Uma oportunidade para adultos e crianças viverem o cotidiano de modo criativo

Para boa parte das crianças nascidas neste século XXI, a experiência do convívio familiar (entendendo esse adjetivo como caracterizador das pessoas que habitam a mesma casa) de modo tão próximo e, principalmente, por tanto tempo talvez seja uma experiência nova. As crianças deste século, habitantes de meios urbanos, como Porto Alegre e outras cidades do interior com porte populacional e de desenvolvimento semelhante, têm um cotidiano que restringe a ocupação de espaços e tempos. Essas restrições podem envolver os espaços ao ar livre e o escasso tempo de convívio familiar em função das atribuições profissionais dos responsáveis, por exemplo. 

Poderíamos dizer, então, que há espaços de brincar e de ser criança reduzidos: das casas pequenas aos apartamentos com pouco espaço; das agendas repletas de atividades da escola às múltiplas atividades que as complementam. Tais restrições, na verdade, levam a ocupações, pelas crianças, de espaços e tempos de outras formas – e a escola é um desses “espaço-tempos” que ocupa muito da infância contemporânea. 

Como está sem aulas, Pedro, filho de Fernando Becker e Ana Anés, participa das
atividades do dia a dia em casa, além de fazer atividades enviadas pela escola (Fotos: Arquivo pessoal)

Ao mesmo tempo que tudo isso pretende ampliar possibilidades – abrindo espaço para outras experiências, a maioria mediada pelas novas tecnologias –, acaba por restringir algumas experiências, tornando a infância de agora diferente daquela que muitos de nós, adultos, vivemos.

Os tempos de COVID-19 que chegaram sem prévio aviso, com pouca preparação (em muitos sentidos), têm provocado o (re)pensar dos espaços e dos tempos do convívio familiar, envolvendo adultos e crianças em um novo cotidiano. Este texto pretende fazer algumas reflexões em torno dessa questão.

Como (re)ocupar espaços e viver tempos de convívio entre as crianças e os adultos de sua família de maneira que se recuperem ou se ampliem experiências criativas? Nossas reflexões estão assentadas na concepção de que o convívio e as experiências decorrentes desse “viver com” podem ser mediadoras da criatividade e da imaginação. Tornar o cotidiano doméstico um espaço e um tempo de experiências lúdicas pode ser motivador à criação. 

O psicólogo do desenvolvimento infantil Lev Semionovich Vigotski aborda a ideia de atividade criadora. Essa capacidade cerebral de criar, segundo Vigotski, pode ser entendida como a capacidade de reproduzir algo já vivido (por exemplo, as lembranças que temos de um lugar, de um momento) ou a capacidade de, a partir do já vivido, criar algo por meio de modificações e de reelaborações, promovendo novas combinações que nos levam a uma criação totalmente nova.

 Entendemos que a interação familiar possibilitada por estes dias em casa pode ser mediadora de exercícios de criatividade, inventando-se novos modos de habitar a casa, de ser família, de ser adulto e de ser criança. Não ignoramos as mudanças que o século XXI trouxe para a vida das crianças nem pretendemos um movimento de retrocesso ao passado como se o que antes acontecia fosse mais potente, mais genuinamente infantil ou mais verdadeiro. O que apontamos são caminhos criativos, como Vigotski entende criatividade, ou seja, caminhos que buscam novas combinações, considerando-se o que já está no cotidiano e o que podemos reelaborar a partir disso.

No bairro Petrópolis, no final da tarde, tornou-se habitual ver famílias caminhando, separadamente, pelas ruas. Exercícios físicos são uma das variações de atividades utilizadas nesse período de convívio mais prolongado imposto pelo distanciamento social (Foto: Flávio Dutra/JU)

Nessa ótica de ocupar espaços e tempos com atividades criativas, sugerimos algumas experiências bem práticas, que podem se constituir em momentos de criar um novo tempo e um novo espaço de interação, envolvendo o cotidiano na ampliação do conhecimento de mundo e com o mundo. Cabe ressaltar que não pretendemos indicar atividades ou propostas que, de maneira alguma, venham substituir os aprendizados realizados nas instituições escolares. Nossa única intenção é apresentar possibilidades de ocupar o espaço e o tempo em família, potencializando a criatividade, a imaginação e, principalmente, experiências humanizadoras e sensíveis à vida e ao seu cotidiano.

Assim, elencamos algumas experiências que podem ser vividas em casa com as crianças:

  • participar de situações cotidianas da casa de maneira que sejam ao mesmo tempo parte da rotina e momentos de convívio lúdico, tais como: lavar e estender roupas, separando-as (cor, tamanho, tipo); auxiliar no preparo da comida, encontrando os ingredientes, misturando e percebendo as mudanças de textura, de cor, de sabor; auxiliar na organização de brinquedos, da despensa de alimentos, do guarda-roupa, dos armários, etc.
  • criar com objetos do cotidiano (caixas, embalagens, potes, etc.), estimulando o “faz de conta”;
  • partilhar leituras: livros de literatura (existem muitos disponíveis online, além dos livros físicos, é claro), poemas, pequenas histórias;
  • ler e escrever em situações cotidianas: a lista de compras, uma receita (e fazer a receita), ler as instruções de um jogo ou brinquedo (e depois jogar e brincar);
  • criar um diário do isolamento: registrar (por meio de desenhos, palavras, imagens) as vivências, sentimentos, fatos e eventos do período em que se está em casa;
  • rememorar histórias de família, a partir de álbuns de fotografias (que podem ser construídos virtual ou fisicamente com autoria da família); e
  • principalmente, brincar e jogar como se jogava na infância dos adultos, experimentando jogos e brincadeiras de antigamente (“esconde objeto”, “stop”, jogo da velha, etc.).

Essa lista apresenta sugestões que não têm a pretensão de ser vinculadas a conteúdos ou experiências escolares. Todas são experiências a serem partilhadas pelos adultos junto com as crianças, atentando para que elas não sejam apenas conduzidas, mas também sejam condutoras das ações. 

A ideia principal é aproximar a criança do mundo e das coisas do mundo que fazem parte da rotina familiar, engajá-la nesse dia a dia, fazendo-a participar dele na medida de suas possibilidades e interesses. 

Entendemos que essas experiências (e muitas outras) podem ser potencializadoras da criatividade e da imaginação infantil, além de fortalecerem laços familiares e relações humanas.


Marília Forgearini Nunes e Renata Sperrhake são professoras da Faculdade de Educação da UFRGS e Coordenadoras do Programa de Extensão Universitária “Quem quer brincar?”.