Universidade resiste perante desafios | Edição 229

Terminamos 2019, ano em que comemoramos 85 anos, sendo a Universidade que, ao longo de sua história, consolidou-se como uma instituição reconhecida nacional e internacionalmente pela educação de qualidade que oferece. Porém, o ciclo que se encerra foi marcado por grandes desafios, sendo o maior deles o confronto resultante das hostilidades protagonizadas pelo atual Governo Federal e, em especial, pelo próprio Ministério da Educação.

De um lado, o uso do contingenciamento orçamentário como instrumento de desestabilização; de outro, a tentativa de mudança da natureza pública, gratuita e socialmente referenciada das instituições federais de ensino superior. A ambos os ataques, a comunidade interna e externa da UFRGS respondeu com resistência, solidariedade e disposição para defender tudo o que já havia sido construído. No primeiro caso, com a colaboração das direções das Unidades Acadêmicas e da comunidade, racionalizamos serviços e resistimos ao contingenciamento inédito. Priorizamos o que entendemos como essencial: as atividades acadêmicas e a assistência estudantil. Buscamos, ainda, fontes alternativas de financiamento para garantir obras e a compra de equipamentos.

Por outro lado, sofremos ataques permanentes nas mídias sociais, com a criação de factoides e acusações baseadas em inverdades ou em interpretações distorcidas por um viés ideológico retrógrado e autoritário, a tal ponto que a Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (Andifes) interpelou judicialmente o ministro da Educação.

O programa Future-se, proposto pelo MEC, foi rejeitado pela comunidade e pelo Conselho Universitário em consonância com a decisão da maioria das universidades federais. A partir dessa deliberação, queremos construir, com a comunidade acadêmica, um posicionamento que ratifique o nosso direito constitucional à autonomia e a nossa natureza institucional como patrimônio inalienável da sociedade.

Inegavelmente, 2019 foi um ano de contrastes marcantes. Comemoramos pelo oitavo ano consecutivo o primeiro lugar entre as universidades federais de acordo com o Índice Geral de Cursos (IGC) do MEC; promovemos a internacionalização com o Programa Institucional de Internacionalização – CAPES-PRINT; definimos a sustentabilidade como ação transversal estratégica, por meio do Escritório de Sustentabilidade; implantamos o “Tua UFRGS” como plataforma de serviços centralizados para os estudantes; consolidamos o Centro Cultural como referência de espaço público; discutimos uma política cultural para a UFRGS; e aprovamos uma Política de Inovação para promover a pesquisa, a tecnologia e a inovação em todas as áreas do conhecimento.

Também incrementamos ações de formação e capacitação para todos os servidores pela Edufrgs, além de adotar medidas de modernização e facilitação do ambiente de trabalho de docentes e de técnicos administrativos. Realizamos painéis alusivos aos 85 anos em que convidados nacionais e internacionais debateram a autonomia universitária e o financiamento público, aspectos fundamentais para resistirmos ao que está por vir.

A comunidade da UFRGS, pela iniciativa de professores, técnicos e estudantes, marcou posição em defesa da Universidade Pública ao homenagear aqueles e aquelas que foram perseguidos e expurgados pela ditadura civil-militar. Certamente, cada atividade diária de cada um de nós contribuiu para enfrentarmos esse momento de crise, mostrando que a união supera adversidades com criatividade e energia.

Vamos para 2020 com desafios ainda maiores, tanto por conta do Decreto 10.185, que extinguiu cargos efetivos e que vierem a vagar, quanto pela
MP 914, que fixou normas para a escolha de reitores. Ambas desrespeitam nossa autonomia, mas a Universidade é, por si só, e vai continuar sendo, no ano que inicia, o lócus da resistência e do respeito a sua própria história.


Jane Fraga Tutikian

Vice-reitora e Pró-reitora acadêmica