{"id":119622,"date":"2025-10-02T07:50:00","date_gmt":"2025-10-02T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=119622"},"modified":"2026-01-21T12:15:24","modified_gmt":"2026-01-21T15:15:24","slug":"infancia-quilombola-e-impactada-por-eventos-climaticos-extremos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/infancia-quilombola-e-impactada-por-eventos-climaticos-extremos\/","title":{"rendered":"Inf\u00e2ncia quilombola \u00e9 impactada por eventos clim\u00e1ticos extremos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Mudan\u00e7as clim\u00e1ticas | Enchentes de 2024 deixaram marcas emocionais em m\u00e3es e crian\u00e7as quilombolas do Estado, demandando pol\u00edticas p\u00fablicas que contemplem as especificidades dessa popula\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Na cozinha da casa que foi tomada pelas \u00e1guas na enchente de 2024, Paula Bernardes Netto, e Lorena, sua filha, vivem no Quilombo Costa da Lagoa, em Capivari do Sul, no Litoral do Rio Grande do Sul (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Comunidades racializadas, especialmente negras, ind\u00edgenas e quilombolas, est\u00e3o sistematicamente <a href=\"https:\/\/www.tapajosdefato.com.br\/noticia\/1049\/mudancas-climaticas-como-esse-problema-tem-afetado-as-populacoes-quilombolas\">mais expostas aos riscos<\/a> ambientais e t\u00eam menos acesso a pol\u00edticas de mitiga\u00e7\u00e3o e adapta\u00e7\u00e3o. \u00c9 o que trata o conceito de <a href=\"https:\/\/www.fundobrasil.org.br\/blog\/rio-grande-do-sul-o-que-as-enchentes-tem-a-ver-com-racismo-ambiental\/?gad_source=1&amp;gad_campaignid=13249987416&amp;gbraid=0AAAAADxOzWQQTfLS0Rf92Kj0T6qn6zA2p&amp;gclid=Cj0KCQjw8p7GBhCjARIsAEhghZ0o62JvpBgpfFj7jG4ig8d9ddpHZNdwYI84RfliLODW72B2pktcMGQaAjZEEALw_wcB\">racismo ambiental<\/a>, evidenciado pelo <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/movimento-social-negro-unido-aos-quilombolas-gauchos-resiste-ao-racismo-ambiental\/\">levantamento<\/a> da Coordena\u00e7\u00e3o Nacional de Articula\u00e7\u00e3o de Quilombos (Conaq), que aponta que todas as 145 comunidades quilombolas do Rio Grande do Sul, distribu\u00eddas em 70 munic\u00edpios, foram afetadas pelas enchentes de maio de 2024, impactando diretamente 17.552 quilombolas.<br><br>Em 2023, o estado j\u00e1 havia enfrentado ao menos quatro eventos clim\u00e1ticos extremos provocados por ciclones e chuvas persistentes, que resultaram em cerca de 80 mortes; <a href=\"https:\/\/apublica.org\/2024\/05\/governo-eduardo-leite-nao-colocou-em-pratica-estudos-de-prevencao-de-desastres-pagos-pelo-rio-grande-do-sul\/\">medidas efetivas de preven\u00e7\u00e3o, no entanto, n\u00e3o foram implementadas<\/a>. Comunidades quilombolas tamb\u00e9m relatam danos recorrentes em per\u00edodos de chuva intensa, que n\u00e3o se limitam ao grande desastre de maio de 2024.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ana Paula da Silva, moradora do Quilombo S\u00e3o Roque, em Arroio do Meio, descreve a realidade enfrentada: \u201cQuando chove muita \u00e1gua, ela vem de tudo que \u00e9 lado, desce pelas valetas e pelas laterais, a estrada vira s\u00f3 buraco. Foi ela que causou tudo aquilo\u201d, afirma, apontando para os deslizamentos de terra ao redor da comunidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a resid\u00eancia de Francine Martins, moradora do Quilombo Fam\u00edlia de Ouro, na Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre, foi invadida pela \u00e1gua duas vezes em 2024. A primeira ocorreu em janeiro e a segunda, em maio. \u201cQuando veio a primeira chuva, alagou tudo. Da\u00ed erguermos um muro de pedra nos fundos.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com recursos escassos, o muro foi feito sem o aterro adequado e tudo ruiu com a enchente seguinte: \u201cA\u00ed alagou de novo, a gente perdeu tudo da cozinha. Os arm\u00e1rios eram de madeira antes\u201d, diz, apontando para os m\u00f3veis atuais, agora feitos de cer\u00e2mica. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sem a ajuda do governo, uma vaquinha virtual possibilitou a reconstru\u00e7\u00e3o. A estrutura do muro foi refeita com aterro e piso novo. \u201cAgora, o que molha \u00e9 s\u00f3 o p\u00e1tio. A \u00e1gua n\u00e3o entra mais.\u201d<br><br>Mas o medo ficou. Mesmo ap\u00f3s as melhorias, Francine confessa que n\u00e3o consegue dormir quando chove. \u201cFico na sala ou na \u00e1rea, tomando chimarr\u00e3o e olhando a chuva. \u00c9 o trauma. Quando a chuva aperta, j\u00e1 come\u00e7o a recolher brinquedo do Pedro [seu filho], tapete, tudo. Mesmo sabendo que n\u00e3o vai mais alagar, eu recolho. \u00c9 autom\u00e1tico.\u201d O comportamento n\u00e3o \u00e9 isolado. \u201cQuando come\u00e7a a chover, o grupo do WhatsApp j\u00e1 ferve: \u2018Entrou \u00e1gua a\u00ed?\u2019, \u2018T\u00e1 forte a chuva?\u2019\u201d, conta. A m\u00e3e de Francine \u00e9 sempre a primeira a mandar mensagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120323\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6329-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Francine aponta a altura em que a \u00e1gua subiu dentro de sua casa (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120320\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6310-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Francine Martins e Pedro, seu filho, que vivem no Quilombo Fam\u00edlia de Ouro, na Lomba do Pinheiro, na regi\u00e3o metropolitana de Porto Alegre (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120382\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6313-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O receio compartilhado \u00e9 natural, segundo a psic\u00f3loga Juliana Prates, professora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia da Universidade Federal da Bahia (UFBA). \u201cEm uma situa\u00e7\u00e3o como as enchentes n\u00e3o h\u00e1 como esperar que as pessoas n\u00e3o sintam medo. O medo \u00e9 um protetor, \u00e9 ele que nos mant\u00e9m alertas para agir de forma r\u00e1pida.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O problema, segundo a professora, \u00e9 permanecer nesse estado de forma constante. \u201cIsso desgasta o organismo, afeta o sono, a concentra\u00e7\u00e3o, as rela\u00e7\u00f5es. O estado de alerta, se mantido por muito tempo, pode levar ao desenvolvimento de psicopatologias\u201d, pontua.<br><br>Uma destas \u00e9 a <a href=\"https:\/\/www.nationalgeographicbrasil.com\/ciencia\/2023\/12\/ansiedade-climatica-quais-sao-os-sinais-de-que-uma-pessoa-esta-sofrendo-com-o-problema#:~:text=Mas%20o%20que%20%C3%A9%20exatamente,os%20efeitos%20das%20mudan%C3%A7as%20clim%C3%A1ticas%E2%80%9D.\">ansiedade clim\u00e1tica<\/a>, fen\u00f4meno relacionado ao impacto emocional causado por eventos clim\u00e1ticos extremos. \u201cAlagamentos, secas extremas, etc., produzem sintomas de ansiedade nas pessoas. E as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis, mais perif\u00e9ricas, s\u00e3o aquelas que est\u00e3o mais expostas a situa\u00e7\u00f5es como essas\u201d, afirma a professora. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando se pensa em crian\u00e7as que crescem nesses contextos, os impactos s\u00e3o ainda mais preocupantes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEsses efeitos ps\u00edquicos, quando prolongados, podem causar diversos preju\u00edzos ao desenvolvimento infantil, afetando a aprendizagem, o bem-estar emocional e v\u00e1rios outros aspectos\u201d<\/p>\n<cite>Juliana Prates<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120392\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-3046-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">O Quilombo Fam\u00edlia de Ouro fica em uma baixada, com morros ao redor que fazem com que a \u00e1gua facilmente ocupe a regi\u00e3o (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120322\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombos_enchentes_Flavio-Dutra-6318-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um dos c\u00f3rregos que encheram d&#8217;\u00e1gua e inundaram as casas no Quilombo Familia de Ouro (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Um sentir heredit\u00e1rio <\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pedro Martins tinha apenas 10 meses quando deu seus primeiros passos no ch\u00e3o ainda coberto de barro, areia e restos, deixados pela \u00faltima enchente. Os destro\u00e7os espalhados pela casa n\u00e3o o impediram. \u201cEra sujeira e saco de roupa pra todo lado, mas ele andava por tudo\u201d, lembra Francine Martins, m\u00e3e do pequeno. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas semanas depois da nossa conversa, Francine me mandou um v\u00eddeo do Pedro. Chovia h\u00e1 dois dias seguidos na capital ga\u00facha, e ele, agora um pouco maior, sinalizava estar com medo da chuva &#8211; assim como sua m\u00e3e. \u201cAs crian\u00e7as absorvem muito das emo\u00e7\u00f5es de quem cuida delas. Se a m\u00e3e ou o cuidador est\u00e1 ansioso, essa ansiedade acaba sendo transmitida para a crian\u00e7a\u201d, explica Juliana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s as enchentes, a psic\u00f3loga sinaliza que os adultos vivem, de certa forma, um estresse p\u00f3s-traum\u00e1tico. &#8220;Eles sofrem aquilo que \u00e9 o efeito de um evento anterior. E, por isso, as chuvas v\u00e3o trazer toda a recorda\u00e7\u00e3o do evento traum\u00e1tico que foi vivido&#8221;, afirma.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juliana destaca que, provavelmente, o efeito \u00e9 maior sobre os cuidadores do que sobre as crian\u00e7as. &#8220;S\u00f3 que, obviamente, isso vai se retroalimentando. Ent\u00e3o, se os cuidadores t\u00eam medo da chuva e reagem de forma diferente com as crian\u00e7as, se sentem tensos, etc., a crian\u00e7a tamb\u00e9m vai se desenvolver nesse mesmo sentimento. N\u00e3o necessariamente recordando do evento que aconteceu quando elas tinham 10 meses [idade do Pedro na \u00e9poca], mas recordando essa experi\u00eancia que \u00e9 mais recente.&#8221;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O <a href=\"https:\/\/www.unicef.org\/documents\/care-child-development\">Care for Child Development<\/a> (CCD), ou Cuidado para o Desenvolvimento Infantil, \u00e9 uma iniciativa conjunta do Fundo das Na\u00e7\u00f5es Unidas para a Inf\u00e2ncia (Unicef) e da <a href=\"https:\/\/www.who.int\/about\">Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade <\/a>(OMS), voltada \u00e0 promo\u00e7\u00e3o do desenvolvimento infantil na primeira inf\u00e2ncia &#8211; especialmente nos primeiros tr\u00eas anos de vida. Em 2012, o projeto elaborou um <a href=\"https:\/\/www.mds.gov.br\/webarquivos\/publicacao\/crianca_feliz\/cuidados_para_desenvolvimento_crianca.pdf\">manual de orienta\u00e7\u00f5es<\/a>, posteriormente traduzido e adaptado pelo <a href=\"https:\/\/www.gov.br\/mds\/pt-br\/acoes-e-programas\/crianca-feliz\">Programa Crian\u00e7a Feliz<\/a>, que destaca o cuidador como a figura mais importante na vida da crian\u00e7a \u2013 respons\u00e1vel por aliment\u00e1-la, proteg\u00ea-la, oferecer afeto, se comunicar e atender \u00e0s suas necessidades. Na maioria dos casos, esse cuidador \u00e9 a pr\u00f3pria m\u00e3e. E algumas delas foram marcadas pelo anseio clim\u00e1tico ainda na gravidez.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 o caso de Ana Paula da Silva, moradora do Quilombo de S\u00e3o Roque, gr\u00e1vida de seis meses na \u00e9poca das enchentes de maio de 2024.&nbsp;Embora o quilombo esteja situado em uma \u00e1rea elevada \u2013 o que reduz o risco direto de inunda\u00e7\u00f5es \u2013, o solo encharcou, comprometendo a estabilidade do terreno e provocando deslizamentos de encostas. As estradas que ligam a comunidade ao munic\u00edpio tamb\u00e9m ficaram bloqueadas, deixando os moradores ilhados e dificultando o acesso a servi\u00e7os essenciais, como sa\u00fade e abastecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Houve uma madrugada, ap\u00f3s tr\u00eas dias cont\u00ednuos de chuvas, em que Ana Paula e sua fam\u00edlia se viram em uma situa\u00e7\u00e3o limite. A terra come\u00e7ou a ceder e um poste de luz em frente \u00e0 casa em que moravam estava parcialmente solto e amea\u00e7ava cair sobre a resid\u00eancia. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao amanhecer, eles iniciaram uma caminhada de mais de quatro horas por trilhas improvisadas em meio ao mato. O destino: a casa da tia Eliane, localizada em uma \u00e1rea mais segura, na comunidade vizinha, em Palmas. A chegada at\u00e9 l\u00e1, por\u00e9m, foi cercada de obst\u00e1culos. &#8220;Passamos por porteiras, cercas, onde ficam os animais. Achamos trilhas para conseguir chegar, desviando dos pontos de enchente&#8221;, relembra Ana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A adrenalina era tanta que ela nem sentiu o trajeto. \u201cEu estava muito preocupada com os morros. Tinha gente chorando por bens materiais, pelos animais, e eu pensava: &#8216;Deus, s\u00f3 me deixa com a minha filha. Se quiser levar os bens, paci\u00eancia. Eu trabalho e conquisto de novo. S\u00f3 me deixa com ela&#8217;.&#8221; Eles ficaram abrigados na casa da tia, junto <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/ilhadas-e-com-infraestrutura-precarizada-comunidades-quilombolas-rurais-enfrentam-dificuldades-em-meio-as-chuvas-e-estragos-das-enchentes\/\">de outras 20 pessoas<\/a>. L\u00e1, enfrentaram a falta de luz e a limita\u00e7\u00e3o de \u00e1gua e alimentos. \u201cTodo mundo se tratou bem, mas n\u00e3o era a minha casa.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s cinco dias, Ana Paula conseguiu ir para a casa da sogra, no munic\u00edpio de Capit\u00e3o, e ficou l\u00e1 at\u00e9 que pudesse retornar \u00e0 comunidade. Hoje, com a pequena Emilly completando um ano, ela reconhece que a situa\u00e7\u00e3o teria sido ainda mais dif\u00edcil caso tivesse que fazer a mesma travessia com a beb\u00ea nos bra\u00e7os. Desde que a filha nasceu, ela se mant\u00e9m preparada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Sempre tenho uma lata de leite a mais, ou pelo menos, se tem metade, j\u00e1 compro outra. Quando eu sei que a previs\u00e3o \u00e9 de muita chuva, n\u00e9?! \u00c0s vezes d\u00e1 os alertas e essas coisas, e eu n\u00e3o deixo faltar  leite nem fralda, tenho muito medo&#8221;<\/p>\n<cite>Ana Paula da Silva<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O medo como um sentimento leg\u00edtimo<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/estpsi\/a\/HGWM5kyQb744C3YkT6YgKGp\/?format=html&amp;lang=pt\">Segundo pesquisadores<\/a> da Universidade de S\u00e3o Paulo (USP), crian\u00e7as geralmente desenvolvem at\u00e9 24 meses a regula\u00e7\u00e3o emocional, que se configura na capacidade de expressar emo\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, como o medo, de forma mais est\u00e1vel. O que explica a rea\u00e7\u00e3o de Guilherme Wanschel, hoje com 3 anos, quando come\u00e7a a chover. &#8220;Mesmo que seja uma chuva tranquila ele fica com muito medo. Hoje de manh\u00e3 mesmo, ele me olhou e falou: \u2018M\u00e3e, t\u00e1 chovendo!\u2019, todo apavorado. Quando fica nublado, j\u00e1 d\u00e1 pra ver que ele fica mais sens\u00edvel. Ele puxa a aten\u00e7\u00e3o, fica grudado\u201d, conta Liliane Wanschel, tamb\u00e9m moradora do Quilombo S\u00e3o Roque e m\u00e3e de Guilherme, que tinha 2 anos e 6 meses quando a \u00e1gua invadiu a casa em que moravam.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A casa de Liliane, localizada em uma das \u00e1reas mais baixas do quilombo, ficou completamente desabitada ap\u00f3s as enchentes. \u201cPor um tempo, fiquei na casa da minha m\u00e3e. Mas como a casa dela tamb\u00e9m era \u00e1rea de risco, a gente precisou sair. A\u00ed fomos pra casa do meu irm\u00e3o. Depois achamos que \u00edamos poder voltar, mas n\u00e3o deu. Acabamos ficando [em um abrigo] no sal\u00e3o da escola\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A constante mudan\u00e7a de ambientes foi outro fator que impactou Guilherme. Longe dos brinquedos, do espa\u00e7o familiar e de sua rotina, o menino teve dificuldades para se adaptar. \u201cN\u00e3o dormia direito, estranhou o lugar. N\u00e3o tinha as coisinhas dele, ficou tudo pra tr\u00e1s. S\u00f3 levei algumas roupas, n\u00e3o tinha muito o que fazer.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao todo, a fam\u00edlia passou quase 40 dias fora de casa. Quando finalmente voltaram, a realidade ainda era hostil. \u201cA casa estava cheia de barro. Demorou at\u00e9 a gente conseguir limpar, e ainda n\u00e3o tinha \u00e1gua nem luz&#8221;, relembra Liliane. E, nesse retorno, Liliane percebeu mudan\u00e7as no comportamento do filho.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEle ficou meio paradinho&#8230; N\u00e3o d\u00e1 para dizer que foi trauma, mas ficou mais quietinho. Ele se sentia estranho dentro da nossa casa, porque ele j\u00e1 estava acostumado com outra rotina, n\u00e9? N\u00e3o era mais \u2018a casa dele\u2019. Mas depois&#8230; &#8211; crian\u00e7a, n\u00e9?! &#8211; foi normalizando\u201d<\/p>\n<cite>Liliane Wanschel<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A psic\u00f3loga Juliana Prates explica que esse tipo de rea\u00e7\u00e3o \u00e9 esperado em crian\u00e7as que vivenciaram traumas relacionados a desastres naturais, especialmente quando continuam expostas \u00e0s mesmas condi\u00e7\u00f5es. Nesses casos, a professora destaca que o acolhimento \u00e9 fundamental. \u201c\u00c9 preciso reconhecer e aceitar esses sentimentos que as crian\u00e7as demonstram. Quando a gente est\u00e1 sentindo medo, o que queremos \u00e9 algu\u00e9m que nos acolha; \u00e9 algu\u00e9m que nos ou\u00e7a\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em crian\u00e7as muito pequenas, como era o caso de Guilherme, o medo pode se manifestar de formas indiretas, explica. \u201cPara uma crian\u00e7a de 3 anos, que \u00e9 t\u00e3o pequena, o que a gente pode observar em termos de express\u00e3o de medo, \u00e0s vezes, \u00e9 uma regress\u00e3o dos comportamentos. Era uma crian\u00e7a que n\u00e3o fazia mais xixi, e volta a fazer xixi na cama. Era uma crian\u00e7a que j\u00e1 n\u00e3o chupava mais dedo, e volta a chupar dedo. \u00c9 uma crian\u00e7a que quer mais colo [como aconteceu com Guilherme]. O fundamental \u00e9 que a gente possa ter paci\u00eancia para acolher esse sentimento de elabora\u00e7\u00e3o do evento vivido.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando essas rea\u00e7\u00f5es se tornam persistentes e come\u00e7am a impedir a crian\u00e7a de vivenciar novas experi\u00eancias \u2013 como entrar na escola, frequentar atividades ou socializar \u2013, a psic\u00f3loga sinaliza que \u00e9 hora de buscar ajuda especializada.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Mas o trauma nem sempre aparece<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Quilombo Costa da Lagoa, localizado no munic\u00edpio de Capivari do Sul, vive Lorena Netto, que na \u00e9poca das enchentes tinha 5 anos. Na rua em que morava, a \u00e1gua come\u00e7ou a subir r\u00e1pido: &#8220;Eu e meu marido levantamos tudo at\u00e9 a altura da cintura, imaginando que a \u00e1gua chegaria ali&#8221;, conta Paula Bernardes Netto, m\u00e3e da menina. Cadeiras, camas, roupas: tudo foi empilhado numa tentativa desesperada de salvar o que fosse poss\u00edvel. Sem saber quanto tempo ficariam fora de casa, a fam\u00edlia buscou abrigo tempor\u00e1rio em uma resid\u00eancia vazia de um conhecido, em Santa Rosa. Ficaram um m\u00eas l\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A parte de dentro da casa em que moravam, n\u00e3o alagou, mas ficou ilhada. Lorena n\u00e3o demonstrou medo ou trauma com a situa\u00e7\u00e3o; pelo contr\u00e1rio, encarou tudo como uma grande aventura. &#8220;A gente tentava fazer disso algo divertido&#8221;, conta Paula. &#8220;Colocamos botas e botamos ela e minha m\u00e3e num barco, puxamos com o carro at\u00e9 onde dava. Ela dizia: &#8216;Nossa, t\u00f4 andando de barco na rua da minha casa!&#8217;.&#8221;<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120389\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7375-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Paula Bernardes Netto, em frente a sua casa. Durante as enchentes de 2024, o \u00fanico acesso poss\u00edvel \u00e0 moradia era com barco (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120388\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7365-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Lorena brinca em seu quarto, no Quilombo Costa da Lagoa (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, aos 6 anos, Lorena n\u00e3o demonstra medo da chuva nem sentimentos controversos em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 \u00e9poca das enchentes, diz a m\u00e3e. \u201cAs experi\u00eancias, para serem consideradas traum\u00e1ticas ou n\u00e3o, dependem de como o sujeito experiencia aquele momento. Ent\u00e3o, de fato, as crian\u00e7as podem ter recorda\u00e7\u00f5es de eventos que s\u00e3o dif\u00edceis, que foram dif\u00edceis para os adultos, mas que elas perceberam como leves, porque elas recordam outras quest\u00f5es, outras dimens\u00f5es&#8221;, afirma Juliana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A psic\u00f3loga faz um paralelo com a pandemia da covid-19, quando, apesar da gravidade do cen\u00e1rio, muitas crian\u00e7as lembram daquele per\u00edodo com carinho. &#8220;O fato de ficar em casa com os cuidadores pode ter sido percebido como uma \u00e9poca boa, porque eles n\u00e3o tinham escola, ou porque eles estavam em casa, eles podiam brincar o dia inteiro&#8221;, explica.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" data-id=\"120391\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120391\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7450-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" data-id=\"120386\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120386\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7326-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">Acima, entrada do Quilombo Costa da Lagoa, em Capivari do Sul, na regi\u00e3o do Litoral do Rio Grande do Sul. Abaixo, quintal da casa de Paula, tamb\u00e9m no Quilombo Costa da Lagoa (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">As especificidades da primeira inf\u00e2ncia quilombola<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trag\u00e9dias clim\u00e1ticas escancaram a urg\u00eancia de a\u00e7\u00f5es voltadas \u00e0s popula\u00e7\u00f5es quilombolas, uma vez que a subsist\u00eancia dessas pessoas depende do clima. <a href=\"https:\/\/www.agricultura.rs.gov.br\/diagnostico-mostra-panorama-da-situacao-de-comunidades-quilombolas-no-estado\">Uma pesquisa<\/a> coordenada pela Secretaria da Agricultura, Pecu\u00e1ria, Produ\u00e7\u00e3o Sustent\u00e1vel e Irriga\u00e7\u00e3o do RS e executada pela Emater\/RS-Ascar indica que em 58% das comunidades remanescentes de quilombo (urbanas e rurais) do Rio Grande do Sul, h\u00e1 fam\u00edlias que comercializam sua produ\u00e7\u00e3o agropecu\u00e1ria. No Quilombo Costa da Lagoa, por exemplo, a produ\u00e7\u00e3o na pesca foi muito afetada durante as enchentes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTeve [ainda] a planta\u00e7\u00e3o de aipim do vizinho; estragou tudo. Os porcos, os bichos, soltaram pra n\u00e3o afogar\u201d<\/p>\n<cite>Paula Bernardes Netto<\/cite><\/blockquote>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-120387\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2025\/09\/Quilombo_enchentes_Flavio-Dutra-7334-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos principais temas abordados pela <a href=\"https:\/\/www.wribrasil.org.br\/noticias\/entenda-o-que-e-justica-climatica\">justi\u00e7a clim\u00e1tica<\/a> \u00e9 a evid\u00eancia de que as popula\u00e7\u00f5es mais vulner\u00e1veis \u2013 e que menos contribu\u00edram para a crise clim\u00e1tica \u2013 s\u00e3o justamente as que mais sofrem com seus efeitos. &#8220;Para essas pessoas, a natureza n\u00e3o \u00e9 um pano de fundo, \u00e9 parte intr\u00ednseca da vida&#8221;, diz Juliana. Um olhar atento \u00e0 primeira inf\u00e2ncia quilombola \u00e9 um olhar que valoriza os saberes tradicionais, que zela pela natureza. \u00c9 um olhar que reconhece e enfrenta as desigualdades que marcam de forma desproporcional essas comunidades, seus cuidadores e suas crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Das pol\u00edticas voltadas para crian\u00e7as pequenas, h\u00e1 no Rio Grande do Sul, al\u00e9m do programa federal Crian\u00e7a Feliz, uma iniciativa local que se destaca por seu trabalho cont\u00ednuo h\u00e1 mais de duas d\u00e9cadas: o Primeira Inf\u00e2ncia Melhor (PIM). Criado em 2003, o PIM \u00e9 uma pol\u00edtica p\u00fablica voltada ao desenvolvimento integral de crian\u00e7as de 0 a 6 anos que vivem em contextos de risco social, al\u00e9m de atender gestantes. Em Porto Alegre, o programa atua principalmente com visitas domiciliares semanais a fam\u00edlias sorteadas em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade. Todas os visitadores da capital s\u00e3o t\u00e9cnicos em enfermagem, e cada um acompanha de 20 a 22 crian\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme explica a coordenadora do PIM em Porto Alegre, S\u00f4nia Silvestrin, o programa busca, por meio de uma s\u00e9rie de a\u00e7\u00f5es, garantir a igualdade de direitos ao desenvolvimento infantil. &#8220;Levamos brinquedos, informa\u00e7\u00f5es para os pais, promovemos atividades voltadas \u00e0 parentalidade positiva, incentivando uma inf\u00e2ncia livre de castigos, livre de viol\u00eancia e com redu\u00e7\u00e3o das vulnerabilidades.\u201d Al\u00e9m dos visitadores fixos, fam\u00edlias acompanhadas pelo programa tamb\u00e9m recebem apoio multidisciplinar, com visitas peri\u00f3dicas de profissionais da sa\u00fade, educa\u00e7\u00e3o e assist\u00eancia social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as enchentes, o programa contou com o apoio da ONG Promundo, que atua na promo\u00e7\u00e3o da equidade de g\u00eanero, justi\u00e7a racial e fortalecimento das inf\u00e2ncias. Os visitadores de diversos munic\u00edpios passaram por forma\u00e7\u00f5es espec\u00edficas para lidar com o impacto dos desastres clim\u00e1ticos sobre as crian\u00e7as. &#8220;Foram quatro quartas-feiras de curso que habilitaram os visitadores a olharem com mais aten\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as afetadas pelas enchentes&#8221;, explica S\u00f4nia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, desde 2022, o PIM de Porto Alegre n\u00e3o realiza visitas a crian\u00e7as quilombolas, pois o sistema de sorteio n\u00e3o leva em conta as especificidades \u00e9tnicas das comunidades. Em outros munic\u00edpios ga\u00fachos, como Camaqu\u00e3 e Restinga Seca, o atendimento alcan\u00e7a mais de vinte crian\u00e7as quilombolas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme explica Mar\u00edlia Bianchini, coordenadora estadual do PIM, h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o em garantir que os visitadores perten\u00e7am \u00e0s pr\u00f3prias comunidades \u2013 ind\u00edgenas ou quilombolas \u2013 para que haja uma atua\u00e7\u00e3o mais efetiva e respeitosa com os saberes e a cultura local. A contrata\u00e7\u00e3o desses profissionais, contudo, assim como a\u00e7\u00f5es pensadas exclusivamente para os quilombos, ainda dependem das pol\u00edticas e condi\u00e7\u00f5es de cada munic\u00edpio.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><mark style=\"background-color:#f5f5f5\" class=\"has-inline-color\">Esta reportagem recebeu <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/reporter-do-ju-recebe-financiamento-da-universidade-columbia-para-reportagem-sobre-mudancas-climaticas-e-criancas-quilombolas\/\">apoio<\/a> do programa <em>Early Childhood Reporting Fellowship<\/em>, do <em>Global Center for Journalism and Trauma<\/em><\/mark>.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de 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