{"id":27694,"date":"2021-02-11T08:00:00","date_gmt":"2021-02-11T11:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=27694"},"modified":"2023-09-25T14:35:05","modified_gmt":"2023-09-25T17:35:05","slug":"corpos-que-resistem-a-imposicao-de-padroes-de-beleza","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/corpos-que-resistem-a-imposicao-de-padroes-de-beleza\/","title":{"rendered":"Corpos que resistem \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de beleza"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | <strong>Caroline Roveda Pilger<\/strong>, doutoranda em Comunica\u00e7\u00e3o, discute como o Carnaval pode naturalizar e legitimar representa\u00e7\u00f5es reducionistas da mulher<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Caroline Roveda Pilger<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de Capa: Fl\u00e1vio Dutra<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando voc\u00ea pensa na imagem da \u201cmusa do Carnaval\u201d, que corpos v\u00eam a sua mente?&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Vivemos em um pa\u00eds que \u00e9 reconhecido internacionalmente pelo Carnaval e pela exposi\u00e7\u00e3o dos corpos femininos nessa manifesta\u00e7\u00e3o cultural que \u00e9 essencial \u00e0 constru\u00e7\u00e3o identit\u00e1ria do Brasil. H\u00e1 d\u00e9cadas, o pa\u00eds exporta uma imagem tur\u00edstica que tem sua base no trip\u00e9: Carnaval, diversidade e mulher.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 importante esclarecer que a reflex\u00e3o proposta aqui tem como pano de fundo o Carnaval \u2013 ou carnavais \u2013 para pensarmos os lugares que os corpos femininos ocupam na sociedade patriarcal e machista, problematizando principalmente o lugar dos corpos \u201cn\u00e3o padr\u00e3o\u201d, exclu\u00eddos dos sistemas de beleza legitimados. Nesse sentido, devemos ter em mente que os corpos femininos s\u00e3o historicamente controlados e punidos em nossa cultura, e uma das maneiras de fazer isso \u00e9 pela imposi\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es de beleza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nossos tempos s\u00e3o permeados por movimenta\u00e7\u00f5es contradit\u00f3rias, complexas, mas tamb\u00e9m complementares. Todo movimento de exclus\u00e3o e estigmatiza\u00e7\u00e3o gera, felizmente, um movimento de resist\u00eancia e subvers\u00e3o. Estamos experienciando um momento de extrema legitima\u00e7\u00e3o e incentivo de certos padr\u00f5es de beleza e comportamentos, mas, tamb\u00e9m, o auge de uma onda de desconstru\u00e7\u00e3o desses padr\u00f5es, quando h\u00e1 a reivindica\u00e7\u00e3o e celebra\u00e7\u00e3o da diferen\u00e7a e da diversidade dos corpos femininos e das maneiras de \u201cser mulher\u201d.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mulheres s\u00e3o, desde pequenas, inseridas \u2013 e educadas \u2013 em uma cultura que incentiva a preocupa\u00e7\u00e3o excessiva com a apar\u00eancia e est\u00e9tica. A nossa valoriza\u00e7\u00e3o, ao contr\u00e1rio dos meninos, sempre se deu vinculada, principalmente, ao nosso corpo exterior. Elogia-se a menina, pois ela \u00e9 uma \u201cprincesa bela\u201d, e o menino, quando \u00e9 esperto, l\u00edder, corajoso.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os \u00faltimos anos trouxeram posi\u00e7\u00f5es de destaque para o Brasil nos rankings mundiais do mundo da beleza. Somos campe\u00f5es em consumo de cosm\u00e9ticos, de anorex\u00edgenos (o pa\u00eds que mais consome essa medica\u00e7\u00e3o na Am\u00e9rica Latina, tendo como principal clientela as mulheres, com 84% da fatia do mercado, segundo estudo realizado pela Nielsen Holding) e na realiza\u00e7\u00e3o de procedimentos e cirurgias pl\u00e1sticas est\u00e9ticas, que a cada dia se tornam mais banais, traduzindo um universo baseado na press\u00e3o est\u00e9tica e na busca incessante por integrar o grupo seleto pertencente ao \u201cpadr\u00e3o de beleza ideal\u201d.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"768\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-1024x768.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28156\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-1024x768.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-156x117.jpg 156w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-465x349.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762-667x500.jpg 667w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-0762.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Blocos de Carnaval em Porto Alegre t\u00eam arrastado milhares de pessoas \u00e0s ruas da cidade. Na imagem acima e na foto de capa, foli\u00f5es brincam com o Bloco da Lage no bairro IAPI, na capital (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo dados divulgados pela Sociedade Brasileira de Cirurgia Pl\u00e1stica (SBCP), por meio de pesquisa realizada em 2019 pela Sociedade Internacional de Cirurgia Pl\u00e1stica Est\u00e9tica (ISAPS), o Brasil ultrapassou os EUA, se tornando o pa\u00eds que mais realiza cirurgias pl\u00e1sticas e procedimentos est\u00e9ticos no mundo. Foram registradas quase um milh\u00e3o e meio de cirurgias pl\u00e1sticas de car\u00e1ter est\u00e9tico e quase um milh\u00e3o de procedimentos n\u00e3o cir\u00fargicos. As cirurgias mais procuradas foram o aumento das mamas (silicone) e a lipoaspira\u00e7\u00e3o. O pa\u00eds lidera, ainda, o ranking de cirurgias pl\u00e1sticas em adolescentes.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As facilidades para a realiza\u00e7\u00e3o dos procedimentos e a sua hiperdivulga\u00e7\u00e3o, atreladas \u00e0 imposi\u00e7\u00e3o do \u201ccorpo perfeito\u201d, por vezes geram v\u00edtimas decorrentes de cirurgias malsucedidas. Como foi o caso recente da influencer Liliane Amorim, 26 anos, que teve complica\u00e7\u00f5es ap\u00f3s realizar uma lipoaspira\u00e7\u00e3o. Seu intestino foi perfurado durante o procedimento, e ela morreu.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O intuito n\u00e3o \u00e9 demonizar a cirurgia pl\u00e1stica e os procedimentos est\u00e9ticos, mas ressaltar que se comece a problematizar a sua banaliza\u00e7\u00e3o, o que coloca em risco muitas mulheres. N\u00e3o h\u00e1 problema em querer mudar, em desejar emagrecer; o perigo est\u00e1 quando toda uma ind\u00fastria lucra com a insatisfa\u00e7\u00e3o permanente das mulheres.&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra quest\u00e3o importante \u00e9 a cultura das celebridades, estas que t\u00eam lugar especial no \u201cCarnaval das musas\u201d. Nesse cen\u00e1rio, podemos incluir as blogueiras fitness e outras influencers, que fazem parte dos corpos que s\u00e3o oferecidos, naturalizando e incentivando a busca incans\u00e1vel pela \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d, essa que sequer existe. Muitas dessas imagens, editadas por meio de softwares e esculpidas pelas cirurgias, vendem a ideia de que qualquer mulher pode ter aquele corpo (se houver esfor\u00e7o bastante). Esse corpo, por\u00e9m, \u00e9 irreal e inalcan\u00e7\u00e1vel at\u00e9 para as celebridades. S\u00e3o os chamados <em>corpos-m\u00eddia<\/em>, como ressalta a professora e pesquisadora T\u00e2nia Hoff. Corpos que s\u00e3o criados midiaticamente e s\u00f3 fazem sentido quando inseridos nesse cen\u00e1rio. S\u00e3o corpos inating\u00edveis, quase n\u00e3o humanos, pois n\u00e3o s\u00e3o reais, s\u00e3o imagens. Eles n\u00e3o t\u00eam marcas, rugas nem gordura; est\u00e3o, assim, distantes dos estere\u00f3tipos negativos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esses resultados s\u00e3o consequ\u00eancia de uma sociedade estruturalmente gordof\u00f3bica e que tem como marca cultural a press\u00e3o est\u00e9tica que se naturaliza principalmente com as representa\u00e7\u00f5es e invisibiliza\u00e7\u00f5es na m\u00eddia. Quando afirmo que vivemos em uma sociedade estruturalmente gordof\u00f3bica, quero dizer que toda a nossa organiza\u00e7\u00e3o social foi historicamente pensada para pessoas n\u00e3o gordas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 prof\u00edcuo ressaltar o significado de gordofobia e sua diferencia\u00e7\u00e3o da press\u00e3o est\u00e9tica. A press\u00e3o est\u00e9tica atinge todas as mulheres, sejam elas gordas, magras, altas, baixas, musculosas, etc. Ela vem sorrateiramente como forma de controlar e punir quem engorda, quem n\u00e3o combate suas estrias ou celulites, quem envelhece, quem n\u00e3o tem determinado cabelo, pele, peito, bunda, por exemplo. A press\u00e3o est\u00e9tica faz parte do cotidiano das mulheres, do que se espera delas, e se traduz nas representa\u00e7\u00f5es legitimadas nas revistas femininas, nas novelas, nos filmes, nas s\u00e9ries, nas propagandas, etc. Por\u00e9m, \u00e9 preciso legitimar o lugar de fala de quem sofre gordofobia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para al\u00e9m da press\u00e3o est\u00e9tica e do que tange \u00e0 apar\u00eancia do corpo, a gordofobia \u00e9 o preconceito, a estigmatiza\u00e7\u00e3o e a avers\u00e3o \u00e0s pessoas gordas que tem como base uma opress\u00e3o estrutural da sociedade. Ela se manifesta em preconceito e exclus\u00e3o na etapa escolar \u2013 bullying \u2013, coment\u00e1rios ofensivos, opress\u00e3o est\u00e9tica por conta de um padr\u00e3o de beleza hegem\u00f4nico que exclui e em discursos m\u00e9dicos que reduzem e estigmatizam por conta do peso. <\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m atua por meio da invisibiliza\u00e7\u00e3o na m\u00eddia e nos demais espa\u00e7os culturais e da dificuldade de esses corpos usufru\u00edrem seus direitos, como o acesso a determinados lugares p\u00fablicos que n\u00e3o possuem espa\u00e7o suficiente \u2013 como cadeiras mais largas para sentar, catracas em que n\u00e3o passam, macas de hospitais que n\u00e3o suportam seu peso e aparelhos de exames nos quais n\u00e3o cabem. Ou seja, \u00e9 a luta por acessibilidade, emprego, sa\u00fade, dignidade, respeito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de o termo gordofobia ser recente, os estudos acad\u00eamicos sobre o corpo gordo e sua rela\u00e7\u00e3o com a sociedade t\u00eam pelo menos cinco d\u00e9cadas de tradi\u00e7\u00e3o dentro dos estudos pioneiros americanos, denominados <em>fat studies<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na contram\u00e3o desse processo, como forma de desconstru\u00e7\u00e3o de padr\u00f5es, h\u00e1 o surgimento de grupos de mulheres que lutam pelo direito de visibilidade de seus corpos. Nesse sentido, houve transforma\u00e7\u00f5es positivas, com a visibilidade, o crescimento e a dissemina\u00e7\u00e3o dos feminismos e suas pluralidades, que ganharam reconfigura\u00e7\u00f5es oriundas da explos\u00e3o de uma \u201cquarta onda\u201d do movimento, conforme apontam autoras feministas como a professora Helo\u00edsa Buarque de Hollanda.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A luta \u00e9 pela representatividade da diversidade feminina, focada, principalmente, em reivindica\u00e7\u00f5es que t\u00eam o corpo como bandeira e plataforma de comunica\u00e7\u00e3o.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As reivindica\u00e7\u00f5es plurais do campo da est\u00e9tica s\u00e3o relevantes, pois direcionam luz aos corpos femininos em suas variadas formas, tamanhos e cores, oferecendo lugar especial a um grupo de mulheres que at\u00e9 ent\u00e3o n\u00e3o se via na m\u00eddia. A efervesc\u00eancia dos grupos em prol do autoamor culminou em movimentos nas redes sociais e na ascens\u00e3o de blogueiras gordas, por exemplo. \u00c9 importante ressaltar que a cria\u00e7\u00e3o e ascens\u00e3o do mercado de moda para as mulheres gordas \u2013 o <em>plus size<\/em> \u2013, em \u00e2mbito global, \u00e9 estimulado por essa valoriza\u00e7\u00e3o da diversidade que se insere na esfera da cultura do consumo e que percebe nesse p\u00fablico espec\u00edfico mais uma potencial forma de lucrar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa democracia de corpos tamb\u00e9m pode ser vista na \u00e9poca de Carnaval. Nesse sentido, o Carnaval pode ser pensado a partir das perspectivas dicot\u00f4micas que trago aqui. Ou seja: o \u201cCarnaval da resist\u00eancia\u201d coexiste com o \u201cCarnaval dos padr\u00f5es\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por um lado, temos as celebra\u00e7\u00f5es do Carnaval de rua \u2013 o \u201cda resist\u00eancia\u201d \u2013, que d\u00e3o espa\u00e7o para a ocupa\u00e7\u00e3o dos corpos marginalizados e exclu\u00eddos dos circuitos idealizadores de beleza. Aquelas mulheres que est\u00e3o, recorrentemente, invisibilizadas pelos artefatos culturais midi\u00e1ticos representam a beleza da \u201cclandestinidade\u201d, dos corpos reais, com marcas e texturas, livres da assepsia da imagem feita em Photoshop. Essa explos\u00e3o de corpos diversos, principalmente nas redes sociais, e os movimentos de mulheres que marcam as ruas pelo direito ao corpo, pela n\u00e3o hipersexualiza\u00e7\u00e3o de seus corpos e pelo direito de sair sem ser assediada e violentada, tamb\u00e9m est\u00e3o presentes na ressignifica\u00e7\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es de Carnaval atualmente. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estar na rua e ocup\u00e1-la com os corpos \u201cn\u00e3o padr\u00e3o\u201d \u00e9 tamb\u00e9m lutar por essa visibilidade e reconhecimento social, \u00e9 legitimar uma exist\u00eancia e resist\u00eancia que quer, e necessita, direitos, tendo o Carnaval se tornado, tamb\u00e9m, momento prop\u00edcio de reivindica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De outro lado, e paralelamente, observamos, ano ap\u00f3s ano, a legitima\u00e7\u00e3o do \u201cCarnaval dos padr\u00f5es\u201d ou do \u201cCarnaval das musas\u201d &#8211; essas que mencionei no in\u00edcio do texto e que fez com que algumas imagens se materializassem na sua mente. Esse Carnaval legitimado pela grande m\u00eddia \u00e9 o dos desfiles das escolas de samba, das celebridades na avenida, das rainhas de bateria com corpos esculpidos durante meses e meses em academias de gin\u00e1stica, procedimentos est\u00e9ticos e dietas restritivas. \u00c9 o Carnaval da naturaliza\u00e7\u00e3o e legitima\u00e7\u00e3o dos padr\u00f5es reducionistas, da hipersexualiza\u00e7\u00e3o, da opress\u00e3o mascarada pela exalta\u00e7\u00e3o de uma \u201cbeleza\u201d hegem\u00f4nica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Voc\u00ea j\u00e1 tinha parado alguma vez para pensar em quais corpos s\u00e3o celebrados nesse Carnaval? Quais corpos t\u00eam direito de ocupar os espa\u00e7os de destaque, tanto midi\u00e1ticos quanto na avenida? Ser\u00e1 mesmo que todas as mulheres t\u00eam o direito de se expor? De expor seus corpos sem constrangimentos?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 preciso lembrar que as \u201cmusas do Carnaval\u201d tamb\u00e9m sofrem com a press\u00e3o est\u00e9tica. Afinal, todas as mulheres sofrem. Ou seja, para participar do Carnaval, as mulheres come\u00e7am a sua prepara\u00e7\u00e3o muito tempo antes, \u00e9 algo que se alonga pelo ano inteiro. N\u00e3o h\u00e1 folga, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o fracasso, muito menos para engordar. O Carnaval da m\u00eddia que espetaculariza, celebra e hipersexualiza seus corpos n\u00e3o ir\u00e1 aceitar menos do que a \u201cperfei\u00e7\u00e3o\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Naomi Wolf, em <em>O Mito da Beleza<\/em>, alerta para o fato de que mesmo ap\u00f3s as conquistas sociais, culturais, econ\u00f4micas e pol\u00edticas das mulheres por conta do feminismo, ainda existe a falta de liberdade, ou a sua restri\u00e7\u00e3o, por conta da rela\u00e7\u00e3o t\u00f3xica e imperativa das mulheres com o \u201cmundo da beleza\u201d. A autora classifica a \u201cbeleza\u201d como uma das fic\u00e7\u00f5es sociais sem fundamento, mascaradas como \u201cnaturalmente\u201d pertencentes ao que seria um \u201cuniverso feminino\u201d. Dessa forma, as imagens de beleza s\u00e3o usadas perversamente contra as mulheres. S\u00e3o uma arma pol\u00edtica utilizada como rea\u00e7\u00e3o ao feminismo, bem como uma maneira de coer\u00e7\u00e3o social encontrada para frear a revolu\u00e7\u00e3o das mulheres e controlar seus corpos e a\u00e7\u00f5es.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A perversidade do combo \u201ccapitalismo + m\u00eddia + ind\u00fastria da beleza\u201d \u00e9 gigantesca. \u00c9 uma engrenagem sofisticada. Portanto, quando falamos em assegurar a inser\u00e7\u00e3o nos padr\u00f5es de beleza vigentes e conquistar a aceita\u00e7\u00e3o social, tamb\u00e9m estamos tratando de conquistas atravessadas por quest\u00f5es de classe e ra\u00e7a: nem todas as mulheres conseguem pagar pelos procedimentos, t\u00eam tempo para a academia ou n\u00e3o se veem exclu\u00eddas da vitrine das produ\u00e7\u00f5es midi\u00e1ticas baseadas no racismo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Carnaval \u00e9 apenas uma das tem\u00e1ticas que legitimam a busca do \u201ccorpo perfeito\u201d, oferecendo subs\u00eddio para o crescimento da ind\u00fastria da beleza. A busca da \u201cbeleza\u201d n\u00e3o tem linha de chegada, pois se baseia em um ciclo de insatisfa\u00e7\u00e3o perp\u00e9tua. O mercado da est\u00e9tica cresce e se nutre conforme tamb\u00e9m crescem as inseguran\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O \u201cCarnaval dos padr\u00f5es\u201d nos faz lembrar de tudo isso. Prova o qu\u00e3o opressora pode ser a cultura da beleza, baseada na press\u00e3o est\u00e9tica e gordofobia. Mas o \u201cCarnaval da resist\u00eancia\u201d est\u00e1 a\u00ed para mostrar que somos diversas e que temos o direito de existir, de ocupar os espa\u00e7os. De resistir. Complexo, n\u00e3o \u00e9 mesmo?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0764399323892371\">Caroline Roveda Pilger<\/a> \u00e9 ativista, jornalista, mestra em Processos e Manifesta\u00e7\u00f5es Culturais e doutoranda em Comunica\u00e7\u00e3o na UFRGS. 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