{"id":105375,"date":"2025-03-20T07:35:00","date_gmt":"2025-03-20T10:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=105375"},"modified":"2025-03-19T11:13:24","modified_gmt":"2025-03-19T14:13:24","slug":"a-pressa-e-a-pureza-literatura-sob-censura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-pressa-e-a-pureza-literatura-sob-censura\/","title":{"rendered":"A pressa e a pureza: por que censurar a literatura?"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Antonio Barros de Brito Junior, docente de Letras, analisa os casos recentes de tentativas de proibir a circula\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias em escolas e bibliotecas no Brasil<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Ilustra\u00e7\u00e3o:<a href=\"http:\/\/kyarthoo\/\">\u00a0<\/a><a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/vinirrart\">Vinicius Koraleski Carlos<\/a>\/<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/histpraticart\/\">\u00a0Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas<\/a>, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No romance <em>O Nome da Rosa<\/em>, de Umberto Eco, Adso de Melk pergunta para seu mentor, Guilherme de Baskerville, \u201co que vos aterroriza mais na pureza?\u201d, ao que o monge responde: \u201cA pressa\u201d. O di\u00e1logo se d\u00e1 em meio a um processo inquisit\u00f3rio ocorrido por volta de 1327, conduzido por um monge beneditino em um monast\u00e9rio nos Apeninos (It\u00e1lia). Tudo \u00e9 fict\u00edcio: di\u00e1logo, personagens, monast\u00e9rio, processo. A \u00fanica coisa ver\u00eddica \u00e9 a Inquisi\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">H\u00e1 alguns meses, presenciamos epis\u00f3dios de censura a livros no Brasil. O mais famoso envolveu o romance <em>O Avesso da Pele<\/em>, de J\u00e9ferson Ten\u00f3rio, que, apesar de ter sido inclu\u00eddo no Programa Nacional do Livro e do Material Did\u00e1tico (PNLD) ainda no governo Bolsonaro, foi recolhido de escolas nos estados do Paran\u00e1, Rio Grande do Sul e Goi\u00e1s, sob a alega\u00e7\u00e3o de que cont\u00e9m linguagem de baixo cal\u00e3o e cenas inadequadas para adolescentes. Em Rond\u00f4nia, um index de 43 livros supostamente impr\u00f3prios para jovens causou o banimento de autores como Rubem Alves, M\u00e1rio de Andrade e Machado de Assis. Em Conselheiro Lafaiete (MG), <em>O Menino Marrom<\/em>, obra infanto-juvenil de Ziraldo, foi alvo de proibi\u00e7\u00e3o pelo Conselho Municipal de Educa\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses exemplos recobrem apenas os casos recentes de um longevo processo de persegui\u00e7\u00e3o \u00e0 literatura. Por\u00e9m, se na Inquisi\u00e7\u00e3o ou na Ditadura Militar a censura se deu por meio do aparato governamental, respaldada por uma moralidade p\u00fablica tornada hegem\u00f4nica por meio da viol\u00eancia f\u00edsica e da for\u00e7a institucional, ultimamente o que vemos \u00e9 o histrionismo de governantes oportunistas, professores aloprados e pais de alunos radicalizados, que, a contrapelo do ordenamento democr\u00e1tico brasileiro e das salvaguardas constitucionais dadas aos escritores, agem em prol de sua ideologia reacion\u00e1ria. O estrago \u00e9 menor \u2013 porque o poder \u00e9 limitado \u2013, mas igualmente preocupante.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rigor, est\u00e1 em funcionamento o mecanismo persecut\u00f3rio inerente a todo ato de censura institucional. O censor, autoproclamado ou designado oficialmente, exerce um papel amb\u00edguo: ele \u00e9 capaz de interpretar o texto, observando, tanto sob a \u00f3tica da repress\u00e3o quanto da perspectiva do prazer, qual \u00e9 a mensagem \u201cembutida\u201d na obra.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, ele primeiramente atua de modo id\u00eantico ao do leitor m\u00e9dio \u2013 aquele que deve ser \u201cprotegido\u201d dos poderes insidiosos da leitura \u2013 e decodifica a mensagem impr\u00f3pria, fechando o circuito hermen\u00eautico supostamente pretendido pelo autor ardiloso. Diferentemente desse leitor, o censor, por\u00e9m, n\u00e3o sucumbe aos efeitos nocivos do texto, conservando-se puro mesmo ap\u00f3s o contato com o livro \u201cabjeto\u201d, \u201cpornogr\u00e1fico\u201d, \u201cimpuro\u201d. Ao leitor m\u00e9dio, que n\u00e3o tem essa habilidade, s\u00f3 lhe resta submeter-se aos truques desse autor, que, segundo a alega\u00e7\u00e3o do censor, quer corromper jovens e adultos, desviando-os da pureza. Contra isso existe a censura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse mecanismo, entretanto, n\u00e3o funciona sem viol\u00eancia. A censura institucional, quando n\u00e3o apenas incinerava livros, veio acompanhada da persegui\u00e7\u00e3o, do aprisionamento, da tortura e do assassinato dos corpos \u201c\u00edmpios\u201d ou \u201cmaculados\u201d. A fim de extirpar a impureza da sociedade, era preciso exercer o dom\u00ednio sobre os sujeitos e a linguagem, controlando-os de modo a refor\u00e7ar pr\u00e1ticas e mentalidades convergentes com o poder. A viol\u00eancia inquisit\u00f3ria ou ditatorial tamb\u00e9m era praticada quando se tratava de obter uma confiss\u00e3o extorquida, que apenas corroborava a anal\u00edtica da censura: o censor captava a mensagem esp\u00faria, de praxe resistia \u00e0 capitula\u00e7\u00e3o, e em seguida subjugava a mente e o corpo ind\u00f3cil do \u00edmpio, a fim de extrair uma confiss\u00e3o e aplicar a pena.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje em dia, por\u00e9m, \u00e0 medida que as censuras se moldam ao estado atual das pol\u00eamicas fabricadas para engajamento em redes sociais ou para ganho pol\u00edtico em prov\u00edncias eleitorais, a viol\u00eancia s\u00f3 pode atingir o texto. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o se trata, aqui, de negar as consequ\u00eancias nefandas desse tipo de censura, por mais paroquial que seja; mas \u00e9 preciso reconhecer que esses atentados t\u00eam um alcance restrito e um efeito felizmente n\u00e3o t\u00e3o duradouro. Essa relativa impot\u00eancia das censuras contempor\u00e2neas, por outro lado, salienta a viol\u00eancia semi\u00f3tica a que os textos liter\u00e1rios s\u00e3o submetidos atualmente. Embora estejamos longe de alcan\u00e7ar o grau de liberdade de dizer tudo \u2013 atribu\u00eddo a essa \u201cestranha institui\u00e7\u00e3o chamada literatura\u201d, segundo Jacques Derrida \u2013, \u00e9 certo que a ela ainda reservamos o direito de ousar levar a linguagem e a imagina\u00e7\u00e3o aos seus respectivos limites. Ocorre, por\u00e9m, que a estupidez da censura contempor\u00e2nea furta os direitos concedidos aos escritores, simplesmente para obrig\u00e1-los a dizer aquilo que supostamente n\u00e3o dizem (ao menos n\u00e3o de todo). \u00c9 uma mutila\u00e7\u00e3o descarada, que faz com que <em>O Menino Marrom<\/em> seja um livro que celebra o pacto com o dem\u00f4nio e <em>O Avesso da Pele<\/em> se restrinja a um livro pornogr\u00e1fico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A seletividade estrat\u00e9gica dessa censura tacanha \u00e9 respaldada, \u00e9 claro, pela histeria de grupos pol\u00edticos e sociais organizados ideologicamente em torno de valores morais absolutamente individuais, quase sempre em conflito com os preceitos democr\u00e1ticos que deveriam orientar o contrato social e respaldar a \u201cestranha institui\u00e7\u00e3o\u201d que \u00e9 a literatura. Uma viol\u00eancia semi\u00f3tica em nome de particularismos contra o que se convencionou chamar incorreta e falsamente de \u201cidentitarismos\u201d ou \u201cideologias de g\u00eanero\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a pressa a que Eco se referia toma, de novo e como sempre, o lugar da sensatez. Pequenas guerras culturais s\u00e3o travadas em nome de uma pureza que, desconfio, esconde um sem-n\u00famero de vilezas. No meio do fogo cerrado, editores, alunos, professores, escritores veem-se atordoados pela dessintonia pol\u00edtica coletiva. O legado infeliz desses tempos \u00e9 que cada vez mais as pessoas leem mal, procurando nos livros os vieses de confirma\u00e7\u00e3o de uma alegada pureza, mantendo sob suspeita a autonomia intelectual do outro. Torturam-se livros enquanto (ainda) n\u00e3o se pode torturar o autor e especialmente o leitor. Multiplicam-se os barbeiros e os curas de Cervantes, mas sem que haja qualquer gra\u00e7a nisso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7592255021295163\">Antonio Barros de Brito Junior<\/a> \u00e9 professor do Departamento de Lingu\u00edstica, Filologia e Teoria Liter\u00e1ria no Instituto de Letras da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/artigo\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da coluna <strong>Artigos<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>As opini\u00f5es expressas nos textos assinados s\u00e3o de responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Antonio Barros de Brito Junior, docente de Letras, analisa os casos recentes de tentativas de proibir a circula\u00e7\u00e3o de obras liter\u00e1rias em escolas e bibliotecas no Brasil<span class=\"more-link\"><a 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