{"id":13513,"date":"2020-11-12T11:41:00","date_gmt":"2020-11-12T14:41:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=13513"},"modified":"2020-11-12T13:14:25","modified_gmt":"2020-11-12T16:14:25","slug":"kaka-wera-jecupe-a-sociedade-nao-esta-conseguindo-dormir-quanto-mais-sonhar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/kaka-wera-jecupe-a-sociedade-nao-esta-conseguindo-dormir-quanto-mais-sonhar\/","title":{"rendered":"Kak\u00e1 Wer\u00e1 Jecup\u00e9: \u201cA sociedade n\u00e3o est\u00e1 conseguindo dormir, quanto mais sonhar\u201d"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\"><strong>Entrevista | Filho de pais tapuias, ou txukarram\u00e3es (\u201cguerreiros sem armas\u201d), o ambientalista ind\u00edgena acredita que a priva\u00e7\u00e3o de sono da sociedade contempor\u00e2nea e a falta de cuidado com a natureza est\u00e3o entre os principais males de nosso tempo&nbsp;<\/strong> <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de capa: Arquivo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O c\u00e1lculo \u00e9 que cerca de um ter\u00e7o de nossas vidas passaremos dormindo. Das 24 horas de um dia, o tempo de sono ideal &#8211; que, para maioria da popula\u00e7\u00e3o nunca chega a este n\u00famero, \u00e9 de 8h di\u00e1rias. O tempo dormido representa uma parte significativa do tempo de vida de qualquer ser humano, mas nem por isso \u00e9 um assunto no qual se preste muita aten\u00e7\u00e3o. A compreens\u00e3o de que n\u00e3o s\u00f3 dormir, mas tamb\u00e9m sonhar \u00e0 noite constituem parte essencial de nossa exist\u00eancia \u00e9 um dos temas trazido pelo ambientalista Kak\u00e1 Wer\u00e1 Jecup\u00e9 em suas obras. Nascido em uma aldeia guarani no litoral paulista, Kak\u00e1 atua desde a d\u00e9cada de 80 na defesa da cultura ind\u00edgena, tendo criado o Instituto Arapoty, respons\u00e1vel pela difus\u00e3o dos saberes e projetos dos povos da floresta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Filho de pais tapuias (em Tupi, Tapuia significa \u201cdo interior\u201d, \u201caquele que fala a l\u00edngua estranha\u201d), Kak\u00e1 \u00e9 autor dos livros <em>A Terra dos Mil Povos &#8211; Hist\u00f3ria Ind\u00edgena do Brasil Contada por um \u00cdndio<\/em> (1998), <em>As Fabulosas F\u00e1bulas de Iauaret\u00ea<strong> <\/strong><\/em>(2007) e <em>O Trov\u00e3o e o Vento: Um Caminho de Evolu\u00e7\u00e3o pelo Xamanismo Tupi-Guarani <\/em>(2016). Faz uso da palavra para compartilhar os saberes e estudos que realiza h\u00e1 d\u00e9cadas junto a povos como os <a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Guarani\">Guarani,<\/a> os <a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Krah%C3%B4\">Krah\u00f4 <\/a>e os <a href=\"https:\/\/pib.socioambiental.org\/pt\/Povo:Xavante\">Xavante<\/a>, abordando tem\u00e1ticas como os sonhos, a rela\u00e7\u00e3o dos povos ind\u00edgenas com a natureza e as lutas\u00a0 hist\u00f3ricas dos povos tradicionais. Em entrevista concedida ao JU por chamada de v\u00eddeo, evoca a import\u00e2ncia de sonhar e defende que a palavra seja usada em benef\u00edcio da preserva\u00e7\u00e3o da vida &#8211; humana e n\u00e3o humana. \u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que tu aprendeste sobre os sonhos com teus mais velhos?<\/strong><br>Essa quest\u00e3o do sonho \u00e9 central na cultura ind\u00edgena de modo geral. Para mim, esse aprendizado espec\u00edfico come\u00e7a a vir de uma rela\u00e7\u00e3o que eu comecei a ter com o povo Krah\u00f4. Ele \u00e9 um povo que vive na regi\u00e3o do Tocantins, pr\u00f3ximo \u00e0s margens do Rio Tocantins, no norte do Brasil. Eu conheci os Krah\u00f4 quando eu estava com os Guarani. Eles foram visitar os Guarani em S\u00e3o Paulo, no in\u00edcio dos anos 90, e a primeira coisa que me chamou a aten\u00e7\u00e3o foi justamente o fato de que em toda decis\u00e3o que aquela comunidade iria tomar, antes de tom\u00e1-la, era dito assim: vamos sonhar. E era \u201cvamos sonhar\u201d literalmente. Significava ir dormir, sonhar e s\u00f3 depois &#8211; quando era uma decis\u00e3o importante &#8211; decidir. E isso me chamou muito a aten\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, fui verificar&nbsp;e perguntar, querer saber mais, e a\u00ed foi quando aprendi que para todo movimento da comunidade, seja geogr\u00e1fico, f\u00edsico, de decis\u00f5es, o sonho era uma coisa muito importante. Eu fui vendo e aprendendo que o sonho \u00e9 um portal de outras partes, de outras dimens\u00f5es, de outros planos mesmo. Fui percebendo que isso tinha resson\u00e2ncia com outros povos tamb\u00e9m, como o povo Xavante. Em 97, escrevi alguma coisa sobre isso no livro <em>A Terra dos Mil Povos<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Dessa \u00e9poca para c\u00e1, eu fui n\u00e3o s\u00f3 prestando mais aten\u00e7\u00e3o no sonho em si, na qualidade dos sonhos pessoais, como tamb\u00e9m fui estudando e verificando determinadas caracter\u00edsticas dessa arte de sonhar. Eu descobri que grande parte dos rem\u00e9dios e alimentos tradicionais &#8211; n\u00e3o s\u00f3 dos Krah\u00f4, mas de outros povos, foram todos aprendidos no sonho. At\u00e9 mesmo meios de constru\u00e7\u00e3o, modos de construir. Tudo aprendido pelos sonhos.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o fui trazendo essa pr\u00e1tica para a minha vida. Primeiro para a minha vida pessoal, verificando isso. Depois, quando me tornei terapeuta e fui aplicando essa import\u00e2ncia do sonhar. Resumindo, n\u00e3o \u00e9 uma coisa que s\u00f3 veio. Partiu de um estudo tamb\u00e9m. E os primeiros velhos que me trouxeram essas informa\u00e7\u00f5es foram os velhos Krah\u00f4 &#8211; um deles chamado Tenon,<strong> <\/strong>que era realmente muito velho, muito antigo. Tinha quase cem anos. Tinha uma grande sabedoria. E foi a partir dessa escuta que se desdobraram estudos, pesquisas, viv\u00eancias.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No livro <em>A Terra dos Mil Povos<\/em>, tu contas sobre o sonho de um av\u00f4, em 1774, no qual ele visualizou a invas\u00e3o de uma aldeia Xavante por brancos. Ap\u00f3s o av\u00f4 compartilhar o sonho com os outros, os brancos se perderam e n\u00e3o conseguiram encontrar onde estavam os \u00edndios. Tu enxergas o sonho como um or\u00e1culo?&nbsp;<\/strong><br>Em <em>A Terra dos Mil Povos <\/em>eu narro essa hist\u00f3ria. Os Xavantes conseguiram evitar o contato, e isso fez com que eles se preservassem at\u00e9 os anos 1950.  S\u00f3 a partir desse per\u00edodo que eles sonharam que podiam. E a\u00ed eles tiveram contato justamente com duas pessoas que s\u00e3o os \u00edcones do indigenismo no Brasil: o Rondon &#8211; que era um pacificador &#8211; e o Orlando Villas Boas, que tamb\u00e9m teve uma rela\u00e7\u00e3o de muito respeito com os povos ind\u00edgenas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mas eu n\u00e3o vejo o sonho como um or\u00e1culo, n\u00e3o. Vai depender muito do sentido de or\u00e1culo. Por exemplo, eu n\u00e3o consigo associar o sonho ao or\u00e1culo como uma adivinha\u00e7\u00e3o. Mas o or\u00e1culo como uma premoni\u00e7\u00e3o, como uma capta\u00e7\u00e3o de uma possibilidade que j\u00e1 est\u00e1 em algum n\u00edvel, em alguma dimens\u00e3o. Da\u00ed pode ser.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sonho tem muitos n\u00edveis. E um dos n\u00edveis poss\u00edveis que o sonho pode nos levar \u00e9 ao n\u00edvel do n\u00e3o tempo &#8211; onde n\u00e3o tenho presente, passado e futuro. Nessa dimens\u00e3o do n\u00e3o tempo realmente \u00e9 poss\u00edvel captar possibilidades de situa\u00e7\u00f5es ou fatos que est\u00e3o no campo &#8211; como foi o caso dos Xavantes. E se a pessoa ou a cultura tem realmente essa compreens\u00e3o de n\u00edveis que s\u00e3o poss\u00edveis de atravessar, de que a consci\u00eancia pode atravessar, por meio do sonho, ent\u00e3o ela traz essa informa\u00e7\u00e3o antes que necessariamente ela venha a acontecer. Isso tamb\u00e9m n\u00e3o significa dizer que \u00e9 inevit\u00e1vel.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00f3s temos exemplos at\u00e9 mesmo b\u00edblicos desses sonhos premonit\u00f3rios, como o pr\u00f3prio apocalipse. O que \u00e9 a narrativa do apocalipse que aconteceu h\u00e1 dois mil anos? Jo\u00e3o entrou em um estado de percep\u00e7\u00e3o dessa dimens\u00e3o, mas de uma maneira t\u00e3o ampla que ele anteviu e captou algo que estava em curso, mas que, na escala do tempo do aqui-agora, levaria mil\u00eanios para manifestar. Ent\u00e3o n\u00e3o \u00e9 bem uma esp\u00e9cie de or\u00e1culo no sentido de adivinha\u00e7\u00e3o, mas no sentido de percep\u00e7\u00e3o de algo que j\u00e1 est\u00e1 no campo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outra hist\u00f3ria interessante sobre os sonhos que narras no livro \u00e9 a chamada Roda do Sonho, do povo Krah\u00f4. Como \u00e9 o h\u00e1bito de compartilhar o que \u00e9 sonhado? O mesmo \u00e9 feito por outros povos?&nbsp;<\/strong><br>Eu vivi essa experi\u00eancia da Roda do Sonhos com os Krah\u00f4. \u00c9 uma coisa bem simples. Pela manh\u00e3, ao despertar, voc\u00ea se re\u00fane com um grupo (fam\u00edlia, amigos, pessoas) em um roda, e cada um compartilha o sonho que teve durante a noite. Nesse momento, aquele que compartilha n\u00e3o compartilha como um sonho pessoal, mas como um sonho coletivo, mesmo que seja algo pessoal. E aquele que escuta o faz n\u00e3o para interpretar, mas para se colocar dentro desse sonho. E a\u00ed, se ele tamb\u00e9m teve um sonho, ele vai contar o sonho dele como um complemento desse sonho escutado. A resposta que dou para o sonho do outro, ent\u00e3o, \u00e9 o sonho que eu tive. Se eu n\u00e3o sonhei, fico quieto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O que percebo ao longo dos anos \u00e9 que, entre povos comunit\u00e1rios, os sonhos s\u00e3o comunit\u00e1rios. Na minha experi\u00eancia com n\u00e3o ind\u00edgenas, mesmo os sonhos que envolvem um contexto coletivo s\u00e3o individuais, pessoais.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu costumo fazer a Roda de Sonhos em viv\u00eancias que realizo, seguindo a ideia de que quem escuta n\u00e3o interpreta. S\u00f3 escuta. O que acontece \u00e9 que, quando a pessoa narra o seu sonho, quando ela verbaliza, ela cria uma possibilidade de compreender o sonho. Quando ela narra, ela vai contando e, de repente, diz: \u201cAh! estou entendendo tal coisa\u201d, porque desentope esse canal. O problema do ser humano, da pessoa mais da cidade, \u00e9 que esse canal on\u00edrico n\u00e3o \u00e9 exercitado. Ent\u00e3o ele n\u00e3o consegue compreender o sonho.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Algo marcante sobre essa pessoa da cidade e da sociedade contempor\u00e2nea de modo geral \u00e9 a falta de sono. Uma sociedade que dorme pouco, cada vez menos. E, antes do sonho, vem o sono. O que tu pensas sobre esse sempre estar ocupado da sociedade contempor\u00e2nea? <\/strong><br>Eu vejo a dificuldade do sono como um dos grandes males da sociedade contempor\u00e2nea, um dos grandes causadores de males. \u00c9 um problema grave.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Tem dois problemas grav\u00edssimos que a sociedade contempor\u00e2nea realiza: a dificuldade de ter sono e a dificuldade de respeitar a natureza. Os dois s\u00e3o problemas grav\u00edssimos, pois geram doen\u00e7as e distor\u00e7\u00f5es terr\u00edveis.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas, com rela\u00e7\u00e3o ao sono, este \u00e9 o estado que nos permite revitalizar o nosso organismo, a casa do nosso esp\u00edrito. E se essa casa n\u00e3o \u00e9 revitalizada, ela adoece. \u00c9 basicamente por isso. Atrav\u00e9s do sono, voc\u00ea renova suas energias f\u00edsicas, suas c\u00e9lulas, suas energias ps\u00edquicas. E voc\u00ea ganha uma quantidade de energia que favorece, por exemplo, o ganho de imunidade. As pessoas se desenvolvem no sono. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando voc\u00ea v\u00ea o jovem &#8211; pessoa quando sai da fase dos 12 anos -, esse \u00e9 o momento em que se come\u00e7a a esticar, a crescer. E isso \u00e9 tamb\u00e9m por causa do sono. \u00c0s vezes as pessoas falam \u201cmeu filho est\u00e1 dormindo demais\u201d, mas, nesse per\u00edodo, eles precisam dormir muito porque \u00e9 quando a pessoa cresce. Mas independentemente dessa fase, todos os dias a nossa pele, o nosso organismo, precisam do sono. E a nossa sa\u00fade mental tamb\u00e9m. E a sociedade n\u00e3o est\u00e1 conseguindo dormir, quanto mais sonhar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O sono nos conecta com um grande ancestral da humanidade, que \u00e9 o povo pedra, o povo mineral. A energia do povo mineral \u00e9 que revitaliza o nosso organismo. Voc\u00ea sabe que a gente tem minerais no nosso organismo. A mesma quantidade de minerais que tem em todo planeta terra tem no nosso corpo, proporcionalmente falando, no microcosmos. Ent\u00e3o, esses minerais precisam ser ativados e curiosamente eles s\u00e3o ativados no sono. Aquilo que \u00e9 inativo para mente \u00e9 ativo para o mineral. Quando voc\u00ea n\u00e3o dorme direito, passa a faltarem minerais no seu organismo. E isso compromete a tua vitalidade. O sonho \u00e9 voc\u00ea respeitar o povo pedra.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem uma antiga sabedoria que diz o seguinte: a consci\u00eancia dorme no reino mineral, sonha no reino vegetal, acorda no reino animal e desperta no reino humano. Seriam os quatro estados da consci\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>\u00c9 interessante que o sonho esteja vinculado ao reino vegetal. Antes tu havias trazido a ideia de que ser humano que n\u00e3o dorme \u00e9 o mesmo que n\u00e3o respeita a natureza. Poderias falar um pouco mais sobre essa sociedade que n\u00e3o dorme nem sonha nem estabelece uma rela\u00e7\u00e3o pr\u00f3xima com a Terra?&nbsp;<\/strong><br>O ser humano da sociedade contempor\u00e2nea n\u00e3o consegue perceber que existe uma rela\u00e7\u00e3o sist\u00eamica entre ele, qualquer indiv\u00edduo, e a natureza, que existe uma inter-rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o consegue perceber que n\u00f3s somos um microcosmos da natureza. Proporcionalmente, somos uma extens\u00e3o de toda a natureza. Ent\u00e3o, \u00e0 medida que eu n\u00e3o cuido de mim, eu tamb\u00e9m n\u00e3o cuido da natureza. E \u00e0 medida que eu n\u00e3o cuido da natureza, eu tamb\u00e9m n\u00e3o cuido de mim. E esses dois pontos com que voc\u00ea come\u00e7ou a entrevista, o sono e o sonho, s\u00e3o portais da consci\u00eancia que nos ajudam a perceber como essa inter-rela\u00e7\u00e3o se d\u00e1.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual a proximidade entre arte e sonho?&nbsp;<\/strong><br>Toda arte \u00e9 uma express\u00e3o que tem qualidade, profundidade e t\u00e9cnica. O sonho tamb\u00e9m. Tem suas qualidades, profundidades e suas t\u00e9cnicas estruturantes. E se a gente conhece a t\u00e9cnica, os princ\u00edpios, o sonho deixa de ser mais um elemento inconsciente na sua vida, subutilizado, e passa a ser um elemento consciente na sua vida, uma ferramenta de orienta\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>N\u00f3s passamos 1\/3 da nossa vida sonhando. Se voc\u00ea imaginar as 24h de um dia, 8h desse tempo seria para dormir. Nesse 1\/3 que voc\u00ea tem que dormir, voc\u00ea passa pelo sono e pelo sonho. Se voc\u00ea n\u00e3o conhecesse nada sobre sonho, ent\u00e3o \u00e9 como se voc\u00ea estivesse desperdi\u00e7ando um peda\u00e7o importante da sua vida.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em tua trajet\u00f3ria, falas que para diversos grupos ind\u00edgenas a palavra tem esp\u00edrito. E tu escolheste a palavra como forma de compartilhar sabedoria, por meio da escrita, dos livros. Como foi esse processo?&nbsp;<\/strong><br>Ent\u00e3o, tem tr\u00eas pontos centrais com rela\u00e7\u00e3o \u00e0 escolha da palavra. O primeiro ponto \u00e9 que eu realmente aprendi com a tradi\u00e7\u00e3o Guarani que toda palavra tem um esp\u00edrito vivo. E cada palavra que a gente expressa tem uma vida pr\u00f3pria. \u00c9 poder de todos os poderes. O que a gente pensa e o que a gente fala t\u00eam vida e t\u00eam poder de manifesta\u00e7\u00e3o. Esse primeiro ponto me levou a ter uma responsabilidade com rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que eu falo e penso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O segundo ponto \u00e9 que, mesmo antes de escutar isso, eu j\u00e1 era apaixonado pela palavra enquanto letra, enquanto escrita. Porque desde muito pequeno, desde antes de aprender a ler, eu j\u00e1 gostava de livro e de palavras. Amava e amo ler. Minha felicidade de ir para escola era de ter a oportunidade de ficar lendo, fosse o que fosse.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O terceiro ponto \u00e9 que, quando eu comecei o meu ativismo na \u00e1rea da ecologia, eu ainda era um estudante. Estava terminando o col\u00e9gio. E uma das grandes quest\u00f5es que se apresentava era que eu fazia muito o exerc\u00edcio com colegas, amigos e l\u00edderes ind\u00edgenas de falar, de defender nossos territ\u00f3rios, a nossa cultura. E da\u00ed eu percebi que a gente poderia naquela \u00e9poca multiplicar mais a nossa fala se ela fosse escrita. Quando eu dou uma palestra, eu falo com 20 pessoas. Quando eu escrevo um livro, um panfleto, posso falar com mil, por exemplo. Gostaria que, pela escrita, algumas de nossas ideias, de nossos valores e das nossas quest\u00f5es pudessem ser multiplicadas com qualidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tu terminas a edi\u00e7\u00e3o mais recente de <em>A Terra dos Mil Povos<\/em> falando justamente sobre estes que, como tu, s\u00e3o multiplicadores dos povos ind\u00edgenas desde a \u00e9poca das capitanias heredit\u00e1rias<\/strong>. <strong>Entre eles est\u00e3o Ailton Krenak, S\u00f4nia Guajajara e \u00c1lvaro Tukano, por exemplo. E todos eles tendem a fazer o uso da palavra. Tem algo que conecte todos esses multiplicadores e lideran\u00e7as das lutas ind\u00edgenas?&nbsp;<\/strong><br><em>A Terra dos Mil Povos<\/em> foi escrita nos anos 90, em um per\u00edodo em que eu e meus colegas, l\u00edderes ind\u00edgenas \u00e0 \u00e9poca, como \u00c1lvaro Tukano, Marcos Terena e o pr\u00f3prio Ailton, viv\u00edamos um per\u00edodo muito efervescente, de muita atividade na \u00e1rea cultural, na \u00e1rea social. Era uma \u00e9poca em que a gente estava conseguindo, atrav\u00e9s dessas atividades, conquistar a sensibilidade de uma grande parcela da sociedade. Para voc\u00ea ter ideia, foi uma \u00e9poca em que houve um grande evento mundial no Rio de Janeiro, chamado ECO 92, que trouxe cientistas e l\u00edderes pol\u00edticos do mundo inteiro para o Brasil com uma ideia bem pr\u00f3xima daquilo que as culturas ind\u00edgenas pensam. Uma ideia de promo\u00e7\u00e3o de um cuidado com a natureza, em todos os n\u00edveis. Um pensamento de preserva\u00e7\u00e3o de floresta, de trabalhar pela n\u00e3o polui\u00e7\u00e3o do ar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De 1992 at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o do livro em 98, havia naquele momento uma sensibiliza\u00e7\u00e3o muito grande para as nossas causas. E n\u00f3s percebemos que a uni\u00e3o de v\u00e1rios l\u00edderes, de povos totalmente diferentes, era um fator fundamental para determinadas conquistas nessa \u00e1rea em que atuamos. No cuidado com a natureza e o respeito e reconhecimento dos nossos territ\u00f3rios, tanto os materiais quanto os culturais.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso, com o passar do tempo, vai se consolidando. No in\u00edcio do s\u00e9culo XXI, e de uma maneira absurdamente incr\u00edvel nos \u00faltimos dois anos, todas essas conquistas, toda essa sensibiliza\u00e7\u00e3o que foi trabalhada durante esse tempo todo, foi posta por terra. Nos \u00faltimos dois anos, houve e est\u00e1 havendo uma diminui\u00e7\u00e3o dr\u00e1stica das reservas naturais, dos ecossistemas, n\u00e3o s\u00f3 da Amaz\u00f4nia, mas principalmente. Tamb\u00e9m do Cerrado, do Pantanal. E hoje n\u00e3o s\u00f3 a cultura ind\u00edgena, mas a pr\u00f3pria ci\u00eancia sabe o quanto isso causa um mal para a manuten\u00e7\u00e3o do equil\u00edbrio da vida como um todo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A gente est\u00e1 vivendo um momento em que h\u00e1 um grande ataque a essas conquistas e, inclusive, um questionamento a determinados valores &#8211; e tamb\u00e9m um questionamento com rela\u00e7\u00e3o aos territ\u00f3rios ind\u00edgenas. A gente tem sofrido muito. Sofrido fisicamente em raz\u00e3o de um tipo de vis\u00e3o e a\u00e7\u00e3o que vem destruindo culturas e floresta.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isso infelizmente est\u00e1 acontecendo. \u00c9 como se a gente tivesse atrasado, pelo menos, 500 anos, porque \u00e9 um tipo de pensamento da&nbsp; Idade M\u00e9dia &#8211; n\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o, mas do poder pol\u00edtico do Brasil hoje. \u00c9 medieval. E isso est\u00e1 interferindo negativamente, n\u00e3o s\u00f3 em rela\u00e7\u00e3o aos povos ind\u00edgenas, mas a toda a sociedade humana.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, refor\u00e7o, n\u00e3o atinge somente o brasileiro, mas a sociedade mundial. Tanto \u00e9 que existe um apelo no mundo inteiro para que o Brasil reveja esse tipo de atitude. Nunca se fez t\u00e3o necess\u00e1rio haver a utiliza\u00e7\u00e3o de espa\u00e7os de escrita, de discuss\u00e3o, de conversa, de reflex\u00e3o para n\u00f3s tomarmos provid\u00eancias conjuntas em rela\u00e7\u00e3o a coisas que dizem respeito a todos n\u00f3s. Dizem respeito a direitos conquistados pela humanidade como um todo. O direito \u00e0 qualidade de vida, \u00e0 preserva\u00e7\u00e3o dessa qualidade de vida. Em suma, na verdade, o direito \u00e0 continuidade da vida, porque sem natureza n\u00e3o existe vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o, neste momento, aqui e agora, n\u00f3s, cidad\u00e3os ind\u00edgenas e n\u00e3o ind\u00edgenas, temos o dever de colocar a nossa palavra para o maior n\u00famero de pessoas para provocar uma reflex\u00e3o sobre as situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam ocorrido. E que essa reflex\u00e3o seja provedora de atos reequilibrantes, n\u00e3o para promover dist\u00farbio, baderna. Mais uma vez a palavra entra com essa miss\u00e3o: a de promover uma cultura de paz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Filho de pais tapuias, ou txukarram\u00e3es (\u201cguerreiros sem armas\u201d), o ambientalista ind\u00edgena acredita que a priva\u00e7\u00e3o de sono da sociedade contempor\u00e2nea e a falta de cuidado com a natureza est\u00e3o entre os principais males de nosso tempo&nbsp; *Foto de capa: Arquivo pessoal O c\u00e1lculo \u00e9 que cerca de<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/kaka-wera-jecupe-a-sociedade-nao-esta-conseguindo-dormir-quanto-mais-sonhar\/\">Leia 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