{"id":17853,"date":"2020-12-17T14:00:00","date_gmt":"2020-12-17T17:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=17853"},"modified":"2020-12-17T23:17:32","modified_gmt":"2020-12-18T02:17:32","slug":"eu-nao-sou-imparcial-eu-estou-aqui-para-fazer-uma-denuncia-diz-a-fotografa-isis-medeiros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/eu-nao-sou-imparcial-eu-estou-aqui-para-fazer-uma-denuncia-diz-a-fotografa-isis-medeiros\/","title":{"rendered":"\u201cEu n\u00e3o sou imparcial. Eu estou aqui para fazer uma den\u00fancia\u201d, diz a fot\u00f3grafa Isis Medeiros"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | A fot\u00f3grafa mineira acompanha as consequ\u00eancias socioambientais do rompimento da barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, e da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, em Brumadinho<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de capa: Isis Medeiros<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eram 15h30 de 5 de novembro de 2015 quando acontecia a maior trag\u00e9dia ambiental da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Os notici\u00e1rios logo come\u00e7aram a mostr\u00e1-la, exibindo imagens do munic\u00edpio de Bento Rodrigues, distrito de Mariana, que estava submerso em rejeitos oriundos da Barragem do Fund\u00e3o, da mineradora Samarco. Os rejeitos atingiram o Rio Doce e seus afluentes, tiraram 19 vidas, destru\u00edram distritos e cidades e levaram embora o territ\u00f3rio, a casa e o trabalho de milhares de pessoas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As imagens que nos foram dadas desse dia s\u00e3o, na maioria, fotografias a\u00e9reas feitas por helic\u00f3pteros ou drones que mostram a dimens\u00e3o da lama. Isis Medeiros, fot\u00f3grafa mineira, estava em Mariana logo ap\u00f3s o rompimento da barragem. De imediato percebeu como a cobertura pela m\u00eddia estava sendo feita e decidiu se engajar em um trabalho de acompanhamento longo da situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por tr\u00e1s da lama, havia rostos, nomes, pessoas e fam\u00edlias inteiras em processo de perda e dor. A inquieta\u00e7\u00e3o por ouvir uma perspectiva mais humana dessa trag\u00e9dia foi o que levou a fot\u00f3grafa a ir \u00e0 procura de outras imagens poss\u00edveis e de relatos que mostrassem como se sentiam essas popula\u00e7\u00f5es. Ao longo dos \u00faltimos cinco anos, Isis acompanha os moradores atingidos pela barragem. No m\u00eas passado, a fot\u00f3grafa lan\u00e7ou o livro <em>15:30<\/em>, que conta e denuncia, a partir do trabalho com imagens, o drama experenciado nos territ\u00f3rios atingidos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Isis \u00e9 formada em Design, trabalha com fotografia documental desde 2013, \u00e9 integrante da fotocoletiva <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mamanacoletiva\/\">Mamana<\/a> e uma das fundadoras do grupo \u201cFotografia pela Democracia&#8221; \u2013 iniciativa nacional de fot\u00f3grafas e fot\u00f3grafos que lutam em defesa da democracia e dos direitos humanos no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"576\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-1024x576.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18958\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-300x169.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-175x98.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-768x432.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-465x262.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1-695x391.jpg 695w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/01F44A51-2EB3-4CD4-9237-33A57872752D-isis-medeiros-1.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Isis Medeiros (Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Isis, tu fizeste a cobertura fotogr\u00e1fica do desastre de Mariana, que completou cinco anos em novembro. Como foi o in\u00edcio desse processo de fazer uma documenta\u00e7\u00e3o de longo prazo?\u00a0<\/strong><br>Eu costumo dizer que Mariana me fez fotojornalista. A partir da minha experi\u00eancia pr\u00e1tica de me aproximar desse territ\u00f3rio, de acompanhar o processo p\u00f3s-crime e as pr\u00f3prias comunidades, fui me interessando por um trabalho cuidadoso, mais sens\u00edvel, voltado a essa quest\u00e3o. O primeiro inc\u00f4modo que tive quando me aproximei desse territ\u00f3rio foi perceber como a m\u00eddia do Brasil e do mundo estava trabalhando a minera\u00e7\u00e3o, porque at\u00e9 ent\u00e3o nunca tinha acontecido algo t\u00e3o grande como foi Mariana.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me incomodava profundamente a forma como o jornalismo lidava com o assunto \u2013 cheguei at\u00e9 a ter embates com jornalistas que estavam trabalhando junto porque eu discordava muito da \u00e9tica que via ali. Foi quando falei: eu quero fazer isso, quero contar essa hist\u00f3ria de forma honesta, sincera; quero ouvir as pessoas, entender o que elas est\u00e3o sentindo, para que eu possa fazer um trabalho mais humano. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Havia um interesse grande em fazer a cobertura muito rapidamente e sair logo. N\u00e3o era uma forma legal de trabalhar com as pessoas, porque elas estavam ali e tinham acabado de viver um trauma. Tava todo mundo at\u00f4nito, sem saber o que estava acontecendo<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir da\u00ed, comecei a fotografar e me envolver com essas pessoas. Comecei a ir para os territ\u00f3rios atingidos. Toda vez que tinha uma oportunidade de me aproximar, eu ia \u2013 ou pelo Movimento dos Atingidos por Barragens ou pelo Jornal Brasil de Fato, pois \u00e0 \u00e9poca eu cobria para eles. Mas tamb\u00e9m estava fazendo meu trabalho paralelo, aquilo que faria de qualquer forma.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com essa aproxima\u00e7\u00e3o ao tema, eu acho que me aproximei tamb\u00e9m da minha hist\u00f3ria, porque ir conhecer essas comunidades e ouvir essas pessoas me aproximou daquilo que era um dos meus valores. S\u00e3o pessoas que vivem em comunidade, em territ\u00f3rio rural, que t\u00eam necessidades muito diferentes de quem mora em centro urbano. Elas falavam sobre a perda do quintal, a perda da horta, a perda da subsist\u00eancia mesmo, do trabalho. Encontrei pessoas que pareciam muito com aquelas que eu convivi na minha inf\u00e2ncia, porque minha fam\u00edlia \u00e9 de zona rural. Passei minha inf\u00e2ncia longe da cidade.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E foi impressionante porque eu n\u00e3o conseguia me identificar tanto com outras pautas na cidade como com essa. Foi a partir de Mariana que comecei a me envolver mais e me interessar tamb\u00e9m por entender de minera\u00e7\u00e3o, compreender onde eu estava me envolvendo. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Entender que \u00e9 um problema muito maior que o rompimento da barragem. \u00c9 um problema que vem se arrastando h\u00e1 mais de 300 anos, desde que Minas \u00e9 Minas, e que por isso n\u00e3o pode ser uma pauta rasa, uma reportagem rasa. Tem que ser com cuidado, com respeito. Tem que pedir licen\u00e7a para entrar&#8230; porque estamos lidando tamb\u00e9m com ancestralidade<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Fui acompanhando, o tempo foi passando. At\u00e9 que rompeu Brumadinho, em 2019. E foi desesperador. A\u00ed arregacei as mangas. Na medida do poss\u00edvel, tenho tentado acompanhar os dois territ\u00f3rios atingidos \u2013 que s\u00e3o muitos, na verdade, e n\u00e3o s\u00f3 dois. S\u00e3o dezenas e dezenas de cidades, de comunidades. Foi muita gente atingida. E \u00e9 importante saber que o problema n\u00e3o acabou, que vai continuar existindo, que a gente n\u00e3o avan\u00e7ou em termos de leis, da discuss\u00e3o sobre barragens. A partir de Mariana, fui entendendo que o buraco \u00e9 bem maior e bem mais embaixo do que eu esperava.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como acontecem os encontros com as pessoas?<\/strong><br>Acho que essa \u00e9 uma das coisas que mais chama aten\u00e7\u00e3o. Em Mariana tamb\u00e9m, mas especialmente em Brumadinho. Tive o <em>feedback <\/em>das pessoas falando que gostavam de acompanhar meu trabalho porque tocava o lado humano. N\u00e3o era como as imagens que passavam toda hora na TV, mostrando tudo de cima, a dimens\u00e3o da lama e onde atingiu. Mas, apesar de ser um crime ambiental que tenha atingido bacias e muitos territ\u00f3rios, as pessoas se sensibilizam muito por hist\u00f3rias. E eu trago essa perspectiva humana, de como as pessoas est\u00e3o dentro dessa situa\u00e7\u00e3o, como elas est\u00e3o enfrentando, o que elas est\u00e3o sentindo. Acho que isso aproxima as pessoas do assunto. Faz com que elas se coloquem no lugar das outras para entender o que est\u00e1 acontecendo.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Porque ver aquilo de cima \u00e9 uma coisa, agora voc\u00ea pisar ali \u00e9 completamente diferente. Infelizmente muita gente cobriu o assunto de dentro de um escrit\u00f3rio com ar-condicionado. Quem pisou de fato naquela lama, quem conversou com as pessoas, quem se aproximou daquilo tudo nunca mais vai ser a mesma pessoa. A gente volta muito diferente daquele lugar.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea passa a repensar tudo na vida. Voc\u00ea v\u00ea as pessoas questionando sobre n\u00e3o ter o corpo da pr\u00f3pria irm\u00e3 para enterrar. Do pr\u00f3prio filho. \u201cEu n\u00e3o sei onde est\u00e1 meu filho\u201d, era o que a gente escutava. E a pessoa vai simplesmente passar a vida inteira sem saber onde encontrar esse conforto.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algumas fam\u00edlias falavam primeiro que tudo que queriam era saber not\u00edcias dos seus parentes, do seus filhos. Passados os dias, percebendo que n\u00e3o chegou nenhuma not\u00edcia, passam a querer encontrar o corpo. N\u00e3o encontrando, ficam torcendo para que em algum momento algu\u00e9m ligue e diga: \u201cA gente encontrou seu filho nas ruas de Belo Horizonte\u201d. Mas da\u00ed passa mais tempo, e a pessoa come\u00e7a a andar na rua da sua cidade procurando o filho como se fosse encontrar. S\u00f3 que, no fim, tudo que essas fam\u00edlias desejavam era sentir um pouco de paz, de poder se despedir. E mesmo enterrando o filho, quando conseguem, ainda assim n\u00e3o encontram paz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o tem palavras suficientes para descrever. Eu acho que quando voc\u00ea se envolve em um n\u00edvel profundo assim n\u00e3o tem como voltar atr\u00e1s, aquilo vira uma esp\u00e9cie de refer\u00eancia e de marco de vida \u2013 do que \u00e9 viver, do que \u00e9 a morte, do que \u00e9 passar por todos esses processos \u2013, mesmo n\u00e3o sendo uma dessas pessoas que foi v\u00edtima, que perdeu casa, que perdeu parente.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18914\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Creuza-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18915\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ademir-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Fotos: Isis Medeiros<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Tu poderias contar como \u00e9 estar l\u00e1, trabalhando com a imagem?<\/strong><br>De fato, a c\u00e2mera intimida muito. A c\u00e2mera \u00e9 uma viol\u00eancia. Eu acho que o maior desafio \u00e9 como fazer isso de uma forma menos traum\u00e1tica, menos problem\u00e1tica para a pessoa que est\u00e1 sendo documentada. Claro que tem aquelas primeiras imagens que voc\u00ea precisa fazer, que \u00e9 do <em>hard <\/em>[news], que tem que fazer para garantir que voc\u00ea vai ter aquilo registrado. Mas eu acho que foco muito mais no p\u00f3s do que na trag\u00e9dia em si, porque Mariana me ensinou muito isso. L\u00f3gico que essas fotos s\u00e3o importantes para denunciar o que aconteceu. S\u00f3 que elas s\u00e3o utilizadas \u00e0 exaust\u00e3o: \u00e9 lama, lama, lama \u2013 e na verdade n\u00e3o \u00e9 lama, \u00e9 rejeito, \u00e9 metal \u2013, que chega uma hora que n\u00e3o faz mais sentido ficar reproduzindo essas imagens. Foi por\u00a0 causa disso que decidi focar em documentar as pessoas, os sentimentos, o que elas est\u00e3o vivendo. Fazer a den\u00fancia a partir da voz delas. Eu tento interferir muito pouco tanto no relato quanto na forma de fotografar.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por isso tento entrar em contato com o dia a dia mesmo da pessoa. Passar mais tempo com ela para perceber os gestos, como ela se comporta. Tento fazer um trabalho mais documental, menos posado ou encenado. Claro que uma vez ou outra voc\u00ea precisa dirigir mesmo, mas sempre parto da ideia de sinceridade e de di\u00e1logo com o fotografado. De construir essa hist\u00f3ria junto com a pessoa. Eu sempre digo que, se ela n\u00e3o se sentir confort\u00e1vel, t\u00e1 tudo bem. Sempre pergunto se ela se sente bem. E, em v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es, pessoas me disseram que n\u00e3o se sentiam \u00e0 vontade de tal maneira. Ent\u00e3o sou muito sincera quando chego para conversar para poder contribuir com a luta delas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sempre falo: \u201cOlha, eu n\u00e3o sou imparcial. Eu t\u00f4 aqui para fazer uma den\u00fancia, para falar sobre o que voc\u00eas est\u00e3o vivendo&#8221;. Pergunto e pe\u00e7o que as pessoas me digam o que significa a minera\u00e7\u00e3o para elas. Sempre tento instigar as pessoas a contarem como aquilo agride a vida delas \u2013 porque \u00e9 isso que precisa ser dito. Para al\u00e9m do sofrimento, que \u00e9 algo esperado, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio dizer qual a perspectiva cr\u00edtica delas sobre o crime. <\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18916\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30.-Foto-Isis-Medeiros-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Foto: Isis Medeiros<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como tu enxergas o papel da imagem na den\u00fancia, nesse posicionamento que \u00e9 de certa forma pol\u00edtico?&nbsp;<\/strong><br>Eu acho que nada melhor que ouvir. Escutar as pessoas que est\u00e3o passando por isso. Porque entre todo mundo com quem eu conversei \u2013 sem exce\u00e7\u00e3o, desde o pe\u00e3o da obra que foi contratado pela mineradora \u00e0 pessoa que trabalha na prefeitura, que est\u00e1 passando na rua, que perdeu um familiar \u2013 independentemente de quem seja, n\u00e3o tem uma pessoa que diga: \u201cAh, realmente, pode ser que tenha sido por acaso\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Todo mundo tem uma hist\u00f3ria para te contar de alguma situa\u00e7\u00e3o que j\u00e1 acontecia antes, de alguma interven\u00e7\u00e3o que a mineradora j\u00e1 tinha feito na vida dessa pessoa, de algum ass\u00e9dio moral, de algum ass\u00e9dio no territ\u00f3rio. Todo mundo ali j\u00e1 tinha passado informa\u00e7\u00e3o para funcion\u00e1rios da mineradora em algum momento. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitos contam que em dois mil e alguma coisa j\u00e1 entravam na casas das pessoas, j\u00e1 faziam elas assinarem um documento. J\u00e1 havia um estudo sobre o territ\u00f3rio. Sabiam o perfil socioecon\u00f4mico das pessoas. O que elas tinham, o que n\u00e3o tinham, como se comportavam, quem tinha potencial de ser lideran\u00e7a ali. Enfim, esses perfis j\u00e1 estavam sendo tra\u00e7ados. As mineradoras fazem isso de praxe. Em alguns territ\u00f3rios, mais do que outros, porque elas t\u00eam interesses nesses territ\u00f3rios todos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o voc\u00ea tem essa den\u00fancia pela boca das pr\u00f3prias pessoas atingidas. Sempre foi dif\u00edcil, para mim, chegar com meu trabalho de texto e de den\u00fancia e conseguir provar isso \u2013 de forma a ouvirem essas pessoas. Para o jornalismo, em via de regra, essas pessoas s\u00e3o s\u00f3 personagens, s\u00f3 preenchem mat\u00e9ria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Os ve\u00edculos me diziam: \u201cAh, mas isso aqui n\u00e3o \u00e9 uma fonte confi\u00e1vel\u201d. E eu respondia: \u201cQual a fonte confi\u00e1vel? A mineradora? Essa \u00e9 a fonte que voc\u00eas buscam de refer\u00eancia para ouvir?&#8221;. Eles ouvem o Minist\u00e9rio P\u00fablico, a Defesa Civil, mas n\u00e3o ouvem as pessoas atingidas. Porque essas pessoas s\u00e3o vistas como \u201cmenos\u201d, como inferiores, mas elas sabiam coisas dali antes de todos n\u00f3s.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> A comunidade destru\u00edda de Bento Rodrigues foi uma das primeiras de Minas Gerais a passar pelo processo de retirada de min\u00e9rio. Essas hist\u00f3rias v\u00e3o passando para as pessoas. Todo mundo ali tem caso para contar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18917\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Livro-15-30-Foto-Isis-Medeiros-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Foto: Isis Medeiros<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O que a dimens\u00e3o do relato, da palavra, representa no teu trabalho? Tem algum que tenha te marcado bastante e que continua ecoando? <\/strong><br>Tem v\u00e1rios, claro, mas em cada territ\u00f3rio tem alguns que marcam mais. Em Mariana, no in\u00edcio, eu tinha muito receio de me aproximar, de entrar direto. Tinha medo de invadir mesmo, de tocar nessas pessoas de uma forma que fosse violenta. Com o passar do tempo, fui criando o meu processo de aproxima\u00e7\u00e3o e de di\u00e1logo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da Bacia do Rio Doce tem duas mulheres que me marcaram muito e que inclusive fazem parte do livro. Uma \u00e9 de Barra Longa \u2013 uma cidade que teve o Centro destru\u00eddo \u2013 e outra mora na foz do Rio Doce, em S\u00e3o Mateus, j\u00e1 chegando no Esp\u00edrito Santo. S\u00e3o Mateus \u00e9 uma ilha, e essa mulher que conheci l\u00e1 \u00e9 uma pescadora. Perguntei a ela se poderia fazer um retrato, expliquei-lhe o trabalho que estava fazendo, e ela disse: \u201cSou pescadora\u201d. Se reportava o tempo inteiro ao fato de essa ser a atividade que exercia, e achei aquilo incr\u00edvel, porque eu nunca antes tinha conhecido uma pescadora. Geralmente a gente ouve sobre pescadores. Come\u00e7amos a trocar ideias, e ela virou uma pessoa muito pr\u00f3xima. Ela est\u00e1 nas minhas redes sociais, interage comigo quase todo dia. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O que mais mexeu comigo nessas conversas era o que ela dizia: \u201cEu sou pescadora, eu n\u00e3o sei fazer outra coisa. Eu s\u00f3 sei pescar\u201d. E essa frase ficou na minha cabe\u00e7a. \u201cS\u00f3 sei pescar.\u201d Tiraram dela a \u00fanica coisa que sabia fazer<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 a Simone, que \u00e9 a mulher de Barra Longa, tinha uma filha rec\u00e9m-nascida \u00e0 \u00e9poca que rompeu a barragem. A menina est\u00e1 com cinco anos agora e enfrenta problemas de sa\u00fade, de alergia, de infec\u00e7\u00e3o no est\u00f4mago, no intestino, e agora est\u00e1 com um problema cerebral por conta do p\u00f3 do rejeito. Porque a cidade inteira \u00e9 o p\u00f3 que secou e que est\u00e1 em suspens\u00e3o no ar. Ent\u00e3o, as pessoas bebem, comem e respiram aquele rejeito. Est\u00e1 na pele, no ar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Me marcou tamb\u00e9m um senhor que mora em Bar\u00e3o de Cocais, uma regi\u00e3o amea\u00e7ada pelo rompimento de barragem e que a Vale h\u00e1 muito tempo tem interesse de minerar. Teve um momento em que, durante sete dias, anunciaram diariamente que uma outra barragem iria romper em Minas Gerais. Era l\u00e1. A imprensa do Brasil e do mundo estava em Bar\u00e3o de Cocais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assim que cheguei, eles estavam pintando todas as cal\u00e7adas de laranja. Todo lugar em que iria chegar a lama eles pintavam de tinta laranja. Era horr\u00edvel. As fachadas, os postes, os meios fios. Logo que pisei na cal\u00e7ada, encontrei um senhor que virou para mim e falou assim: \u201cEssas coisas que eles est\u00e3o anunciando a\u00ed s\u00e3o tudo bobagem. Isso n\u00e3o vai romper&#8221;. Eu falei: \u201cComo assim?\u201d. Todo mundo ali falando que iria romper, e ele dizendo que n\u00e3o. A\u00ed pedi para ele me explicar.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele falou que essa regi\u00e3o que seria inundada era muito rica em ouro, em pedras. \u201cA igrejinha que tem aqui tem mais de 300 anos\u201d, ele disse. \u201cEles est\u00e3o interessados nesse territ\u00f3rio porque querem tirar o ouro daqui. E debaixo daquela igreja \u00e9 uma \u00e1rea muito rica. E eles n\u00e3o v\u00e3o conseguir minerar porque o povo gosta muito dali. Tem cachoeira, tem rio, tem 600 pessoas que moram naquela comunidade.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De repente eu j\u00e1 tava tomando caf\u00e9 na casa dele, conversando sobre tudo. Por fim, eu j\u00e1 tinha uma hist\u00f3ria enorme sobre o que estava acontecendo. Passei a maior tristeza tentando oferecer para v\u00e1rios ve\u00edculos, mas ningu\u00e9m queria publicar isso porque era uma den\u00fancia muito s\u00e9ria. \u201cComo assim, a Vale t\u00e1 fazendo isso para criar um terrorismo de barragem?\u201d. Esse termo, inclusive, \u201cterrorismo de barragem&#8221;, j\u00e1 \u00e9 oficializado aqui, porque \u00e9 uma t\u00e1tica de minera\u00e7\u00e3o. Muitas pessoas foram expulsas de suas casas, de madrugada, com sirene ligada, com a amea\u00e7a de que romperia a barragem. E essas pessoas nunca puderam voltar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18918\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Simone-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18919\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Elaine-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Fotos: Isis Medeiros<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>No m\u00eas passado, tu lan\u00e7aste o <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.tonaeditora.com.br\/product-page\/15-30\" target=\"_blank\">livro 15:30<\/a>, com imagens que fizeste ao longo desses cinco anos em Mariana. Como foi o processo de transformar o trabalho de documenta\u00e7\u00e3o em livro?<\/strong><br>Primeiro teve um trabalho grande de edi\u00e7\u00e3o, porque inicialmente eram 13 mil fotografias, entre imagens de ato, manifesta\u00e7\u00e3o, da pr\u00f3pria comunidade, das assembleias. Muito material mesmo. N\u00e3o foi f\u00e1cil chegar a esse resultado, porque no livro tem 71 fotos \u2013 e \u00e0s vezes sinto um apego \u00e0s imagens que n\u00e3o entraram. Mas a gente tentou trazer uma hist\u00f3ria do in\u00edcio ao fim, em que voc\u00ea vai entendendo o passar do tempo com o passar das p\u00e1ginas. Voc\u00ea percebe que o tempo foi passando e que a dificuldade e a tristeza foram aumentando. Isso vem de uma perspectiva de ouvir as pessoas, porque quase todas com quem eu converso dizem que a vida delas piorou com o passar do tempo. Ent\u00e3o tento trazer uma trajet\u00f3ria, desde o in\u00edcio do rompimento at\u00e9 os dias de hoje, mostrando como est\u00e1 a vida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tem relatos de mulheres atingidas, tem a abertura do livro com o pref\u00e1cio que o Ailton Krenak construiu. \u00c9 um livro de fotografia, ent\u00e3o tem pouco texto \u2013 mas nesse pouco texto tentei trazer os relatos. Come\u00e7a com uma lideran\u00e7a ind\u00edgena e depois trago o que contam as duas mulheres que eu citei, Eliane, de Barra Longa, e Simone, do Esp\u00edrito Santo. Elas escreveram cartas contando, passados cinco anos do crime, como est\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Eu sinto que o livro \u00e9 um pontap\u00e9 sobre o tema. Ele n\u00e3o traduz tudo o que est\u00e1 acontecendo. Conta uma parte da hist\u00f3ria. Se as fotografias n\u00e3o conseguem trazer tudo, o livro tamb\u00e9m n\u00e3o consegue. Ele \u00e9 s\u00f3 um peda\u00e7o. E ele nem se pretende contar tudo, porque \u00e9 muito denso o tema<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que muita coisa vai ser perdida, mas o livro tem esse poder do registro, de n\u00e3o deixar que essa hist\u00f3ria morra, porque \u00e9 com a hist\u00f3ria que a gente faz um futuro diferente. Al\u00e9m disso, uma das negocia\u00e7\u00f5es que fiz foi de que o livro precisaria voltar para as comunidades. Para mim \u00e9 muito importante que elas tenham a hist\u00f3ria delas de volta. Tinha muito a preocupa\u00e7\u00e3o de n\u00e3o roubar essa hist\u00f3ria, de n\u00e3o protagonizar, porque n\u00e3o \u00e9 uma hist\u00f3ria minha, s\u00f3 minha. Ela me atinge, mas \u00e9 uma hist\u00f3ria de muita gente.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ailton-Krenak-Foto-Ruy-Teixeira-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-18920\" width=\"460\" height=\"690\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ailton-Krenak-Foto-Ruy-Teixeira-1.jpg 613w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ailton-Krenak-Foto-Ruy-Teixeira-1-200x300.jpg 200w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ailton-Krenak-Foto-Ruy-Teixeira-1-78x117.jpg 78w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ailton-Krenak-Foto-Ruy-Teixeira-1-366x550.jpg 366w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2020\/12\/Ailton-Krenak-Foto-Ruy-Teixeira-1-333x500.jpg 333w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><figcaption>Foto: Ruy Teixeira<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | A fot\u00f3grafa mineira acompanha as consequ\u00eancias socioambientais do rompimento da barragem do Fund\u00e3o, em Mariana, e da Mina C\u00f3rrego do Feij\u00e3o, em Brumadinho *Foto de capa: Isis Medeiros Eram 15h30 de 5 de novembro de 2015 quando acontecia a maior trag\u00e9dia ambiental da hist\u00f3ria do pa\u00eds. Os notici\u00e1rios<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/eu-nao-sou-imparcial-eu-estou-aqui-para-fazer-uma-denuncia-diz-a-fotografa-isis-medeiros\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":131,"featured_media":18855,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[604],"tags":[1682,1806,1807,1808,1809,1811,1810,1804,1813,1812,1805,65,1688],"ppma_author":[2988],"class_list":["entry","author-anna-ortega","post-17853","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-entrevistas","tag-ailton-krenak","tag-brumadinho","tag-crime-da-vale","tag-crime-samarco","tag-denuncia-ambiental","tag-fotografia-documental","tag-fotojornalismo","tag-isis-medeiros","tag-livro-1530","tag-livro-isis-medeiros","tag-mariana","tag-mineracao","tag-vale-do-rio-doce"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.8 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>\u201cEu n\u00e3o sou imparcial. 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