Unimúsica celebra 40 anos com festival online

Cultura | Projeto cultural da Universidade apresenta programação com artistas de todo o Brasil e trabalha as transversalidades entre música, dança, teatro, circo e performance

*Foto de capa: Ytallo Barreto

A programação do Uni 40: música da presença tem início em 27 de setembro e segue até 8 de outubro nas plataformas do Departamento de Difusão Cultural da UFRGS. Desdobrada em quatro eixos – espetáculos, conversas, mostras e podcasts –, essa edição do festival tem como proposta olhar de forma mais complexa para como as linguagens se atravessam, se traduzem e se encontram na cena. Os espetáculos são inéditos e serão transmitidos todas as noites da primeira semana do festival, sempre às 20h, pelo Youtube do DDC.

Pensamos em fazer uma homenagem às artes da cena, que foram todas tão atingidas pela pandemia. Surgiu com essa intenção, mas possibilitou um mosaico de transversalidades que inclui música, performance, teatro, dança e circo, que dependem da copresença, do encontro entre artistas e plateia. O festival mostra que, mesmo a distância, a cena gravada tem tido um caminho para se buscar essa presença.

Lígia Petrucci, coordenadora e curadora do Unimúsica

Criado em 1981 pela Pró-reitoria de Extensão, o Unimúsica é um dos projetos culturais mais longevos do cenário artístico de Porto Alegre. Já incorporado na programação anual da Universidade e da cidade, ir aos concertos significou, ao longo dos anos, reunir-se no Salão de Atos lotado para celebrar diferentes expressões da música popular brasileira e latino-americana. O projeto já foi palco para nomes conhecidos da canção, como Maria Bethânia, Tom Zé e Dona Ivone Lara. Desde 2004, apresenta séries temáticas anuais em que trabalham juntos pensadores, professores e artistas.

“O Unimúsica tem uma perenidade exemplar para os padrões brasileiros. Se considerarmos o contexto das universidades públicas brasileiras, o projeto tem uma duração e uma transformação significativas ao longo do tempo. Ele foi respondendo às questões de política cultural, de pensamento sobre a música. Um segundo aspecto é a afirmação da música popular brasileira como conhecimento. Se produz conhecimento ao se fazer o Unimúsica. Isso ocorre desde o início, quando a Universidade afirmou a música popular como um campo de ação”

Lígia Petrucci

Com a impossibilidade de se lotar presencialmente as cadeiras do Salão de Atos, já no ano passado o projeto se transformou em um festival online. Dedicado às mulheres instrumentistas, a programação reuniu artistas que tocam em todo o país. Neste ano em que se celebram seus quarenta anos de existência, o Unimúsica traz para a cena a questão das transversalidades entre as artes. “Como se relacionam corpo e música; música e cena? Que jogo é esse brincado por músicas(os), encenadoras(es), coreógrafas(os), bailarinas(os), atrizes, atores e performers?”, pergunta-se a equipe curatorial, formada por Ana Fridman, Ana Laura Freitas, Lígia Petrucci, Rui Moreira, Suzi Weber e Valencia Losada.

A virtualidade tornou-se uma dimensão da presença – e não sinônimo de distância – para o Unimúsica. A programação abre no dia 27 com o espetáculo Presente, do músico José Miguel Wisnik. O compositor e ensaísta brasileiro convida o cantor Celso Sim e a cantora Marina Wisnik para rememorarem e encontrarem as memórias que compartilham do Teatro Oficina, espaço importante de resistência política e cultural durante a ditadura civil-militar. Na mesma noite, o compositor e produtor musical Caio Amon apresenta um espetáculo que parte de colaborações: há samba, com a cantora Valéria Barcellos, além de instrumentistas convidados, teatro e dança.

No segundo dia, 28 de setembro, três artistas cearenses, Yasmim Salvador, Eric Barbosa e Uirá dos Reis, apresentam-se no espetáculo Travessia em Luto, concebido especialmente para o festival durante uma imersão do trio na paisagem sonora e serrana de Mulungu, no Ceará. A transversalidade entre música, videoarte, dança, performance e arte sonora é central em Travessia. Também na terça-feira Álvaro RosaCosta, compositor e multi-instrumentista porto-alegrense com longa experiência na composição e dramaturgia sonora, compartilha com o público “Da cena à canção”. Ao lado de outros artistas, Álvaro apresenta um repertório representativo das diversas formas e pontos de partida para a música/som em cena.

Levando o transversal ao corpo e à experimentação, a Cia de Dança Pé no Mundo e o músico Neném Menezes apresentam o espetáculo “Ato Perene: o processo como obra”, na quarta-feira, 29. Interessados nas afetações entre o corpo que dança e o corpo que toca, os bailarinos e diretores da companhia, Cláudia Nwabasili e Roges Doglas, propõem um experimento que tensiona os caminhos da criação do artista. Levam para o público o “entre”, o momento-instante em que se cria. Dividindo a noite, Arthur de Faria apresenta “Música a serviço” – um título que é uma provocação do artista que se considera um prestador de serviços na arte de escrever música para teatro. Em seus 35 anos de trajetória, escreveu 52 trilhas para cinema e teatro, sendo parte da Cia Ultralíricos, de Felipe Hirsch, desde sua fundação. O espetáculo conta com a participação da cantora Áurea Baptista e da Tum Toin Foin Banda de Câmara.

A penúltima noite traz a estreia do músico João Pedro Cé e da atriz Silvana Rodrigues como uma dupla. Valendo-se de mensagens de áudio, sintetizadores, loopings e semicanções, apresentam “Imersão Abissal”, um espetáculo que questiona o “novo precário” que atravessa a vida nesses tempos. Também no dia 30, Lívia Mattos, Livia Nestrovski, Rafé e Tomás Oliveira trazem a música junto ao circo e ao teatro para dar vida a um homem que perdeu a cabeça, às gêmeas siamesas de genealogias diversas e a um beatboxer malabarista que têm a música como linguagem de interlocução. Gravado na Casa Teatro de Utopias, em São Paulo, o espetáculo chama-se “Retumbantes”.

Para encerrar os espetáculos do Uni40, Paulo Romeu e Lia de Itamaracá dividem a noite em duas apresentações que celebram a presença viva das ancestralidades. Paulo, diretor musical do Grupo Afro-Sul de Música e Dança, acompanhado por Carine Brazil, toca uma coleção de instrumentos de percussão que nos conduzem por diferentes tradições afrodiaspóricas. Lia de Itamaracá leva o público para bailar no universo da ciranda, recentemente reconhecida pelo IPHAN como Patrimônio Cultural do Brasil. Passa pelo coco, maracatu, maxixe e visita seu trabalho atual com o Dj Dolores, Ciranda Sem Fim, patrocinado e lançado pelo selo Natura Musical.

A celebração dos 40 anos segue após a semana de espetáculos. No dia 2 de outubro acontece a exibição dos trabalhos selecionados para a Mostra Discente, produzida por estudantes de diferentes cursos da Universidade. De 4 a 8 de outubro, o Festival realiza uma série de conversas sobre temas como a presença da ancestralidade na música, a criação sem fronteiras e a parceria da música com o circo. Toda a programação pode ser acessada no site do DDC e acompanhada pelo Instagram e Youtube.