{"id":126156,"date":"2026-07-30T07:45:00","date_gmt":"2026-07-30T10:45:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=126156"},"modified":"2026-07-31T17:43:15","modified_gmt":"2026-07-31T20:43:15","slug":"cremilda-medina-nenhuma-pauta-pode-sair-com-perguntinhas-de-algibeira-e-a-relacao-que-vai-montar-a-construcao-simbolica-ou-a-narrativa-da-reportagem","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/cremilda-medina-nenhuma-pauta-pode-sair-com-perguntinhas-de-algibeira-e-a-relacao-que-vai-montar-a-construcao-simbolica-ou-a-narrativa-da-reportagem\/","title":{"rendered":"Cremilda Medina: &#8220;Quando a ci\u00eancia tenta se comunicar de forma autorit\u00e1ria, o fracasso \u00e9 recorrente&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Jornalista, pesquisadora e professora da Universidade de S\u00e3o Paulo, Cremilda Medina reflete sobre a rela\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e sociedade, e defende um jornalismo humanizado, que respeita os saberes e exige do rep\u00f3rter a presen\u00e7a ativa dos cinco sentidos<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Arquivo Pessoal\/Gabriel Medina<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante da c\u00e2mera do seu computador, <a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/8577293513672267\">Cremilda Celeste de Ara\u00fajo Medina<\/a> esbo\u00e7ou um largo sorriso ao ouvir esta rep\u00f3rter se apresentar. De Porto Alegre, realizei o sonho de entrevistar uma das principais escritoras e estudiosas da comunica\u00e7\u00e3o, que me deu a base para a constru\u00e7\u00e3o de uma boa entrevista e que caminha comigo desde a gradua\u00e7\u00e3o. Do outro lado da tela, estava a jornalista formada pela UFRGS, professora e pesquisadora na Universidade de S\u00e3o Paulo (USP) e refer\u00eancia primordial na forma\u00e7\u00e3o de jornalistas em todo o pa\u00eds.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta entrevista, Cremilda Medina dialoga sobre as pr\u00e1ticas jornal\u00edsticas, reflete sobre a constru\u00e7\u00e3o da not\u00edcia em tempos de intelig\u00eancia artificial e refor\u00e7a o papel fundamental de um di\u00e1logo presencial para ver, ouvir e sentir a fonte. Essa autora de 20 livros, organizadora de 63 colet\u00e2neas nas \u00e1reas de comunica\u00e7\u00e3o, jornalismo e literatura, natural de Portugal, mas que na inf\u00e2ncia se mudou para Porto Alegre, aos seus 84 anos se mostra l\u00facida, afetuosa e entusiasta de um fazer jornal\u00edstico com apura\u00e7\u00e3o precisa e altamente relacional.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 passaram pela professora titular s\u00eanior da USP 500 estudantes de Jornalismo, 33 orientandos de doutorado e 28 de mestrado, al\u00e9m de dois de p\u00f3s-doutorado. Atualmente Cremilda supervisiona um p\u00f3s-doutorando e orienta um doutorando e um mestrando.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com o companheiro, Sinval Medina, Cremilda lan\u00e7ou o projeto <a href=\"https:\/\/lendasenarrativas.com.br\/\">Lendas e Narrativas<\/a>. O site re\u00fane informa\u00e7\u00f5es sobre suas obras, mem\u00f3rias e experi\u00eancias, como tamb\u00e9m se tornou um espa\u00e7o para a \u201ctroca de ideias sobre o papel da produ\u00e7\u00e3o de sentidos, das linguagens, da oratura, da literatura e da comunica\u00e7\u00e3o social na aventura humana\u201d.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea pensa o jornalismo como uma forma de conhecimento. Em um contexto de informa\u00e7\u00e3o acelerada e fragmentada, essa Epistemologia ainda se sustenta?<\/strong><br>Eu penso que, entre as quest\u00f5es colocadas ainda no s\u00e9culo passado, quando iniciei na profiss\u00e3o em Porto Alegre ao me formar na Universidade Federal do Rio Grande Sul numa data tr\u00e1gica (31 de mar\u00e7o de 1964 &#8211; Golpe de Estado no Brasil), havia desafios para o jornalismo e os paradigmas de ent\u00e3o. As t\u00e9cnicas que dominavam a inicia\u00e7\u00e3o ao jornalismo, principalmente o jornalismo do Norte, vindo dos Estados Unidos e da Inglaterra, e que faziam parte de um itiner\u00e1rio de forma\u00e7\u00e3o de disciplinas, foram a inspira\u00e7\u00e3o cientificista do final do s\u00e9culo XIX. Assim, essas t\u00e9cnicas que n\u00f3s herdamos na nossa forma\u00e7\u00e3o na Universidade eram atreladas, eu diria domadas, por esse cientificismo, e essa era a gram\u00e1tica que regia o comportamento de um jornalista\/rep\u00f3rter em campo. Essa gram\u00e1tica era aplicada para quem iria fazer reportagem. Isso me interessou de partida, ent\u00e3o, j\u00e1 no come\u00e7o da minha carreira em Porto Alegre, quando trabalhei com a revista do Globo e com outras m\u00eddias da \u00e9poca, voltei para duas grandes transgress\u00f5es que, mais adiante, formam esse certo dom\u00ednio de epistemologia do jornalismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A primeira transgress\u00e3o estaria relacionada com a forma de pensar a linguagem da reportagem?<\/strong><br>A primeira transgress\u00e3o veio de uma forma\u00e7\u00e3o muito rica na UFRGS. No in\u00edcio de 1960, em que n\u00f3s aprendemos a lingu\u00edstica e a literatura pelo enfoque do Brasil, e n\u00e3o pelo enfoque da L\u00edngua Oficial Portuguesa e da literatura consagrada, n\u00f3s est\u00e1vamos muito inspirados por alguns professores que nos davam a conhecer, a desfrutar, a fruir a linguagem brasileira e a literatura brasileira contempor\u00e2nea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse momento eu estava dando aula de portugu\u00eas no cursinho pr\u00e9-vestibular, eu era boa em portugu\u00eas [<em>Cremilda cursou Letras na UFRGS concomitantemente ao curso de Jornalismo<\/em>] nos meus 20 anos, e levei as cr\u00f4nicas de Fernando Sabino para que eles verificassem a diferen\u00e7a da constru\u00e7\u00e3o da frase em Sabino e em Vieira do s\u00e9culo XVII <em>[Padre Ant\u00f4nio Vieira, escritor portugu\u00eas]<\/em>. Na \u00e9poca, a loucura da minha proposta n\u00e3o tinha nenhum apoio nos paradigmas e nas gram\u00e1ticas vigentes. A frase de Fernando Sabino, por meio de dois pontos, eliminava as ora\u00e7\u00f5es subordinadas e montava um processo de coordena\u00e7\u00e3o que era democr\u00e1tico, enquanto o serm\u00e3o de Vieira era uma ora\u00e7\u00e3o principal e in\u00fameras subordinadas porque havia a estrutura absolutista e seus subordinados. Ou seja: um estilo contempor\u00e2neo de narrativa estava muito mais sintonizado com a coordena\u00e7\u00e3o do que com o processo subordinante. Isso n\u00e3o estava em nenhuma gram\u00e1tica de t\u00e9cnicas jornal\u00edsticas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim, a quest\u00e3o da linguagem que nos foi dada pelos professores de que os falares brasileiros, os usos brasileiros, eram a efetiva l\u00edngua a ser captada na nossa reportagem, que transforma os \u2018falantes\u2019 em fontes que comparecem \u00e0 reportagem entre aspas com uma frase absolutamente oficial, sem nenhuma conota\u00e7\u00e3o da linguagem viva. E ent\u00e3o chegamos \u00e0s quest\u00f5es contempor\u00e2neas dos meus livros que me deram a seguran\u00e7a de que, em campo, interrogamos quais ser\u00e3o as nossas quest\u00f5es a serem pesquisadas, a serem levantadas como reflex\u00e3o sobre o jornalismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A segunda transgress\u00e3o estaria relacionada \u00e0 forma\u00e7\u00e3o transdisciplinar do jornalista?<\/strong><br>Outra quest\u00e3o, tamb\u00e9m muito ligada \u00e0 UFRGS, era a forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica. Eu sempre lembro que uma disciplina fundamental dessa \u00e9poca era, por exemplo, geografia humana. Ora, um jornalista n\u00e3o tem essa disciplina nos curr\u00edculos de hoje dos cursos de jornalismo. A forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica de ci\u00eancias sociais, de hist\u00f3ria, e isso foi muito importante para que tiv\u00e9ssemos esse olhar que eu n\u00e3o digo interdisciplinar, digo hoje transdisciplinar, \u00e9 que vai dar, inclusive, a partida para eu sempre me preocupar com o di\u00e1logo com os outros campos de conhecimento, n\u00e3o apenas a comunica\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o essas duas transgress\u00f5es v\u00e3o construir a minha assinatura na imprensa e na Editora Globo, que \u00e9 o contraponto e a resist\u00eancia cultural. O pr\u00f3prio fato de eu me formar nessa data (31 de mar\u00e7o de 1964) j\u00e1 estigmatiza a minha vida de estar na resist\u00eancia cultural e nas contradi\u00e7\u00f5es, e n\u00e3o, propriamente, nos trilhos que estavam apresentados, est\u00e1ticos, da forma\u00e7\u00e3o de um jornalista, principalmente da pr\u00e1tica de um jornalista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O jornalista, por vezes, \u00e9 visto como um conhecedor \u2018de tudo um pouco\u2019, pois perpassa e dialoga com v\u00e1rias \u00e1reas do conhecimento. Ao observar as transforma\u00e7\u00f5es curriculares do curso de Jornalismo, voc\u00ea diria que a falta de conhecimento social que preservaria o lugar de fala e os conhecimentos culturais se perdeu na trajet\u00f3ria da forma\u00e7\u00e3o do jornalista ou se perdeu na trajet\u00f3ria do ser humano?<\/strong><br>Eu penso que n\u00f3s ainda n\u00e3o superamos a crise de paradigmas que se apresentou de maneira muito concreta no primeiro semin\u00e1rio que eu organizei em 1990 na USP. Em 1990, ent\u00e3o, eu estava preocupada com os problemas que nos atravessavam, que n\u00e3o s\u00e3o espec\u00edficos do jornalista ou do jornalismo. Convidei para uma discuss\u00e3o cientistas de v\u00e1rias \u00e1reas: matem\u00e1tico, f\u00edsico, qu\u00edmico, soci\u00f3logo, historiador, educador, comunicador. Foi um grupo muito interessante, eu visitei durante quatro meses cada um em seu gabinete para sentir como \u00e9 que eu poderia amarrar uma discuss\u00e3o, pois nunca um departamento conversa com o outro. Ent\u00e3o, essa hist\u00f3ria de interdisciplinaridade \u00e9 uma conversa fiada, no meu entendimento. Porque n\u00f3s temos que buscar, por meio desses encontros, uma transdisciplinaridade, ou seja, os problemas que atravessam todas as disciplinas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse percurso, eu percebi que, agora que estamos preocupados com os limites e desafios da era digital, esse primeiro semin\u00e1rio me deu a partida, a percep\u00e7\u00e3o, de que n\u00f3s temos de trabalhar velhos problemas que n\u00e3o foram resolvidos. Quais s\u00e3o esses problemas? A rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto por exemplo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando um aluno de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o est\u00e1 propondo uma tese de doutorado, uma disserta\u00e7\u00e3o de mestrado ou um trabalho de p\u00f3s-doutorado na minha esfera e chega pra mim e diz assim: &#8216;O meu objeto de pesquisa&#8217;, eu digo: &#8216;pode parar, pode parar, porque n\u00f3s aprendemos h\u00e1 muito que a nossa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 sujeito-objeto, a nossa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 sujeito-sujeito&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como essa rela\u00e7\u00e3o sujeito-sujeito impacta a constru\u00e7\u00e3o da not\u00edcia?<\/strong><br>O sujeito-objeto foi trazido \u00e0 pauta cient\u00edfica pela f\u00edsica qu\u00e2ntica, que, nos primeiros 25 anos do s\u00e9culo XX, rompeu a rela\u00e7\u00e3o sujeito-objeto e trouxe o sujeito-sujeito. Se trata do pesquisador sujeito, do \u00e1tomo do outro lado como um sujeito e ambos se transformam e se inter-relacionam. A partir desse entendimento, nunca mais trabalhei com um sujeito-objeto. E isso tem muita rela\u00e7\u00e3o com a falsa percep\u00e7\u00e3o de um jornalismo imparcial porque voc\u00ea tem uma rela\u00e7\u00e3o de sujeitos, e isso eu percebi quando comecei a entrevistar em Porto Alegre.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma entrevista muito importante pra mim foi com um senhor que, depois de um longo per\u00edodo como comerciante no bairro Bom Fim, resolveu abandonar o com\u00e9rcio e virar pintor. A presen\u00e7a desse sujeito vivo na minha frente, me contando a sua transforma\u00e7\u00e3o, fez com que eu tamb\u00e9m tivesse de transformar a pauta que tinha em minha cabe\u00e7a. Ao chegar em campo, pela presen\u00e7a desse sujeito \u00e0 minha frente, tive que me re-equacionar como sujeito diante dele.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso me ensinou que n\u00e3o adianta sair com uma pauta fechada da reda\u00e7\u00e3o, ou do escrit\u00f3rio, ou da minha cabe\u00e7a, ou em casa, ou seja, onde for, sair com um \u2018engavetamento\u2019 sobre a situa\u00e7\u00e3o, ou o outro e a sua circunst\u00e2ncia. Ali\u00e1s, &#8216;o outro e a sua circunst\u00e2ncia&#8217; \u00e9 uma quest\u00e3o absolutamente misteriosa para mim, como \u00e9 misteriosa a recep\u00e7\u00e3o depois do nosso trabalho.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu n\u00e3o me entreguei, por exemplo, \u00e0 categoriza\u00e7\u00e3o dos estudos de recep\u00e7\u00e3o <em>[\u00e1rea que busca compreender como o p\u00fablico interpreta, ressignifica e utiliza os produtos midi\u00e1ticos, abandonando a vis\u00e3o de que o receptor \u00e9 passivo]<\/em>, porque para mim a recep\u00e7\u00e3o \u00e9 o verdadeiro mist\u00e9rio. Nenhuma pauta pode sair com certezas definidas, com perguntinhas de algibeira, porque a rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que vai montando a nossa constru\u00e7\u00e3o simb\u00f3lica ou a nossa narrativa.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como o jornalista se coloca na rela\u00e7\u00e3o com a fonte, considerando que ambos s\u00e3o sujeitos atravessados por bagagens culturais, emocionais e sociais? De que forma esses sujeitos se relacionam na constru\u00e7\u00e3o da not\u00edcia, que deveria ser imparcial?<\/strong><br>\u00c9 um processo din\u00e2mico e incompleto, sem nenhuma garantia de sucesso. Mas se o jornalista, primeiro, tiver curiosidade e escuta para o outro (o outro como uma generalidade do protagonismo social e coletivo) haver\u00e1 um tr\u00e2nsito ao outro que pode ser movido pela autossufici\u00eancia desse sujeito, pela sua concep\u00e7\u00e3o de mundo, sua vis\u00e3o de mundo, sua ideologia. Ele vai ao outro com curiosidade interrogante e n\u00e3o assertiva e, com essa interroga\u00e7\u00e3o, ele precisa efetivamente estar presente em todos os sentidos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um psicanalista colombiano nos mostra que a civiliza\u00e7\u00e3o ocidental apagou, em grande parte, tr\u00eas dos nossos sentidos. Assim, vamos ao mundo para enxergar (<em>vis\u00e3o<\/em>) o que queremos enxergar e escutar (<em>audi\u00e7\u00e3o<\/em>) aquilo que queremos escutar, n\u00e3o estando no mundo com os cinco sentidos presentes: vis\u00e3o, audi\u00e7\u00e3o, paladar, olfato e tato. O neurocientista Ant\u00f3nio Dam\u00e1sio nos disse que a nossa intelig\u00eancia atua e decide quando estamos com os cinco sentidos em a\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o, se o jornalista vai para a reportagem sem o tato, sem o olfato e sem o paladar, ele tende a enxergar e a ouvir apenas aquilo que j\u00e1 espera encontrar, encaixando a realidade numa narrativa pr\u00e9via. \u00c9 justamente a\u00ed que entra a autoria do jornalista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A media\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica n\u00e3o elimina a autoria \u2014 ao contr\u00e1rio, ela a exige. Narrar \u00e9 produzir sentidos. N\u00e3o se trata de buscar uma narrativa \u2018correta\u2019, mas uma narrativa compreensiva, capaz de dar conta da complexidade dos sujeitos e das rela\u00e7\u00f5es envolvidas. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornalista deixa de ser um mero distribuidor de informa\u00e7\u00f5es para se tornar um gerador de sentidos \u2014 um signo da rela\u00e7\u00e3o. A maneira compreensiva de narrar uma situa\u00e7\u00e3o e os seus protagonistas sociais \u00e9 atrav\u00e9s de uma autoria mediadora, portanto a presen\u00e7a do autor-jornalista \u00e9 fundamental.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea citou sua experi\u00eancia como coordenadora das m\u00eddias da USP em 1999 e a rela\u00e7\u00e3o entre jornalistas e pesquisadores para a constru\u00e7\u00e3o da not\u00edcia cient\u00edfica. Por que essa rela\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o complexa?<\/strong><br>A escrita \u00e9 a autoria da narrativa sujeito-sujeito, que eu chamo hoje de Signo da Rela\u00e7\u00e3o, em que o jornalista n\u00e3o \u00e9 mais o signo da distribui\u00e7\u00e3o, mas o signo da rela\u00e7\u00e3o. Essa concep\u00e7\u00e3o orientou tanto minha atua\u00e7\u00e3o acad\u00eamica quanto minha experi\u00eancia na coordena\u00e7\u00e3o das m\u00eddias da USP. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sempre defendi que comunica\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 divulga\u00e7\u00e3o no sentido autorit\u00e1rio, de m\u00e3o \u00fanica. Um problema que enfrentamos com os cientistas porque eles querem que os jornalistas sejam <em>office boys<\/em> de tradu\u00e7\u00e3o da linguagem cient\u00edfica para a sociedade. Isso n\u00e3o \u00e9 comunica\u00e7\u00e3o social, isso n\u00e3o \u00e9 o Signo da Rela\u00e7\u00e3o. Comunica\u00e7\u00e3o \u00e9 rela\u00e7\u00e3o: o jornalista leva a ci\u00eancia \u00e0 sociedade, mas tamb\u00e9m traz da sociedade suas demandas, perguntas e inquieta\u00e7\u00f5es para a ci\u00eancia. Esse conflito permanece atual e ainda n\u00e3o est\u00e1 resolvido, mas \u00e9 nele que reside a pot\u00eancia \u00e9tica e pol\u00edtica do jornalismo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E qual seria a maneira adequada de se fazer jornalismo cient\u00edfico, de fato?<\/strong><br>Passa, antes de tudo, por reconhecer que o conhecimento cient\u00edfico n\u00e3o pode ser imposto \u00e0 sociedade como uma verdade absoluta. Ao longo das experi\u00eancias que realizamos \u2014 e isso continua atual \u2014, ficou claro que grandes avan\u00e7os cient\u00edficos, como os da gen\u00e9tica, exigem debate p\u00fablico. N\u00e3o basta anunciar conquistas ou resultados; \u00e9 preciso discutir suas implica\u00e7\u00f5es sociais, \u00e9ticas e culturais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a ci\u00eancia tenta se comunicar de forma autorit\u00e1ria, o fracasso \u00e9 recorrente. Basta lembrar das campanhas de controle da natalidade ou de preven\u00e7\u00e3o \u00e0 AIDS, baseadas na ideia de que informar (\u2018use camisinha\u2019, \u2018fa\u00e7a isso ou aquilo\u2019) seria suficiente para mudar comportamentos. N\u00e3o \u00e9. As escolhas das pessoas n\u00e3o se d\u00e3o apenas no plano racional, mas dentro de contextos culturais, afetivos e sociais muito complexos. Ignorar isso \u00e9 condenar a comunica\u00e7\u00e3o ao insucesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Defendo que a ci\u00eancia precisa ser atravessada pelas quest\u00f5es da sociedade, e o jornalismo cient\u00edfico tem um papel central nisso. Falta, inclusive, recuperar na forma\u00e7\u00e3o dos jornalistas algo que esteve presente no primeiro mestrado em Comunica\u00e7\u00e3o da Am\u00e9rica Latina, do qual fiz parte: a aproxima\u00e7\u00e3o com a antropologia, ou seja, a cultura. Foi essa \u00e1rea que me ensinou a import\u00e2ncia de ir a campo, de compreender as din\u00e2micas culturais e as contradi\u00e7\u00f5es que estruturam a vida social. A antropologia nos mostra aquilo que muitas vezes a sociologia cl\u00e1ssica n\u00e3o consegue captar: as diferen\u00e7as locais, os conflitos, os sentidos produzidos no cotidiano. Isso reafirma o papel do jornalista como mediador ativo, algu\u00e9m que precisa estar presente no mundo, e n\u00e3o apenas operar a partir de dados ou discursos prontos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o h\u00e1 jornalismo cient\u00edfico poss\u00edvel sem presen\u00e7a, sem escuta e sem contato direto com a realidade. Essa \u00e9 mais uma das \u00e1reas que oferece uma reafirma\u00e7\u00e3o do jornalista, porque \u00e9 a reafirma\u00e7\u00e3o de que o jornalista tem de estar em campo. N\u00e3o adianta ficar se servindo da Intelig\u00eancia Artificial (IA) em casa se as coisas acontecem na rua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Falando em IA, na sua percep\u00e7\u00e3o, como se constitui o rep\u00f3rter do s\u00e9culo XXI que conta com ferramentas tecnol\u00f3gicas ao seu dispor (WhatsApp para fazer entrevistas, ChatGPT para construir um texto) e que, por vezes, n\u00e3o sai do escrit\u00f3rio ou da reda\u00e7\u00e3o para apurar uma pauta?<\/strong><br>Essa quest\u00e3o n\u00e3o diz respeito apenas ao jornalista, mas ao ser humano contempor\u00e2neo como um todo. A biografia contempor\u00e2nea j\u00e1 est\u00e1 levantando esse problema de forma muito clara, especialmente a partir das crian\u00e7as e dos adolescentes, que s\u00e3o, de certo modo, o ensaio mais tr\u00e1gico das grandes interroga\u00e7\u00f5es da era digital. O que vemos hoje \u00e9 um empobrecimento da decis\u00e3o \u00e9tica e da rela\u00e7\u00e3o com o outro, aquilo que eu chamo de Signo da Rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o se trata de uma postura reacion\u00e1ria em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 tecnologia. O problema \u00e9 que os efeitos j\u00e1 s\u00e3o concretos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pa\u00edses como a Austr\u00e1lia, por exemplo, come\u00e7aram a restringir o uso de celulares e redes sociais at\u00e9 os 16 anos, n\u00e3o por conservadorismo, mas porque os impactos sobre o desenvolvimento humano s\u00e3o evidentes. Ou seja, o chamado presencial dos cinco sentidos n\u00e3o \u00e9 problema do jornalista somente, \u00e9 problema do ser humano, e principalmente do ser humano do futuro, que s\u00e3o as nossas crian\u00e7as e adolescentes. Tenho visto reportagens que mostram jovens descobrindo algo simples e essencial: conversar no intervalo da escola, porque antes todos estavam isolados em seus aparelhos. Se o jornalista n\u00e3o est\u00e1 atento a esse contexto, ou se a forma\u00e7\u00e3o aposta exclusivamente numa esfera artificial como solu\u00e7\u00e3o, temos a\u00ed um problema grave, principalmente se esse curr\u00edculo pretende apenas levar a essa esfera.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea comentou sobre uma experi\u00eancia curiosa com o seu neto, com ent\u00e3o 13 anos, que mora em Portugal, sobre usar o ChatGPT para propor uma conversa com as paredes.&nbsp;<\/strong><br>Sim, ele me chamou: \u2018Cremilda, vem c\u00e1 no meu quarto&#8217;. A\u00ed eu fui, e ele disse que iria me mostrar uma coisa muito importante. E perguntou: \u2018Voc\u00ea sabe o que \u00e9 o ChatGPT?&#8217;. Eu disse: &#8216;Claro que sei&#8217;. E ele continuou: &#8216;\u00c9 que o ChatGPT est\u00e1 resolvendo tudo pra mim. Na escola eu fa\u00e7o todas as quest\u00f5es que s\u00e3o pedidas com o aux\u00edlio do ChatGPT&#8217;. Ent\u00e3o lhe disse: &#8216;Tom\u00e1s, voc\u00ea vai deixar de lado a sua cabe\u00e7a, ela n\u00e3o vai funcionar mais? Voc\u00ea s\u00f3 vai usar o ChatGPT para fazer os trabalhos&#8217;. \u2018Ah! Cremilda, voc\u00ea est\u00e1 superada, o ChatGPT \u00e9 uma maravilha\u2019. A\u00ed eu virei para ele e disse: &#8216;Tom\u00e1s, voc\u00ea leu o meu livro da pandemia que conta hist\u00f3rias minhas quando eu estava confinada em casa. E voc\u00ea viu um texto, que \u00e9 o maior que tem nesse livro, que come\u00e7a assim: \u2018Hoje eu vou conversar com as paredes\u2019. E a\u00ed eu come\u00e7o a conversar com as paredes. Voc\u00ea leu esse texto? Esse texto \u00e9 longo n\u00e9?&#8217;. &#8216;Eu li, sim&#8217;, disse ele. &#8216;Ent\u00e3o vamos ver o seguinte: esse texto eu escrevi sem par\u00e1grafos, eu conversando com todos os quadros que eu tenho na minha casa, as fotografias. Agora faz o seguinte, pergunta pro ChatGPT se ele pode te dar um texto conversando com as paredes&#8217;. A\u00ed ele digitou no ChatGPT, que respondeu: \u2018Sinto muito, mas as paredes n\u00e3o falam\u2019. &#8216;Est\u00e1 vendo, Tom\u00e1s? Provavelmente, hoje as paredes n\u00e3o falam&#8217;.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o eu acho que isso tem que ser discutido n\u00e3o apenas com o jornalista: \u00e9 uma discuss\u00e3o da humanidade contempor\u00e2nea, que est\u00e1 abdicando da sua intelig\u00eancia. Hoje, nos seus 104 anos, Edgar Morin (<em>falecido em 29 de maio de 2026<\/em>), que foi base do meu mestrado e que deu origem ao meu livro <em>Not\u00edcia, um produto \u00e0 venda<\/em>, ainda me d\u00e1 combust\u00edvel quando nos pede aten\u00e7\u00e3o \u00e0 disjun\u00e7\u00e3o entre ci\u00eancia e consci\u00eancia. A IA pode ter ci\u00eancia, conhecimento de muita coisa, mas n\u00e3o tem consci\u00eancia e, muito menos, decis\u00e3o \u00e9tica.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A IA maneja conte\u00fados simples, mas jamais contradi\u00e7\u00f5es complexas. N\u00f3s temos sempre que interrogar porque tudo \u00e9 incerto e n\u00e3o sabido.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O uso da IA no fazer jornal\u00edstico estaria cavando, ainda mais, o fracasso da presen\u00e7a do jornalismo na vida da sociedade?<\/strong><br>As m\u00eddias enfrentam hoje um problema muito semelhante ao da educa\u00e7\u00e3o escolar: a padroniza\u00e7\u00e3o, a press\u00e3o dos conglomerados empresariais e a redu\u00e7\u00e3o da experi\u00eancia a modelos, que s\u00e3o previamente definidos. Isso eu j\u00e1 observava no final dos anos 1980 e ao longo dos anos 1990, especialmente na Escola de Comunica\u00e7\u00f5es e Artes da USP, no curso de Jornalismo, a partir de um laborat\u00f3rio que coordenei por muitos anos. Trabalh\u00e1vamos com tr\u00eas grandes \u00e1reas tem\u00e1ticas: quem fez S\u00e3o Paulo, desde os povos ind\u00edgenas, os negros, os portugueses e as migra\u00e7\u00f5es; quem vive em S\u00e3o Paulo, com seus conflitos e desafios; e os bairros tem\u00e1ticos da cidade. Era um trabalho profundamente autoral, de presen\u00e7a no territ\u00f3rio e de escuta do cotidiano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que observei, sobretudo a partir do final dos anos 1990, foi que muitos alunos-autores desse laborat\u00f3rio n\u00e3o tinham como objetivo trabalhar nas m\u00eddias estabelecidas. Ainda assim, havia estudantes que conscientemente escolheram outros caminhos, investindo em projetos autorais, independentes ou de implanta\u00e7\u00e3o de novos ve\u00edculos. Isso n\u00e3o \u00e9 algo novo nem resultado apenas da crise atual das empresas jornal\u00edsticas. Sempre houve crises no jornalismo, demiss\u00f5es em massa e aqueles que optaram por trabalhar de forma aut\u00f4noma, criando seus pr\u00f3prios espa\u00e7os de atua\u00e7\u00e3o. O que acontece hoje \u00e9 que esse movimento se intensificou, e isso tem rela\u00e7\u00e3o direta com a pr\u00f3pria demografia brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O jornalismo autoral, independente ou h\u00edbrido n\u00e3o \u00e9, portanto, uma ruptura recente. Ele sempre existiu. O que muda agora \u00e9 a escala e a visibilidade dessas experi\u00eancias, e o desafio continua sendo o mesmo: presen\u00e7a, autoria e media\u00e7\u00e3o com o mundo real. O que n\u00e3o desapareceu, e \u00e9 recorrente, s\u00e3o as crises empresariais; outra coisa que precisa ser regulada \u00e9 essa pregui\u00e7a de fazer reportagem, porque, n\u00e3o havendo reportagem, n\u00e3o h\u00e1 competi\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em um cen\u00e1rio em que a intelig\u00eancia artificial passa a ser usada para apura\u00e7\u00e3o, escrita e an\u00e1lise de dados, como preservar a autoria, a responsabilidade e a escuta humana no jornalismo? H\u00e1 um limite aceit\u00e1vel para usar IA no jornalismo?<\/strong><br>Hoje as opini\u00f5es s\u00e3o muito parecidas, a impress\u00e3o que tenho \u00e9 de que todo mundo saiu da mesma forma para dar opini\u00e3o sobre o mundo. As redes sociais e, agora, os sistemas de intelig\u00eancia artificial refor\u00e7am isso, porque operam por padr\u00f5es, recorr\u00eancias e m\u00e9dias. O resultado \u00e9 um discurso homog\u00eaneo, previs\u00edvel, que circula em bolhas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que rompe com essa uniformidade \u00e9 a reportagem. \u00c9 ir a campo, observar o que est\u00e1 acontecendo de fato e descobrir que a realidade n\u00e3o \u00e9 exatamente como est\u00e1 sendo dita nas m\u00eddias sociais nem como aparece nos recortes automatizados. A reportagem amplia o prisma, devolve diversidade ao olhar e devolve humanidade \u00e0 not\u00edcia.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O grande desafio, diante do uso da IA, \u00e9 justamente preservar a autoria, a responsabilidade e a escuta humana. A intelig\u00eancia artificial pode organizar dados, sugerir caminhos, acelerar processos, mas ela n\u00e3o vive o cotidiano, n\u00e3o percebe contradi\u00e7\u00f5es culturais, n\u00e3o sente o ambiente. Se o jornalista abdica da presen\u00e7a e delega \u00e0 tecnologia a media\u00e7\u00e3o com o mundo, ele passa a narrar a realidade com uma m\u00e1scara, uma media\u00e7\u00e3o que refor\u00e7a estere\u00f3tipos em vez de desmont\u00e1-los. O signo n\u00e3o \u00e9 um cad\u00e1ver, ele \u00e9 vivo e acontece. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu vejo o jornalista que narra a hist\u00f3ria do que \u00e9 vivido agora diante dessas tecnologias atrav\u00e9s de uma m\u00e1scara, porque ele n\u00e3o est\u00e1 no campo, n\u00e3o est\u00e1 conversando com as pessoas, n\u00e3o est\u00e1 entendendo o que acontece no cotidiano. Essa m\u00e1scara veda e refor\u00e7a estere\u00f3tipos, ent\u00e3o n\u00e3o estamos ocupando o lugar jornal\u00edstico de contraponto, de reflex\u00e3o, de quebrar estere\u00f3tipos. N\u00e3o estamos fazendo o que dever\u00edamos fazer.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, h\u00e1 algo que nenhuma tecnologia substitui: a observa\u00e7\u00e3o-experi\u00eancia. Ela vai al\u00e9m da entrevista. \u00c9 perceber gestos, sil\u00eancios, contradi\u00e7\u00f5es, atmosferas. \u00c9 usar os cinco sentidos. Foi isso que aprendi tanto no jornalismo quanto em experi\u00eancias acad\u00eamicas e interdisciplinares: o conhecimento nasce da conviv\u00eancia. Lembro de um semin\u00e1rio transdisciplinar em que certo conflito te\u00f3rico quase inviabilizou o debate, e foi num almo\u00e7o compartilhado, por meio da conviv\u00eancia humana, que conseguimos dialogar. O almo\u00e7o nos salvou. \u00c9 na conviv\u00eancia que a vida se revela.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea teorizou uma pr\u00e1tica jornal\u00edstica que transforma o lugar do jornalista de terceira pessoa para uma constru\u00e7\u00e3o de narrativa autor-narrador, o que seria isso?&nbsp;<\/strong><br>Desde o in\u00edcio dos meus estudos em Porto Alegre, eu pratico uma proposta que faz o autor se desprender da sua voz, aquela voz de terceira pessoa objetiva, imparcial\u2026 se desprenda da sua autoria e passe a criar narradores, pois s\u00e3o os outros que t\u00eam a sua pr\u00f3pria voz. \u00c9 a\u00ed que entram as vozes dos protagonistas, e n\u00e3o apenas a minha. Costumo contar, por exemplo, quando adolescente, em Porto Alegre, decidi ser jornalista depois de ouvir a cr\u00f4nica do <a href=\"http:\/\/www.radionors.jor.br\/2013\/07\/joao-bergmann-o-cronista-da-cidade-e-descobridor-de-candido-norberto.html\">comiss\u00e1rio [Jo\u00e3o] Bergmann<\/a> na R\u00e1dio Farroupilha, nos anos 1950, sobre os ent\u00e3o chamados \u201cmenores abandonados\u201d. Fui at\u00e9 a delegacia para falar com ele, com 17 anos, e narro a cena incorporando a sua voz: \u201cO que tu quer, guria? Vai pra casa\u201d, passando da minha narra\u00e7\u00e3o em terceira pessoa para a fala direta do personagem. Esse deslocamento de vozes \u00e9 um exemplo claro do autor-narrador. Eu defino isso como uma democratiza\u00e7\u00e3o da autoria jornal\u00edstica, que \u00e9 voc\u00ea ser capaz de se desprender da terceira pessoa \u2013 entre aspas, imparcial e objetiva \u2013 ou da primeira pessoa \u2013 metida \u2013 e narrar a partir do outro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mesmo num jornalismo cada vez mais engessado e orientado por cliques, \u00e9 poss\u00edvel preservar autoria e escuta?<\/strong><br>Na grande imprensa, como no Estad\u00e3o, por exemplo, onde atuei, sempre houve quest\u00f5es que eu precisei negociar, mas funcionava, sempre tive bons retornos. Em uma reportagem certa vez usei um t\u00edtulo que \u00e9 um cl\u00e1ssico: \u2018Geleias para o inverno&#8217;. Ao entrevistar dona Bela, uma sobrevivente de campo de concentra\u00e7\u00e3o, durante a cobertura da descoberta de Mengele em S\u00e3o Paulo [<em>a descoberta, em 1985, de que o m\u00e9dico nazista Josef Mengele, conhecido como \u2018Anjo da Morte\u2019, viveu e morreu em S\u00e3o Paulo<\/em>], eu estava quase encerrando a conversa quando perguntei a ela: &#8216;A senhora, que viveu essa experi\u00eancia de campo de concentra\u00e7\u00e3o e perdeu toda a sua fam\u00edlia, o que a senhora acha dos tempos atuais? N\u00f3s melhoramos?&#8217; Ela olhou para mim e disse: &#8216;A minha m\u00e3e fazia geleias no inverno na Pol\u00f4nia porque eram muito boas para curar a gripe das crian\u00e7as. Mas ela n\u00e3o fazia s\u00f3 para a fam\u00edlia, ela fazia vidros a mais porque alguma vizinha podia chegar, bater \u00e0 porta e dizer que a sua crian\u00e7a estava gripada, ent\u00e3o a minha m\u00e3e oferecia a geleia&#8217;. Hoje eu subo e des\u00e7o o elevador do meu pr\u00e9dio e n\u00e3o conhe\u00e7o as pessoas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Qual voc\u00ea acha que foi t\u00edtulo para essa mat\u00e9ria important\u00edssima do dia da cobertura do Mengele no Estado de S\u00e3o Paulo? &#8216;Geleias para o inverno&#8217;. Foi a intui\u00e7\u00e3o que eu tive que me levou a esse t\u00edtulo, um resumo sens\u00edvel dessa hist\u00f3ria.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Diante das reflex\u00f5es do fazer jornal\u00edstico que fizemos at\u00e9 agora, o que voc\u00ea diria para o jornalista que est\u00e1 se formando e que nunca fez uma entrevista presencial?<\/strong><br>Descubra uma pessoa qualquer na esquina e tente contar a hist\u00f3ria de vida dela. Voc\u00ea vai desfrutar de uma maravilha de sentimentos e de significados. Quantas hist\u00f3rias \u00fanicas encontramos dessa forma e sair\u00edamos daquele jornalismo que reproduz a mesma coisa todo dia. Fazer uma boa reportagem n\u00e3o \u00e9 seguir uma f\u00f3rmula, n\u00e3o \u00e9 fazer uma pir\u00e2mide invertida <em>[t\u00e9cnica de reda\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica em que s\u00e3o priorizadas, no come\u00e7o do texto, as informa\u00e7\u00f5es mais importantes].<\/em> O que me d\u00e1 a mat\u00e9ria-prima da minha narrativa \u00e9 a pr\u00f3pria situa\u00e7\u00e3o experimentada na reportagem. Outro ponto est\u00e1 na sensibilidade de estar presente naquele lugar, realmente presente. \u00c9 o que eu digo da autoria, ela \u00e9 a intui\u00e7\u00e3o criativa, e essa intui\u00e7\u00e3o criativa vai ser diminu\u00edda, se n\u00e3o apagada, pela IA, se n\u00e3o a estimularmos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline animated fadeInDown slow is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/entrevistas\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja 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