Viviane Jungblut: a água e o chão

Câmpus do Vale | Estudante de Engenharia de Alimentos fala sobre a paixão pela estranha mistura da vida universitária com a vida de atleta olímpica

*Foto de capa: Foto de Viviane Jungblut sugerida por FlávioDutra

Viviane Jungblut competiu nas Olimpíadas de Tóquio. Essa frase tão impactante poderia aniquilar todos meus esforços de tentar fazer uma apresentação apropriada da jovem, mas sua presença fala muito mais do que suas conquistas atléticas. Em meros 20 minutos de entrevista, aprendi que Viviane, 25 anos de idade, canceriana (signo de água) e com olhos similares à cor do mar, esconde em seu semblante sereno toda energia que sua fala consegue transmitir plenamente. Após 17 anos de natação, a estudante de Engenharia de Alimentos participou do maior evento de atletismo de alto nível do mundo – e voltou direto para as aulas remotas.  

Nos moldes do que poderia ser uma vida dupla tal qual a dos filmes de super-heróis, Viviane entrou na UFRGS em 2015, seguindo os passos de seu pai e de seus dois irmãos mais velhos, todos engenheiros. Dois treinos de alto rendimento por dia e um curso de engenharia parecem atividades difíceis de serem conciliadas, porém, para a atleta-estudante, sua rotina não poderia ser de outra maneira.

“Teve um ano, na verdade, que eu optei por trancar a faculdade. Tranquei por um semestre, justamente para focar 100% na natação, mas depois vi que foi pior. Eu acho que gosto muito de estudar, gosto muito de tá com a cabeça ocupada com alguma outra coisa que não seja só a natação”  

Viviane Jungblut
A rotina da água pro chão 

“Eu sempre faço tudo correndo, porque eu vou pro treino, daí eu tenho que sair do treino correndo, vou para faculdade. Às vezes eu chego atrasada, daí eu saio de uma coisa pra ir pra outra.”  

Quando as aulas eram presenciais, a rotina de Viviane era um turbilhão. Das 7 às 10h, treino. Aula no Câmpus do Vale das 10h30 às 12h10. Voltar para casa, almoçar. De tarde, ir para o clube de novo. Nadar das 15h30 às 17h30 e voltar para o Vale, onde tinha aula das 18h30 às 20h10.  

Em meio à correria, Viviane diz não ter tido tempo de realmente conhecer o seu câmpus e ficar por lá depois das aulas. Ainda assim, essa parte tão essencial do seu dia a dia deixou saudades. Segundo a jovem, o maior anseio é por rever o clima acadêmico, estar imersa na interação com os colegas, com os professores, e até mesmo sentir novamente toda a ambientação da Universidade. “O Vale todo. O ambiente inteiro é bem diferente. O meu costume é sempre piscina, piscina.” No fim do dia, faz falta o lugar, o chão, que contrasta tanto com a água em que ela passa boa parte de sua vida. 

O sonho de ser ‘olímpica’ (no meio de uma pandemia)  

“É meu sonho desde pequenininha, desde que eu comecei. Foi uma experiência, realmente, surreal.”   

Para Viviane, assim como para todos nós, 2021 foi um ano de muito medo. Quando faltava uma semana para sua seletiva, ela testou positivo para covid-19, e o processo foi adiado por mais dois meses. “Mais um tempo de incerteza, ansiedade, angústia. […] Mas me classifiquei. Deu tudo certo. E, com certeza, chegar lá foi muito surreal. Só o atleta que vive isso, que sabe da rotina, entende melhor. Não é um trabalho de 4 anos, é um trabalho de uma vida inteira praticamente.”   

Nesse contexto repleto de incertezas, pressões externas e todas as dificuldades impostas pela pandemia, foram surgindo em âmbito mundial discussões a respeito não da disposição física dos atletas, mas da sua condição mental. A saída de Simone Biles, uma das favoritas na categoria de ginástica artística, despertou com mais força o debate a respeito da saúde mental dos competidores. De acordo com Viviane, o acompanhamento psicológico foi essencial para ela conseguir manter o foco.   

“Só por serem Jogos Olímpicos já tem uma certa pressão, certa ansiedade. Um nervosismo pré-prova que eu nunca tinha sentido antes. Eu procuro sempre tentar esquecer um pouco isso, porque eu acho que o atleta não está lá pra provar para A, B, C ou D, o atleta está lá porque ele gosta de fazer isso, porque ele faz por ele. Eu estava lá pensando no meu resultado, pensando: ‘Eu amo estar aqui, é a realização de um sonho’. Eu já tenho uma cobrança interna muito grande, então, se eu trouxer essa pressão externa, realmente, o rendimento e o resultado não saem.”   

Atleta, mulher e brasileira  

A sua rede de apoio é essencial, diz Viviane, ressaltando, com carinho, a importância do suporte de sua família, do seu clube, da Confederação e do Comitê Olímpico Brasileiro, ou até mesmo de seus patrocinadores e da Bolsa Atleta. Ainda assim destaca que a sua realidade não é nem de perto um padrão para todos os atletas brasileiros. 

“A gente sabe que, principalmente para as categorias de base, é difícil de manter o esporte, né? Tem atletas que vivem do esporte, e isso no Brasil é muito difícil”

Viviane Jungblut

A estudante fala também sobre o desejo de um dia poder contribuir para uma mudança nesse cenário. “Eu espero que o Brasil mude algumas coisas para que incentive mais os atletas. Por exemplo, os Estados Unidos têm uma grande tradição de universidade que liga muito o estudo com o esporte. Eu considero isso fundamental.”  

Apesar das questões latentes no cenário esportivo, Viviane mostra que, mesmo assim, temos razões para comemorar. Para a atleta, é visível uma grande melhora no cenário feminino. “Em questão de dados mesmo, essa Olimpíada já teve mais representatividade feminina, tiveram muitas medalhas no feminino, medalhas de ouro.” Invocando o exemplo de sua colega Marcela Cunha, ouro na maratona aquática, Viviane destaca que a necessidade do apoio às atletas deve se dar não por questões de gênero, mas de resultados:  

A gente tem que ser tratada por mérito, por merecimento. A gente está cheia de resultados bons no feminino, e eu acho que é isso. A mulher tem que ser valorizada pelo seu resultado, pelo seu merecimento, independentemente de ela ser mulher ou não”.  


A série Minha Saudade na UFRGS é um projeto conjunto entre o JU e a UFRGS TV. Confira abaixo a reportagem em vídeo: