{"id":130195,"date":"2026-09-17T07:40:00","date_gmt":"2026-09-17T10:40:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=130195"},"modified":"2026-09-18T11:19:34","modified_gmt":"2026-09-18T14:19:34","slug":"daniel-ibere-na-grande-canoa-dos-povos-indigenas-nao-ha-remos-solitarios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/daniel-ibere-na-grande-canoa-dos-povos-indigenas-nao-ha-remos-solitarios\/","title":{"rendered":"Daniel Iber\u00ea: \u201cNa grande canoa dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o h\u00e1 remos solit\u00e1rios\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Lideran\u00e7a guarani questiona a separa\u00e7\u00e3o entre cultura e natureza e defende o bem viver como caminho diante da crise clim\u00e1tica<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:10px\"><em>*Foto: Julia Relevant\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<div style=\"height:50px\" aria-hidden=\"true\" class=\"wp-block-spacer\"><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes que a primeira pergunta terminasse de ser enunciada na liga\u00e7\u00e3o, Daniel Iber\u00ea interrompeu. &#8220;Antes preciso dizer o seguinte: sou ind\u00edgena, sou do povo Guarani\u201d, explicou. Fui, ent\u00e3o, transportada para o tempo do funcionamento da vida de Iber\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por mais de cinco minutos, Iber\u00ea n\u00e3o respondeu \u00e0 perguntas. Falou do significado de ser Guarani, &#8220;povo caminhador&#8221;, de como caminhar \u00e9 aprender a deixar de lado o que pesa: &#8220;o peso do t\u00edtulo, o peso do nome&#8221;. S\u00f3 ent\u00e3o ele explicou por que n\u00e3o dava para come\u00e7ar dali. &#8220;N\u00e3o d\u00e1 para come\u00e7ar o nosso debate sem, em primeiro lugar, saudar toda a nossa ancestralidade: saudar a tua ancestralidade, saudar aquelas e aqueles que vieram antes para nos dar um mundo diferente desse.&#8221; Foi assim, com uma sauda\u00e7\u00e3o aos ancestrais dele e aos meus, que a conversa realmente come\u00e7ou. Para que a entrevista funcionasse, ele explicou, precis\u00e1vamos estar os dois pisando no mesmo ch\u00e3o. Assim, conseguir\u00edamos garantir um di\u00e1logo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Daniel Iber\u00ea Alves da Silva \u00e9 lideran\u00e7a do povo Mby\u00e1 Guarani, mestre em ci\u00eancias sociais e doutorando em Antropologia Social. Atua como consultor do Minist\u00e9rio da Cultura para a constru\u00e7\u00e3o do Plano Nacional das Culturas Ind\u00edgenas e integra o conselho de pol\u00edtica cultural de Rio Branco, no Acre, cidade em que tamb\u00e9m d\u00e1 aulas na Universidade Federal. Segundo ele, foi o primeiro professor ind\u00edgena da hist\u00f3ria da institui\u00e7\u00e3o. Iber\u00ea comenta, cansado, o quanto \u00e9 exaustivo ser sempre o primeiro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O gesto de abrir a entrevista com uma sauda\u00e7\u00e3o j\u00e1 prenunciava uma conversa sobre a ideia de que o <em>futuro \u00e9 ancestral<\/em> e sobre por que a cultura ocidental insiste em n\u00e3o olhar para tr\u00e1s.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea trouxe [em painel de abertura do semin\u00e1rio <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/politicacultural\/\">&#8220;O que pode a cultura na Universidade?&#8221;<\/a>, realizado do dia 25 de agosto] a ideia de que a natureza tamb\u00e9m \u00e9 cultura. Isso se relaciona com o conceito de bem viver?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sim, exatamente. Primeiro preciso fazer algumas marca\u00e7\u00f5es: estamos falando na l\u00edngua do colonizador, n\u00e3o estamos falando em Guarani. Quando entramos nas universidades, nos deparamos com conceitos e debates que n\u00e3o s\u00e3o necessariamente os nossos. Aquilo que pode parecer uma dificuldade, para um ind\u00edgena, de perceber o que \u00e9 cultura de um lado e natureza de outro, em muitos momentos \u00e9 visto como uma limita\u00e7\u00e3o, como se a gente n\u00e3o tivesse compreendido direito. Mas eu penso ao contr\u00e1rio: quem separou cultura e natureza n\u00e3o fomos n\u00f3s. Essa separa\u00e7\u00e3o se d\u00e1 no pensamento ocidental, n\u00e3o no nosso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje temos 275 idiomas falados no Brasil. E quando nos encontramos e precisamos usar o portugu\u00eas para nos comunicar, falamos &#8220;parente&#8221;. Na sociedade do juru\u00e1 [o n\u00e3o \u00edndio], parente \u00e9 pai, m\u00e3e, tio, tia, av\u00f4, e a rela\u00e7\u00e3o de parentesco vai diminuindo a partir da\u00ed. Para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 bem assim.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s somos parentes de toda a humanidade. Somos parentes de humanos e n\u00e3o humanos.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>E o que isso muda na pr\u00e1tica nessa rela\u00e7\u00e3o de parentesco?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s somos parentes de toda a comunidade, e essa rela\u00e7\u00e3o n\u00e3o termina na comunidade: somos parentes de toda a humanidade, de humanos e n\u00e3o humanos. Da mesma maneira que o ca\u00e7ador \u00e9 parente da ca\u00e7a, que o arco \u00e9 parente da flecha, que o remo \u00e9 parente da canoa, que a canoa \u00e9 parente do rio, que o rio \u00e9 parente dos peixes e de tudo que nele vive. Um parente cuida do outro, e n\u00e3o h\u00e1 essa distin\u00e7\u00e3o que existe do lado de c\u00e1.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A distin\u00e7\u00e3o entre homem e natureza \u00e9 uma distin\u00e7\u00e3o que cristaliza conceitos, muito bem utilizada para estabelecer o dom\u00ednio do homem, ou da cultura, sobre a natureza, sobre os outros. E quando se faz essa distin\u00e7\u00e3o, quem somos n\u00f3s e quem s\u00e3o os outros?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">At\u00e9 bem pouco tempo, n\u00f3s fomos considerados n\u00e3o humanos. Com v\u00e1rias justificativas, muitas delas assentadas sobre um verniz de ci\u00eancia. Isso \u00e9 o que precisamos questionar: inclusive a pr\u00f3pria ideia de ci\u00eancia. Que ci\u00eancia \u00e9 essa que se elegeu, que se ergueu no fim do s\u00e9culo 19 e in\u00edcio do 20, e que, para se erguer, precisou apagar outras formas de saber, embora tenha roubado conhecimento delas.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea n\u00e3o escolheu a antropologia por afinidade com a \u00e1rea. Por que, ent\u00e3o?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o fiz antropologia porque amava a antropologia. Fiz porque faltou antrop\u00f3logo nos processos de demarca\u00e7\u00e3o. N\u00e3o fiz ci\u00eancia pol\u00edtica porque amava a ci\u00eancia pol\u00edtica: fiz para compreender porque um mundo t\u00e3o injusto insiste em nos oprimir, em nos explorar. A hist\u00f3ria daquilo que se concebe hoje como ci\u00eancia nas universidades foi, em grande parte, constru\u00edda sobre sacrif\u00edcio, sobre pilhagem, sobre massacre, sobre apagamento de mem\u00f3rias.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea fala que estamos no limiar de uma terceira grande miss\u00e3o do &#8220;juru\u00e1&#8221;, termo Guarani para o n\u00e3o ind\u00edgena. O que isso significa?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Juru\u00e1 significa, na minha l\u00edngua, &#8220;da boca para fora&#8221;. O mundo buscou, durante muito tempo, a resposta no grande papel do civilizado, que era normalmente um homem branco. No primeiro tempo da coloniza\u00e7\u00e3o, o papel do homem branco era cristianizar o mundo, e isso significou saque, pilhagem, genoc\u00eddio, etnoc\u00eddio, massacre de todas as formas. Depois, o papel passou a ser civilizar os povos &#8220;b\u00e1rbaros&#8221;, e significou, de novo, saque, pilhagem, genoc\u00eddio. Agora estamos no limiar de uma terceira grande miss\u00e3o do juru\u00e1, que \u00e9 enfrentar as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas. E isso envolve, mais uma vez, sacrif\u00edcio, massacre, exterminismo, um avan\u00e7o sobre os nossos territ\u00f3rios.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se formos buscar onde est\u00e1 a raiz dessas desigualdades, vamos perceber que foi justamente a\u00ed, quando se separou cultura e natureza.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>O Rio Grande do Sul viveu isso de perto em 2024, quando<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.correiobraziliense.com.br\/brasil\/2024\/05\/6859198-mais-de-90-dos-municipios-gauchos-sao-atingidos-pela-tragedia-climatica-no-sul.html\"><strong><\/strong><strong>cerca de 90% dos munic\u00edpios ga\u00fachos foram atingidos pelas enchentes<\/strong><\/a><strong>. Como voc\u00ea olha para esse tipo de trag\u00e9dia?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se formos buscar de fato onde est\u00e1 a raiz dessas desigualdades, vamos perceber que foi justamente a\u00ed, quando as duas partes foram separadas, dois irm\u00e3os que hoje quase n\u00e3o caminham mais juntos: cultura e natureza, justi\u00e7a e lei. \u00c9 preciso que o mundo se volte para n\u00f3s mesmos, para observar como popula\u00e7\u00f5es ancestrais milenares estabeleceram, e seguem estabelecendo, suas rela\u00e7\u00f5es com o diverso, com o plural. Quem sabe mais sobre a maneira de viver na floresta, na caatinga, nos pampas, nos cerrados, s\u00e3o as popula\u00e7\u00f5es que historicamente vivem nesses lugares. Esse conhecimento n\u00e3o pode continuar sendo apagado.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1500\" height=\"998\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-130368\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273.jpg 1500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2026\/09\/Daniel-Ibere_JuliaRelevant-3273-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Iber\u00ea partiipou de atividades no semin\u00e1rio \u201cO que pode a cultura na Universidade?\u201d, realizado no Centro Cultural da UFRGS (Foto: Julia Revelant\/JU, 25\/08\/2026)<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>O conceito de bem viver vem ganhando for\u00e7a fora dos c\u00edrculos acad\u00eamicos. Voc\u00ea j\u00e1 discutiu o tema em aulas ao lado do economista equatoriano Alberto Acosta, um dos formuladores do conceito na Constitui\u00e7\u00e3o do Equador. O que \u00e9 o bem viver, pra voc\u00ea?\u00a0<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 uma tentativa de mostrar que existem outros saberes. O bem viver bebe nos saberes dos povos ind\u00edgenas: no sumak kawsay, no \u00f1andereko, no teko por\u00e3. Mas ele n\u00e3o \u00e9 nenhum desses conceitos sozinho, porque, para nome\u00e1-lo, usamos o portugu\u00eas ou o espanhol, l\u00ednguas que j\u00e1 s\u00e3o, elas mesmas, uma forma de a Europa seguir sendo o centro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O saber dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o \u00e9 um ramo dessa ci\u00eancia que pretende apreender tudo o que toca. N\u00f3s n\u00e3o somos um galho. Somos uma \u00e1rvore inteira, somos florestas inteiras de saberes. Toda vez que a gente coloca esse saber no mercado, ele se perde um pouco. Vira objeto de consumo.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Por que voc\u00ea evita fechar o conceito em uma \u00fanica defini\u00e7\u00e3o?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Toda vez que a gente tenta conceituar o que \u00e9 bem viver, existe uma armadilha e uma tens\u00e3o: quando voc\u00ea diz o que uma coisa \u00e9, tamb\u00e9m est\u00e1 dizendo o que ela n\u00e3o \u00e9, e corre o risco de asfixiar o conceito. Por isso, para cada povo, o bem viver assume uma forma pr\u00f3pria. Acho que os pesquisadores, os pensadores, podem ser convidados a pensar junto com as popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias, n\u00e3o s\u00f3 os ind\u00edgenas, mas tamb\u00e9m camponeses, ribeirinhos, cai\u00e7aras, geraizeiros. S\u00f3 que toda vez que a gente coloca esse saber no mercado, ele se perde um pouco. Ele entra em circula\u00e7\u00e3o e come\u00e7a a ser deturpado, porque vira objeto de consumo.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea situa a raiz do individualismo na inf\u00e2ncia e na forma como as grandes cidades organizam a cria\u00e7\u00e3o dos filhos. O que voc\u00ea quer dizer quando pontua que a dificuldade de sensibilizar as pessoas para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas \u00e9 uma quest\u00e3o de cria\u00e7\u00e3o, de inf\u00e2ncia?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vai sendo introjetado, desde cedo, um modo de pensar, de agir, de sentir, que distancia o indiv\u00edduo do coletivo. O n\u00f3s, que era o in\u00edcio do caminho, vai perdendo terreno, e vem o eu. Na minha cultura, a gente diz que o um \u00e9 ruim: com muitos \u00e9 melhor. Trinta, quarenta anos atr\u00e1s, a crian\u00e7a era criada quase na coletividade, todo mundo era meio respons\u00e1vel pela sua educa\u00e7\u00e3o. Isso acontece nas nossas comunidades. Nas cidades grandes, como Porto Alegre ou S\u00e3o Paulo, isso j\u00e1 ficou mais dif\u00edcil, por viol\u00eancia, por muitos outros motivos, e o espa\u00e7o do coletivo vai perdendo terreno.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando a fome e a mis\u00e9ria passam a soar sem nos causar dor, \u00e9 porque aprendemos um mundo assim.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Isso se conecta com a dificuldade de mobilizar as pessoas para as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea vive numa sociedade em que a fome e a mis\u00e9ria s\u00e3o naturalizadas, e passam a soar sem nos causar dor, sem nos tocar, sem nos ferir, \u00e9 porque o mundo que aprendemos \u00e9 assim. A escola tamb\u00e9m tem um papel nisso: pode ser um espa\u00e7o de transforma\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m pode preparar o indiv\u00edduo, desde sempre, para uma f\u00e1brica que talvez nem chegue a existir mais. Ent\u00e3o, quando se trata de grandes temas, como as mudan\u00e7as clim\u00e1ticas, \u00e9 algo t\u00e3o distante do eu que parece n\u00e3o poder ser sentido. Raramente voc\u00ea vai encontrar uma lideran\u00e7a ind\u00edgena falando eu, eu. Falamos n\u00f3s, porque \u00e9 um caminhar que n\u00e3o come\u00e7a com o indiv\u00edduo e n\u00e3o termina com o indiv\u00edduo. Termina com a coletividade.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea diz que a resposta a esse ac\u00famulo de crises passa pela universidade, mas n\u00e3o pela universidade tal como ela \u00e9 hoje.&nbsp;<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela se empenhou bastante em construir o centro do saber, e as periferias desse saber foram questionadas, fraturadas, negadas. As institui\u00e7\u00f5es passam a refletir os territ\u00f3rios onde est\u00e3o inseridas: n\u00e3o posso entrar numa universidade na Amaz\u00f4nia sem saber que estou na Amaz\u00f4nia. Ela deve ter o rosto das Amaz\u00f4nias.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Voc\u00ea \u00e9 consultor do Plano<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.camara.leg.br\/noticias\/1281198-indigenas-defendem-aprovacao-do-plano-nacional-que-valoriza-suas-culturas\/\"><strong>Nacional das Culturas dos Povos Ind\u00edgenas (PNCPI)<\/strong><\/a><strong>, em constru\u00e7\u00e3o pelo Minist\u00e9rio da Cultura. O grupo de trabalho re\u00fane 20 organiza\u00e7\u00f5es ind\u00edgenas, incluindo a Articula\u00e7\u00e3o Nacional das Mulheres Guerreiras Ancestrais. Qual a relev\u00e2ncia disso?<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A constru\u00e7\u00e3o de um plano para os povos ind\u00edgenas n\u00e3o pode ser feita sem os povos ind\u00edgenas. Nossos remos j\u00e1 est\u00e3o bastante gastos de tanto remar contra o apagamento de quem somos. Mas aprendemos, durante esse tempo todo, a refazer os remos. Na grande canoa dos povos ind\u00edgenas n\u00e3o h\u00e1 remos solit\u00e1rios.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-group\"><div class=\"wp-block-group__inner-container is-layout-constrained wp-block-group-is-layout-constrained\">\n<hr class=\"wp-block-separator has-alpha-channel-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-buttons is-content-justification-center is-layout-flex wp-container-core-buttons-is-layout-fe48e5de wp-block-buttons-is-layout-flex\">\n<div class=\"wp-block-button is-style-outline animated fadeInDown slow is-style-outline--1\"><a class=\"wp-block-button__link has-text-color has-link-color has-custom-font-size wp-element-button\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/category\/entrevistas\/\" style=\"border-radius:16px;color:#135e96;font-size:15px\">Veja mais conte\u00fados da editoria <strong>Entrevistas<\/strong><\/a><\/div>\n<\/div>\n\n\n\n<div style=\"height:100px\" aria-hidden=\"true\" 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