{"id":127184,"date":"2026-08-20T07:50:00","date_gmt":"2026-08-20T10:50:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=127184"},"modified":"2026-08-20T11:46:17","modified_gmt":"2026-08-20T14:46:17","slug":"conjuntura-atual-e-ruptura-nas-relacoes-laborais-criam-novas-formas-de-mobilizacao-de-trabalhadores","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/conjuntura-atual-e-ruptura-nas-relacoes-laborais-criam-novas-formas-de-mobilizacao-de-trabalhadores\/","title":{"rendered":"Conjuntura atual e ruptura nas rela\u00e7\u00f5es laborais criam novas formas de mobiliza\u00e7\u00e3o de trabalhadores"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Cidadania | Em meio a rotinas pulverizadas, v\u00ednculos fr\u00e1geis e medo de retalia\u00e7\u00e3o, trabalhadores usam as redes sociais para reivindicar direitos<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Por conta da natureza individualizada de seu trabalho, entregadores s\u00e3o uma das categorias que busca formas diversas de organiza\u00e7\u00e3o (Foto: Julia Revelant\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ap\u00f3s dois anos trabalhando em uma companhia que lhe concedia uma folga a cada dez dias, Fl\u00e1vio Melo decidiu se juntar a alguns colegas da empresa para reivindicar melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho no primeiro de maio, Dia do Trabalhador. O funcion\u00e1rio, de 23 anos de idade, decidiu ir \u00e0s ruas de Porto Alegre para lutar pela escala 5&#215;2, pelo aumento de sal\u00e1rio e pelo fim das horas extras obrigat\u00f3rias na companhia de supermercado em que trabalhava. Na \u00e9poca, o seu sal\u00e1rio ajudava no sustento do filho Ravi, que tinha tr\u00eas meses de idade. Por\u00e9m, logo ap\u00f3s ter participado da manifesta\u00e7\u00e3o, Fl\u00e1vio foi demitido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/estudosepesquisas\/2026\/estPesq113greves.pdf\">Em 2025, o Brasil registrou 1.006 greves<\/a>, uma alta de 14% no n\u00famero que foi registrado no ano anterior, quando foram contabilizadas 880 mobiliza\u00e7\u00f5es. Segundo o Departamento Intersindical de Estat\u00edstica e Estudos Socioecon\u00f4micos (Dieese), o aumento foi impulsionado pelo setor privado, e as principais pautas defendidas foram melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho (32%) e reajuste salarial (24%).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tradicionalmente, as greves, os acordos coletivos, as passeatas e assembleias s\u00e3o formas de pressionar as autoridades para o reconhecimento e a resolu\u00e7\u00e3o dos problemas em diversas categorias. Em ambientes de trabalho como o de Fl\u00e1vio, contudo, o medo de retalia\u00e7\u00e3o conseguiu enfraquecer o engajamento dos funcion\u00e1rios. \u201cAl\u00e9m de n\u00e3o cumprirem as leis trabalhistas, com a CLT, eles [os empregadores] ainda perseguem os funcion\u00e1rios, demitem os funcion\u00e1rios. Tem toda uma press\u00e3o psicol\u00f3gica para que fique camuflada toda essa situa\u00e7\u00e3o\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a demiss\u00e3o de Fl\u00e1vio, se fortalece uma nova rede de apoio para as reivindica\u00e7\u00f5es dos trabalhadores do varejo: as redes sociais. Tudo come\u00e7a com um <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/trabalhadoresdozaffari\/\">perfil de den\u00fancia no Instagram<\/a>, hoje com 48 mil seguidores, que publica den\u00fancias an\u00f4nimas dos empregados.&nbsp;\u201cA Uni\u00e3o [dos Trabalhadores do Zaffari], basicamente, \u00e9 um embate com o sindicato, que \u00e9 o Sindec [Sindicato dos Empregados do Com\u00e9rcio em Porto Alegre]. A gente, basicamente, faz o trabalho que o Sindec deveria fazer. A gente vai nas lojas, a gente conversa com os funcion\u00e1rios, a gente v\u00ea quais s\u00e3o as demandas deles\u201d, comenta Fl\u00e1vio.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O que nasce como uma rede de den\u00fancias de uma \u00fanica companhia de supermercado ganha for\u00e7a e se estende \u00e0s causas de outras empresas do varejo, al\u00e9m de lojas de shopping e redes de farm\u00e1cias.&nbsp;Atualmente, a Uni\u00e3o dos Trabalhadores do Zaffari conta com uma equipe jur\u00eddica que encaminha as acusa\u00e7\u00f5es recebidas ao Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho, abrangendo causas como jornadas extenuantes, danos morais e indeniza\u00e7\u00e3o por acidentes de trabalho. O primeiro caso judicial foi contra a pr\u00f3pria companhia Zaffari, que teve de reduzir a escala 10&#215;1 para 6&#215;1.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gente mostrou para o Minist\u00e9rio P\u00fablico que tinha uma brecha ali [no contrato] que estava permitindo a escala 10&#215;1, que \u00e9 desumana. Se 6&#215;1 j\u00e1 \u00e9 dif\u00edcil, imagina 10&#215;1\u201d<\/p>\n<cite>Fl\u00e1vio Melo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O movimento liderado por Fl\u00e1vio \u00e9 apenas um dos exemplos de como o trabalho e a organiza\u00e7\u00e3o dos trabalhadores t\u00eam se transformado drasticamente na capital ga\u00facha. Mesmo existindo o sindicato, uma entidade legal que visa defender os direitos de uma determinada categoria, os trabalhadores por vezes sentem que suas demandas s\u00e3o invisibilizadas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO sindicato, na verdade, faz as conven\u00e7\u00f5es coletivas e os acordos coletivos. Esses acordos coletivos s\u00e3o feitos por todo mundo, pelo Sindec e todos os empres\u00e1rios. S\u00f3 que, quando eles v\u00e3o fazer esses acordos, eles n\u00e3o convocam os funcion\u00e1rios\u201d, explica Fl\u00e1vio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O presidente do Sindec-POA, Nilton &#8220;Neco&#8221; Souza da Silva, rebate que a escala 10&#215;1 da companhia Zaffari n\u00e3o foi facilitada pelo Sindicato, e, sim, pelo Minist\u00e9rio P\u00fablico do Trabalho. Ele destaca que, inicialmente, a lei que <a href=\"https:\/\/leis.org\/ansje\">proibia o funcionamento do com\u00e9rcio em domingos e feriados<\/a> sem acordo coletivo foi aprovada gra\u00e7as \u00e0 luta do sindicato. No entanto, ela perdeu efic\u00e1cia ap\u00f3s alguns anos porque o t\u00f3pico passou a ser considerado de compet\u00eancia do Congresso Nacional, n\u00e3o dos munic\u00edpios.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, Neco afirma que, atualmente, os trabalhadores da categoria respondem ao referendo, uma consulta sobre o que foi decidido nos acordos e conven\u00e7\u00f5es da assembleia. Essa medida foi implementada em 2026, ap\u00f3s o Minist\u00e9rio P\u00fablico exigir que houvesse uma assembleia por empresa no Sindicato dos Comerci\u00e1rios, substituindo a \u00fanica reuni\u00e3o que era organizada uma vez ao ano. Na pr\u00e1tica, isso significa que, em vez de o Sindec reunir toda a categoria em uma \u00fanica assembleia para aprovar os acordos, cada empresa deve realizar uma assembleia com seus pr\u00f3prios empregados para autorizar aquele acordo ou conven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129194\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3014-Cicloentregadores-Julia-Revelant-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Ponto de Apoio para Cicloentregadores \u201cN\u00f3s por N\u00f3s\u201d, localizado no Centro Hist\u00f3rico, em Porto Alegre (Foto: Julia Revelant\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A raiz do problema<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Thays Mossi, pesquisadora do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da UFRGS, o movimento dos trabalhadores est\u00e1 fragilizado de modo geral. Apesar do n\u00famero de manifesta\u00e7\u00f5es ser crescente, os funcion\u00e1rios muitas vezes n\u00e3o se unificam em torno de uma pauta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAgora, dentro do mesmo pr\u00e9dio, tem os trabalhadores diretos, os trabalhadores terceirizados, os trabalhadores que t\u00eam o assalariamento disfar\u00e7ado&#8230; isso em si j\u00e1 vai dificultando a organiza\u00e7\u00e3o dessas pessoas enquanto um grupo, porque eles n\u00e3o s\u00e3o mais parte do mesmo grupo. Legalmente j\u00e1 n\u00e3o podem estar todos no mesmo sindicato, por exemplo\u201d, ressalta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estudando a hist\u00f3ria do Sindicato dos Metrovi\u00e1rios do Rio Grande do Sul (Sindmetr\u00f4), que existe h\u00e1 40 anos, a pesquisadora notou que hoje em dia h\u00e1 uma dificuldade de atrair os trabalhadores mais novos, porque esse tipo de organiza\u00e7\u00e3o n\u00e3o faz tanto sentido \u00e0s novas gera\u00e7\u00f5es quanto o fazia \u00e0 \u00e9poca da cria\u00e7\u00e3o da entidade, nos anos 1980.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No entanto, este n\u00e3o \u00e9 um caso isolado: para Thays, ele est\u00e1 atrelado ao contexto pol\u00edtico em que vivemos. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gente vive rela\u00e7\u00f5es sociais muito individualizadas, muito centradas no indiv\u00edduo, e os espa\u00e7os coletivos n\u00e3o s\u00e3o vistos como dignos de a gente investir o nosso tempo, de a gente se articular e se constituir como sujeito nesses espa\u00e7os\u201d<\/p>\n<cite>Thays Mossi<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Renan Gim\u00e9nez, pesquisador do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia Social da UFRGS, al\u00e9m da diversifica\u00e7\u00e3o dos modelos de trabalho na mesma empresa e da crise de representa\u00e7\u00e3o dos funcion\u00e1rios, existe um outro obst\u00e1culo \u00e0s formas de organiza\u00e7\u00e3o coletiva: a plataformiza\u00e7\u00e3o do trabalho. Imersos em uma rotina exaustiva e (por vezes) privada de espa\u00e7os de conviv\u00eancia, os entregadores e motoristas por aplicativo nem sempre se unificam em torno das demandas, o que gera cis\u00f5es dentro da categoria.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery has-nested-images columns-default is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\">\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" data-id=\"129197\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129197\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3097-Cicloentregadores-Julia-Revelant-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" data-id=\"129193\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129193\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_2985-Cicloentregadores-Julia-Revelant-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/figure>\n<figcaption class=\"blocks-gallery-caption wp-element-caption\">Fotos: Julia Revelant\/JU<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Transi\u00e7\u00e3o para a &#8220;f\u00e1brica difusa&#8221;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Frio, chuva, espera e solid\u00e3o. Essas s\u00e3o apenas algumas das in\u00fameras situa\u00e7\u00f5es que os cicloentregadores de Porto Alegre e do Brasil inteiro passam todos os dias para fazer o trajeto entre a coleta nos restaurantes e o endere\u00e7o dos clientes. Quando esses trabalhadores n\u00e3o encontram um espa\u00e7o f\u00edsico para ser seu ponto de apoio, dentro dessa f\u00e1brica difusa que \u00e9 a cidade, eles acabam n\u00e3o tendo um lugar para se proteger do frio, da chuva, ir ao banheiro, ou esquentar sua comida no intervalo entre uma entrega e outra. Para mudar isso, o cicloentregador M\u00e1rcio Salvador Machado, mais conhecido como Padinho, alugou e organizou um ponto de apoio, um lugar confort\u00e1vel para descansar no Centro Hist\u00f3rico da capital, tirando dinheiro do pr\u00f3prio bolso e contando com a contribui\u00e7\u00e3o mensal volunt\u00e1ria dos trabalhadores que utilizam o local.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Quando eu comecei, eu ficava nas marquises quando chovia&#8230; A gente ficava na rua. Tu comia na rua, tinha que \u00e0s vezes usar um banheiro da rua. Isso aqui [o ponto de apoio], para n\u00f3s, eu digo que \u00e9 a nossa casa. Porque a gente passa mais tempo aqui do que em casa&#8221;, relembra Padinho.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar da resist\u00eancia criada dentro dessas quatro paredes, o restante da categoria esbarra em um obst\u00e1culo estrutural imposto pelo pr\u00f3prio aplicativo: o isolamento. Diferente de trabalhadores que dividem o ch\u00e3o de uma loja, os entregadores vivem uma rotina pulverizada, sem conv\u00edvio di\u00e1rio com colegas, o que dificulta a mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">A engrenagem das entregas<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Renan Gim\u00e9nez comenta que os membros da categoria veem esse emprego como algo transit\u00f3rio: poucos querem se aposentar como entregadores. Somado a isso, cada um tem sua pr\u00f3pria realidade: uns est\u00e3o desempregados e trabalhando temporariamente com entregas, outros est\u00e3o fazendo uma renda extra, e h\u00e1 ainda os que preferem a flexibilidade de hor\u00e1rios que o regime CLT muitas vezes n\u00e3o possui.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pesquisador vivenciou este problema na pele, trabalhando como cicloentregador para desenvolver sua tese de doutorado. A partir dessa imers\u00e3o di\u00e1ria, concluiu que esses trabalhadores operam como uma &#8220;infraestrutura invisibilizada&#8221; nas cidades. Para Renan, os entregadores funcionam de forma an\u00e1loga aos canos de \u00e1gua ou fios de energia de uma metr\u00f3pole: s\u00e3o a base essencial para que a riqueza e os lucros das plataformas fluam, mas operam no sil\u00eancio e s\u00f3 s\u00e3o notados pela sociedade quando o sistema sofre uma interrup\u00e7\u00e3o. O aplicativo depende vitalmente dessa for\u00e7a humana, mas utiliza o tempo, a bicicleta e o corpo do trabalhador como infraestrutura pr\u00f3pria, isentando-se de pagar qualquer custo de manuten\u00e7\u00e3o ou garantia trabalhista.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cAs plataformas n\u00e3o lucram com o trabalho do entregador, elas precisam do trabalho do entregador para lucrar\u201d<\/p>\n<cite>Renan Gim\u00e9nez<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas ruas, n\u00e3o h\u00e1 gerente de carne e osso. O &#8220;patr\u00e3o&#8221; \u00e9 invis\u00edvel e n\u00e3o atende por um nome espec\u00edfico: est\u00e1 na tela do celular. Sob a falsa promessa de liberdade, o aplicativo dita o ritmo e pune com bloqueios quem ousa recusar corridas ruins. Como desabafa M\u00e1rcio, s\u00e3o exig\u00eancias que n\u00e3o condizem com a realidade de quem pedala no tr\u00e2nsito. O controle da plataforma \u00e9 tamanho que chega a ser geogr\u00e1fico, usando &#8220;promo\u00e7\u00f5es por zona&#8221; para atrair a massa de entregadores da periferia diretamente para os bairros mais ricos. Sem v\u00ednculos e bancando o pr\u00f3prio risco, o cicloentregador vira o que a academia define como trabalhador <em>just-in-time<\/em>: algu\u00e9m for\u00e7ado a estar sempre dispon\u00edvel na rua, mas que s\u00f3 ganha pela entrega exata que consegue concluir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, n\u00e3o h\u00e1 sindicato a que recorrer nem consenso sobre o que reivindicar. A antiga Associa\u00e7\u00e3o dos Cicloentregadores do Rio Grande do Sul (Acergs), a \u00fanica representa\u00e7\u00e3o da categoria no estado, foi dissolvida por diverg\u00eancias entre os participantes. Hoje, M\u00e1rcio (ex-presidente da Acergs) mant\u00e9m o grupo de entrega \u201cN\u00f3s por N\u00f3s\u201d, que funciona como espa\u00e7o f\u00edsico e rede de apoio voltado aos ciclistas, e n\u00e3o pretende retomar o projeto da Associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cTodos se afastaram, porque n\u00e3o deu certo, entendeu? Porque eram pensamentos diferentes. Havia pessoas que eram meio ambiciosas, queriam usar [a Acergs] para outros fins. E o meu fim \u00e9 \u00fanico. \u00c9 procurar o respeito pela classe, a valoriza\u00e7\u00e3o, a seguran\u00e7a que a gente precisa\u201d, comenta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre uma iniciativa que sobrevive e outra que se dissolve, a luta por melhores condi\u00e7\u00f5es de trabalho continua. Em um mundo do trabalho marcado por jornadas exaustivas e v\u00ednculos fr\u00e1geis, a mobiliza\u00e7\u00e3o nem sempre assume a forma de sindicatos ou associa\u00e7\u00f5es. Mesmo diante das diverg\u00eancias e da crise de representa\u00e7\u00e3o no mercado, as redes de apoio alternativas e os espa\u00e7os digitais s\u00e3o cada vez mais importantes para a garantia de um trabalho digno que, hoje em dia, \u00e9 um grande passo em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 vida digna.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"1000\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-129196\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/08\/DSC_3084-Cicloentregadores-Julia-Revelant-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Foto: Julia Revelant\/JU<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Manifesta\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a produ\u00e7\u00e3o desta mat\u00e9ria, o Jornal da Universidade entrou em contato com o Grupo Zaffari para dar o direito de manifesta\u00e7\u00e3o sobre o conte\u00fado da reportagem. O Grupo preferiu n\u00e3o se manifestar.<br><\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline animated fadeInDown slow is-style-outline--2\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/reportagens\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da editoria <strong>Reportagem<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cidadania | Em meio a rotinas pulverizadas, v\u00ednculos fr\u00e1geis e medo de retalia\u00e7\u00e3o, trabalhadores usam as redes sociais para reivindicar 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