{"id":112001,"date":"2025-05-15T07:50:15","date_gmt":"2025-05-15T10:50:15","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=112001"},"modified":"2025-06-10T16:28:05","modified_gmt":"2025-06-10T19:28:05","slug":"machado-de-assis-e-a-satira-da-sociedade-brasileira","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/machado-de-assis-e-a-satira-da-sociedade-brasileira\/","title":{"rendered":"Machado de Assis e a s\u00e1tira \u00e0 sociedade brasileira"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Obra: Leonardo Miguel<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Ao vencedor as batatas! N\u00e3o a compreenderia antes do testamento; ao contr\u00e1rio, vimos que a achou obscura e sem explica\u00e7\u00e3o. <br>T\u00e3o certo \u00e9 que a paisagem depende do ponto de vista, e que o melhor modo de apreciar o chicote \u00e9 ter-lhe o cabo na m\u00e3o. <br><br>\u2013 Trecho de \"Quincas Borba\"<\/pre>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado originalmente como folhetim no jornal A Esta\u00e7\u00e3o, entre 1886 e 1891, e adaptado em livro em 1891, <em>Quincas Borba<\/em> faz parte da trilogia de romances realistas de Machado de Assis. Ao lado de <em>Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em> e <em>Dom Casmurro<\/em>, a obra retrata a sociedade brasileira do final do s\u00e9culo XIX, com a ironia e sutileza caracter\u00edsticas da escrita machadiana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Carla Vianna, professora de L\u00edngua Portuguesa e Literatura e doutora em Letras pela UFRGS, destaca a representa\u00e7\u00e3o do contexto socioecon\u00f4mico no livro, principalmente da camada mais rica da capital federal da \u00e9poca, o Rio de Janeiro. Situado no fim do per\u00edodo escravocrata, o romance \u00e9 marcado pela ascens\u00e3o de uma burguesia que lutava para assimilar os costumes de pa\u00edses europeus, enquanto abdicava de sua pr\u00f3pria hist\u00f3ria. \u201cUma grande s\u00e1tira, mas que traz um amplo panorama dessa sociedade fluminense do s\u00e9culo XIX, e que, de um modo ou de outro, retrata o Brasil maior\u201d, defende a professora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O protagonista, Rubi\u00e3o, um professor de Barbacena, Minas Gerais, herda a fortuna de seu amigo e fil\u00f3sofo Quincas Borba e decide deixar o interior em busca da vida urbana da metr\u00f3pole carioca. Sua trajet\u00f3ria \u00e9 marcada por amizades interesseiras e pelo decl\u00ednio de sua sanidade mental.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Doutor em Letras pela Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), Tiago Seminatti refor\u00e7a as analogias presentes na narrativa. Tiago argumenta que, assim como Rubi\u00e3o, o Brasil passava naquele momento por uma transi\u00e7\u00e3o: enriquecido pela ind\u00fastria cafeeira, o pa\u00eds deixava suas origens rurais para abra\u00e7ar a modernidade. O pesquisador argumenta que, da mesma maneira que o personagem encontra dificuldades para assimilar sua nova realidade, a popula\u00e7\u00e3o brasileira enfrentava dilemas ao lidar com os novos tempos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O Humanitismo&nbsp;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de realizar uma cr\u00edtica \u00e0 sociedade do final do s\u00e9culo XIX, Machado retrata ironicamente as diversas teses pseudocient\u00edficas que surgiam naquele momento, como o positivismo e o darwinismo social, que buscavam justificar ideias racistas e comprovar uma suposta superioridade racial do povo europeu. O autor faz isso por meio do Humanitismo, filosofia fict\u00edcia criada pelo personagem Quincas Borba que prega o conceito de que os mais fortes sobrevivem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A teoria tem como s\u00edntese o conceito de \u201cao vencedor, as batatas\u201d, proveniente de uma f\u00e1bula que imagina duas tribos famintas disputando um campo de batatas. Caso compartilhassem o alimento, nem todos seriam alimentados; portanto, seria necess\u00e1rio que uma delas conquistasse o campo para si. Assim, a tribo vencedora, e por consequ\u00eancia a mais forte, ganharia as batatas e sobreviveria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Machado apresenta essa tese com um tom debochado e pessimista, caracter\u00edstico do seu per\u00edodo realista. Tiago relembra a ironia do personagem que inventa essa premissa ser justamente de algu\u00e9m que j\u00e1 perdeu suas faculdades mentais e sucumbiu \u00e0 loucura. Ele ainda aponta que, \u00e0 medida que o protagonista Rubi\u00e3o perde a sanidade, acredita cada vez mais no Humanitismo. No final da obra, ao acreditar ser o Imperador Napole\u00e3o III, ele repete para si mesmo \u201cao vencedor, as batatas\u201d, enquanto definha at\u00e9 a morte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gente tem v\u00e1rios <em>ismos<\/em>, no s\u00e9culo XIX. A gente tem sobretudo o determinismo, que, na literatura, vai comparecer na literatura naturalista. E o Machado se distancia um pouco dessa vis\u00e3o que \u00e9 extremamente cientificista. N\u00e3o que o Machado negasse a ci\u00eancia, mas ele nega a radicaliza\u00e7\u00e3o desse ponto de vista supostamente cient\u00edfico\u201d, comenta Tiago.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Quem conta a hist\u00f3ria<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Carla, um dos pontos marcantes do livro \u00e9 o narrador, que, em terceira pessoa e onisciente, reconta a hist\u00f3ria do protagonista trazendo diversas refer\u00eancias, como eventos hist\u00f3ricos, passagens b\u00edblicas e at\u00e9 cita\u00e7\u00f5es de Shakespeare. Ao longo do texto, o narrador conversa com o leitor, pede aten\u00e7\u00e3o, chama-o de \u201cdesgra\u00e7ado\u201d e \u201cdesorientado\u201d. A docente aponta que a obra \u201c\u00e9 o \u00fanico romance do Machado que n\u00e3o \u00e9 narrado por um representante da elite, mas pelo herdeiro. Rubi\u00e3o, um homem livre, mas que ganhou o capital mediante uma heran\u00e7a\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao contr\u00e1rio de<em> Mem\u00f3rias P\u00f3stumas de Br\u00e1s Cubas<\/em> e <em>Dom Casmurro<\/em> \u2013 narrados, respectivamente, por Br\u00e1s Cubas e Bento Santiago, ambos provenientes de fam\u00edlias abastadas \u2013, a hist\u00f3ria de Quincas Borba \u00e9 relatada por um narrador sem nome, com um protagonista provinciano e marcado por incertezas. Tiago lembra ainda a dubiedade de quem seria o personagem a que o t\u00edtulo da obra se refere, o fil\u00f3sofo ou seu cachorro, herdado por Rubi\u00e3o \u2013 uma ambiguidade observada pelo pr\u00f3prio narrador.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas \u00e9 justamente por meio dessas imprecis\u00f5es, contudo, que a obra se torna t\u00e3o complexa e atemporal, expondo as hipocrisias e gan\u00e2ncias de personagens densos, com perspectivas diferentes. Com isso, Machado tece cr\u00edticas \u00e0 sociedade brasileira que reverberam at\u00e9 a atualidade.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel.jpg\" alt=\"Ilustra\u00e7\u00e3o em tecnica de Grafite sobre Papel, alusiva \u00e0 obra Quincas Borba, do autor Machado de Assis, leitura obrigat\u00f3ria Vestibular 2026 UFRGS\" class=\"wp-image-112832\" style=\"width:600px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel-391x260.jpg 391w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/05\/Leituras-Obrigatorias-Quincas-borba-Machado-de-Assis-POR-Leonardo-Miguel-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Leonardo Miguel (Os\u00f3rio, 2002).<br>A Paisagem Depende do Ponto de Vista, 2025.<br>Grafite sobre Papel, 29,7 x 42cm.<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<div class=\"wp-block-group has-accent-background-color has-background\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\" id=\"wp-block-themeisle-blocks-image-9340463a\"><img decoding=\"async\" width=\"1498\" height=\"542\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-112453\" style=\"width:300px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa.jpg 1498w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa-300x109.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa-175x63.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa-768x278.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa-465x168.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/04\/lEITURAS-OBRIGATORIAS-Montagem-capa-695x251.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1498px) 100vw, 1498px\" \/><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-1\" style=\"color:#003f63;font-style:normal;font-weight:800\"><strong>Especial Leituras Obrigat\u00f3rias<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\" style=\"font-size:13px\">Com o objetivo de ampliar as experi\u00eancias de leitura, o JU produz, desde 2018, uma s\u00e9rie de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem an\u00e1lises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a cria\u00e7\u00e3o de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja as reportagens&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias\/\">aqui<\/a>.<br><br><strong>Leonardo Miguel<\/strong> \u00e9 artista visual e arte-educador em forma\u00e7\u00e3o pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Desde 2022 atua na \u00e1rea de media\u00e7\u00e3o e pr\u00e1ticas educativas em institui\u00e7\u00f5es culturais de Porto Alegre, conciliando com o desenvolvimento de sua produ\u00e7\u00e3o e pesquisa autoral centrada, sobretudo, nos conceitos de fam\u00edlia, mem\u00f3ria e tempo.<\/p>\n<\/div><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cl\u00e1ssico machadiano exp\u00f5e os dilemas da sociedade brasileira do final do s\u00e9culo XIX<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/machado-de-assis-e-a-satira-da-sociedade-brasileira\/\">Leia 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