{"id":11578,"date":"2020-09-24T14:06:21","date_gmt":"2020-09-24T17:06:21","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=11578"},"modified":"2020-09-24T21:24:43","modified_gmt":"2020-09-25T00:24:43","slug":"por-um-jornalismo-que-fissura","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/por-um-jornalismo-que-fissura\/","title":{"rendered":"Por um jornalismo que fissura"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Fabiana Moraes defende um jornalismo que pensa a si mesmo enquanto campo de conhecimento e que est\u00e1 atento aos marcadores de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero que o constituem<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Anna Ortega<br>*Foto de capa: Arquivo Pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO qu\u00ea? Quem? Onde? Quando?\u201d Essas perguntas, facilmente reconhecidas por estudantes e profissionais do jornalismo, representam os chamados valores-not\u00edcia. Apesar de curtos e simples, pensar sobre eles pode nos levar a um lugar muito mais profundo: o de fazer o jornalismo pensar a si mesmo. Professora da Universidade Federal de Pernambuco, jornalista e escritora, Fabiana Moraes defende, desde 2015, o chamado Jornalismo de Subjetividade, onde a autocr\u00edtica da imprensa passa a ser fundamental. Autora dos livros <em>O Nascimento de Joicy<\/em> (2015), <em>Nabuco em Pretos e Brancos<\/em> (2012) e <em>Os Sert\u00f5es <\/em>(2010), ela nos provoca a pensar nas pr\u00e1ticas que fundam o fazer jornal\u00edstico, entre elas a abordagem em rela\u00e7\u00e3o aos chamados Outros e aos enquadramentos repetitivos ou ausentes de territ\u00f3rios e grupos sociais.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Fabiana, o Jornalismo de Subjetividade \u00e9 uma maneira de pensar tudo aquilo que funda, que estrutura e que norteia as pr\u00e1ticas daqueles que narram o mundo. Isso, inevitavelmente, esbarra e dialoga com discuss\u00f5es sobre interseccionalidades de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero, assim como de representa\u00e7\u00f5es e de subjetividades. A docente traz para o centro do debate perguntas como: \u201cO que est\u00e1 sendo contando?\u201d, \u201cQuem conta e sobre quem&nbsp;se conta?\u201d, \u201dOnde est\u00e3o e quais s\u00e3o os territ\u00f3rios dos quais estamos falando?&#8221;. N\u00e3o prop\u00f5e o abandono dos valores-not\u00edcia, mas convida a uma profunda e atenta revis\u00e3o de tudo o que \u00e9 valorado pelo jornalismo.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que o jornalismo de subjetividade apresenta e como se relaciona com a objetividade, um dos primeiros conceitos que se aprende na faculdade de Jornalismo?<\/strong> <br>Percebi que nos \u00faltimos trabalhos, disserta\u00e7\u00f5es, teses, artigos que li&nbsp;e que trazem um pouco dessa quest\u00e3o de jornalismo de subjetividade &#8211; que v\u00e1rios autores e autoras j\u00e1 trabalharam e que eu venho trabalhando com esse nome espec\u00edfico a partir de 2015,  existe uma certa despolitiza\u00e7\u00e3o do sentido do jornalismo de subjetividade. Antes de qualquer coisa \u00e9 um termo, uma proposta, uma concep\u00e7\u00e3o, uma ferramenta tamb\u00e9m, que tem um car\u00e1ter pol\u00edtico, no sentido de procurar repensar a pr\u00f3pria base epistemol\u00f3gica do jornalismo, uma epistemologia da teoria e da pr\u00e1tica das formas de se fazer jornalismo. Ent\u00e3o que propostas seriam essas? S\u00e3o v\u00e1rias, existe a\u00ed um certo guarda-chuva onde h\u00e1 ideias, pensamentos, conceitos que j\u00e1 foram trabalhados anteriormente por outros autores e autoras, e existe tamb\u00e9m novos elementos que foram se juntando desde 2015 quando come\u00e7o a pensar mais detidamente sobre isso. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, inicialmente, vou pensar que esse jornalismo de subjetividade \u00e9 um jornalismo no qual a gente incorpora e n\u00e3o nega esse car\u00e1ter que chamamos de subjetivo, que est\u00e1 relacionado \u00e0 emo\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 ligado \u00e0 presen\u00e7a do rep\u00f3rter. Esse car\u00e1ter do se deixar expor e dos atravessamentos que acontecem entre esse mundo e quem est\u00e1 narrando. \u00c9 um  jornalismo que entende sua capacidade narrativa &#8211; algo que n\u00e3o est\u00e1 presente somente na literatura. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m incorpora outras disciplinas e outras \u00e1reas de conhecimento, como a Sociologia, a Filosofia e a Antropologia. Essas quest\u00f5es s\u00e3o muito trabalhadas ali em <em>Nascimento de Joicy<\/em>, que \u00e9 quando come\u00e7o a pensar nisso. Depois, outros elementos v\u00eam se incorporando, como por exemplo as quest\u00f5es raciais, que est\u00e3o presentes em quase todas as reportagens que fiz. Esse elemento vai ficando cada vez mais presente nesse jornalismo de subjetividade hoje, uma incorpora\u00e7\u00e3o que vem ocorrendo h\u00e1 dois, tr\u00eas anos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma epistemologia feminista, muito derivada da minha leitura de <a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K4202115Y7\">M\u00e1rcia Veiga<\/a> &#8211; estou at\u00e9 com um livro dela aqui,<em> o Masculino, o g\u00eanero do jornalismo<\/em> &#8211; que considero super importante e que acho que precisa circular mais no curso de Jornalismo, porque fala sobre epistemologia positivista, evolucionista, darwinista, que vai ser incorporada no pr\u00f3prio fazer jornal\u00edstico pra se fazer como uma \u00e1rea de credibilidade. Esse \u00e9 o desenho do jornalismo de subjetividade hoje, e tudo isso pra dizer que \u00e9 uma tentativa, fundamentalmente pr\u00e1tica e te\u00f3rica, porque essa \u00e9 outra dicotomia que se criou, tanto como objetivo e subjetivo, que \u00e9 uma dicotomia falsa. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em nenhum momento se fala que a objetividade \u00e9 algo pra gente jogar fora, n\u00e3o existe jornalismo sem objetividade, ao mesmo tempo que n\u00e3o existe esse jornalismo sem a subjetividade. Eu n\u00e3o posso entrar e sair de um, pois o tempo todo estamos articulando essas dimens\u00f5es, e obviamente, eu posso articular muitas vezes esse car\u00e1ter subjetivo de uma maneira mais evidente, sublinhando mais, ou, eu posso deix\u00e1-la numa entrelinha, mas isso est\u00e1 sempre ali. Isso vai estar mais exposto, por exemplo, se eu escolho fazer uma reportagem de uma determinada maneira, entender que n\u00e3o posso deixar isso estar exposto num jornalismo di\u00e1rio, muito calcado em <em>hard news<\/em>, mas tamb\u00e9m est\u00e1 l\u00e1, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que \u00e9 s\u00f3 da reportagem. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que se esconde atr\u00e1s desse manto da suposta neutralidade do jornalista, e o que acontece quando o jornalista tira este manto?<\/strong> <br>\u00d3tima alegoria. Acho que, antes de qualquer coisa, esse manto procurou manter invis\u00edvel e justamente manter nesse espa\u00e7o de neutralidade do corpo masculino branco. Esse aparato \u00e9 pra esconder esse corpo, inclusive se a gente quisesse usar um termo muito presente nas discuss\u00f5es e que se popularizou muito, a gente poderia falar\u00a0 que existiu historicamente quase a ideia de um grupo identit\u00e1rio que esteve escondido sob esse manto do objetivo, do neutro, do cient\u00edfico. Essa manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 justamente pra que se continue a apresentar esse grupo espec\u00edfico como sendo um grupo universal, um grupo que pode falar por mim, por voc\u00ea, por ind\u00edgenas, por todos e todas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Deixando bem claro, assim, que n\u00e3o estou dizendo que essas pessoas n\u00e3o possam falar, ou que eu n\u00e3o possa falar sobre ind\u00edgenas, que voc\u00ea n\u00e3o possa falar sobre pessoas transsexuais. Houve tamb\u00e9m uma confus\u00e3o muito grande sobre essas quest\u00f5es, desses termos, dos lugares de fala, de quem pode e quem n\u00e3o pode. Agora, igualmente evidente foram e s\u00e3o as tentativas desse manto da objetividade pra justamente permitir que esse artif\u00edcio d\u00ea continuidade a um grupo espec\u00edfico, desse poder de falar por todos.\u00a0 \u00c9 um grande poder se eu posso falar por todos e por todas, se eu sou sempre o referencial da racionalidade, se sou sempre o referencial daquela pessoa que pensa melhor o mundo, que articula melhor o mundo, que gere melhor o mundo. Isso \u00e9 um poder. N\u00e3o \u00e9 \u00e0 toa que voc\u00ea vai ver isso presente nas estruturas gerais, de poder institucionais, voc\u00ea v\u00ea isso representado no fazer cient\u00edfico, vai ver representado no meio institucional pol\u00edtico, jur\u00eddico, legislativo. Esse grupo que estou falando \u00e9 o maior frente a todas essas estruturas que comandam nossas vidas, que comandam se podemos abortar ou n\u00e3o, que comandam se permanecemos encarcerados ou n\u00e3o. Por isso, muitas vezes quando se tenta, de certa maneira, tirar um pouco desse poder, dessa discuss\u00e3o objetivados subjetivados,  se diz que \u201cah, isso \u00e9 discuss\u00e3o ultrapassada, \u00e9 uma discuss\u00e3o que tem certo tempo&#8230; &#8221; <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Digo assim, sem medo de carteira\u00e7o, n\u00e3o estou falando apenas sentada dentro do gabinete, eu primeiro, na verdade, ainda passo por essa parte pr\u00e1tica porque continuo a escrever, estou dentro da Universidade Federal mas continuo a escrever, continuo a expor o meu corpo a pedidos, a orienta\u00e7\u00f5es diversas do que devo fazer e de como fazer, e esses pedidos passam muito tamb\u00e9m pelas quest\u00f5es regionais, as quest\u00f5es de g\u00eanero. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que \u00e9 um debate que n\u00e3o est\u00e1 encerrado e que, sinceramente, h\u00e1 uma disposi\u00e7\u00e3o de v\u00e1rios ve\u00edculos em se repensar, em repensar esse fazer,  mesmo quando ele \u00e9 muito declaradamente progressista. S\u00f3 que precisar ir al\u00e9m do &#8220;eu vou colocar um rep\u00f3rter negro aqui na reda\u00e7\u00e3o, ent\u00e3o pronto: j\u00e1 finalizei a minha cota com quest\u00f5es raciais&#8221;. Essa forma muito liberal da deia de representatividade pura e simples, como se ela respondesse de fato a uma pol\u00edtica estruturante. Isso \u00e9 importante? \u00c9, mas isso n\u00e3o \u00e9 o suficiente &#8211; e a gente tem que ficar muito ligado nessa quest\u00e3o. Ent\u00e3o, falar sobre objetividade e subjetividade \u00e9 voc\u00ea repensar a epistemologia jornal\u00edstica, repensar essa pr\u00e1tica de fundo. \u00c9 pensar nessas disciplinas nas universidades que separam o jornalismo liter\u00e1rio, cient\u00edfico, cultural, o jornalismo n\u00e3o sei o que; porque elas tamb\u00e9m s\u00e3o pautadas nisso, o jornalismo mais s\u00e9rio e privilegiado \u00e9 o jornalismo investigativo, e seu bojo tem o que? Ele \u00e9 o jornalismo &#8216;isento&#8217;, \u00e9 um jornalismo de mais dados e isso dentro das universidades continua a ser o que \u00e9 valorado. E esse movimento vai ter, claro, repercuss\u00e3o na vida pr\u00e1tica, nas reda\u00e7\u00f5es, enfim, de uma maneira geral. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o a quest\u00e3o do corpo est\u00e1 toda relacionada no jornalismo investigativo ao corpo masculino, ou ele \u00e9 espa\u00e7o do corpo feminino, quando esse corpo feminino adota m\u00e9todos normativos. O jornalismo cultural, dos direitos humanos, as mulheres fazem isso bem, os gays fazem isso bem, meio que essa divis\u00e3o que vai encontrar esse respaldo nessas divis\u00f5es que pra mim n\u00e3o fazem o menor sentido.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Com base em tua abordagem de estudo, como percebes os valores not\u00edcias que s\u00e3o uma das primeiras coisas que a gente aprende nos cursos de Jornalismo?<\/strong> <br>\u00c9 \u00f3bvio que a gente entende que pessoas de relev\u00e2ncia p\u00fablica, Barack Obama ou Anitta, pessoas que t\u00eam essa visibilidade p\u00fablica constituem um valor not\u00edcia &#8211; n\u00e3o estou fazendo um questionamento exatamente sobre isso. O que falo sobre valor not\u00edcia \u00e9 justamente quando fazemos essa reflex\u00e3o frente alguns recortes espec\u00edficos: de cor, de territ\u00f3rio e de g\u00eanero, porque o valor not\u00edcia tamb\u00e9m est\u00e1 relacionado com esses crit\u00e9rios, mesmo que se esconda na exposi\u00e7\u00e3o p\u00fablica da pessoa, ou na relev\u00e2ncia econ\u00f4mica dos lugares. Ent\u00e3o, sim, quando penso em valor not\u00edcia e penso no continente africano, por exemplo, pra mim fica muito evidente que o valor not\u00edcia \u00e9 historicamente racista. Os valores not\u00edcias &#8211; e eu fico pensando no valor not\u00edcia do quem, do onde &#8211; s\u00e3o os principais dessas perguntas que a gente aprende l\u00e1 no in\u00edcio da faculdade de jornalismo; quem e onde v\u00e3o articular, na verdade, quem n\u00e3o aparece e onde n\u00e3o vai aparecer, que lugares n\u00e3o v\u00e3o aparecer. Se eu pegar esses dois crit\u00e9rios pra pensar a cobertura que a imprensa faz, o que esse \u2018quem e onde\u2019 pode nos dizer da cobertura midi\u00e1tica sobre a \u00c1frica, o que a \u00c1frica nos surge como esse lugar de \u2018quem e onde\u2019 interessa?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na verdade o \u2018quem e onde\u2019 do jornalismo de uma maneira geral, esses crit\u00e9rios de noticiabilidade, est\u00e3o muito mais relacionados aos centros de poder, quem importa mais \u00e9 quem est\u00e1 no centro da grana. \u00c9 \u00f3bvio que eu n\u00e3o sou ing\u00eanua pra entender que a gente vive num mundo capitalista e obviamente isso \u00e9 importante. Agora, n\u00e3o acho que podemos ficar falando dentro do jornalismo, sem entender que est\u00e3o sendo articulados esses valores. Se o jornalismo \u00e9 essa ferramenta de conhecer o mundo, que mundo a gente tem conhecido e conheceu? Que mundo a gente tem privilegiado a partir desses crit\u00e9rios objetivos que s\u00e3o os valores not\u00edcias?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando penso nessas quest\u00f5es territoriais, nessas quest\u00f5es de corpo, de ra\u00e7a e de g\u00eanero, n\u00e3o posso deixar de pensar que esses valores not\u00edcias s\u00e3o grandes orientadores do que t\u00e1 vis\u00edvel e do que n\u00e3o t\u00e1. Eu e Marcia Veiga escrevemos recentemente um artigo intitulado <em>Onde est\u00e1 Ruanda no mapa? <\/em>A pergunta est\u00e1 correta porque eu n\u00e3o sei onde est\u00e1 Ruanda no mapa, porque o jornalismo n\u00e3o me permitiu isso, mas o jornalismo me ensinou onde est\u00e1 a It\u00e1lia, o jornalismo me ensinou onde est\u00e1 a Fran\u00e7a, sei at\u00e9 especificidades. Eu sei onde fica a Sic\u00edlia, isso \u00e9 bom, mas eu quero saber mais sobre os outros. O jornalismo me d\u00e1 isso? N\u00e3o. Por qu\u00ea? E a gente n\u00e3o pode pensar isso s\u00f3 para o jornalismo que \u00e9 objetivo, a subjetividade tamb\u00e9m trabalha com todas essas quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Al\u00e9m da quest\u00e3o da visibilidade e invisibilidade de alguns lugares, como entendes os \u201cgrandes outros\u201d \u2014 como o Nordeste sendo\u00a0 grande outro do Brasil e a \u00c1frica sendo o grande outro do mundo ocidental \u2014, que geralmente s\u00e3o trazidos a partir de uma \u00fanica perspectiva? <\/strong> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu acredito que essa manuten\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o do Outro \u2014 seja a \u00c1frica, seja a mulher, seja o Nordeste, seja o Centro-Oeste, sejam pa\u00edses orientais, seja o mundo \u00e1rabe \u2014, essas tentativas de manuten\u00e7\u00e3o desta \u201coutridade\u201d s\u00e3o muito focadas naquilo que conversamos antes que tem rela\u00e7\u00e3o com aquele \u201cmanto\u201d que te deixa invis\u00edvel. A manuten\u00e7\u00e3o ou a dissolu\u00e7\u00e3o dessas categorias de outros e de outras est\u00e1 justamente nessa disputa da narrativa de quem \u00e9 que vai permanecer com o rosto mais vis\u00edvel. E n\u00e3o s\u00f3 isso, essa visibilidade n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 &#8220;se eu estou sendo visto&#8221; ou &#8220;se n\u00e3o estou sendo visto&#8221;, mas se eu estou sendo ecoado. Ela tem a ver com quem vai deter esse lugar da racionalidade. Esse \u00e9 um marcador bem importante porque a partir do momento em que estou disputando e te trago para a estrutura do poder, eu te trago s\u00f3. O que voc\u00ea por si s\u00f3 inaugura, organiza no seu grupo, que geralmente \u00e9 a quest\u00e3o coletiva, esse poder n\u00e3o precisa se delegar, voc\u00ea mesma o articula, e isso \u00e9 obviamente a mudan\u00e7a de estrutura de uma l\u00f3gica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando os jornais e ve\u00edculos do sudeste, de maneira geral, insistem em mostrar o nordeste a partir de casas que est\u00e3o desabando e de fam\u00edlias muito pobres e muito famintas, para mim isso \u00e9 um dos maiores exemplos da busca pela manuten\u00e7\u00e3o da racionalidade, de quem pode falar e quem n\u00e3o pode. Porque faminto n\u00e3o pensa direito. Quem est\u00e1 com muita fome, quem est\u00e1 sentindo muita falta de quest\u00f5es b\u00e1sicas para manter sua pr\u00f3pria sobreviv\u00eancia n\u00e3o raciocina bem. E essa manuten\u00e7\u00e3o \u00e9 importante por isso, porque a partir do momento em que a gente entende que no Paran\u00e1, que em Curitiba, que em Santa Maria e que no sert\u00e3o baiano as pessoas t\u00eam igual capacidade de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e po\u00e9tica, inclusive, eu tiro um pouco do meu poder. Porque afinal, se todos temos a mesma capacidade intelectual, onde \u00e9 que eu fico nessa hist\u00f3ria toda? Eu tenho que descer do p\u00f3dio ou dividir o palco, e as pessoas n\u00e3o est\u00e3o muito dispostas a dividir o palco. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma vez uma revista nacional que muitas vezes tem articulistas progressistas, mas \u00e9 uma revista mais central, me chamou para fazer um texto de gra\u00e7a. Para fazer um texto de algo que eu detenho conhecimento, e perguntaram se eu poderia fazer de gra\u00e7a. E a\u00ed eu fui muito educada, disse que n\u00e3o iria fazer, mas eu fiquei remoendo isso, porque eu fiquei pensando como seria extremamente pol\u00edtico da minha parte se eu expusesse a situa\u00e7\u00e3o. Se eu dissesse que eles n\u00e3o podem ficar expondo um discurso antirracista e fazer uma proposta dessa para uma jornalista como eu. O que eu escrevi foi: voc\u00eas acham que uma revista nacional chamaria um homem branco que tivesse ganhado tr\u00eas pr\u00eamios Esso e tivesse um monte de livros publicados para fazer uma mat\u00e9ria de gra\u00e7a? (N\u00e3o quero me exibir com isso, estou fazendo s\u00f3 uma ilustra\u00e7\u00e3o) Chamariam? Tenho quase certeza que n\u00e3o. Isso para mim \u00e9 um exemplo de manuten\u00e7\u00e3o de poder. Eu estava me sentindo quase como uma laranja. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tem acontecido um movimento de museus e institui\u00e7\u00f5es de arte que se denominaram antirracistas durante os protestos nos Estados Unidos e a\u00ed uma s\u00e9rie de revela\u00e7\u00f5es de que esses lugares tinham pr\u00e1ticas racistas. Essa diferen\u00e7a entre o discurso e a pr\u00e1tica.<\/strong><br>\u00c9 dif\u00edcil, Anna, porque te envolvem de todas as maneiras. Te chamam para participar porque voc\u00ea acredita no projeto pol\u00edtico, que hackear o sistema \u00e9 necess\u00e1rio \u2014 e eu realmente acho \u2014 mas ao mesmo tempo a gente n\u00e3o pode virar o chaveirinho dessa galera. Porque \u00e9 a representatividade pela representatividade, no sentido de &#8220;vou te chamar aqui para aparecer&#8221;. Voc\u00ea n\u00e3o pode se deixar instrumentalizar. E \u00e0s vezes \u00e9 um lugar muito doloroso ficar o tempo todo articulando isso, tendo que dizer isso, entendendo como s\u00e3o os convites, como eles v\u00eam, \u00e9 uma coisa muito exaustiva. Tem muitas coisas que eu digo \u201cn\u00e3o vou fazer\u201d e pronto. Conversa com estudantes? Eu topo. Conversa com o pessoal da Universidade do Acre? Topo. Porque sinceramente n\u00e3o estou interessada em ter uma grande visibilidade. N\u00e3o vou concorrer ao Big Brother! Ent\u00e3o, assim, n\u00e3o me vem com essa hist\u00f3ria de visibilidade. Eu tenho 45 anos de idade, eu n\u00e3o estou come\u00e7ando no jornalismo. Entendo que se eu estivesse come\u00e7ando no jornalismo seria incr\u00edvel! Mas eles est\u00e3o me oferecendo isso hoje. \u00c9 muita pretens\u00e3o. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Gostaria de te perguntar a respeito de um dos \u00faltimos pontos que tu trazes no terceiro cap\u00edtulo de <em>O Nascimento de Joicy<\/em>, intitulado <em>O subjetivo como elemento politico<\/em>. L\u00e1 tu falas que \u201creportagens podem provocar terremotos e fissuras\u201d. Quais s\u00e3o esses terremotos e essas fissuras, rupturas, que o fazer da reportagem e do jornalismo podem causar? \u00a0<\/strong><br>Acho que s\u00e3o essas rupturas que conversamos at\u00e9 ent\u00e3o. Rupturas dessas outridades. Por vezes, confesso que sou at\u00e9 um pouco esquem\u00e1tica, no sentido de quase desenhar um Power Point, sabe? Com as coisas que n\u00e3o est\u00e3o t\u00e3o evidentes, que as pessoas ficam questionando. Ent\u00e3o, eu acho que as reportagens podem servir como essas esp\u00e9cies de <em>power points <\/em>ilustrativos, para nos dizerem assim: Essa tela pela qual voc\u00ea est\u00e1 vendo, esse <em>frame<\/em> [enquadramento] que est\u00e1 aqui o tempo todo, precisa ser deslocado. Desloca esse <em>frame<\/em> um pouquinho para c\u00e1 pra gente ver outra coisa. \u00c9 um pouco sobre isso isso. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E essa troca de <em>frame<\/em> provoca ruptura. Em <em>A Casa Grande Senzala<\/em> [reportagem escrita por Fabiana e publicada no Jornal do Comercio de Pernambuco, em 2013], eu penso em formas de narrar e de observar as crian\u00e7as e adolescentes que est\u00e3o dentro do contexto da reportagem. Como falar a respeito dessa pobreza extrema, material, e entendendo que a pobreza \u00e9 tamb\u00e9m afetiva? Como entender essa escala de pobreza que arranca a tua pr\u00f3pria humanidade, que te resseca de humanidade, digamos assim. E como pensar e falar sobre isso tentando evidenciar justamente os aspectos de humanidade que est\u00e3o presentes nessas pessoas. Assim como os que est\u00e3o presentes em voc\u00ea, como est\u00e3o presentes em mim. Acredito que uma das ideias mais fortes do jornalismo de subjetividade \u00e9 tentar articular pela semelhan\u00e7a e n\u00e3o pela diferen\u00e7a. Porque isso \u00e9 tamb\u00e9m abrir m\u00e3o do seu pr\u00f3prio poder.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso pensar sobre essas meninas e mulheres que est\u00e3o na reportagem e que estavam na rua fazendo sexo oral por 5 reais, meninas pretas, muito pobres, mas pensar em falar sobre essas pessoas entendendo a humanidade que elas t\u00eam &#8211; e quando eu falo humanidade, n\u00e3o falo em escrever um texto falando como elas s\u00e3o \u2018boazinhas\u2019, ou, ent\u00e3o, que elas s\u00e3o vitimas de todo um sistema (embora, sim, sejam vitimas de uma s\u00e9rie de elementos da historia do Brasil). N\u00e3o \u00e9 colocando elas nesses lugares, mas tentando articular ali uma conversa na qual se evidenciem essas aus\u00eancias, essa pobreza material e afetiva. Que se evidenciem nossas diferen\u00e7as, mas tamb\u00e9m nossas semelhan\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o quero falar disso como um mero denuncismo. N\u00e3o quero falar disso como uma hero\u00edna, que passou horas e horas naquele lugar e que passou por \u201cgrandes perigos\u201d para trazer aquela reportagem &#8211; o que \u00e9 uma vis\u00e3o muito comum dentro do jornalismo. Essa quest\u00e3o do \u201ceu fui\u201d, \u201ceu trouxe\u201d ainda \u00e9 muito presente na figura do jornalista. Eu n\u00e3o acho que esse seja o caminho nem que seja o prop\u00f3sito de fazer jornalismo. Obviamente, isso tudo vai me capitalizar. Eu ganhei um pr\u00eamio com essa reportagem, por exemplo. N\u00e3o estou dizendo que n\u00e3o vai. Mas estou chamando aten\u00e7\u00e3o que essas reportagens, para provocarem essas fissuras e essas mudan\u00e7as de enquadramento, elas precisam nos ajudar a ver essas viv\u00eancias das bordas como viv\u00eancias que, em diversas maneiras, se parecem com viv\u00eancias que n\u00f3s temos, ou ent\u00e3o que s\u00e3o pessoas que desejam um conforto que experenciamos. N\u00e3o s\u00e3o esse Outro, terr\u00edvel, ou vitima, ou perigoso. N\u00e3o s\u00e3o. Acredito ser importante tentar narrar essa outridade com enorme proximidade da nossa pr\u00f3pria outridade tamb\u00e9m. \u00c9 sobre entender mais pela semelhan\u00e7a, do que pela diferen\u00e7a e eu acredito que assim que acontece a fissura.&nbsp; &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Fabiana Moraes defende um jornalismo que pensa a si mesmo enquanto campo de conhecimento e que est\u00e1 atento aos marcadores de classe, ra\u00e7a e g\u00eanero que o constituem *Por: Anna Ortega*Foto de capa: Arquivo Pessoal \u201cO qu\u00ea? Quem? Onde? 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