Valorização das orlas de Belém do Pará e de Porto Alegre passa por dinâmicas privadas dos espaços

Parceria | As oportunidades que os habitantes das capitais paraense e gaúcha têm de acessar as águas que dão forma à paisagem urbana são tema da segunda reportagem produzida pela parceria entre o JU e o Jornal Beira do Rio, da Universidade Federal do Pará

*Por: Adrielly Araújo, Mathias Boni e Felipe Ewald
*Foto de capa: Flávio Dutra/Arquivo JU 03 mai. 2020 – Área reurbanizada junto à orla do Guaíba na região central de Porto Alegre, parte de um projeto de revitalização em andamento, renovou o interesse da população em frequentar essa janela para o rio.

Quais são as mais frequentadas janelas para o rio em Belém? Quais são os melhores lugares para assistir ao pôr do sol, comer uma tapioca, beber um guaraná e ver os amigos? Vários locais vêm à mente, como, por exemplo, o Forte do Presépio, a Estação das Docas, a Orla de Icoaraci e o Complexo Ver-o-Rio. 

Desde o início da pandemia se passou muito tempo longe desses lugares tão enraizados na identidade paraense. Mas, antes disso, em 2018, o turismólogo Pablo Vitor Viana Pereira decidiu analisar os hábitos de quem frequenta a Estação das Docas e o Ver-o-Rio e produziu a dissertação Práticas sociais de lazer e suas relações nos espaços públicos Estação das Docas e Ver-o-Rio em Belém – Pará

O Complexo do Ver-o-Rio é um dos mais famosos pontos turísticos de Belém. Fica de frente à Baía do Guajará e, quando em total funcionamento, o espaço proporciona diversas formas de utilização, como barracas de comidas típicas, bares e parque infantil. 

A Estação das Docas foi inaugurada em 14 de maio de 2003 e, antes de ser reformada, era parte do Porto de Belém. O espaço é dividido em três armazéns, batizados respectivamente de Boulevard das Artes, Boulevard da Gastronomia e Boulevard das Feiras e Exposições. 

“Foram realizadas visitas nos referidos espaços a fim de perceber usos e atividades, segurança, conservação do espaço e tipos de serviços oferecidos, bem como para verificar como as pessoas vivenciavam o lazer nesses lugares”

Pablo Vitor Viana Pereira

O professor de inglês Lucas Lorran, frequentador da Estação das Docas, comenta que antes da pandemia costumava ir ao local até duas vezes por semana, principalmente por considerá-lo mais seguro. A questão da segurança é o que fez com que a estudante de comunicação Camila Leal deixasse de frequentar o Complexo Ver-o-Rio. “Sempre que fui estava acompanhada de pessoas que estavam de carro, porque eu e meu ciclo de amigos próximos não nos arriscamos a ir sozinhos andando. Então o local acaba se tornando inacessível se você não tem um meio de transporte próprio, ainda mais como mulher”, explica a estudante.

Apesar dessa realidade, as práticas mais populares observadas durante o estudo no Complexo do Ver-o-Rio foram: caminhada, corrida, crianças no parquinho do espaço, jovens jogando futebol na quadra esportiva, canoagem na baía do Guajará e piquenique.

Embora a Estação das Docas seja o lugar preferido de Lucas e Camila, ambos afirmam ser alto o preço dos produtos e serviços e caracterizam o local como sendo elitizado. “As Docas, eu considero um ambiente elitizado, branco e heteronormativo, e já me senti muito incomodado com olhares de outros usuários. Esse elitismo limita muitas pessoas de frequentarem o espaço”, comenta o professor.

As principais práticas sociais percebidas na Estação das Docas pelo pesquisador eram realizadas na parte de fora do local: a prática do piquenique, a roda de conversa de idosos e o passear despretensioso – práticas consideradas não oficiais, pois não fazem parte da agenda do espaço (restaurantes, lojas, quiosques, sorveterias e programações culturais pertencem a essa agenda). 

“Vale destacar que mesmo que essas práticas estejam ‘fora ou à margem’ das políticas do espaço, são elas que transformam ou atualizam as ações planejadas pelos projetos urbanos”

Pablo Vitor Viana Pereira

É importante ressaltar ainda que ao longo do período de pandemia tanto a Estação das Docas quanto o Complexo do Ver-o-Rio têm se adequado às normas sanitárias vigentes. Banners informativos, adesivos indicando o espaço para distanciamento social e totens de álcool em gel podem ser encontrados nos dois ambientes. 

“Essas mudanças revelam que as práticas de lazer estão se adequando às novas regras, e isso reflete muito nas relações, especialmente nos momentos de hoje. As limitações impostas pelo distanciamento social, com o fechamento de equipamentos e espaços, a imposição de restrições àquilo que vigorosamente caracteriza os objetivos dos espaços em sua essência, a sociabilidade, revelam o quanto precisamos repensar nossos hábitos”, reflete o pesquisador.

Janelas para o Guaíba

Para o porto-alegrense, não existe orgulho maior em relação à cidade do que o pôr do sol visto da orla do Lago Guaíba.

Com 72 quilômetros de extensão, a orla, de acordo com o geólogo Rualdo Menegat, constitui uma das mais importantes extensões paisagísticas de capital sul-rio-grandense. “Ela é muito bem desenhada geomorfologicamente, com diversas pontas e enseadas. Cada ponta constitui buquês florísticos e paisagísticos únicos”, afirma o também professor do Instituto de Geociências da UFRGS e autor do Atlas Ambiental de Porto Alegre, publicado em 1998.

“O Lago Guaíba e sua orla formam um dos maiores patrimônios hídricos do sul do Brasil, com várzeas, banhados, fauna e flora únicos, e de valor inestimável para toda a população”

Rualdo Menegat

Essas riquezas naturais da orla recebem diferentes usos, com uma diversidade grande de públicos frequentadores e de atenção que recebem do poder público municipal. A região, de todos os modos, vem sofrendo, na última década, grandes transformações que muitas vezes não primam por sua preservação. Um trecho muito movimentado é o que ocupa a região central de Porto Alegre. Durante muitos anos, os frequentadores usavam como ponto de referência o prédio da Usina do Gasômetro (antiga unidade de produção de energia transformada em centro cultural) para se reunir e tomar um chimarrão apreciando o pôr do sol no Guaíba, sem maiores estruturas no local, apenas sentando direto na grama.

Nos últimos anos, isso mudou, pois Porto Alegre passou pela maior obra de infraestrutura na sua orla em toda a história. Em 2018, foi concluído o primeiro trecho de um projeto de revitalização, compreendendo uma faixa de 1,3 quilômetro que se inicia justamente na Usina do Gasômetro (fechada para reformas desde 2017) e vai na direção sul. Agora, o local conta com nova estrutura de ciclovias, restaurantes, bares, quadras esportivas, mirantes e mais, se consolidando como ponto turístico da capital gaúcha.

Em setembro do ano passado, foi inaugurado um trecho que se estende por 1,6 km junto do Parque Marinha do Brasil, acrescentando ao projeto urbanístico um complexo para a prática de skate. Esta área anteriormente era bem pouco movimentada, pois as oportunidades de lazer se encontravam apenas no espaço do parque. Resta ainda a reforma do trecho 2, que ligará as duas zonas já liberadas. Ao todo, o projeto envolve um percurso de 4,5 quilômetros, que se estende até o estádio Beira-Rio, no limite entre o centro e a zona sul da cidade.

Em direção ao centro, ao lado da Usina do Gasômetro, outro modelo de janela para o rio se concretizou no ano passado. Trata-se do Cais Embarcadero, que conta com restaurantes, lojas e pracinha infantil. Entre os recursos públicos e privados dispensados em todos esses projetos de revitalização da orla de Porto Alegre, já foram investidos mais de 450 milhões de reais.

Pedro Araújo, arquiteto, urbanista e mestre em planejamento urbano e regional, avalia como positivos os investimentos do poder público na região, buscando melhorias naquele espaço.

“Também existe, contudo, uma outra transformação, que é tornar privado aquilo que era público no sentido tanto da gestão desses processos quanto das próprias obras, como vemos no caso do Embarcadero. Então há também uma tendência cada vez mais forte de privatização desses locais. Precisamos nos manter vigilantes”

Pedro Araújo

Se essa tendência de privatização de espaços junto à orla do Guaíba já existe de alguma forma na faixa próxima ao centro, ela fica ainda mais evidente quando avançamos mais ao sul. O movimento de construção de empreendimentos com grande impacto na parte sul da cidade e à beira do lago se iniciou em 2008, com a conclusão do Barra Shopping. Uma década depois, em frente ao shopping e colado ao lago, surgiu o Projeto do Pontal, que está construindo no local “um shopping center, um hotel padrão internacional, um centro de eventos completo e uma torre multiuso”.

Ainda mais ao sul, existem, com obras já em andamento, pelos menos outros dois grandes empreendimentos que geram grande impacto ao meio ambiente e à organização urbana. O primeiro pretende ser concluído em uma área conhecida como Fazenda do Arado, que abriga banhados, fauna, flora e um sítio arqueológico que são protegidos. Além disso, a região é residência de famílias Mbya Guarani, que buscam há anos a demarcação oficial como terra indígena. Ali, o projeto pretende urbanizar uma área natural de 426 hectares, construindo um “bairro planejado” com propósito habitacional e comercial.

Outro projeto semelhante é o Golden Hall, um complexo de 19 edifícios rodeados de piscinas e lagos particulares, que se vende como “o primeiro bairro privativo de Porto Alegre”, também junto à margem do Guaíba. Esses grandes empreendimentos escapam inclusive das previsões do Plano Diretor da cidade, classificados como “Projetos Especiais”. Luciano Fedozzi, professor do Departamento de Sociologia da UFRGS e membro do Observatório das Metrópoles, aponta que esse instrumento dos Projetos Especiais tem sido muito utilizado.

“No nosso entendimento é uma burla ao Plano Diretor. Os Projetos Especiais adquirem possibilidade de construção caso façam alguma obra de interesse público como contrapartida. Esses projetos, que deveriam ser exceção, estão virando regra, mesmo quando não realizam uma contrapartida relevante, e sem a devida anuência da população”

Luciano Fedozzi

Rualdo Menegat explica que as paisagens junto às margens das pontas, muito cobiçadas pela especulação imobiliária, têm uma função ecológica muito importante. “São nesses banhados que diversos répteis, aves e peixes desovam para procriar, e os projetos imobiliários pretendem destruir esses locais. As construtoras dizem que é possível construir grandes empreendimentos ali sem danos substanciais ao meio ambiente, mas isso é impossível, e no contexto da crise climática, esses projetos podem ser ainda mais danosos a médio e longo prazo”, explica o geólogo. 

Pedro Araújo acrescenta que há também consequências para as populações que habitam esses locais, já que tende a ocorrer o que ele chama de “substituição social”. “A nossa sociedade é muito segregada, e diferentes camadas sociais dificilmente frequentam os mesmos espaços na cidade. Para as elites desfrutarem, muitas vezes ocorre a privatização de alguns espaços públicos, ou mesmo mudanças de estrutura que tornam muito mais caro frequentar um local.”

Isso constitui o que se chama de “gentrificação”, um processo complexo que combina investimento, valorização e substituição social. “Não necessariamente toda a orla de Porto Alegre vai acabar assim, mas olhando essas transformações, é mais ou menos esse o processo que está em curso. Apesar disso, por enquanto, ainda boa parte da orla continua como um espaço popular, e precisamos lutar para que se mantenha assim”, ressalta o urbanista.


Adrielly Araújo é estudante de Jornalismo da UFPA.
Mathias Boni é estudante de Jornalismo da UFRGS.
Felipe Ewald é repórter do Jornal da Universidade.