{"id":113605,"date":"2025-06-26T07:35:00","date_gmt":"2025-06-26T10:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=113605"},"modified":"2025-06-24T15:39:15","modified_gmt":"2025-06-24T18:39:15","slug":"pode-uma-travesti-pesquisar-infancia-no-brasil","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/pode-uma-travesti-pesquisar-infancia-no-brasil\/","title":{"rendered":"Pode uma travesti pesquisar inf\u00e2ncia no Brasil?"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | A doutora em Psicologia Sofia Favero reflete sobre os ataques \u00e0 liberdade acad\u00eamica que enfrentou ao buscar a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade em sua tese<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Ilustra\u00e7\u00e3o:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.instagram.com\/ayladresch_art\">Ayla Dresch<\/a>\/\u00a0<em><em><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/histpraticart\/\">Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas<\/a>, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A palavra travesti parece que assusta as pessoas. Vem carregada de estigmas, hist\u00f3rias, contratempos e no\u00e7\u00f5es de perigo. \u00c9 uma express\u00e3o que arrasta toda uma lama hist\u00f3rica. As pessoas sentem uma esp\u00e9cie de repulsa e ang\u00fastia diante \u201cdisso\u201d. N\u00e3o se sentem confort\u00e1veis frente a um corpo que desorienta significados culturais atribu\u00eddos \u00e0 normalidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E travesti n\u00e3o \u00e9 apenas uma palavra, certamente. Vai al\u00e9m da nomea\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A figura da travesti ajuda a contar uma vers\u00e3o n\u00e3o oficial sobre eventos cr\u00edticos. Exclus\u00f5es, abandonos, adoecimentos e precariedades, todo tipo de azar. Apesar de muita gente nutrir opini\u00f5es a respeito desse grupo, poucas pessoas de fato conhecem travestis em seus cotidianos. Na verdade, grande parte confunde travestis com outras formas de exist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro-me at\u00e9 hoje a primeira vez que vi a not\u00edcia de uma dragqueen que lia hist\u00f3rias em quadrinhos a crian\u00e7as internadas em uma ala oncol\u00f3gica. Ela aparecia toda colorida, com tecidos e saias de tule purpurinadas, conquistando a aten\u00e7\u00e3o dos pacientes infantis que passavam pela quimioterapia. Na \u00e9poca, a not\u00edcia havia sido recebida de modo negativo pelo grande p\u00fablico, e muitos internautas reagiam em tom de alerta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Denunciavam a gest\u00e3o hospitalar por permitir que essa atividade acontecesse, sob acusa\u00e7\u00f5es de que isso representava um experimento social, uma esp\u00e9cie degrada\u00e7\u00e3o moral e preju\u00edzo ao desenvolvimento daquelas crian\u00e7as, que, segundo os alertas de grupos conservadores, n\u00e3o deveriam ser expostas a formas plurais de exist\u00eancia. O ano em que isso aconteceu foi 2016; desde ent\u00e3o, n\u00e3o parece que melhoramos muito no que se refere aos usos da categoria \u201cinf\u00e2ncia\u201d para barrar avan\u00e7os da agenda progressista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bom, pensei, se com uma dragqueen que est\u00e1<em> <\/em>fazendo um trabalho volunt\u00e1rio a rea\u00e7\u00e3o de algumas pessoas \u00e9 essa, respondem com tamanha hostilidade, como v\u00e3o entender meu trabalho? \u2013 sendo eu uma travesti, atuando com jovens em uma declarada na\u00e7\u00e3o antidiversidade. Afinal, quantas travestis professoras, cuidadoras, enfermeiras, conhecemos?&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Consigo lembrar do dia em que minha orientadora me convidou a pesquisar temas relacionados \u00e0 inf\u00e2ncia. Era 2018 e eu havia acabado de entrar no mestrado em Psicologia Social na UFRGS. Em nossa conversa, Paula Sandrine Machado, professora do Instituto de Psicologia, Servi\u00e7o Social, Sa\u00fade e Comunica\u00e7\u00e3o Humana (IPSSCH), havia me feito um convite irreverente: \u201cQue tal se pesquis\u00e1ssemos a viv\u00eancia de crian\u00e7as trans?\u201d, deixando-me com uma pulga atr\u00e1s da orelha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu me chamo Sofia, sou filha de uma m\u00e3e costureira e de um pai metal\u00fargico. Nasci e cresci em Aracaju (SE), onde fui a primeira pessoa trans a concluir o curso de Psicologia na universidade onde fiz a gradua\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Havia passado por est\u00e1gios curriculares \u2013 atendimentos ao p\u00fablico estavam na grade curricular do curso. Recebi crian\u00e7as em disciplinas de psicodiagn\u00f3stico e notei que amigos de turma tamb\u00e9m as estavam atendendo junto \u00e0s fam\u00edlias. Ouvi relatos durante encontros de discuss\u00e3o de casos cl\u00ednicos sobre pais e m\u00e3es que levavam seus filhos ao consult\u00f3rio em busca de que investigassem uma poss\u00edvel homossexualidade em meninos ditos femininos e meninas vistas como masculinas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Graduandos, ent\u00e3o, passavam a oferecer l\u00e1pis de cor azul e rosa a seus pacientes crian\u00e7as, selecionavam brinquedos entre bonecas e carrinhos, deixando-os \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o, entrevistavam-nas para entender com quais personagens se identificavam, tudo que desafiava normativas psicol\u00f3gicas (Resolu\u00e7\u00e3o 01\/99) que pro\u00edbem pr\u00e1ticas avaliativas orientadas \u00e0 discrimina\u00e7\u00e3o e produ\u00e7\u00e3o de estigma. Pode parecer que n\u00e3o, mas fam\u00edlias ainda levam jovens \u00e0 ci\u00eancia em busca de corrigi-los, constrang\u00ea-los e tutel\u00e1-los.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se existem tantos adultos contando com a psicologia para \u201cevitar\u201d a diversidade dos seus filhos, conv\u00e9m assumir que muitos desses n\u00e3o gostariam que a profissional de sa\u00fade fizesse parte dessa comunidade.&nbsp;N\u00e3o querem travestis trabalhando com crian\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Refleti novamente sobre isso quando fui apresentar minha pesquisa sobre inf\u00e2ncias trans no canal institucional UFRGS TV. A tese, fruto de seis anos de dedica\u00e7\u00e3o e aprendizado, busca reimaginar o cuidado com crian\u00e7as trans e construir um mundo mais acolhedor para todas as inf\u00e2ncias. No entanto, o que deveria ser um momento de celebra\u00e7\u00e3o e di\u00e1logo se transformou em um epis\u00f3dio de ataques e hostilidade, revelando o quanto ainda precisamos avan\u00e7ar como sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s a exibi\u00e7\u00e3o da entrevista, fui alvo de mensagens ofensivas e coment\u00e1rios transf\u00f3bicos que questionavam n\u00e3o apenas a validade da pesquisa, mas tamb\u00e9m minha pr\u00f3pria \u00e9tica e dignidade. Fui acusada de \u201cpedofilia\u201d, de \u201cideologizar\u201d a inf\u00e2ncia e de \u201cpromover agendas sexuais\u201d. Mas esses ataques n\u00e3o s\u00e3o apenas pessoais; s\u00e3o ataques \u00e0 liberdade acad\u00eamica. \u200b<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha pesquisa n\u00e3o \u00e9 apenas sobre crian\u00e7as trans, \u00e9 sobre como podemos construir um mundo mais acolhedor e menos violento para todas as inf\u00e2ncias. \u200bAo propor uma abordagem que despatologiza e valoriza a diversidade, sabia que estava tocando em temas sens\u00edveis. \u200bSei que o desconforto \u00e9 parte do processo de transforma\u00e7\u00e3o. Quando uma pesquisa sobre inf\u00e2ncias trans \u00e9 atacada, o que se tenta silenciar n\u00e3o \u00e9 apenas a pesquisadora, mas as pr\u00f3prias crian\u00e7as que inspiraram esse trabalho. \u200b<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Continuarei defendendo o direito de produzir um conhecimento que amplie a cidadania de grupos vulner\u00e1veis, porque acredito que \u00e9 assim que constru\u00edmos futuros abertos e cr\u00edticos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As crian\u00e7as trans merecem cuidado, respeito e reconhecimento. \u200bE n\u00f3s, como sociedade, precisamos aprender com elas. A despeito dos ataques, sigo firme na convic\u00e7\u00e3o de que minha pesquisa \u00e9 necess\u00e1ria \u2013 prova disso foi ter sido indicada ao pr\u00eamio CAPES 2025 por esse mesmo trabalho. Eles passar\u00e3o, n\u00f3s passarinho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5329968418889075\">Sofia Favero<\/a> \u00e9 doutora em Psicologia Social e Institucional pela UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/artigo\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da coluna <strong>Artigos<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>As opini\u00f5es expressas nos textos assinados s\u00e3o de responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A doutora em Psicologia Sofia Favero reflete sobre os ataques \u00e0 liberdade acad\u00eamica que enfrentou ao buscar a valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade em sua tese<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/pode-uma-travesti-pesquisar-infancia-no-brasil\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":115452,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[63,418,31,7231,432,895,1433],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-113605","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-acoes-afirmativas","tag-direitos-humanos","tag-diversidade","tag-ipssch","tag-politica","tag-psicologia","tag-transexualidade"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Pode uma travesti pesquisar inf\u00e2ncia no Brasil? 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