{"id":122712,"date":"2026-08-27T07:26:00","date_gmt":"2026-08-27T10:26:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=122712"},"modified":"2026-08-27T09:13:10","modified_gmt":"2026-08-27T12:13:10","slug":"a-ovinocultura-da-peninsula-litoranea-do-rs","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-ovinocultura-da-peninsula-litoranea-do-rs\/","title":{"rendered":"A ovinocultura da pen\u00ednsula litor\u00e2nea do RS"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Roberta Fogliatto Mariot, docente do ICTA, aponta o potencial de valoriza\u00e7\u00e3o da atividade com a estrutura\u00e7\u00e3o da cadeia produtiva da carne ovina e o reconhecimento da indica\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Ilustra\u00e7\u00e3o:&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/artiumana\">Ana Carnelossi<\/a>\/&nbsp;<em><a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/histpraticart\/\">Programa de Extens\u00e3o Hist\u00f3rias e Pr\u00e1ticas Art\u00edsticas<\/a>, DAV-IA\/UFRGS<\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Localizada entre a Lagoa dos Patos e o Oceano Atl\u00e2ntico, a Pen\u00ednsula Litor\u00e2nea do Rio Grande do Sul (RS), que inclui os munic\u00edpios de Palmares do Sul, Mostardas, Tavares e S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte, \u00e9 caracterizada por ventos intensos, clima ameno e baixa amplitude t\u00e9rmica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O processo geol\u00f3gico de forma\u00e7\u00e3o confere a esse territ\u00f3rio caracter\u00edsticas \u00fanicas. Os solos foram formados por regress\u00f5es e transgress\u00f5es do mar, resultando no ac\u00famulo de sedimentos perme\u00e1veis do mar e da lagoa em subsuperf\u00edcies denominadas paleocanais. Esses paleocanais permitem a entrada de sais do oceano e sua ascens\u00e3o no solo. Como consequ\u00eancia, diversos problemas ligados a salinidade do solo s\u00e3o relatados na agricultura da regi\u00e3o e in\u00fameros esfor\u00e7os s\u00e3o dispendidos para as suas corre\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 produ\u00e7\u00e3o pecu\u00e1ria, a salinidade pode ser justamente um diferencial ben\u00e9fico e de agrega\u00e7\u00e3o de valor. Em muitas \u00e1reas de solo salino desse territ\u00f3rio h\u00e1 a ocorr\u00eancia da pastagem nativa do bioma Pampa da Pen\u00ednsula Litor\u00e2nea, inclusive com a presen\u00e7a de esp\u00e9cies hal\u00f3fitas. Plantas hal\u00f3fitas s\u00e3o aquelas que toleram grandes quantidades de sal e comumente possuem alta concentra\u00e7\u00e3o de s\u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s demais. Acredita-se que esta seja uma das principais raz\u00f5es para o diferencial da carne produzida na regi\u00e3o, j\u00e1 que estudos demonstram que esp\u00e9cies hal\u00f3fitas s\u00e3o uma excelente alimenta\u00e7\u00e3o para ruminantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa diferencia\u00e7\u00e3o foi inclusive mencionada por Auguste de Saint-Hilaire (1779-1853) para a carne de bovino em seu livro \u201cViagem ao Rio Grande do Sul\u201d, e est\u00e1 inserida na cultura local. Entretanto, \u00e9 a carne ovina produzida na Pen\u00ednsula que possui uma notoriedade na regi\u00e3o e vem ganhando adeptos nas demais zonas do estado e do Brasil.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pecu\u00e1ria no bioma Pampa permite a manuten\u00e7\u00e3o da vegeta\u00e7\u00e3o nativa e, portanto, a preserva\u00e7\u00e3o do bioma, al\u00e9m de ser uma alternativa de renda para os produtores, j\u00e1 que a carne de cordeiro \u00e9 um produto de alto valor agregado. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vale ressaltar que a economia dessa regi\u00e3o tem como pilares principais a agricultura (prejudicada pela salinidade do solo), o extrativismo vegetal, a pesca e a pecu\u00e1ria, que pode ser beneficiada por caracter\u00edsticas \u00fanicas desse territ\u00f3rio, como a salinidade e as temperaturas amenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da notoriedade e da tradi\u00e7\u00e3o, a ovinocultura n\u00e3o \u00e9 uma relevante atividade econ\u00f4mica para a regi\u00e3o. Segundo estudiosos, a cadeia produtiva da carne ovina da Pen\u00ednsula Litor\u00e2nea \u00e9 desestruturada, assim como a ovinocultura das demais regi\u00f5es do RS, devido principalmente ao abate e \u00e0 comercializa\u00e7\u00e3o informal, tamb\u00e9m pela dificuldade de encontrar frigor\u00edficos especializados em abates desses animais e a falta de coordena\u00e7\u00e3o entre os produtores e os demais elos da cadeia produtiva.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dados populacionais de ovinos da Pen\u00ednsula evidenciam esses problemas, demonstrando uma propor\u00e7\u00e3o de 95,6% de abate informal e uma redu\u00e7\u00e3o do rebanho de 33,3% entre os anos de 2012 e 2021. Por outro lado, uma pesquisa sobre o mercado de carne ovina do Brasil e do RS verificou que essa atividade \u00e9 uma excelente oportunidade de gera\u00e7\u00e3o de renda para produtores de todos os portes, j\u00e1 que a produ\u00e7\u00e3o nacional e regional de carne de cordeiro n\u00e3o \u00e9 capaz de suprir o mercado interno nem o aumento da demanda por esse produto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Pen\u00ednsula conta ainda com importante tradi\u00e7\u00e3o relacionada \u00e0 ovinocultura, que \u00e9 o artesanato laneiro. Apesar de ser considerado um patrim\u00f4nio hist\u00f3rico e cultural, o artesanato com a l\u00e3 dessa regi\u00e3o est\u00e1 com os dias contados, j\u00e1 que poucos s\u00e3o os artes\u00e3os que continuam com esse of\u00edcio. A ovinocultura da regi\u00e3o, portanto, tem potencial para obten\u00e7\u00e3o de um sinal distintivo como uma Indica\u00e7\u00e3o Geogr\u00e1fica (IG).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-columns is-layout-flex wp-container-core-columns-is-layout-8f761849 wp-block-columns-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignright size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"328\" height=\"440\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129501\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto3.jpg 328w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto3-224x300.jpg 224w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto3-87x117.jpg 87w\" sizes=\"(max-width: 328px) 100vw, 328px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Novelo de l\u00e3 produzido artesanalmente (Fonte: Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-column is-layout-flow wp-block-column-is-layout-flow\"><div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"alignleft size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" width=\"398\" height=\"537\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129502\" style=\"width:325px;height:auto\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto4.jpg 398w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto4-222x300.jpg 222w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto4-87x117.jpg 87w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto4-371x500.jpg 371w\" sizes=\"(max-width: 398px) 100vw, 398px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Artes\u00e3 no tear elaborando o cobertor mostardense (Fonte: Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sinais distintivos protegem um produto da concorr\u00eancia desleal, principalmente em uma economia globalizada. Marcas coletivas e IGs preservam os recursos naturais e mant\u00eam vivas as tradi\u00e7\u00f5es locais do &#8220;saber fazer&#8221;, agregando valor aos produtos. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A necessidade de ser obtida por meio de uma associa\u00e7\u00e3o e ser um bem coletivo faz desses sinais uma ferramenta de desenvolvimento territorial e rural. A qualidade desse tipo de produto aliment\u00edcio \u00e9 muito apreciada pela gastronomia, o que pode ser um atrativo que estimule o desenvolvimento do turismo rural dessas regi\u00f5es, exercendo assim uma fun\u00e7\u00e3o social e de sustentabilidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atrativos tur\u00edsticos n\u00e3o faltam para a regi\u00e3o. E um deles \u00e9 o Parque Nacional da Lagoa do Peixe. Criado em 1986 e atualmente gerido pelo Instituto Chico Mendes, a preserva\u00e7\u00e3o dessa \u00e1rea tem o objetivo de proteger essa joia do nosso litoral, que recebe esp\u00e9cies de aves migrat\u00f3rias que dele dependem para o seu ciclo vital. O parque fica entre os munic\u00edpios de Tavares, Mostardas e S\u00e3o Jos\u00e9 do Norte, e \u00e9 uma extensa plan\u00edcie arenosa localizada entre a lagoa e o mar (Fotos 1 e 2).<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"337\" height=\"453\" data-id=\"129499\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129499\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto1.jpg 337w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto1-223x300.jpg 223w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto1-87x117.jpg 87w\" sizes=\"(max-width: 337px) 100vw, 337px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"272\" height=\"357\" data-id=\"129500\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129500\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto2.jpg 272w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto2-229x300.jpg 229w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/Ovinocultura_Foto2-89x117.jpg 89w\" sizes=\"(max-width: 272px) 100vw, 272px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">Parque Nacional do Lagoa do Peixe (Fonte: Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a <a href=\"https:\/\/www.fao.org\/4\/i1760e\/i1760e.pdf\">Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas para Alimenta\u00e7\u00e3o e Agricultura<\/a>, para que processos de valoriza\u00e7\u00e3o de um produto local seja bem-sucedido, \u00e9 fundamental qualificar tanto o produto quanto o seu territ\u00f3rio de origem. Essa qualifica\u00e7\u00e3o envolve a identifica\u00e7\u00e3o precisa das caracter\u00edsticas do produto e dos recursos locais que os distinguem, o que requer an\u00e1lises cient\u00edficas. Institui\u00e7\u00f5es de ensino e pesquisa, como UFRGS e EMBRAPA, s\u00e3o essenciais nesse processo, j\u00e1 que disp\u00f5em do conhecimento t\u00e9cnico e dos m\u00e9todos anal\u00edticos necess\u00e1rios para conduzir essa qualifica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A obten\u00e7\u00e3o de um selo distintivo, com as etapas inerentes ao processo, como a organiza\u00e7\u00e3o e colabora\u00e7\u00e3o dos produtores e a formaliza\u00e7\u00e3o da atividade, traria in\u00fameros benef\u00edcios \u00e0 Pen\u00ednsula. Esse territ\u00f3rio abriga atra\u00e7\u00f5es tur\u00edsticas e outros produtos agroalimentares de destaque, como o camar\u00e3o rosa da Lagoa dos Peixe, capturado por pescadores artesanais; o feij\u00e3o sopinha, de origem africana, cultivado h\u00e1 mais de 200 anos principalmente por comunidades quilombolas; e o Arroz do Litoral Norte, j\u00e1 reconhecido por uma IG por Denomina\u00e7\u00e3o de Origem.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-accent-background-color has-background wp-block-paragraph\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2293298558784684\">Roberta Fogliatto Mariot<\/a> \u00e9 professora do Departamento de Ci\u00eancias dos Alimentos do Instituto de Ci\u00eancia e Tecnologia de Alimentos (ICTA) da UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline is-style-outline--2\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/artigo\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da coluna <strong>Artigos<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center has-small-font-size wp-block-paragraph\"><em>As opini\u00f5es expressas nos textos assinados s\u00e3o de responsabilidade de seus autores e n\u00e3o refletem o posicionamento editorial do JU ou da UFRGS.<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n<\/div><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Roberta 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