{"id":127124,"date":"2026-07-23T07:57:00","date_gmt":"2026-07-23T10:57:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=127124"},"modified":"2026-07-27T17:11:03","modified_gmt":"2026-07-27T20:11:03","slug":"o-heroi-sem-nenhum-carater-de-mario-de-andrade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-heroi-sem-nenhum-carater-de-mario-de-andrade\/","title":{"rendered":"O her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter de M\u00e1rio de Andrade"},"content":{"rendered":"\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote has-text-color has-background has-link-color wp-elements-1 is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\" style=\"color:#574c2e;background-color:#75726857;padding-top:var(--wp--preset--spacing--40);padding-right:var(--wp--preset--spacing--30);padding-bottom:var(--wp--preset--spacing--40);padding-left:var(--wp--preset--spacing--30)\">\n<p class=\"has-text-color has-link-color wp-elements-2 wp-block-paragraph\" style=\"color:#574c2e\">\u201cEnt\u00e3o tudo acabou se fazendo a vida real. E os macumbeiros, Macuna\u00edma, Jayme Ovalle, Dod\u00f4, Manu Bandeira, Blaise Cendrars, Ascenso Ferreira, Raul Bopp, Ant\u00f4nio Bento, todos esses macumbeiros sa\u00edram na madrugada.\u201d<\/p>\n<cite>Trecho de &#8220;Macuna\u00edma, o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter&#8221;<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Publicado h\u00e1 quase um s\u00e9culo, em 1928, &#8220;Macuna\u00edma, o her\u00f3i sem nenhum car\u00e1ter\u201d, de M\u00e1rio de Andrade, at\u00e9 hoje desafia quem se arrisca em suas p\u00e1ginas. Com um enredo simples mas uma escrita complexa, a obra busca refletir sobre a identidade brasileira, marcada pela miscigena\u00e7\u00e3o cultural.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ant\u00f4nio Sanseverino, professor de Literatura Brasileira da UFRGS, elucida que j\u00e1 no in\u00edcio M\u00e1rio de Andrade coloca algumas contradi\u00e7\u00f5es que v\u00e3o se seguir ao longo de todo o livro. Macuna\u00edma era um her\u00f3i, mas n\u00e3o tinha car\u00e1ter; ele era ind\u00edgena, por\u00e9m era preto retinto; filho do medo da noite, Macuna\u00edma era feio; ele n\u00e3o era um her\u00f3i que se v\u00ea em outras hist\u00f3rias. Enquanto os her\u00f3is tradicionais, como os do Romantismo em obras como Iracema e O Guarani, s\u00e3o descritos como figuras acima dos homens comuns, Macuna\u00edma n\u00e3o se encaixa nesse padr\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;A quest\u00e3o dos her\u00f3is \u00e9 que eles sintetizam valores, qualidades, potencialidades, que est\u00e3o ligadas a um grupo social, um povo. No caso do Macuna\u00edma, tem algo em negativo. Porque ele n\u00e3o tem car\u00e1ter formado. Ele tem sempre um qu\u00ea par\u00f3dico, um qu\u00ea c\u00f4mico. Ent\u00e3o ele n\u00e3o \u00e9 um her\u00f3i a s\u00e9rio.&#8221;<\/p>\n<cite>&#8211; Ant\u00f4nio Sanseverino<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A mistura entre europeus, ind\u00edgenas e africanos tamb\u00e9m \u00e9 alegorizada na obra quando os tr\u00eas irm\u00e3os se banham na po\u00e7a m\u00e1gica de Sum\u00e9, formando a imagem dos irm\u00e3os lado a lado: um loiro, um vermelho e outro negro. Como destaca Sanseverino, tentar fundir matrizes culturais t\u00e3o diversas \u00e9 como acomodar coisas desconformes, o que deixa sempre alguma aresta quebrada, conflito que justifica as profundas contradi\u00e7\u00f5es do Brasil e a pr\u00f3pria impossibilidade de o pa\u00eds forjar um her\u00f3i de car\u00e1ter \u00fanico que represente a todos.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Provavelmente, marcando exatamente esse vazio, n\u00e3o tem uma figura que sintetize qualidades brasileiras, porque a diversidade \u00e9 t\u00e3o grande, a disparidade \u00e9 t\u00e3o grande que n\u00e3o consegue forjar um her\u00f3i que nos represente a todos. \u00c9 uma impossibilidade.&#8221;<\/p>\n<cite>&#8211; Ant\u00f4nio Sanseverino<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A devora\u00e7\u00e3o de outras culturas<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento antropof\u00e1gico, essencial para a compreens\u00e3o dessa obra, nasceu da busca por uma identidade cultural brasileira pr\u00f3pria e desvinculada da cultura europeia. Mais do que uma simples rejei\u00e7\u00e3o do que vinha de fora, a corrente liter\u00e1ria baseava-se no conceito de &#8220;devora\u00e7\u00e3o ritual&#8221;, muito ligado ao escritor Oswald de Andrade. A proposta central era &#8220;devorar&#8221; a tradi\u00e7\u00e3o do outro, especialmente a europeia, para incorpor\u00e1-la, transform\u00e1-la e reconfigur\u00e1-la no Brasil, criando assim uma arte autenticamente brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse conceito central do Modernismo n\u00e3o surgiu do vazio, ele resgata e ressignifica uma pr\u00e1tica origin\u00e1ria. Ana Paula Freitas dos Santos, professora de literatura brasileira no Col\u00e9gio Estadual J\u00falio de Castilhos e doutoranda da UFRGS, explica que a inspira\u00e7\u00e3o do movimento vem do ritual do povo Tupinamb\u00e1, registrado ainda no per\u00edodo colonial pelos primeiros viajantes europeus. Ela alerta, por\u00e9m, vis\u00f5es distorcidas sobre a pr\u00e1tica. &#8220;A antropofagia n\u00e3o \u00e9 canibalismo&#8221;, aponta. &#8220;\u00c9 um ritual de guerra, de celebra\u00e7\u00e3o da alteridade, onde o inimigo capturado, eleito pela sua bravura e coragem, \u00e9 devorado para que se absorvam essas qualidades&#8221;. Na literatura e na arte da \u00e9poca, essa devora\u00e7\u00e3o f\u00edsica se tornou simb\u00f3lica: a ideia de que o povo brasileiro consumiu as culturas europeia, ind\u00edgena e africana para regurgitar uma identidade nacional nova, m\u00faltipla e pr\u00f3pria.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A vis\u00e3o dos povos ind\u00edgenas &#8211; ou a aus\u00eancia dela<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a hist\u00f3ria, M\u00e1rio de Andrade se inspirou nas pesquisas etnogr\u00e1ficas do viajante alem\u00e3o Theodor Koch-Gr\u00fcnberg. A obra Do Roraima ao Orinoco, que continha lendas e mitos dos povos ind\u00edgenas Taulipang e Arekun\u00e1, forneceu a base para a narrativa de Makuna\u00edma, um her\u00f3i e trapaceiro amaz\u00f4nico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, ao adaptar a lenda para o romance, M\u00e1rio de Andrade exerceu a liberdade art\u00edstica defendida por sua gera\u00e7\u00e3o, mas realizou uma apropria\u00e7\u00e3o cultural que ofuscou a autoria coletiva de povos origin\u00e1rios, como os Macuxi, Pem\u00f3n, Taurepang e Wapichana. Ana Paula ressalta que o protagonista modernista foi desvirtuado de suas ra\u00edzes. Na tradi\u00e7\u00e3o origin\u00e1ria, as perip\u00e9cias do personagem fazem parte de uma vis\u00e3o de mundo sagrada e integrada \u00e0 natureza, formando uma figura muito diferente do anti-her\u00f3i malicioso que acaba sendo engolido e corrompido pela cidade de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO Macuna\u00edma original \u00e9 um brincalh\u00e3o. Ele \u00e9 um kurumim, \u00e9 uma crian\u00e7a, ent\u00e3o faz coisas de crian\u00e7a. A voz ind\u00edgena n\u00e3o foi contemplada. E essa \u00e9 uma cr\u00edtica que os escritores ind\u00edgenas fazem.\u201d<\/p>\n<cite>&#8211; Ana Paula Freitas dos Santos<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao transpor esse mito para a urbanidade, o autor subverte seu papel original e cria um protagonista guiado por desejos moment\u00e2neos. Como analisa Ant\u00f4nio Sanseverino, a cl\u00e1ssica imagem de Macuna\u00edma possuir um corpo de homem feito, mas manter a cabe\u00e7a pequena, ganha um forte valor simb\u00f3lico na narrativa. &#8220;Ele segue buscando a satisfa\u00e7\u00e3o dos impulsos de modo imediato. N\u00e3o tem a forma\u00e7\u00e3o completa de um adulto com os limites que s\u00e3o postos pela moral&#8221;, explica o professor, justificando o vazio \u00e9tico e a irresponsabilidade que marcam as atitudes do personagem.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje, as tens\u00f5es deixadas por esse apagamento hist\u00f3rico estimulam novos e urgentes debates nas artes. Ana dos Santos destaca o movimento contempor\u00e2neo da &#8220;reantropofagia&#8221;, liderado por intelectuais e artistas ind\u00edgenas que buscam preencher as lacunas deixadas pelo Modernismo. Um marco fundamental dessa retomada foi a pe\u00e7a teatral \u201cMakunaim\u00e3: O mito atrav\u00e9s do tempo\u201d, concebida pelo artista macuxi Jaider Esbell em conjunto com parentes e lideran\u00e7as do seu povo, promovendo uma releitura cr\u00edtica do romance. Trata-se de uma resposta hist\u00f3rica que devolve a narrativa ao seu lugar de direito: &#8220;O Brasil contado pelos povos ind\u00edgenas com a vis\u00e3o dos povos ind\u00edgenas&#8221;, celebra a professora.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"756\" height=\"1024\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-756x1024.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-128041\" style=\"width:450px\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-756x1024.jpg 756w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-221x300.jpg 221w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-86x117.jpg 86w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-768x1040.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-1134x1536.jpg 1134w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-406x550.jpg 406w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner-369x500.jpg 369w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/07\/Leituras-Obrigatorias_Macunaima_Flavio-Dutra-9152-Autoria-Hans-Steiner.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 756px) 100vw, 756px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Hans Steiner (Graz, \u00c1ustria, 1910 &#8211; Gorizia, It\u00e1lia, 1974). Id\u00edlio Karaj\u00e1, 1959,<br>gravura em metal (ponta seca, buril, \u00e1gua tinta e verniz mole), 63 x 45 cm<br>Pinacoteca Bar\u00e3o de Santo \u00c2ngelo, Instituto de Artes da UFRGS<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group has-accent-background-color has-background\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<h5 class=\"wp-block-heading has-text-align-center has-text-color has-link-color wp-elements-3\" style=\"color:#003f63;font-style:normal;font-weight:800\"><strong>Especial Leituras Obrigat\u00f3rias<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center wp-block-paragraph\" style=\"font-size:13px\">Com o objetivo de ampliar as experi\u00eancias de leitura, o JU produz, desde 2018, uma s\u00e9rie de reportagens em que especialistas destacam aspectos e fazem an\u00e1lises interpretativas das obras indicadas pela Universidade. Acompanha cada texto a cria\u00e7\u00e3o de artistas convidados que dialoga com a obra e a biografia de autoras e autores. Veja todas as reportagens&nbsp;<a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/leituras-obrigatorias\/\">aqui<\/a>.<br><\/p>\n<\/div><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Obra ligada ao movimento antropof\u00e1gico est\u00e1 prestes a completar 100 anos e estimula debates sobre apagamentos e identidades<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-heroi-sem-nenhum-carater-de-mario-de-andrade\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":251,"featured_media":128043,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[182],"tags":[8102,8103,8099,777,8096,283,278,8101,8095,78,8100,8097,8098,8094,58],"ppma_author":[7892],"class_list":["entry","author-diandraconchy","has-excerpt","post-127124","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-leituras-vestibular","tag-africanos","tag-ana-paula-freitas-dos-santos","tag-antonio-sanseverino","tag-brasil","tag-carater","tag-cultura","tag-educacao","tag-europeus","tag-heroi","tag-indigenas","tag-livro-2","tag-macumba","tag-macunaima","tag-mario-de-andrade","tag-ufrgs"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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