sociedade ao eleger este governo com discurso vazio, também temos que refletir sobre a percepção da sociedade a respeito da importância do meio ambiente.”

Alexandre Krob, coordenador do Curicaca

O cenário levanta reflexão sobre dois pontos fortemente ligados entre si: a importância que a sociedade dá à preservação do meio ambiente e a eficiência da comunicação de entidades como o Curicaca. “Assim como nos surpreendemos com as escolhas da sociedade ao eleger este governo com discurso vazio, também temos que refletir sobre a percepção da sociedade a respeito da importância do meio ambiente. Temos uma frente muito forte de educação ambiental, em que trabalhamos com alguns princípios, como de continuidade, de provocação crítica da reflexão sobre o contexto. E essa posição não é muito comum nos modos de tratar o meio ambiente. Há um problema de comunicação sobre esta questão e de aferição da percepção que a sociedade tem sobre as coisas, sem levar em conta se há capacidade transformadora de comportamento. As alterações que nós estamos vendo hoje em relação ao meio ambiente talvez tenham uma resistência menor do que poderia ser”, conclui Alexandre.

Produção de mudas de butiá para recuperação de ecossistema em Quaraí – Localidade do Coatepe, Quaraí, em março de 2018 (Foto: Acervo Curicaca)
Gestão de conflitos com órgãos públicos municipais e estaduais no município de Torres, em dezembro de 2017 (Foto: Acervo Curicaca)

Planejamento da conservação das Lagoas do Sul do Brasil com o ICMBio e outras instituições – Itajaí, em outubro de 2017 (Foto: Acervo Curicaca)

Emerson Trindade Acosta

Estudante de Jornalismo da UFRGS