{"id":116389,"date":"2025-08-28T07:50:00","date_gmt":"2025-08-28T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=116389"},"modified":"2025-09-02T10:45:24","modified_gmt":"2025-09-02T13:45:24","slug":"gerontologia-ambiental-a-resposta-para-o-envelhecimento-seguro-em-meio-as-mudancas-climaticas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/gerontologia-ambiental-a-resposta-para-o-envelhecimento-seguro-em-meio-as-mudancas-climaticas\/","title":{"rendered":"Gerontologia ambiental traz alternativas para o envelhecimento seguro em meio \u00e0s mudan\u00e7as clim\u00e1ticas"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Meio ambiente | Avan\u00e7os na ci\u00eancia aumentam a expectativa de vida da humanidade, mas cidades n\u00e3o acompanham necessidades das pessoas idosas<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Pietro Scopel\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Na minha \u00e9poca, a luta era outra&#8221;, conta Raul Jos\u00e9 Rodrigues, que, no auge dos seus 72 anos, me transporta, atrav\u00e9s de sua mem\u00f3ria, a uma \u00e9poca em que as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas eram apenas um inimigo invis\u00edvel, um press\u00e1gio negativo, visto como balela por muitos de sua gera\u00e7\u00e3o \u2013 e da minha tamb\u00e9m.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Convers\u00e1vamos embalados pelo som de motosserras que cortavam as \u00e1rvores na Pra\u00e7a da Alf\u00e2ndega, no cora\u00e7\u00e3o do centro de Porto Alegre, onde ele exp\u00f5e seu artesanato h\u00e1 mais de 40 anos. Raul conta sobre sua juventude, quando ajudou a lutar contra a ditadura civil-militar. Agora, sendo uma pessoa idosa, relata que sente dificuldades de lidar com cal\u00e7adas desniveladas e as frequentes ondas de calor, al\u00e9m de testemunhar muitos trope\u00e7os e eventuais quedas de pessoas idosas no seu local de trabalho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Relatos como o de Raul motivaram a Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade (OMS) a desenvolver o <a href=\"https:\/\/www.mds.gov.br\/webarquivos\/arquivo\/Brasil_Amigo_Pessoa_Idosa\/publicacao\/guia-global-oms.pdf\">Guia Global: Cidade Amiga do Idoso<\/a>. O documento estipula diretrizes fundamentais para o desenvolvimento de cidades que promovam o acolhimento das demandas de pessoas idosas relativas \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os acess\u00edveis e acolhedores.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-118654\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8292_Pietro-Scopel-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Raul Jos\u00e9 Rodrigues passou por diversas mudan\u00e7as na pra\u00e7a desde que come\u00e7ou a expor, em 1979. Ressalta que a sensa\u00e7\u00e3o de seguran\u00e7a aumentou desde ent\u00e3o: &#8220;Antigamente tinha muito batedor de carteira, agora \u00e9 mais familiar&#8221; (Foto: Pietro Scopel\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O guia se baseia na chamada gerontologia ambiental. Datando de meados dos anos 1950, trata-se de uma \u00e1rea do conhecimento relativamente nova, que surgiu da necessidade de aprofundar o entendimento sobre a interfer\u00eancia do ambiente no envelhecimento e no ser velho em aspectos tanto materiais, como as estruturas urbanas, quanto de fatores sociais, como o isolamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Porto Alegre recebeu a certifica\u00e7\u00e3o da OMS em 2015 e oferece espa\u00e7os e servi\u00e7os voltados a pessoas idosas. No entanto, as diretrizes que dizem respeito a aspectos urban\u00edsticos que impactam a viv\u00eancia da pessoa idosa na cidade ainda encontram resist\u00eancia no sentido de serem tiradas do papel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A arquiteta e urbanista Mariana Alves do Nascimento, especializada em gerontologia ambiental, defende que a demora na inclus\u00e3o de pessoas idosas na elabora\u00e7\u00e3o dos ambientes urbanos \u00e9 um sintoma cultural de um problema maior:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cElas [pessoas idosas] s\u00e3o deixadas de lado porque o Brasil n\u00e3o compreendeu que viramos um pa\u00eds de velhos. Todo mundo tem muita dificuldade de admitir isso. As pessoas n\u00e3o enxergam que, no futuro, elas v\u00e3o ser idosas\u201d<\/p>\n<cite>Mariana Alves do Nascimento<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos maiores problemas enfrentados por pessoas idosas ao frequentar a cidade \u00e9 o calor. O m\u00e9dico geriatra e professor da Faculdade de Medicina da UFRGS Renato Gorga explica que as pessoas idosas s\u00e3o as que mais sofrem com o clima extremo em decorr\u00eancia de caracter\u00edsticas naturais do envelhecimento que dificultam a regula\u00e7\u00e3o t\u00e9rmica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A problem\u00e1tica em torno das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, entretanto, tamb\u00e9m passa por aspectos biopsicossociais. \u201cUma onda de calor extremo pode afetar idosos em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social e causar isolamento, quando, em momentos de clima ameno, ele estaria indo comprar p\u00e3o ou interagir com um vizinho em alguma quadra perto de casa\u201d, afirma o professor. J\u00e1 a destrui\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os verdes urbanos impacta no direito constitucional de acesso \u00e0 cidade, acrescenta Mariana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As \u00danidades B\u00e1sicas de Sa\u00fade (UBS) podem ser aliadas no enfrentamento das ondas de calor. Bibiana Graeff, jurista geront\u00f3loga e especialista em direito ambiental, defende que esses espa\u00e7os, por serem muito capilarizados, e contarem com a presen\u00e7a de profissionais da sa\u00fade, s\u00e3o fundamentais para auxiliar na manuten\u00e7\u00e3o da hidrata\u00e7\u00e3o e proporcionar refrigera\u00e7\u00e3o para as pessoas idosas. Acrescenta que 15 mil pessoas idosas morreram na Fran\u00e7a em 2003 em decorr\u00eancia do despreparo do pa\u00eds para lidar com casos extremos de calor. Uma das solu\u00e7\u00f5es posteriormente implementadas, segundo ela, foi o decreto que obriga estabelecimentos refrigerados acolherem pessoas idosas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A urg\u00eancia em refletir e atuar na qualidade de vida das pessoas idosas tamb\u00e9m \u00e9 reconhecida pela Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que escolheu o per\u00edodo entre 2021 e 2030 como a \u201cd\u00e9cada do envelhecimento\u201d. N\u00e3o \u00e0 toa: os avan\u00e7os em diversas \u00e1reas do conhecimento possibilitaram que a estimativa de vida m\u00e9dia no mundo atingisse o patamar de 72,8 anos em 2019 \u2013 um salto em compara\u00e7\u00e3o com 1990, quando a expectativa era, em m\u00e9dia, 65,8 anos, de acordo com o relat\u00f3rio World Population Prospects, publicado em 2022 pela ONU.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, o n\u00famero de pessoas com 65 anos ou mais aumentou <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mdh\/pt-br\/assuntos\/noticias\/2024\/junho\/crescimento-da-populacao-idosa-brasileira-expoe-urgencia-de-politicas-publicas-para-combater-violacoes-e-desigualdades\">57,4% em 12 anos<\/a>, conforme o \u00faltimo censo realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE). Trazendo os dados para mais perto de n\u00f3s, o estado do Rio Grande do Sul dispara na frente: em 11 anos, o <a href=\"https:\/\/estado.rs.gov.br\/indice-que-mede-envelhecimento-da-populacao-do-rio-grande-do-sul-tem-alta-de-74-em-11-anos\">aumento foi de 74%,<\/a> \u00edndice que coloca o RS no topo do ranking de popula\u00e7\u00e3o de pessoas idosas no pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora que temos os meios de envelhecer bem, amparados pelos avan\u00e7os da humanidade, como estamos nos preparando para lidar com o ser idoso em cidades cada vez mais hostis a essas pessoas?<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">M\u00faltiplas velhices<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As medidas de prote\u00e7\u00e3o e legisla\u00e7\u00f5es focadas nas pessoas idosas s\u00e3o atravessadas pelo idadismo, que \u00e9 o preconceito contra pessoas por causa de suas idades, sejam jovens ou velhos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre os problemas decorrentes desse preconceito, um deles diz respeito \u00e0 desconsidera\u00e7\u00e3o da ampla gama de velhices presentes nessa fase da vida. Tente refletir sobre a experi\u00eancia de uma pessoa com 60 anos, que acabou de entrar na terceira idade, em compara\u00e7\u00e3o a outra nos seus 90 anos, por exemplo. Quais obst\u00e1culos podem ser encontrados em um passeio na cidade por um ou outro? Ainda que haja esse abismo de possibilidades, a &#8220;melhor idade&#8221; \u00e9 tida como uma coisa s\u00f3. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A ideia de m\u00faltiplas velhices surge justamente da concep\u00e7\u00e3o de que uma vida com bagagens t\u00e3o diferentes determina a forma como a pessoa idosa experiencia a velhice. Marcadores como g\u00eanero, sexualidade, ra\u00e7a e classe social devem ser levados em considera\u00e7\u00e3o na forma como pensamos o envelhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mariana aponta que a falta de compreens\u00e3o dessas diferen\u00e7as reflete no desenho urban\u00edstico das cidades: \u201cMuitas vezes, pensamos que corrim\u00e3os, barras de apoio e rampas s\u00e3o suficientes, mas vai muito al\u00e9m disso. Um dos pontos cr\u00edticos \u00e9 a sinaliza\u00e7\u00e3o e a comunica\u00e7\u00e3o, que s\u00e3o importantes em casos de decl\u00ednio cognitivo\u201d, exemplifica.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-118655\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_8318_Pietro-Scopel-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">A arquiteta Mariana Alves do Nascimento defende que as infraestruturas das cidades n\u00e3o s\u00e3o preparadas pare receber a circula\u00e7\u00e3o de pessoas idosas: &#8220;Algu\u00e9m com estado de sa\u00fade maravilhoso pode sofrer uma queda e a vida inteira dela mudar&#8221; (Foto: Pietro Scopel\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando pensamos no atual contexto de enfrentamento \u00e0s crises clim\u00e1ticas, essa quest\u00e3o se torna evidente. No <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/sites\/default\/files\/usu_doc\/sites\/smamus\/Sumario%20Executivo%20PLAC%20V6%20-%20PT%20BR.pdf\">plano de enfrentamento \u00e0 crise clim\u00e1tica de Porto Alegre (PLAC)<\/a>, lan\u00e7ado em 2025, as tr\u00eas men\u00e7\u00f5es \u00e0 popula\u00e7\u00e3o idosa n\u00e3o trazem medidas espec\u00edficas para esse grupo, colocando-os juntos de crian\u00e7as e pessoas com defici\u00eancia. Tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1, por exemplo, a men\u00e7\u00e3o a medidas espec\u00edficas para idosos com mobilidade reduzida e que residem em Institui\u00e7\u00f5es de Longa Perman\u00eancia para Pessoas Idosas (ILPIs).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso dessas institui\u00e7\u00f5es, uma prepara\u00e7\u00e3o pr\u00e9via para momentos de emerg\u00eancia \u00e9 fundamental, aponta a geront\u00f3loga e especialista em gest\u00e3o de crises clim\u00e1ticas Aline Silveira Viana. Ela alerta que a falta de um treinamento para os gestores das ILPIs pode amplificar as consequ\u00eancias de um desastre. &#8220;Se acontecer uma inunda\u00e7\u00e3o em \u00e1rea de ILPI, e a\u00ed? Dizem que chamam os bombeiros. Mas como vai operacionalizar isso? \u00c9 tudo decidido em cima da hora. Mas e os prontu\u00e1rios e rem\u00e9dios?&#8221;, indaga.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aline ressalta que pessoas idosas residentes de ILPIs geralmente est\u00e3o nessas institui\u00e7\u00f5es por j\u00e1 terem algum tipo de limita\u00e7\u00e3o de mobilidade ou cognitiva; assim, at\u00e9 mesmo a necessidade de uso de aparelhos espec\u00edficos deve ser levada em considera\u00e7\u00e3o. &#8220;Se queremos garantir que essas pessoas sobrevivam minimamente, precisamos pensar nessas a\u00e7\u00f5es. Quem vai ajudar esses gestores em situa\u00e7\u00f5es assim? Essa \u00e9 minha luta&#8221;, comenta, acrescentando que n\u00e3o h\u00e1 pol\u00edticas que observem essas demandas em contextos de emerg\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Camila Silveira da Silva, respons\u00e1vel t\u00e9cnica da institui\u00e7\u00e3o de longa perman\u00eancia Casa de Repouso M\u00e3e Maria, unidade localizada no Sarandi, conta que fez uma &#8220;evacua\u00e7\u00e3o no grito&#8221; nas enchentes de maio do ano passado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela relembra que foi tudo muito r\u00e1pido. Uma not\u00edcia falsa sobre o rompimento do dique do Sarandi ganhava as redes sociais na \u00e9poca, e o p\u00e2nico foi geral. As pessoas idosas residentes da Casa foram deslocadas a outras unidades usando recursos pr\u00f3prios da ILPI, junto com caixas contendo medica\u00e7\u00f5es e laudos, j\u00e1 organizadas desta forma. Camila destaca que a Defesa Civil esteve na unidade em outros momentos fornecendo orienta\u00e7\u00f5es gerais, mas que s\u00f3 &#8220;aprendeu de fato o que fazer no momento em que ocorreu&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Felizmente, a ILPI M\u00e3e Maria n\u00e3o foi inundada, e a evacua\u00e7\u00e3o p\u00f4de ser feita com menos risco. No entanto, contar com o improviso, frente ao aumento das ocorr\u00eancias de eventos extremos, certamente n\u00e3o \u00e9 a melhor estrat\u00e9gia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parte da responsabilidade de agir preventivamente nesses casos cabe ao Plano Diretor das cidades. Para Bibiana, o documento deveria regulamentar as regi\u00f5es em que s\u00e3o constru\u00eddas as ILPIs. No entanto, no <a href=\"https:\/\/prefeitura.poa.br\/sites\/default\/files\/usu_doc\/%5BNOVO%5D%20Plano%20Diretor%202023\/Audiencia%20Publica%20Plano%20Diretor%202025\/Revisao%20do%20Plano%20Diretor%20de%20Porto%20Alegre_Relatorio%20Final%202025_compressed.pdf\">atual projeto<\/a> de revis\u00e3o do Plano Diretor de Porto Alegre, a \u00fanica men\u00e7\u00e3o a essas institui\u00e7\u00f5es refere-se \u00e0 isen\u00e7\u00e3o de Outorga Onerosa do Direito de Construir, um instrumento de controle do adensamento urbano.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;O Plano Diretor deve pensar [sob] quais crit\u00e9rios e [em quais] zonas essas ILPIs s\u00e3o constru\u00eddas. H\u00e1 pessoas acamadas ou com mobilidade reduzida nesses locais. \u00c9 preciso come\u00e7ar a pensar preventivamente nisso&#8221;<\/p>\n<cite>Bibiana Graeff<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mdh\/pt-br\/navegue-por-temas\/crianca-e-adolescente\/acoes-e-programas-de-gestoes-anteriores\/PROTOCOLONACIONALDESASTRES_final.pdf\">O Protocolo Nacional Conjunto para Prote\u00e7\u00e3o Integral a Crian\u00e7as e Adolescentes, Pessoas Idosas e Pessoas com Defici\u00eancia em Situa\u00e7\u00e3o de Riscos e Desastres<\/a> j\u00e1 refletia, em 2012, sobre a urg\u00eancia da elabora\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas de prote\u00e7\u00e3o espec\u00edficas. O documento \u00e9 resultado de um grupo de trabalho interministerial, criado ap\u00f3s as inunda\u00e7\u00f5es que assolaram pessoas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade social no <a href=\"https:\/\/www.cnnbrasil.com.br\/noticias\/em-2011-chuvas-que-atingiram-regiao-serrana-do-rj-deixaram-quase-mil-mortos\/\">Rio de Janeiro<\/a>, em 2011.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O objetivo era unificar diretrizes nacionais a serem adotadas por estados e munic\u00edpios, bem como orientar as a\u00e7\u00f5es dos \u00f3rg\u00e3os de Defesa Civil para acolher as demandas dos grupos geralmente afetados, setorizando as estrat\u00e9gias necess\u00e1rias conforme diferentes viv\u00eancias. No caso das pessoas idosas, o guia utiliza artigos j\u00e1 previstos no <a href=\"https:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/leis\/2003\/l10.741.htm\">Estatuto da Pessoa Idosa<\/a>, como a considera\u00e7\u00e3o dos interesses e opini\u00f5es da pessoa, para embasar suas diretrizes. Mas, tendo em vista que o Estatuto foi criado em 2003, o protocolo se disp\u00f5e a avan\u00e7ar em medidas relativas \u00e0 seguran\u00e7a da pessoa idosa, j\u00e1 que o debate em torno das mudan\u00e7as clim\u00e1ticas se acentuou nos \u00faltimos anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A se\u00e7\u00e3o de resposta, cujas indica\u00e7\u00f5es servem para guiar as tomadas de decis\u00f5es em momentos em que o desastre j\u00e1 est\u00e1 posto, prev\u00ea, por exemplo, que pessoas idosas com sinais de dem\u00eancia sejam restringidas de se locomover. J\u00e1 no caso em que \u00e9 constatada a preserva\u00e7\u00e3o cognitiva, a linguagem acess\u00edvel e clara deve ser usada pelos agentes a fim de instruir a pessoa idosa e manter sua autonomia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 na se\u00e7\u00e3o de prepara\u00e7\u00e3o, que se refere \u00e0s medidas precedentes aos desastres, em que o objetivo \u00e9 principalmente reduzir danos, a participa\u00e7\u00e3o de pessoas idosas na constru\u00e7\u00e3o das estrat\u00e9gias \u00e9 amplamente incentivada. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, Aline afirma que o Protocolo &#8220;n\u00e3o pegou&#8221; em fun\u00e7\u00e3o da sua implementa\u00e7\u00e3o n\u00e3o ser obrigat\u00f3ria. <\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O papel social da pessoa idosa<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/participamaisbrasil\/6-conferencia-nacional-dos-direitos-da-pessoa-idosa\">confer\u00eancias<\/a> municipais dos Direitos da Pessoa Idosa s\u00e3o eventos anuais que re\u00fanem membros da sociedade civil para a discuss\u00e3o de propostas \u00fateis ao envelhecimento digno e ativo. As cinco mais votadas s\u00e3o levadas \u00e0s inst\u00e2ncias estaduais, e, por fim, federais, onde podem assumir car\u00e1ter de lei nacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A sexta edi\u00e7\u00e3o da confer\u00eancia municipal de Porto Alegre ocorreu neste ano, com o tema &#8220;Envelhecimento Multicultural e Democracia: Urg\u00eancia por Equidade, Direitos e Participa\u00e7\u00e3o&#8221;. Estive na reuni\u00e3o no Sal\u00e3o de Atos da PUCRS, e a anima\u00e7\u00e3o das pessoas idosas presentes era contagiante, mesmo com a chuva incessante.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dentre as propostas presentes nos cinco eixos da confer\u00eancia, o incentivo ao protagonismo \u00e9 muito presente. Por exemplo, uma das mo\u00e7\u00f5es aprovadas requer o fortalecimento de associa\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias que visem o protagonismo das pessoas idosas nos territ\u00f3rios da cidade. Outra exige a articula\u00e7\u00e3o com a C\u00e2mara de Vereadores para a retomada da gratuidade da passagem de \u00f4nibus para pessoas a partir dos 60 anos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante destacar que nenhuma das propostas menciona estrat\u00e9gias de acolhimento e prote\u00e7\u00e3o \u00e0 pessoa idosa em casos de novos desastres clim\u00e1ticos, o que demonstra como o debate sobre o tema ainda \u00e9 incipiente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Bibiana Graeff destaca a import\u00e2ncia dessas confer\u00eancias e do protagonismo das pessoas idosas. &#8220;As pessoas idosas devem ser inclu\u00eddas nos protocolos de defesa civil, e n\u00e3o apenas serem objeto de pol\u00edtica p\u00fablica, mas agentes ativos, sujeitos de direito. Essa mudan\u00e7a, do ponto de vista jur\u00eddico, tem de ser alcan\u00e7ada de maneira efetiva n\u00e3o s\u00f3 no texto da lei. Tem que reverberar em pol\u00edticas p\u00fablicas e ser transmitido em educa\u00e7\u00e3o gerontol\u00f3gica&#8221;, defende.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-118652\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/08\/Idosos_7813_Pietro-Scopel-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Em Porto Alegre, acompanhantes de pessoas idosas com mais de 65 anos t\u00eam isen\u00e7\u00e3o na tarifa do transporte p\u00fablico (Foto: Pietro Scopel)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A jurista relembra a <a href=\"https:\/\/www.oas.org\/en\/sare\/documents\/CIPM_POR.pdf\">Conven\u00e7\u00e3o Interamericana sobre a prote\u00e7\u00e3o dos direitos humanos<\/a> com foco nas pessoas idosas, da qual o Brasil foi um dos primeiros pa\u00edses signat\u00e1rios. No documento, existe um artigo espec\u00edfico para a prote\u00e7\u00e3o de pessoas idosas em casos de desastres, mas, assim como o Protocolo Nacional e o Guia da Cidade Amiga do Idoso, ainda n\u00e3o s\u00e3o sistematicamente utilizados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reportagem do JU tentou contato com o Conselho Municipal do Idoso (COMUI) para questionar sobre como o \u00f3rg\u00e3o tem pretendido implementar melhorias na cidade, que mitiguem os efeitos dos desastres clim\u00e1ticos na popula\u00e7\u00e3o de pessoas idosas, mas, at\u00e9 o fechamento desta reportagem, n\u00e3o obteve resposta.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline animated fadeInDown slow is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link 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