Unimúsica atualiza a tradição musical gaúcha

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Agenda | “Pago revisitado”, espetáculo da série Cidade Presente, traz composições que discutem a identidade sul-rio-grandense e sua estética

A questão da convivência entre o tradicional e o inovador na música de cunho regional é um desafio que há muito emerge com frequência no cenário sul-rio-grandense. E é esse o debate que os músicos Clarissa Ferreira e Texo Cabral trazem à cena no concerto Pago revisitado, integrante do projeto Unimúsica. Inserido na série Cidade Presente, faz ecoar, na quinta, 3 de outubro, mais uma das facetas da capital gaúcha, espaço em que essa tensão há muito se configura.

Os responsáveis pela idealização do concerto são integrantes de gerações distintas no cenário regional: Clarissa é mestre e doutora em etnomusicologia e sintetiza suas reflexões em um blog chamado Gauchismo Líquido; Texo é integrante do conhecido Tambo do Bando e presença constante nos festivais de música regional. Recuperam e reiteram, assim, um debate que de quando em quando se manifesta.

Exemplo histórico de como isso vai e vem é a produção de Paixão Côrtes e Barbosa Lessa, referências no tema: é o que se vê no álbum musical intitulado Do folk aos novos rumos, de autoria do primeiro e lançado em 1977, e no livro Nativismo: um fenômeno social gaúcho, publicado pelo segundo em 1985. Apontam para uma série de reflexões que, ao invés de reivindicarem um apego passadista ao tradicional, buscam entender os fenômenos de seus tempos e propor um modo de convivência dinâmico e processual.

Texo Cabral ressalta que o concerto mostra uma leitura da música regionalista a partir de sua estética. Recupera, assim, a concepção musical que inclui elementos como flauta e violino, pouco usuais nas formações geralmente protagonizadas por violões e acordeões. De acordo com o músico, esse tem sido um movimento que já se via com a presença de Mário Barbará em festivais musicais desde os anos 1970. É representativa disso a canção Chotes da Amizade, que integra a lista a ser apresentada no Unimúsica.

“O Mário começou a propor uma forma mais leve de fazer música e mais atualizada, colocando o texto dentro de um contexto. E o Tambo do Bando modificou quase tudo”, complementa Texo sobre o grupo do qual participa. Para ele, a produção do Tambo teve muito de visionária e constitui um legado poético. É por isso que Texo diz que a música sulina tem nesse compositor e nesse grupo um marco temporal histórico que será trazido à cena no Salão de Atos.

Acentuando o caráter de representatividade social da música, Pago revisitado tem como um dos elementos de destaque o fato de a MC B.Art fazer a costura entre as músicas com textos. De acordo com Clarissa, é uma forma de discutir uma história sempre contada por homens brancos. “Vamos criar uma outra narrativa a partir de uma mulher negra sobre esse regionalismo”, explica a cantora e compositora.

Reforça esse ponto de vista a presença da cantora Loma, cuja sólida carreira a tornou conhecida como protagonista da música afro-gaúcha. A presença das temáticas e sonoridades indígenas de Vherá Poty e do Batidão dos Garotos também reforçam a construção de uma perspectiva diferente daquela a que se está habituado.

“Terra, não me deixe agora, Terra! Eu quero me redimir do que fiz!”, diz a letra de outra das canções de destaque no repertório. A composição, que ficou conhecida nos anos 1980 na interpretação do Tambo do Bando, é, na leitura de Clarissa, uma forma diferente de se olhar para a relação de sulinos e sulinas com o território. “Fala da relação do contato com a terra, muitas vezes exploratória da natureza, dos animais, mas que é entendida como tradicional. Essa música já repensa essa relação”, diz.

Na mesma linha segue a canção Flor extinta, composição da violinista e cantora que participou da elaboração do espetáculo. Segundo ela, traz uma leitura mais pontual da relação com o pampa. Na canção, um olhar para o quanto pastagens e eucaliptos têm levado a uma degradação do bioma e expressam a relação com a terra que tem muito mais de economia do que de afeto.

Para a curadora do Unimúsica, Lígia Petrucci, Pago Revisitado é um grande desafio para os envolvidos. “Nos bastidores, brincávamos que eles tinham uma batata quente nas mãos. À dupla formada por Clarissa Ferreira e Texo Cabral foi dada a incumbência de desenhar os contornos da música dita regional. Ou melhor, redesenhar, já que a proposta era justamente a de friccionar, de mexer nas ideias assentadas que formam a tradição gaúcha hegemônica”, explica.

A série deste ano traz oito grandes formações inéditas, compostas por grupos e duplas de diretores de diferentes faixas etárias e círculos musicais. Eles assumiram o compromisso de apresentar repertórios abrangentes e instrumentações variadas.

:: O espetáculo Pago Revisitado acontece nesta quinta-feira, 3 de outubro, às 20h, no Salão de Atos da UFRGS. O Unimúsica é um projeto desenvolvido pelo Departamento de Difusão Cultural da UFRGS. A distribuição de ingressos começa nesta segunda, 30, no Centro Cultural da UFRGS, mediante a entrega de 1kg de alimento não perecível por ingresso retirado (máximo de duas entradas por pessoa).

Everton Cardoso

Editor-chefe