{"id":112717,"date":"2025-08-14T07:34:00","date_gmt":"2025-08-14T10:34:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=112717"},"modified":"2025-08-12T15:17:25","modified_gmt":"2025-08-12T18:17:25","slug":"uma-metafora-grafica-da-permanencia-da-musica","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/uma-metafora-grafica-da-permanencia-da-musica\/","title":{"rendered":"Uma met\u00e1fora gr\u00e1fica da perman\u00eancia da m\u00fasica"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Carolina Baiocco e Nara Amelia da Silva, das Artes Visuais, refletem sobre perenidade e transitoriedade relativa \u00e0 madeira, tanto em instrumentos musicais como na xilogravura<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Cr\u00e9dito: <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/c_kircherbaiocco\/\">Carolina Baiocco<\/a>\/<a href=\"http:\/\/instagram.com\/histpraticart\">Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas<\/a>, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha pesquisa parte de um interesse pela m\u00fasica e de como represent\u00e1-la no meu trabalho visual; como representar visualmente algo que fru\u00edmos com outro sentido que n\u00e3o a vis\u00e3o? Entre os elementos da m\u00fasica que me interessam, est\u00e3o a representa\u00e7\u00e3o do instrumento musical e a rela\u00e7\u00e3o deste com o m\u00fasico, considerando aspectos como a perenidade da m\u00fasica perante a transitoriedade da vida.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como pe\u00e7as musicais compostas no s\u00e9culo XVIII ainda est\u00e3o presentes no repert\u00f3rio de concertos, instrumentos musicais desse per\u00edodo seguem ativos, tendo passado pelas m\u00e3os de diversos m\u00fasicos desde a sua constru\u00e7\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o do m\u00fasico com seu instrumento beira a simbiose: sem o m\u00fasico, o instrumento n\u00e3o cumpre seu prop\u00f3sito, e sem o instrumento, que som o m\u00fasico produziria?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 a partir dessas pondera\u00e7\u00f5es que realizo o trabalho <em>Corpo Madeira<\/em> (2024), no qual a jun\u00e7\u00e3o da impress\u00e3o xilogr\u00e1fica e o desenho a carv\u00e3o me permitem explorar quest\u00f5es de perman\u00eancia e efemeridade, e a rela\u00e7\u00e3o entre m\u00fasico e instrumento.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na xilogravura, a madeira \u00e9 cortada para produzir a imagem do instrumento na matriz, e a impress\u00e3o dela gera a marca duradoura da tinta gr\u00e1fica sobre o papel. Em contraste com a perenidade da madeira e da impress\u00e3o com tinta gr\u00e1fica, sobreponho o desenho a carv\u00e3o e sua caracter\u00edstica relativamente impermanente sobre o papel.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desenho do esqueleto humano tocando o contrabaixo remete \u00e0 imperman\u00eancia do corpo perante o objeto de madeira, evocando a tradi\u00e7\u00e3o dos <em>mementos mori<\/em> e das dan\u00e7as macabras, uma vez que essas s\u00e3o formas de relembrar o homem de sua mortalidade e da fugacidade da vida. A representa\u00e7\u00e3o das dan\u00e7as macabras \u2013 que possivelmente surge em raz\u00e3o dos terrores difundidos pela peste negra do s\u00e9culo XIV \u2013, mais do que aumentar o terror da espera, servia para amenizar o medo e criar uma intimidade com o momento final. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das manifesta\u00e7\u00f5es visuais das dan\u00e7as macabras durante a hist\u00f3ria, elas tamb\u00e9m entram em obras liter\u00e1rias, na m\u00fasica (<em>Totentanz<\/em>, 1849, de Liszt, e <em>Danse Macabre<\/em>, 1874, de Camille Saint-Sa\u00ebns), no teatro e cinema (<em>O S\u00e9timo Selo<\/em>, 1957, de Ingmar Bergman) e at\u00e9 em anima\u00e7\u00e3o (<em>Silly Symphony: the skeleton dance<\/em>, 1929, da Walt Disney Cartoons).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Percebe-se que, ao passar dos s\u00e9culos, as representa\u00e7\u00f5es de esqueletos e caveiras perdem, de certa forma, o car\u00e1ter de terror, uma vez que a morte passa a se tornar mais distante e escondida na nossa realidade. A presen\u00e7a constante e massificada da representa\u00e7\u00e3o da morte como esqueleto, sobretudo na imagem impressa, contribui para a banaliza\u00e7\u00e3o do sentido moral atribu\u00eddo originalmente. Sendo assim, essas representa\u00e7\u00f5es e alegorias passam a ter um car\u00e1ter quase l\u00fadico, por vezes, e aparecem de forma bastante caricata na cultura popular.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No meu trabalho, vejo o esqueleto de forma mais amena, sem a pretens\u00e3o de soar dram\u00e1tico ou austero, mas, talvez, como met\u00e1fora, como personagem de uma narrativa aleg\u00f3rica e evocativa de todas essas tradi\u00e7\u00f5es de representa\u00e7\u00e3o da caveira como <em>memento mori<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No processo de grava\u00e7\u00e3o da matriz, busquei evidenciar a textura proporcionada pelo material, mesclando os seus veios naturalmente aparentes com os veios artificialmente gravados da imagem representada. A caracter\u00edstica \u00fanica das fibras da madeira evidenciada nas impress\u00f5es xilogr\u00e1ficas torna cada matriz uma soma do trabalho do gravador e da pr\u00f3pria natureza do material, al\u00e9m de conferir ao instrumento musical (pelo menos \u00e0queles que s\u00e3o feitos em madeira) a sua identidade.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma mesma imagem pode ser gravada em duas pe\u00e7as semelhantes de madeira, mas suas impress\u00f5es resultariam diferentes, da mesma forma que um <em>luthier <\/em>pode construir dois contrabaixos a partir do mesmo molde e medidas, mas ambos seriam \u00fanicos pela caracter\u00edstica \u00edmpar da madeira e da manualidade do processo de corte e grava\u00e7\u00e3o do artista. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim como o <em>luthier<\/em>, que s\u00f3 vai ouvir o som do instrumento que construiu ao final de sua constru\u00e7\u00e3o, o resultado do trabalho do gravador sobre a matriz s\u00f3 \u00e9 revelado em sua totalidade ap\u00f3s sua impress\u00e3o no papel. Ambos trabalham com a madeira de forma minuciosa, com intuito de mold\u00e1-la e transform\u00e1-la em algo diferente e perene, tanto pela caracter\u00edstica resistente da madeira quanto pelo que a madeira mutada produz: a m\u00fasica e a impress\u00e3o gr\u00e1fica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme citado, busquei, na pesquisa, relacionar a fragilidade do corpo-esqueleto aos aspectos materiais com os quais ele \u00e9 representado. O carv\u00e3o, apesar de apresentar-se bastante denso em meu trabalho, \u00e9 um material fugaz, que n\u00e3o se fixa no papel com facilidade. O desenho a carv\u00e3o permite o apagamento e com o passar do tempo vai se esvaindo do papel se n\u00e3o for fixado; j\u00e1 o papel arroz, suporte utilizado, apresenta fragilidade ao toque e ao riscar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O corpo-esqueleto do m\u00fasico \u2013 fr\u00e1gil e passageiro \u2013 faz contraponto com o instrumento musical, objeto de madeira, que com os cuidados adequados pode durar centenas de anos. O corpo-madeira do instrumento traz esse contraste tanto pela sua propriedade perene frente \u00e0 vida humana como pela materialidade de sua representa\u00e7\u00e3o neste trabalho. A madeira do instrumento gravada na madeira da matriz culmina na impress\u00e3o do contrabaixo com tinta tipogr\u00e1fica, material indel\u00e9vel gravado no papel.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/7695867780355284\">Carolina Kircher Baiocco<\/a> \u00e9 artista visual e bacharel em Artes Visuais pela UFRGS.<br><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2451516349506119\">Nara Amelia Melo da Silva<\/a> \u00e9 artista visual e professora do Instituto de Artes da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/artigo\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da coluna <strong>Artigos<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>As opini\u00f5es expressas nos textos assinados s\u00e3o de responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Carolina Baiocco e Nara Amelia da Silva, das Artes Visuais, refletem sobre perenidade e transitoriedade relativa \u00e0 madeira, tanto em 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