{"id":113621,"date":"2025-08-21T07:35:00","date_gmt":"2025-08-21T10:35:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=113621"},"modified":"2025-08-19T10:26:51","modified_gmt":"2025-08-19T13:26:51","slug":"christine-de-pizan-historia-e-resistencia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/christine-de-pizan-historia-e-resistencia\/","title":{"rendered":"Christine de Pizan: Hist\u00f3ria e Resist\u00eancia"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Mestranda em Hist\u00f3ria, Clara Aguiar Costa Bauer reflete sobre como as mulheres escritoras medievais, a partir de suas pr\u00e1ticas cotidianas, palavras e escritos, praticavam uma resist\u00eancia<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Ilustra\u00e7\u00e3o: Fabio Viera\/<em><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/histpraticart\/\">Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas<\/a>, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a cerim\u00f4nia de abertura dos Jogos Ol\u00edmpicos de Paris 2024, foi apresentado o quadro Sororit\u00e9, que exp\u00f4s dez est\u00e1tuas criadas em homenagem a mulheres que marcaram a hist\u00f3ria da Fran\u00e7a. Entre elas, uma figura medieval surgiu sob os holofotes contempor\u00e2neos: Christine de Pizan. Na transmiss\u00e3o televisiva, a exibi\u00e7\u00e3o de sua est\u00e1tua foi acompanhada pelos dizeres \u201cmulher das letras\u201d e \u201cautora do livro <em>A Cidade das Damas<\/em>\u201d. Para mim, que assistia \u00e0 cena pela televis\u00e3o, o momento foi emocionante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Christine de Pizan foi uma escritora nascida em Veneza em 1364 e radicada na Fran\u00e7a. Considerada a primeira mulher da Europa a viver da sua escrita, ela produziu obras sobre temas variados, como pol\u00edtica, filosofia, guerra e, principalmente, a condi\u00e7\u00e3o das mulheres.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>A Cidade das Damas<\/em>, sua obra mais conhecida, Christine narra a cria\u00e7\u00e3o de uma cidade feminina na qual as mulheres s\u00e3o reconhecidas por suas virtudes e resguardadas das inj\u00farias hist\u00f3ricas que lhes foram dirigidas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi com essa autora que comecei, em 2022, um caminho que tem marcado meu percurso acad\u00eamico. Em 2023, com o apoio do professor Igor Salom\u00e3o Teixeira e de colegas de pesquisa, levamos <em>A Cidade das Damas<\/em> para a sala de aula da rede municipal de Porto Alegre, apresentando estudantes ao pensamento de uma mulher que, ainda no final do s\u00e9culo XIV e in\u00edcio do XV, refletia sobre o valor e a dignidade das mulheres. No ano seguinte, defendi meu Trabalho de Conclus\u00e3o de Curso sobre essa obra instigante. Hoje, no mestrado, sigo mergulhada nos escritos de Christine \u2013 desta vez, em suas cartas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pensar em Christine de Pizan dentro do seu tempo \u00e9 um desafio t\u00e3o grande quanto recompensador. Isso exige rever como costumamos enxergar a Idade M\u00e9dia. Ainda \u00e9 comum que esse per\u00edodo seja visto como uma era de trevas, ignor\u00e2ncia e repress\u00e3o \u2013 especialmente para as mulheres. Christine desafia essa imagem. Ela n\u00e3o apenas escreveu livros, como os publicou, fez circular suas ideias e constituiu-se escritora.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em um dos trechos mais citados de sua obra, ela afirma: \u201cVou repetir, e n\u00e3o duvides do contr\u00e1rio: se fosse um h\u00e1bito mandar as meninas \u00e0 escola e ensin\u00e1-las as ci\u00eancias, como se faz com os meninos, elas aprenderiam e compreenderiam as sutilezas de todas as artes e ci\u00eancias t\u00e3o perfeitamente quanto eles\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir de cita\u00e7\u00f5es como essa, minha pesquisa busca compreender como a constru\u00e7\u00e3o de g\u00eanero, vista de uma perspectiva contempor\u00e2nea, pode ser aplicada ao entendimento da experi\u00eancia feminina na Idade M\u00e9dia. Vejo essas mulheres n\u00e3o apenas como v\u00edtimas de uma opress\u00e3o social, mas como sujeitos que, ao performar suas identidades, contestavam os pap\u00e9is impostos pela sociedade. O conceito de g\u00eanero, como uma categoria fluida e perform\u00e1tica, \u00e9 uma chave importante para entender como essas mulheres resistiam, n\u00e3o por meio de uma revolu\u00e7\u00e3o, mas por uma redefini\u00e7\u00e3o di\u00e1ria do que significa ser mulher dentro de um sistema patriarcal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha pesquisa explora exatamente isso: como as mulheres escritoras medievais, a partir de suas pr\u00e1ticas cotidianas, palavras e escritos, praticavam uma resist\u00eancia. Ao escreverem, ao se posicionarem em debates intelectuais e at\u00e9 mesmo filos\u00f3ficos, elas n\u00e3o s\u00f3 resistiam ao que a sociedade queria que fossem, mas tamb\u00e9m reconfiguravam as possibilidades de ser mulher em uma sociedade fortemente estruturada em torno da desigualdade de g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trajet\u00f3ria de Christine nos oferece, portanto, uma nova forma de olhar para a Idade M\u00e9dia. Longe de ser um per\u00edodo de completo obscurantismo, vemos ali uma sociedade com circula\u00e7\u00e3o de livros, intensa produ\u00e7\u00e3o de saber e presen\u00e7a de mulheres pensadoras. A partir de sua obra, somos levados a repensar n\u00e3o apenas a hist\u00f3ria da Idade M\u00e9dia, mas tamb\u00e9m a maneira como contamos a pr\u00f3pria hist\u00f3ria da resist\u00eancia feminina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quanto \u00e0 hist\u00f3ria das mulheres, trajet\u00f3rias como a de Christine nos trazem um lembrete importante: se \u00e9 verdade que a opress\u00e3o contra as mulheres tem ra\u00edzes antigas, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que a resist\u00eancia a ela sempre existiu. Christine \u00e9 uma prova disso. Ela nos lembra, com sua vida e obra, que as mulheres sempre pensaram, escreveram, participaram das discuss\u00f5es pol\u00edticas, questionaram as normas estabelecidas e contribu\u00edram ativamente para a constru\u00e7\u00e3o do mundo. Sua trajet\u00f3ria nos desafia a reavaliar a narrativa hist\u00f3rica e a reconhecer a presen\u00e7a ativa das mulheres em todos os aspectos da sociedade, muito antes de o feminismo moderno se articular como movimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Reconhecer figuras como Christine de Pizan \u00e9, portanto, um gesto pol\u00edtico e historiogr\u00e1fico: \u00e9 romper com a ideia de que a presen\u00e7a intelectual e ativa das mulheres \u00e9 uma conquista recente. \u00c9 tamb\u00e9m um convite a recontar a hist\u00f3ria medieval a partir de outras lentes \u2013 mais plurais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ver sua imagem celebrada na abertura dos Jogos Ol\u00edmpicos foi mais do que uma homenagem: foi um sinal de que Christine de Pizan segue viva nas escolas, nas pesquisas e no pensamento contempor\u00e2neo.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8770966427700832\">Clara Aguiar Costa Bauer<\/a> \u00e9 licenciada em Hist\u00f3ria pela UFRGS e mestranda em Hist\u00f3ria pela mesma institui\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/artigo\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da coluna <strong>Artigos<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>As opini\u00f5es expressas nos textos assinados s\u00e3o de responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Mestranda em Hist\u00f3ria, Clara Aguiar Costa Bauer reflete sobre como as mulheres escritoras medievais, a partir de suas pr\u00e1ticas cotidianas, palavras e escritos, praticavam uma resist\u00eancia<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/christine-de-pizan-historia-e-resistencia\/\">Leia 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