{"id":10377,"date":"2020-08-27T14:48:15","date_gmt":"2020-08-27T17:48:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=10377"},"modified":"2020-08-27T16:05:22","modified_gmt":"2020-08-27T19:05:22","slug":"ausencia-da-perspectiva-transgenero-na-educacao-reforca-preconceito-contra-populacao-lgbtqia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/ausencia-da-perspectiva-transgenero-na-educacao-reforca-preconceito-contra-populacao-lgbtqia\/","title":{"rendered":"Aus\u00eancia da perspectiva transg\u00eanero na educa\u00e7\u00e3o refor\u00e7a preconceito contra popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ensino | Uma abordagem mais inclusiva esbarra em quest\u00f5es morais e religiosas, al\u00e9m de passar pelo despreparo de professores e pela resist\u00eancia de fam\u00edlias<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de ser um local de amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento, a escola tamb\u00e9m \u00e9 o espa\u00e7o de viv\u00eancias importantes para as pessoas, que envolvem a descoberta de caracter\u00edsticas como a identidade e a sexualidade, por exemplo. Debater g\u00eanero e sexualidade nos espa\u00e7os escolares, no entanto, ainda \u00e9 um gesto arriscado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso acontece por fatores que envolvem a resist\u00eancia das fam\u00edlias, o despreparo de professores e a dificuldade das equipes diretivas, muitas vezes causados pelo desconhecimento do assunto. \u201cA pr\u00f3pria universidade n\u00e3o trabalha isso, e a forma\u00e7\u00e3o acad\u00eamica precisa intervir nessas quest\u00f5es. Existe muita pesquisa, mas isso muitas vezes n\u00e3o chega aos \u00f3rg\u00e3os de Educa\u00e7\u00e3o\u201d, explica Gabriela Silva, doutoranda em Educa\u00e7\u00e3o e cofundadora do <a href=\"https:\/\/noticias.ufsc.br\/2019\/01\/netrans-ufsc-tem-primeiro-grupo-de-pesquisa-do-brasil-criado-por-estudantes-trans\/\">N\u00facleo de Estudos e Pesquisas de Travestilidades, Transgeneridades e Transexualidades<\/a> (NeTrans\/CNPq).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desconhecimento sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidade para a popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ \u2014 e para as pessoas com quem convivem \u2014 muitas vezes resulta em uma experi\u00eancia dolorosa de aceita\u00e7\u00e3o e de transi\u00e7\u00e3o de g\u00eanero. Para Flor Verginia Blanco Moreira, hoje com 30 anos, a transi\u00e7\u00e3o foi um processo longo. Na escola, a sexualidade sempre foi tratada como uma quest\u00e3o reprodutiva entre homens e mulheres, e sua fam\u00edlia sequer tocava no assunto. Sobre as quest\u00f5es de g\u00eanero, ela afirma: \u201cDesigualdade de g\u00eanero \u00e9 um tema muito atual. Quando eu estava na escola, n\u00e3o se falava sobre isso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu tenho o direito de ser feliz e n\u00e3o permiti que a minha fam\u00edlia bloqueasse a minha felicidade\u201d<\/p><cite>Flor Verginia Blanco Moreira<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A juventude foi um per\u00edodo de muito sofrimento. Ela pensava que era um menino homossexual, mas invejava as experi\u00eancias das amigas \u2013 usar roupas justas, ir a festas e ser cortejada por meninos \u2013, que n\u00e3o aconteciam com ela. Na sua cabe\u00e7a, muita coisa n\u00e3o se encaixava. Ao imaginar o futuro, ela se via formando uma fam\u00edlia com um homem, mas n\u00e3o sabia se seria m\u00e3e ou pai, por exemplo. \u201cEsse sofrimento \u00e9 algo que uma pessoa que n\u00e3o vive essas quest\u00f5es de orienta\u00e7\u00e3o sexual e identidade de g\u00eanero jamais vai entender\u201d, relata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi s\u00f3 com 24 anos, depois de atender uma mulher trans no balc\u00e3o da loja onde trabalhava, que Flor descobriu sua identidade: \u201cConversando com ela descobri que eu era igual\u201d. Ent\u00e3o ela come\u00e7ou a hormoniza\u00e7\u00e3o e a usar as roupas com as quais se sentia melhor, como vestidos. Seu pai, pastor evang\u00e9lico, chegou a cortar rela\u00e7\u00f5es com a filha por um tempo. Foi preciso muita determina\u00e7\u00e3o para que ela pudesse se afirmar como mulher e ser aceita pela fam\u00edlia.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cTransexualidade h\u00e1 alguns anos era Roberta Close, uma pessoa rica que viajou para o exterior, ou a travesti, um termo pejorativo para meninas que faziam programa. N\u00e3o existia o meio-termo para pessoas como eu: uma dona de casa, estudante, trabalhadora formal.\u201d<\/p><cite>Flor Verginia Blanco Moreira<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Escolas s\u00e3o espa\u00e7os cis-heteronormativos&nbsp;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em sua pesquisa de <a href=\"https:\/\/www.riuni.unisul.br\/handle\/12345\/585\">mestrado<\/a>, Gabriela da Silva notou que muitas vezes a equipe diretiva das escolas n\u00e3o conhece os documentos norteadores para retratar temas como diversidade sexual e de g\u00eanero, como os <a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/seb\/arquivos\/pdf\/livro102.pdf\">Par\u00e2metros Curriculares Nacionais<\/a> (PCNs), que abordam a diversidade sexual desde 1998. \u201cSe voc\u00ea n\u00e3o se fundamenta em documentos que norteiam o trabalho pedag\u00f3gico, voc\u00ea tamb\u00e9m vai aderir \u00e0quilo que a maioria pensa\u201d, relata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisadora identificou que o padr\u00e3o que as diretorias usam para identificar que existem estudantes LGBTQIA+ nas escolas \u00e9 quase sempre o dos comportamentos e dos gestos. &#8220;Essa atitude tamb\u00e9m \u00e9 preconceituosa: nem todas as pessoas que n\u00e3o performatizam estere\u00f3tipos de g\u00eanero considerados adequados \u00e0s suas caracter\u00edsticas sexuais s\u00e3o homossexuais ou transg\u00eanero. Assim, a escola identifica esses comportamentos dissidentes, mas refor\u00e7a esses padr\u00f5es de g\u00eanero\u201d, explica Gabriela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante o ensino m\u00e9dio, Leonardo sempre gostou de fazer coisas entendidas como &#8220;de menino&#8221;. Seus comportamentos e seu estilo se adequavam aos padr\u00f5es sociais de masculinidade, e os colegas de sala chamavam-no de amigo. Como seus colegas, ele era bem visto quando ficava com v\u00e1rias garotas, mas quando uma de suas amigas l\u00e9sbicas fazia o mesmo, ela era julgada negativamente. Acontece que, na \u00e9poca, Leonardo tamb\u00e9m se identificava como uma mulher l\u00e9sbica cisg\u00eanero \u2013 ou seja, cujo g\u00eanero corresponde ao sexo biol\u00f3gico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi no final do ano passado que o estudante de Letras de 23 anos passou a se entender como um homem transexual. Come\u00e7ou o tratamento hormonal, passou a vender molho pesto caseiro para pagar pela mastectomia e escolheu seu nome social: Leonardo Ignacio. Desde o ensino m\u00e9dio, entretanto, ele se sentia fora de lugar: era tratado como um menino, mas sabia que n\u00e3o era. O tratamento pelo pronome feminino e pelo nome de nascen\u00e7a, o sexo biol\u00f3gico e o desconhecimento reafirmavam seu lugar no mundo como mulher. \u201cEu nunca tive questionamentos sobre o meu g\u00eanero no ensino m\u00e9dio, talvez por falta de informa\u00e7\u00e3o de que isso pudesse ser uma possibilidade\u201d, diz Leonardo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Gabriela, mesmo que n\u00e3o queiram, os professores reproduzem e refor\u00e7am continuamente suas vis\u00f5es de mundo em sala de aula. Gabriela, por exemplo, faz isso apenas por estar presente nos espa\u00e7os da escola. A narrativa mais comum \u00e9 a da travesti que se prostitui, e ao ocupar um lugar de autoridade, como a profiss\u00e3o de professora, Gabriela desestabiliza o que \u00e9 ser travesti e o que \u00e9 ser professora. \u201cO meu pr\u00f3prio corpo \u00e9 pedag\u00f3gico. Eu sou uma travesti que ocupa um lugar que historicamente n\u00e3o \u00e9 ocupado por travestis e transexuais\u201d, declara. Por isso, ela acredita que o corpo docente deva assumir seus posicionamentos ideol\u00f3gicos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA escola sempre teve ideologia de g\u00eanero. Ela sempre refor\u00e7ou a cis-heteronormatividade. A escola \u00e9 ideol\u00f3gica quando trabalha a reprodu\u00e7\u00e3o sexual unicamente na perspectiva das Infec\u00e7\u00f5es Sexualmente Transmiss\u00edveis (ISTs), e isso cria um p\u00e2nico moral na reprodu\u00e7\u00e3o e na sexualidade.\u201d<\/p><cite>Gabriela da Silva<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Leonardo fazia seu est\u00e1gio docente em uma escola de ensino fundamental, o que coincidiu com o momento em que ele estava aceitando sua transi\u00e7\u00e3o para o g\u00eanero masculino, a viv\u00eancia com uma das crian\u00e7as o marcou. \u00c9rica (nome fict\u00edcio) gostava de performar personagens masculinos nas brincadeiras e gostava de brincar com os meninos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dia \u00c9rica pegou o bon\u00e9 de um dos colegas e vestiu, colocando o cabelo comprido para dentro. Ela falou que queria cortar o cabelo para ser um menino, e ent\u00e3o poderia participar das brincadeiras dos meninos, que brincavam com armas e com super-her\u00f3is. \u201cEu expliquei que eu era uma mulher de cabelo curto e o colega dela era um menino de cabelo comprido. Se ela quisesse parecer um menino, poderia ter o cabelo comprido\u201d, diz Leonardo, que ainda n\u00e3o tinha completado a transi\u00e7\u00e3o naquele momento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas o que \u00c9rica queria ia al\u00e9m do cabelo. Ela queria fazer as coisas que os meninos faziam porque, na verdade, ela queria ser um menino. A crian\u00e7a j\u00e1 havia expressado seu desejo para a m\u00e3e e tinha at\u00e9 escolhido o nome que gostaria de ter, mas a m\u00e3e n\u00e3o deixava. \u201cHavia um total negacionismo da m\u00e3e quanto aos comportamentos da filha\u201d, conta Leonardo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs professoras consideravam a possibilidade de ela ser l\u00e9sbica \u2013 uma menina de cinco anos, o que eu achava um absurdo \u2013 e, ainda assim, em outras turmas, elas diziam para os meninos n\u00e3o se \u2018abalarem\u2019\u201d, conta Leonardo. Para ele, a escola est\u00e1 longe de cumprir seu papel nesse sentido. Ele v\u00ea como um desafio muito complexo n\u00e3o s\u00f3 em como introduzir esses assuntos, mas tamb\u00e9m em como isso vai repercutir nas fam\u00edlias, que podem ser contr\u00e1rias e n\u00e3o aceitar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trabalhar essa tem\u00e1tica, entretanto, \u00e9 um papel tanto da escola quanto das fam\u00edlias, e n\u00e3o deve se resumir a quest\u00f5es reprodutivas e ISTs. A educa\u00e7\u00e3o sexual pode, inclusive, evitar o abuso e o ass\u00e9dio sexual.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color has-vivid-cyan-blue-color wp-block-paragraph\"><strong>Leia mais:<\/strong> <br><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/educacao-sexual-e-fundamental-para-combater-o-abuso-infantil\/\">Educa\u00e7\u00e3o sexual \u00e9 fundamental para combater o abuso infantil<\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Leonardo estudava na escola, seus professores falavam sobre sexualidade apenas na perspectiva da reprodu\u00e7\u00e3o e da sa\u00fade de pessoas heterossexuais e cisg\u00eanero. Pessoas em relacionamentos homossexuais, contudo, podem adotar outros m\u00e9todos de reprodu\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m podem contrair ISTs.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O despreparo dos adultos para lidar com o tema, muitas vezes, resulta em desconhecimento e tamb\u00e9m refor\u00e7a preconceitos. \u201cMinha m\u00e3e tinha medo das consequ\u00eancias da quest\u00e3o hormonal, mas ela n\u00e3o se colocaria contr\u00e1ria caso eu estivesse tomando anticoncepcional, por exemplo\u201d, conta Leonardo.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10379\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7324-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10380\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7339-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-10381\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/08\/Fl\u00e1vio-Dutra-7381-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>&nbsp;Leonardo Ign\u00e1cio (foto de capa e aqui acima) e Flor Verginia s\u00e3o estudantes transg\u00eanero, ambos come\u00e7aram seus processos de transi\u00e7\u00e3o apenas depois de conhecer outras pessoas trans. Estudam Letras, ela na UERGS e ele na UFRGS (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<br><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Concluir o ensino m\u00e9dio e colocar-se no mercado ainda \u00e9 um desafio para pessoas trans<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cQuando eu fiz a transi\u00e7\u00e3o, eu perdi muitas oportunidades de trabalho\u201d, revela Flor. Durante meses ela teve dificuldades financeiras que a impediam de pagar a conta de luz e a faziam depender das doa\u00e7\u00f5es de alimentos de amigos. Em momentos de dificuldade, algumas pessoas lhe perguntavam por que ela n\u00e3o se prostitu\u00eda. \u201cOuvi at\u00e9 de pessoas amigas, que muitas vezes nem falaram na maldade, mas, enfim, \u00e9 no que elas acreditavam: a travesti existe para ser garota de programa. Ela n\u00e3o tem outra fun\u00e7\u00e3o que n\u00e3o seja essa\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa de doutorado de Gabriela \u00e9 sobre as pessoas transg\u00eanero que se evadem da escola e retornam na Educa\u00e7\u00e3o de Jovens e Adultos. Para a pesquisadora, quando a escola nega e silencia a exist\u00eancia desses sujeitos, isso se reflete em evas\u00e3o escolar. Em muitos casos, a EJA torna-se um espa\u00e7o de acolhimento dessas pessoas a quem a educa\u00e7\u00e3o foi negada. De acordo com um <a href=\"https:\/\/www.brasildefatopr.com.br\/2020\/01\/30\/populacao-trans-ainda-sofre-com-violencia-e-falta-de-acesso-a-saude-e-educacao\">estudo<\/a> da Comiss\u00e3o de Diversidade Sexual da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), cerca de 80% da popula\u00e7\u00e3o trans sofre com a evas\u00e3o escolar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comportamentos de colegas e professores \u2013 como chamar os alunos, mesmo os que t\u00eam nome social retificado, pelo nome de nascen\u00e7a \u2013 refor\u00e7am que a identidade transg\u00eanero n\u00e3o \u00e9 aceita. \u201cO que acontece, na verdade, \u00e9 uma expuls\u00e3o. Muitas pessoas consideram que as pessoas LGBTQIA+ n\u00e3o s\u00e3o normais, porque n\u00e3o obedecem \u00e0quilo que \u00e9 da natureza humana. Se a escola for um lugar que reproduz o \u00f3dio e a intoler\u00e2ncia, para que elas v\u00e3o estar nesses espa\u00e7os?\u201d, comenta Gabriela.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cA minha experi\u00eancia de resist\u00eancia mostra que a escola \u00e9 o lugar para n\u00f3s. Eu sou o processo de resist\u00eancia na escola. Se eu existir e conseguir me assujeitar em certos momentos para poder vivenciar a escola, acho que outras pessoas podem, pela minha experi\u00eancia e representatividade, conseguir enxergar essa possibilidade.\u201d<\/p><cite>Gabriela da Silva<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A evas\u00e3o escolar estreita o gargalo para a entrada no ensino superior: apenas 0,1% dos estudantes das IFES identificam-se como transg\u00eanero, segundo a ANDIFES. No ano passado, Flor foi aprovada no curso de Letras da UERGS. Ela fazia aulas no cursinho <a href=\"https:\/\/www.facebook.com\/transenempoa\/\">TransENEM<\/a>, voltado \u00e0 popula\u00e7\u00e3o LGBTQIA+ e que prepara para o Enem, para o Enceja e para os vestibulares. Al\u00e9m do conte\u00fado preparat\u00f3rio para as provas, tamb\u00e9m trabalha com o objetivo de construir uma vis\u00e3o cr\u00edtica da sociedade, incorporando \u00e0s aulas a luta contra quest\u00f5es estruturais, como o machismo e o racismo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed-instagram wp-block-embed is-type-rich is-provider-instagram\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\nhttps:\/\/www.instagram.com\/p\/CCMMuvqHvvU\/\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cSer trans \u00e9 uma luta, porque, se tu n\u00e3o vai fazer programa, tu vai ter que ser \u2018foda\u2019 para conseguir n\u00e3o passar necessidade. Gra\u00e7as a Deus eu me sinto essa \u2018trans fodona\u2019. Eu sou inteligente, eu busco dar mais de mim pra eu n\u00e3o ter que passar necessidade\u201d, reitera Flor. Ela agradece o apoio da sua rede de amigos, do marido \u2013 com quem \u00e9 casada h\u00e1 dois anos \u2013 e de Deus. Caso algum dia ela tenha alunos e alunas trans, ela espera poder retribuir com o apoio que ela n\u00e3o teve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-very-light-gray-background-color wp-block-paragraph\"><strong>Entenda os termos<\/strong>:<br><br><em><strong>G\u00eanero &#8211; <\/strong><\/em> conjunto de representa\u00e7\u00f5es e pap\u00e9is sociais e dos comportamentos e atributos&nbsp;socialmente constru\u00eddos a partir da diferen\u00e7a entre os corpos que servem como indicadores culturais da identidade pessoal e social de algu\u00e9m;<br><br><em><strong>Express\u00e3o de g\u00eanero <\/strong><em><strong>&#8211;<\/strong><\/em><\/em> forma com que a pessoa se apresenta externamente, com que quer que os outros a percebam, pela qual se comporta e como se posiciona por meio de roupas, acess\u00f3rios, adere\u00e7os, maquiagem, tatuagem, padr\u00f5es de fala, linguagem corporal;<br><br><strong><em>Identidade de g\u00eanero<\/em> <\/strong><em><em><strong>&#8211;<\/strong><\/em><\/em> g\u00eanero com o qual uma pessoa se reconhece, que pode ou n\u00e3o estar de acordo com o g\u00eanero que lhe foi atribu\u00eddo em seu nascimento;<br><br><em><strong>Transg\u00eanero<\/strong><\/em> &#8211; termo guarda-chuva usado para descrever pessoas que n\u00e3o se identificam com o g\u00eanero atribu\u00eddo no nascimento, como mulheres trans, homens trans e travestis, incluindo pessoas que ainda se identificam como transexuais (termo em desuso em muitos pa\u00edses) e tamb\u00e9m pessoas n\u00e3o bin\u00e1rias\/g\u00eanero n\u00e3o conforme ou queer (termos que as pessoas que n\u00e3o s\u00e3o inteiramente homem\/mulher ou masculinas\/femininas usam para descrever sua identidade de g\u00eanero). &#8220;Trans&#8221; \u00e9 a abrevia\u00e7\u00e3o frequentemente usada;<br><br><strong><em>Cisg\u00eanero<\/em><\/strong> &#8211; pessoa que se identifica com o g\u00eanero que lhe foi atribu\u00eddo ao nascer. Cisg\u00eanero \u00e9 um termo que foi cunhado para poder diferenciar pessoas trans de pessoas n\u00e3o trans.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ensino | Uma abordagem mais inclusiva esbarra em quest\u00f5es morais e religiosas, al\u00e9m de passar pelo despreparo de professores e pela resist\u00eancia de fam\u00edlias Al\u00e9m de ser um local de amplia\u00e7\u00e3o do conhecimento, a escola tamb\u00e9m \u00e9 o espa\u00e7o de viv\u00eancias importantes para as pessoas, que envolvem a descoberta de<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/ausencia-da-perspectiva-transgenero-na-educacao-reforca-preconceito-contra-populacao-lgbtqia\/\">Leia 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