{"id":10807,"date":"2020-09-10T21:30:10","date_gmt":"2020-09-11T00:30:10","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=10807"},"modified":"2020-09-11T14:39:45","modified_gmt":"2020-09-11T17:39:45","slug":"resistencias-e-aprendizados-em-ead-durante-a-pandemia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/resistencias-e-aprendizados-em-ead-durante-a-pandemia\/","title":{"rendered":"Resist\u00eancias e aprendizados em EaD durante a pandemia"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Jo\u00e3o Mattar avalia a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia no pa\u00eds e critica o tempo que as universidades p\u00fablicas levaram para oferecer uma alternativa aos estudantes<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Jacira Cabral da Silveira<br>*Foto de capa: Jo\u00e3o Mattar\/Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diretor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da <a href=\"http:\/\/www.abed.org.br\/site\/pt\/\">Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia<\/a> (ABED) e professor do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Tecnologias da Intelig\u00eancia e Design Digital da PUC-SP (TIDD\/PUC-SP), Jo\u00e3o Mattar \u00e9 autor do livro de refer\u00eancia na \u00e1rea de games em educa\u00e7\u00e3o e coordenou o primeiro mestrado em games no Brasil. Ele \u00e9 um dos convidados do <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/salaoufrgs\/programacao-de-eventos\/\">Sal\u00e3o UFRGS 2020<\/a> e, com a professora Patr\u00edcia Behar, coordenadora do <a href=\"http:\/\/www.nuted.ufrgs.br\/\">N\u00facleo de Tecnologia Digital aplicada \u00e0 Educa\u00e7\u00e3o<\/a> (NUTED\/CNPq) da FACED, participa no dia 16, \u00e0s 10h, da live Ensino Remoto e EaD: aproxima\u00e7\u00f5es poss\u00edveis. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde o in\u00edcio da pandemia, decidiu retirar-se para uma das praias de Florian\u00f3polis, onde passa o tempo entre aulas, lives, muita escrita e caminhadas. \u201cMas com m\u00e1scara\u201d, faz quest\u00e3o de ressaltar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com forma\u00e7\u00e3o variada, realizou est\u00e1gio p\u00f3s-doutoral na Stanford University (EUA), \u00e9 doutor em Letras pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), p\u00f3s-graduado em Administra\u00e7\u00e3o pela Funda\u00e7\u00e3o Get\u00falio Vargas (FGV-SP), bacharel em Letras pela USP e em Filosofia pela Pontif\u00edcia Universidade Cat\u00f3lica (PUC-SP). Atualmente \u00e9 professor, pesquisador e coordena o <a href=\"http:\/\/dgp.cnpq.br\/dgp\/espelhogrupo\/0169893836429730\">Grupo de Pesquisa em Tecnologias Educacionais<\/a> (GPTED), vinculado ao TIDD\/PUC-SP. Entre suas produ\u00e7\u00f5es atuais, est\u00e1 o texto <a href=\"https:\/\/eagoraead.wixsite.com\/ensinaradistancia\/post\/o-que-estamos-aprendendo-sobre-educa%C3%A7%C3%A3o-a-dist%C3%A2ncia-durante-a-pandemia-do-covid-19\">O que estamos aprendendo sobre Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia durante a pandemia do covid-19<\/a>. Em entrevista ao JU realizada por videochamada, ele aprofundou quest\u00f5es que v\u00e3o para al\u00e9m dos impactos da pandemia no que se refere \u00e0 educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como um bacharel em Filosofia e Letras foi parar na \u00e1rea de games?<\/strong> N\u00e3o sou um jogador inveterado. Jogava jogos normais de tabuleiro, depois joguei na internet, joguei Playstation e outros, mas n\u00e3o sou um viciado. Passei a me interessar muito pelo Second Life, que \u00e9 um ambiente tridimensional que em um momento foi muito usado em educa\u00e7\u00e3o, faz uns dez anos ou mais. Comecei a estudar bastante e acabei fazendo mestrado, mesmo j\u00e1 tendo feito um p\u00f3s-doutorado. Descobri que havia uma faculdade nos Estados Unidos que dava um curso sobre o uso do Second Life em educa\u00e7\u00e3o, e o curso era dado dentro do Second Life. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade, estudei como uma ferramenta a mais que a gente usa em tecnologia educacional. Nesse mesmo momento, quando estava estudando e escrevendo bastante, a <a href=\"https:\/\/br.pearson.com\/\">Pearson <\/a>me encomendou um livro sobre games em educa\u00e7\u00e3o. Era um superdesafio. Fiquei dois anos pesquisando, tanto que esse <a href=\"https:\/\/artesanatoeducacional.com.br\/produto\/games-em-educacao-como-os-nativos-digitais-aprendem\/\">livro &#8211;<\/a> \u00e9 impressionante! &#8211; \u00e9 um trabalho de 2010 que ainda hoje \u00e9 muito citado, praticamente considerado uma bibliografia de refer\u00eancia na \u00e1rea. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que achas que essa ascens\u00e3o dos games ocorre e como o Brasil se apresenta nesse cen\u00e1rio?<\/strong> <br>Existe um relat\u00f3rio que se chama <a href=\"https:\/\/library.educause.edu\/resources\/2020\/3\/2020-educause-horizon-report-teaching-and-learning-edition\">Horizon Report<\/a>, que \u00e9 feito por especialistas que tentam determinar que tecnologias ir\u00e3o impactar na educa\u00e7\u00e3o num horizonte de cinco anos. Normalmente qual seria o caminho regular de uma tecnologia nesse relat\u00f3rio? Ela apareceria l\u00e1 para ser incorporada em quatro ou cinco anos, depois tr\u00eas e dois anos, depois um ano e, por fim, seria incorporada. Esse seria o percurso normal, ainda que nem todas o sigam. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os games durante muito tempo ficavam l\u00e1 dois e tr\u00eas anos e depois sumiam. Depois entraram num mend string. A explica\u00e7\u00e3o que se tem, pela minha experi\u00eancia, \u00e9 que durante muito tempo o game foi feito por professores isolados, pessoas que come\u00e7avam a estudar sem nenhum apoio institucional. Isso fazia com que a coisa n\u00e3o fosse incorporada na \u00e1rea. A tecnologia tamb\u00e9m foi se desenvolvendo, passou a ser mais f\u00e1cil fazer um game &#8211; eram games mais simples. Com isso, foi-se perdendo a resist\u00eancia de que games n\u00e3o eram uma coisa que n\u00e3o se pudesse fazer na literatura, na escola, porque, afinal, \u00e9 o oposto: a escola \u00e9 seriedade e o game \u00e9 brincadeira. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse conjunto de coisas foi mudando, e hoje a gente j\u00e1 pode dizer que os games est\u00e3o incorporados. Escolas de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica usam games, educa\u00e7\u00e3o superior usa games em diversas \u00e1reas, o ensino corporativo j\u00e1 usa games h\u00e1 bastante tempo. Em rela\u00e7\u00e3o ao Brasil, n\u00f3s temos hoje uma ind\u00fastria de games que j\u00e1 \u00e9 consider\u00e1vel. Tem muita gente que trabalha em empresas fora, mas \u00e9 m\u00e3o de obra brasileira. H\u00e1 designers de games, temos cursos de design de games.&nbsp;Na PUC\/SP, onde trabalho, \u00e9 o primeiro mestrado em design de games no Brasil, inclusive eu era o coordenador no come\u00e7o. Ent\u00e3o n\u00f3s j\u00e1 temos uma produ\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel de games no Brasil, mas na \u00e1rea da pesquisa \u00e9 pouco. Existe um grupo na UFSC, um grupo na Bahia, um grupo na PUC do Rio, mas s\u00e3o poucos os grupos que pesquisam o uso de games em educa\u00e7\u00e3o; \u00e9, ainda, uma \u00e1rea pouco explorada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em termos mais amplos de produ\u00e7\u00e3o de conhecimento em tecnologias da educa\u00e7\u00e3o, como o Brasil se encontra? <\/strong><br>A gente considera que programas&nbsp;de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o que t\u00eam nota seis e sete s\u00e3o de n\u00edvel internacional. E o programa da UFRGS, do qual faz parte a Patricia Behar, \u00e9 nota sete. Ou seja, j\u00e1 temos PPGs, linhas e grupos de pesquisa interessantes, j\u00e1 temos bastante gente publicando na \u00e1rea. O game j\u00e1 \u00e9 um afunilamento, n\u00e3o s\u00f3 no pa\u00eds, mas no mundo. Voc\u00ea tem peri\u00f3dicos espec\u00edficos para publicar sobre games &#8211; no Brasil n\u00e3o tem nenhum, mas fora tem dois ou tr\u00eas. J\u00e1 temos bastante gente pesquisando a tecnologia da educa\u00e7\u00e3o no pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual a contribui\u00e7\u00e3o da tecnologia para a educa\u00e7\u00e3o ao longo dos anos, antes dos anos 1990, com o advento da internet? <\/strong><br>Normalmente quando fazemos uma hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, a gente costuma fazer pelo uso das tecnologias. Come\u00e7a com o envio do material pelo correio &#8211; a tecnologia \u00e9 um material impresso. Depois voc\u00ea come\u00e7a a ter v\u00eddeos, mas n\u00e3o internet: CD, v\u00eddeo, computador. As gera\u00e7\u00f5es das tecnologias a dist\u00e2ncia v\u00e3o sendo incorporadas. Mas tem uma tend\u00eancia, que \u00e9 muito interessante, que \u00e9 de misturar tecnologia com metodologia de ensino. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem um artigo que est\u00e1 publicado na Revista EaD em Foco, eu fiz a tradu\u00e7\u00e3o, mas \u00e9 do Terry Anderson e do Jon Dron, que se chama <a href=\"https:\/\/eademfoco.cecierj.edu.br\/index.php\/Revista\/article\/view\/162\"><em>As tr\u00eas gera\u00e7\u00f5es de pedagogia de educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia<\/em><\/a>, que se prop\u00f5e a fazer isso. Eles mostram por que aquela tecnologia, naquele momento, era mais adequada, n\u00e3o s\u00f3 porque existia tecnologia &#8211; do ponto de vista t\u00e9cnico mesmo &#8211; mas porque existia um clima na \u00e9poca que possibilitava que ela fosse incorporada. E existia uma teoria da aprendizagem que era mais usada na \u00e9poca, e ela casava com a tecnologia. Ent\u00e3o \u00e9 legal voc\u00ea fazer essa leitura. Se formos pensar sobre o que estamos vivendo de um tempo pra c\u00e1, desde os anos 2000, o grande desenvolvimento da educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia foi no final da d\u00e9cada de 1990, in\u00edcio dos anos 2000, com o advento da Internet, inclusive no Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que a internet, mais especificamente, impactou nesse contexto?&nbsp;<\/strong><br>Causou uma grande mudan\u00e7a na educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia e no geral. Mas voc\u00ea j\u00e1 tem coisas novas hoje, como realidade virtual, realidade aumentada e intelig\u00eancia artificial. Existem tecnologias recentes que t\u00eam apontado o que v\u00e3o ser as novidades. Tem as tecnologias vest\u00edveis, como uma coisa que ponho e vou correr e que me diz a minha press\u00e3o, me diz a minha frequ\u00eancia card\u00edaca. Tem coisas novas surgindo, e \u00e9 uma boa ideia ir tentando ver por que aquela tecnologia vai vingando do ponto de vista t\u00e9cnico. O computador off line, mesmo sem internet, j\u00e1 foi uma grande revolu\u00e7\u00e3o. Durante a pandemia, foi isso que n\u00f3s usamos: computador e dispositivos m\u00f3veis. Essa \u00e9 uma \u00e1rea de estudo muito interessante: \u201cmobile learning\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como equacionar a rela\u00e7\u00e3o entre tecnologia, acesso e desigualdade social? <\/strong><br>Foi uma quest\u00e3o que sentimos bem durante a pandemia. Esse \u00e9 o motivo por que a maioria das p\u00fablicas n\u00e3o se mobilizou, pelo menos \u00e9 o que se diz, porque havia alunos que n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es. Mas agora voc\u00ea v\u00ea: secretarias de educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica tamb\u00e9m n\u00e3o tinham condi\u00e7\u00f5es e foram l\u00e1 e se viraram, deram material pros alunos, conseguiram reagir de alguma maneira. Mas ficou muito claro isso de que n\u00e3o tinha computador pra todo mundo em casa, internet n\u00e3o pegava bem. Ficou claro que educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia sozinha n\u00e3o resolve, ela tem que estar acompanhada de solu\u00e7\u00f5es e infraestrutura tanto de hardware quanto de internet. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Eu mesmo, com toda a minha experi\u00eancia, \u201caprendi\u201d na pandemia que essa \u00e9 uma discuss\u00e3o boa: a educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia ajuda a superar a desigualdade social e mesmo tecnol\u00f3gica ou ela piora? <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa \u00e9 uma discuss\u00e3o cl\u00e1ssica na teoria da educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia. De um lado, ela ajuda porque a pessoa pode estudar mesmo se mora longe, ou aqui mesmo durante a pandemia, mas, de outro lado, quando voc\u00ea faz isso no presencial, voc\u00ea tamb\u00e9m est\u00e1 deixando para tr\u00e1s quem tem uma pior tecnologia ou pior internet, pelo menos em desvantagem.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas \u00e9 bem diferente ensino emergencial de educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/strong> <br>O primeiro <a href=\"https:\/\/er.educause.edu\/articles\/2020\/3\/the-difference-between-emergency-remote-teaching-and-online-learning\">artigo <\/a>que saiu sobre ensino remoto emergencial foi publicado na revista Educause, acho que foi o primeiro que usou essa express\u00e3o h\u00e1 alguns meses. Achei o texto fant\u00e1stico, mas essa express\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o faz mais sentido, ela fez sentido num momento. Neste segundo semestre, todo mundo teve tempo pra se preparar, com limita\u00e7\u00f5es e tal, mas agora j\u00e1 \u00e9 usada por institui\u00e7\u00f5es privadas, porque se disser que \u00e9 EaD o aluno vai querer desconto porque curso EaD \u00e9 mais barato. Come\u00e7a a ter coisas ideol\u00f3gicas por tr\u00e1s, ou mesmo quem n\u00e3o fez nada ou n\u00e3o est\u00e1 fazendo nada. Mas todo mundo teve tempo pra se preparar para o segundo semestre; a gente sabia que n\u00e3o ia come\u00e7ar tendo aula. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Agora \u00e9 uma EaD com limita\u00e7\u00f5es, mas \u00e9 educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia que est\u00e1 se fazendo. Alguns melhores, alguns piores, alguns com mais prepara\u00e7\u00e3o. O uso da express\u00e3o &#8220;ensino remoto emergencial&#8221; num sentido t\u00e3o r\u00edgido j\u00e1 n\u00e3o faz mais sentido, tem que se ver o que est\u00e1 por tr\u00e1s dela quando algu\u00e9m a usa.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ouvi uma entrevista sua sobre o projeto <a href=\"https:\/\/www.fnde.gov.br\/index.php\/programas\/proinfo\/eixos-de-atuacao\/projeto-um-computadro-por-aluno-uca\">Um computador por aluno<\/a>. Poderias comentar sobre a contribui\u00e7\u00e3o dessa proposta para pensarmos a tecnologia em sala de aula?<\/strong> <br>\u00c9 dif\u00edcil falar sobre isso porque teve gente que se envolveu tanto com esse projeto, e era um projeto bonito. Algumas pessoas escreveram sobre esse projeto, e isso est\u00e1 textualmente registrado. Vamos entregar laptops na m\u00e3o dos alunos que eles ir\u00e3o resolver o problema, que eles ir\u00e3o ensinar os professores, e isso vai resolver. Isso est\u00e1 escrito textualmente nos projetos, e \u00e9 uma coisa impressionante que algu\u00e9m possa ter pensado isso. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que se reconhece, e n\u00e3o sou eu quem diz, s\u00e3o as avalia\u00e7\u00f5es do projeto. Um dos problemas que aconteceu \u00e9 que o professor n\u00e3o sabia o que fazer. Ele precisava toda uma forma\u00e7\u00e3o. Ou seja, n\u00e3o nos preocupamos adequadamente com a forma\u00e7\u00e3o do professor para usar aquela tecnologia. Isso foi dito em trabalhos feitos no Peru, no Brasil, e que concluem que esse foi um dos pontos negativos de alguns projetos, tanto que na segunda fase de implanta\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se pensava em dar o laptop para o aluno, mas primeiro para o professor. Formar o professor para depois dar na m\u00e3o do aluno. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quando voc\u00ea introduz uma tecnologia em sala de aula, \u00e9 preciso preparar o professor tecnol\u00f3gica e pedagogicamente pra ele p\u00f4r a m\u00e3o na massa, pra saber o que fazer. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E ele tem que ser treinado do ponto de vista da teoria, ele tem que incorporar aquilo no projeto pedag\u00f3gico. No caso do game, tem um site que \u00e9 o <a href=\"https:\/\/education.mit.edu\/\"><em>Education<\/em><\/a>, que \u00e9 do Massachusetts Institute of Technology (MIT). Publicaram dois PDFs no site deles que s\u00e3o duas p\u00e9rolas, e uma das coisas que eles dizem \u00e9 a seguinte: a boa pr\u00e1tica diz que a gente deveria preparar o professor n\u00e3o para jogar, n\u00e3o para usar aquela tecnologia, mas para incorporar aquela tecnologia como um instrumento de aprendizagem e poder saber o que ele faz com aquilo na aula. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como interpretas a resist\u00eancia \u00e0s tecnologias em educa\u00e7\u00e3o, especialmente num momento em que estamos enfrentando a implanta\u00e7\u00e3o de sistemas online de ensino? <\/strong><br>Tenho vontade de enviar um projeto de pesquisa pra algum \u00f3rg\u00e3o porque eu queria entender o seguinte: como se explica o fato de a maioria das universidades p\u00fablicas do Brasil n\u00e3o ter oferecido aulas a dist\u00e2ncia no primeiro, e tem algumas que n\u00e3o v\u00e3o oferecer nem no segundo semestre? Houve um desrespeito com quem j\u00e1 pesquisava na \u00e1rea porque essas pessoas deveriam ser guias do que estava sendo feito. E tenho muita curiosidade para entender os motivos que fizeram universidades p\u00fablicas n\u00e3o oferecerem EaD, as privadas ofereceram. As p\u00fablicas t\u00eam a <a href=\"https:\/\/www.capes.gov.br\/uab\">Universidade Aberta do Brasil<\/a>, e j\u00e1 havia um grupo que trabalhava nelas com educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia. Ent\u00e3o, a resist\u00eancia \u00e9 maior do que a gente imagina. Tenho vontade de entender isso. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pra mim, \u00e9 um mist\u00e9rio porque em Portugal ofereceram, nos Estados Unidos ofereceram, e no Brasil n\u00e3o. Existem quest\u00f5es pol\u00edticas e ideol\u00f3gicas, ent\u00e3o acho que uma pesquisa nesse sentido descobriria coisas que eu nem tenho ideia, porque pra mim \u00e9 inexplic\u00e1vel. Tem um <a href=\"http:\/\/abed.org.br\/blog\/por-que-a-ufsc-nega-o-seu-dna-e-proibe-a-difusao-do-conhecimento\/\">texto<\/a> que o Jo\u00e3o Vianney escreveu h\u00e1 alguns meses &#8211; ele \u00e9 uma refer\u00eancia em educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia no Brasil &#8211; no qual ele provoca a UFSC sobre a raz\u00e3o de n\u00e3o estar oferecendo disciplinas a dist\u00e2ncia. \u00c9 um texto maravilhoso. Tanto que o Minist\u00e9rio P\u00fablico teve que provocar as universidades p\u00fablicas pra que elas oferecessem. Isso \u00e9 uma coisa que ainda vamos ter de explicar como pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os estudantes que recebemos hoje nas universidades fazem parte de uma gera\u00e7\u00e3o que cresceu utilizando tecnologias digitais. At\u00e9 que ponto esse potencial deveria ser aproveitado na pr\u00e1tica pedag\u00f3gica acad\u00eamica? <\/strong><br>Tem o Marc Prensky<strong>,<\/strong> que \u00e9 um dos pioneiros em escrever sobre o uso de games em educa\u00e7\u00e3o desde os anos 2000. Ele desenvolveu os termos nativos e imigrantes digitais. O nativo digital \u00e9 essa gera\u00e7\u00e3o que j\u00e1 nasce usando computador, jogando no celular, e o imigrante digital \u00e9 o professor mais velho, que teve que passar a usar aquela tecnologia depois, como se ele tivesse mudado de pa\u00eds. \u00c9 uma leitura tecnol\u00f3gica interessante da diferen\u00e7a de gera\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, \u00e0s vezes n\u00e3o \u00e9 nem uma quest\u00e3o de ser nativo ou migrante digital, mas de ter acesso \u00e0 tecnologia. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o n\u00e3o se coloca apenas em se eu sou mais ou menos nativo ou migrante digital, mas no acesso que eu tenho \u00e0 tecnologia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora, queria fazer um par\u00eanteses juntando as duas perguntas. Eu acompanhei mais de perto o que aconteceu na UFSC e aqui e, por incr\u00edvel que pare\u00e7a, quem determinou algumas decis\u00f5es para n\u00e3o ter aula EaD foram os alunos. Eles se mobilizaram de alguma maneira, por quest\u00f5es pol\u00edticas, por quest\u00f5es ideol\u00f3gicas. Outra coisa que tem que se pensar e que aconteceu com a pandemia: a gente viu que os alunos n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o preparados; eles sofreram muito para estudar a dist\u00e2ncia. Eles usam tecnologia para comunica\u00e7\u00e3o, isso a literatura j\u00e1 fala, mas n\u00e3o \u00e9 que eles usam para a aprendizagem automaticamente. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A compet\u00eancia e a habilidade que o aluno tem para usar a tecnologia para a comunica\u00e7\u00e3o, nas redes sociais, n\u00e3o se transfere automaticamente para utilizar na aprendizagem. Acho que isso ficou muito claro durante a pandemia. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quer dizer, a gente recebe alunos que recebem tecnologia mas n\u00e3o necessariamente eles sabem aprender com a tecnologia. Isso \u00e9 um dos pap\u00e9is que n\u00f3s, como professores, como universidade, como escola temos que fazer. Aproveitar aquilo do aluno e transformar aquela habilidade dele em uma habilidade para a aprendizagem, e n\u00e3o s\u00f3 na escola, mas tamb\u00e9m na aprendizagem informal. Ent\u00e3o a gente tem que preparar os professores &#8211; continua sendo um trabalho nobre que temos a fazer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><strong>Existe ainda a argumenta\u00e7\u00e3o sobre o aspecto mercadol\u00f3gico que envolve a EAD, associando isso \u00e0 falta de qualidade no ensino. Como voc\u00ea percebe essa quest\u00e3o? <\/strong><br>A falta de qualidade pode existir num curso presencial ou num curso de educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, voc\u00ea tem mecanismos de controle. Muitas das cr\u00edticas s\u00e3o feitas por pessoas que n\u00e3o conhecem a educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia, mas voc\u00ea critica uma coisa de fora? N\u00e3o tem muito argumento. Na volta, agora, tem coisas que os professores e alunos viveram que n\u00e3o v\u00e3o querer deixar pra tr\u00e1s. O aluno n\u00e3o vai querer ir pra aula todo dia pra ter uma aula chata: \u201cP\u00f4, essa aula podia ser a dist\u00e2ncia!\u201d. Eu n\u00e3o tenho d\u00favida. Todo mundo teve uma experi\u00eancia que n\u00e3o passou por nenhum comit\u00ea de \u00e9tica: \u201cVamos parar o mundo, e todos v\u00e3o pra EaD agora\u201d. Ou seja, estamos fazendo EaD, diferente do que se fazia porque foi emergencial, mas agora j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 t\u00e3o diferente, n\u00e3o \u00e9 uma coisa t\u00e3o nova no Brasil, pelo menos no ensino superior.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#eaf3ff\"><strong>Jacira Cabral da Silveira<\/strong> \u00e9 rep\u00f3rter e editora executiva do JU.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Jo\u00e3o Mattar avalia a hist\u00f3ria da educa\u00e7\u00e3o a dist\u00e2ncia no pa\u00eds e critica o tempo que as universidades p\u00fablicas levaram para oferecer uma alternativa aos estudantes *Por: Jacira Cabral da Silveira*Foto de capa: Jo\u00e3o Mattar\/Arquivo Pessoal Diretor de Rela\u00e7\u00f5es Internacionais da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Educa\u00e7\u00e3o a Dist\u00e2ncia (ABED)<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/resistencias-e-aprendizados-em-ead-durante-a-pandemia\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":10935,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[604],"tags":[766,765,1487,1488,1483,707,1486,1485],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","post-10807","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entrevistas","tag-ead","tag-educacao-a-distancia","tag-games-em-educacao","tag-games-no-brasil","tag-joao-mattar","tag-pandemia","tag-salao-ufrgs-2020","tag-tecnologia-na-educacao"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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