{"id":27945,"date":"2021-02-04T12:15:00","date_gmt":"2021-02-04T15:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=27945"},"modified":"2021-02-04T13:37:50","modified_gmt":"2021-02-04T16:37:50","slug":"o-ensino-medio-carece-da-construcao-da-sua-identidade-afirma-o-pesquisador-luis-antonio-groppo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-ensino-medio-carece-da-construcao-da-sua-identidade-afirma-o-pesquisador-luis-antonio-groppo\/","title":{"rendered":"\u201cO ensino m\u00e9dio carece da constru\u00e7\u00e3o da sua identidade\u201d, afirma o pesquisador Luis Ant\u00f4nio Groppo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista| Soci\u00f3logo ligado \u00e0 Unifal comenta a experi\u00eancia da escola no ensino m\u00e9dio, os avan\u00e7os e desafios do Enem e as ocupa\u00e7\u00f5es da escolas em 2015 e 2016 <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto: Arquivo pessoal<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professor da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), Luis Ant\u00f4nio Groppo pesquisa a Sociologia da Educa\u00e7\u00e3o e da Juventude a partir dos movimentos estudantis. Desde 2019, seu principal tema de estudos s\u00e3o as ocupa\u00e7\u00f5es que em 2015 e 2016 mobilizaram o pa\u00eds em defesa da educa\u00e7\u00e3o p\u00fablica. O projeto busca entender de que forma o movimento secundarista impactou a vida e a trajet\u00f3ria dos estudantes na escola e depois dela. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Interessado nas tem\u00e1ticas que atravessam as juventudes como um todo, o professor, em entrevista ao JU, avalia tamb\u00e9m a falta de clareza sobre o lugar e o papel do Ensino M\u00e9dio na trajet\u00f3ria escolar e os avan\u00e7os e desafios do ENEM, principal porta de entrada para a Universidade. Segundo ele, apesar de haver muito para ser melhorado, o Exame democratizou, por meio das cotas, um sistema de educa\u00e7\u00e3o que antes era altamente elitista. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Qual modelo de educa\u00e7\u00e3o estava sendo contestado nas ocupa\u00e7\u00f5es das escolas em 2016? &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No movimento das ocupa\u00e7\u00f5es, desde o in\u00edcio em S\u00e3o Paulo em 2015 at\u00e9 em 2016 quando se tornou nacional, a gente interpreta que, at\u00e9 contraditoriamente, o que os estudantes estavam defendendo era a pr\u00f3pria escola. Muitos diziam que a escola que eles tinham n\u00e3o era a ideal, mas que, com a proposta de reforma do Ensino M\u00e9dio, a escola iria ficar pior ainda, mais prec\u00e1ria. Ent\u00e3o, os estudantes que, a princ\u00edpio, pareciam t\u00e3o pouco interessados na pr\u00f3pria escola, passaram a defend\u00ea-la.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, ao ocupar, eles continuaram realizando atividades formativas e educacionais que estavam pr\u00f3ximas de uma educa\u00e7\u00e3o que eles imaginavam, com mais di\u00e1logo, horizontalidade, em que os educandos pudessem escolher temas de estudo que tivessem mais liga\u00e7\u00e3o com a pr\u00f3pria vida. Em algumas ocupa\u00e7\u00f5es, havia tamb\u00e9m cr\u00edticas bem localizadas &#8211; seja uma escola que tinha problema de infraestrutura, que tinha uma dire\u00e7\u00e3o muito autorit\u00e1ria, ou que n\u00e3o tinha gr\u00eamio estudantil. As ocupa\u00e7\u00f5es revelaram uma diversidade grande de quest\u00f5es. Lutaram para que o que havia de bom na escola permanecesse, para a pr\u00e1tica de uma escola sonhada e fizeram tamb\u00e9m cr\u00edticas espec\u00edficas e locais de cada escola. E v\u00e1rias delas conseguiram e tiveram vit\u00f3rias para essas demandas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em um artigo recente sobre o tema, citas a fala de uma aluna chamada Ana em que a estudante conta o conselho recebido de um professor:\u201cOlha, a \u201cocupa\u00e7\u00e3o n\u00e3o vai acrescentar nada no seu hist\u00f3rico escolar e nem vai dar para p\u00f4r na parede da sua casa. Mas ela vai fazer&nbsp; muita&nbsp; diferen\u00e7a&nbsp; na&nbsp; sua&nbsp; vida,&nbsp; vai&nbsp; ser&nbsp; uma&nbsp; transforma\u00e7\u00e3o&nbsp; pra&nbsp; voc\u00ea\u201d. Poderias comentar sobre as transforma\u00e7\u00f5es relatadas pelos estudantes durante a pesquisa?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 interessante essa fala da Ana porque aparece a figura do professor. Mesmo que a ocupa\u00e7\u00e3o estivesse lutando contra alguns sujeitos da escola &#8211; e tiveram v\u00e1rios casos em que os professores e a dire\u00e7\u00e3o foram contra a ocupa\u00e7\u00e3o, muitos foram importantes para politizar os estudantes e mostrar para eles que tinham direito de se mobilizar e reivindicar. Ensinaram, por exemplo, o que era a Reforma do Ensino M\u00e9dio, quais eram as implica\u00e7\u00f5es. E esse professor percebeu isso na sua fala. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A pesquisa que a gente tem feito vai no sentido de entender o que ficou das ocupa\u00e7\u00f5es, o que a participa\u00e7\u00e3o nesse movimento influenciou na vida desses jovens. E tem muitos pontos. Acredito que a mais generalizada foi a constru\u00e7\u00e3o de projetos para o Ensino Superior. Muitos estudantes nem pensavam nessa possibilidade, ou pensavam algo muito vago. Temos muitos casos em que houve essa realiza\u00e7\u00e3o: \u201cEu posso ir para universidade.\u201d Muitos souberam ali&nbsp; informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas, como o fato de que a Universidade Federal era gratuita, ou ent\u00e3o, que eles tinham direito a cotas. Da pesquisa que fizemos com os Ocupas, chegamos ao dado de que pelo menos 7 de 10 est\u00e3o no Ensino Superior &#8211; um dado bem relevante. E quem n\u00e3o est\u00e1, tem projeto para ir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A gente tamb\u00e9m ouviu muitos relatos de estudantes que decidiram ser professores com a ocupa\u00e7\u00e3o porque queriam defender a educa\u00e7\u00e3o. Eles constru\u00edram projetos de profissionaliza\u00e7\u00e3o que passavam n\u00e3o s\u00f3 por um projeto pessoal, mas tamb\u00e9m coletivo. Passaram a desejar que a profiss\u00e3o que escolheram tivesse um sentido social e pol\u00edtico.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro impacto relatado foi que o de que as ocupa\u00e7\u00f5es foram para, muitas pessoas, a primeira experi\u00eancia de participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, que n\u00e3o tinham vivenciado isso na fam\u00edlia, na igreja ou em partidos. Especialmente os estudantes que entraram depois que as ocupa\u00e7\u00f5es come\u00e7aram e que n\u00e3o eram as lideran\u00e7as. E alguns se tornaram, inclusive, lideran\u00e7as. A gente percebe que, em geral, depois do fim do movimento, a maioria deles n\u00e3o se filiou a partido nem foi para entidade estudantil, mas segue com uma disposi\u00e7\u00e3o de participar.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tamb\u00e9m aconteceu um processo de reconstru\u00e7\u00e3o das identidades desses estudantes, como a de g\u00eanero. Foi um movimento de grande marca feminista, mas um feminismo secundarista e, muitas vezes, perif\u00e9rico e popular. Um feminismo que pensa quest\u00f5es de classe trabalhadora. Teve tamb\u00e9m valoriza\u00e7\u00e3o da constru\u00e7\u00e3o de identidade de ra\u00e7a, de cor e orienta\u00e7\u00e3o sexual. H\u00e1 muitos relatos de pessoas que passaram a se entender melhor com as ocupa\u00e7\u00f5es. A Carolina Pacheco, uma pesquisadora da UFPR, diz que as identidades que estavam adormecidas no ambiente das escolas passam a ganhar centralidade nesse momento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Falas tamb\u00e9m em como a experi\u00eancia dos <em>Ocupas<\/em> era uma viv\u00eancia de \u201cauto fazer-se\u201d, em que os jovens assumem um papel de categoria organizada de resist\u00eancia. A juventude podem ser entendidas como uma categoria pol\u00edtica?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As categorias falam de um lugar de pertencimento que nos d\u00e1 algumas fun\u00e7\u00f5es. Acontece que os sujeitos que s\u00e3o ordenados nessas categorias podem repensar as suas posi\u00e7\u00f5es e colocar demandas. Podem pensar o pr\u00f3prio lugar daquela categoria, o sentido dela. E isso torna demarca\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, de g\u00eanero, de idade categorias pol\u00edticas. Os sujeitos se tornam sujeitos pol\u00edticos ao repensarem seus lugares. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os <em>Ocupas<\/em>, ou <em>Secundas<\/em> como se chamavam em alguns lugares, se apresentaram, ent\u00e3o, como sujeitos pol\u00edticos &#8211; uma categoria heterog\u00eanea. Junto com os secundaristas, tem os estudantes da universidade, pessoas que foram expulsas da escola, estudantes de outras escolas. Tinha at\u00e9 pais e m\u00e3es, que tamb\u00e9m eram <em>Ocupa<\/em>s. Eles formaram uma comunidade pol\u00edtica a partir de uma pauta comum que envolvia outras sujeitos. Ent\u00e3o, a constru\u00e7\u00e3o dos sujeitos pol\u00edticos promove um processo de desidentifica\u00e7\u00e3o, um deslocamento dos papeis que a gente ocupava antes. As pessoas formam, pelo menos durante um tempo, uma comunidade de iguais. E tornar isso poss\u00edvel de ser falado e de a gente ter tempo de ouvir pode promover mudan\u00e7as muito importantes na sociedade, promovendo organiza\u00e7\u00f5es sociais que tornem o mundo menos injusto e menos desigual.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Entre as pautas, existia um pedido para que as escolas fossem espa\u00e7os mais democr\u00e1ticos? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As experi\u00eancias nos estados s\u00e3o bem diversas. No Esp\u00edrito Santo, a gente encontrou algumas escolas na periferia em que os alunos relataram que era um ambiente em que percebiam democracia. Ao contr\u00e1rio de escolas mais tradicionais de Vit\u00f3ria, que apresentavam um ambiente muito mais autorit\u00e1rio. Ent\u00e3o, a cultura da escola tamb\u00e9m fez diferen\u00e7a. Mas, em geral, o que a gente percebeu ao longo das pesquisas \u00e9 que a dire\u00e7\u00e3o das escolas ajudava a formar um contramovimento. Aconteceu muito no Paran\u00e1, em S\u00e3o Paulo, em Minas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em geral, a escola diz que forma para a democracia e a cidadania, mas ainda \u00e9 um ambiente muito burocratizado. Ao mesmo tempo, \u00e9 lugar de muitos embates e muitas tens\u00f5es, especialmente desses estudantes que est\u00e3o saindo do Ensino Fundamental e entrando no M\u00e9dio, que j\u00e1 t\u00eam algum grau de autonomia e capacidade de decis\u00e3o. J\u00e1 vivem uma cultura juvenil que \u00e1s vezes \u00e9 muito diferente diversa da cultura escolar. Eu tenho a convic\u00e7\u00e3o de que, se a escola fosse mais democr\u00e1tica, essas tens\u00f5es seriam menores e mais criativas. Porque tens\u00e3o sempre vai ter, inclusive, nas ocupa\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nenhum ambiente educacional \u00e9 isento de tens\u00f5es, de conflitos, de dificuldades, mas, quando voc\u00ea tem abertura para o di\u00e1logo, elas s\u00e3o poss\u00edveis de contornar e podem se tornar at\u00e9 tens\u00f5es criativas e criadoras<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Uma das principais tens\u00f5es que envolve o ensino m\u00e9dio \u00e9 justamente a transi\u00e7\u00e3o, a sa\u00edda dele, e &#8211; quando h\u00e1 &#8211;  o ingresso no Ensino Superior. Hoje a principal porta de entrada do ensino p\u00fablico do pa\u00eds \u00e9 o ENEM. Como tu enxergas o Exame a partir do ponto de vista do estudo das juventudes? <\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse \u00e9 um pouco importante: o ensino m\u00e9dio como momento de transi\u00e7\u00e3o. O ensino m\u00e9dio sofre ainda hoje um problema de entendimento sobre seu sentido. Ele \u00e9 preparat\u00f3rio? Ele \u00e9 um meio termo entre ensino fundamental e universidade? Ele tem sentido em si mesmo? O ensino m\u00e9dio carece da constru\u00e7\u00e3o da sua identidade. Penso que ele deve ter um sentido em si mesmo e n\u00e3o precisa ser terminal para alguns grupos. Acredito que a Educa\u00e7\u00e3o Superior P\u00fablica deveria ser, assim como a b\u00e1sica, um direito de todos. Quem quisesse ir, deveria conseguir ir. Alguns pa\u00edses fazem isso tranquilamente. Essa \u00e9 uma demanda de alguns movimentos, como o Cursinho Popular Emancipa. At\u00e9 um tempo atr\u00e1s, precisar\u00edamos fazer exames para entrar para o quinto ano, por exemplo. At\u00e9 mesmo entrar para o Ensino M\u00e9dio n\u00e3o foi, por muito tempo, um direito e um dever do Estado em garantir. Foram conquistas hist\u00f3ricas. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Enem talvez seja das pe\u00e7as mais importantes desse sistema que foi montado nos governos Lula e Dilma e que viabiliza o Sisu. Ele tem um aspecto importante quando a gente pensa as cotas sociais e raciais, porque facilitou o acesso das classes populares e trabalhadoras ao ensino superior. Desde as Leis de Cotas e da constru\u00e7\u00e3o do Sisu vem aumentando o n\u00famero de pessoas negras, ind\u00edgenas e de menor renda dentro da universidade. Havia aquele mito de que o \u201cn\u00edvel\u201d cairia e esse mito foi desmontado. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O n\u00edvel, pelo contr\u00e1rio, se elevou porque toda vez que voc\u00ea tem um ambiente&nbsp; de conhecimento em que se aumenta a diversidade de sujeitos, se aumenta a qualidade do que vai ser constru\u00eddo l\u00e1, porque existem mais pontos de vistas diferentes. A diversidade eleva a qualidade do conhecimento.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Enem \u00e9, ent\u00e3o, importante para o sistema do SISU e para que isso se concretize. Mas o meu desejo \u00e9 que ele, algum dia, n\u00e3o se torne mais necess\u00e1rio. Que as pessoas, ao terminarem o Ensino M\u00e9dio, possam fazer o curso na Universidade em que desejam. Claro que as formas de criar esse sistema, os contornos, os detalhes, eu ainda n\u00e3o sei, mas seria o ideal.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O ENEM \u00e9 um avan\u00e7o. Por um lado, ele foi pensado como uma prova de avalia\u00e7\u00e3o, de aferi\u00e7\u00e3o. Isso \u00e9 algo muito negativo, porque \u00e9 mais um instrumento de controle para o trabalho dos professores, de aferi\u00e7\u00e3o dos alunos por um instrumento comum que n\u00e3o \u00e9 constru\u00eddo no dia a dia das escolas. Portanto, fazer um exame para avaliar todo mundo \u00e9 altamente repressivo e muito anti-pedag\u00f3gico. Por outro lado, ele faz parte de um sistema que deu acesso a muitas pessoas \u00e0 universidade e que, de acordo com a nota, podem escolher onde estudar. O Enem, apesar de ser um sistema que pode ser melhorado, foi uma evolu\u00e7\u00e3o, em um sistema de educa\u00e7\u00e3o altamente elitista. Tivemos um pouco de democratiza\u00e7\u00e3o a partir dele e da Lei de Cotas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Em consulta p\u00fablica, os estudantes votaram pela realiza\u00e7\u00e3o do Enem em maio, por\u00e9m o MEC escolheu janeiro. Pr\u00f3ximo \u00e0 data das provas houve o movimento com as hashtags #adiaenem e os #estudantespedemsocorro. Poderia falar sobre isso?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acredito que o adiamento para janeiro j\u00e1 foi uma vit\u00f3ria, porque ia ser antes. N\u00e3o houve outro adiamento porque o Enem \u00e9 usado para muitas institui\u00e7\u00f5es privadas para ingresso atrav\u00e9s do Prouni, Fies. Acredito que por isso o governo bateu p\u00e9 em janeiro, para atender o setor privado. At\u00e9 pouco tempo atr\u00e1s, 8 em cada 10 estudantes em Ensino Superior estavam em institui\u00e7\u00f5es privadas, inclusive uma grande parcela dos estudantes da classe trabalhadora. Ent\u00e3o, o governo manteve e acompanhamos o desastre que foi, uma hecatombe, com um recorde de pessoas de absten\u00e7\u00e3o. Acho muito prov\u00e1vel que as institui\u00e7\u00f5es privadas v\u00e3o precisar encontrar outra forma de preencher suas vagas porque com o ENEM n\u00e3o vai ser suficiente. \u00c9 um reflexo de um Minist\u00e9rio que, como os outros, \u00e9 ligado aos setor privado.&nbsp; Fora isso, a gente observa que todas as coisa foram consideradas priorit\u00e1rias, exceto a educa\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Outro momento que gerou conflito entre estudantes e poder p\u00fablico foi a propaganda do MEC no in\u00edcio do ano que dizia \u201cEstude, de qualquer lugar, de diferentes formas. As provas ser\u00e3o no final do ano. Ate l\u00e1, estude\u201d. A abordagem foi muito criticada por estudantes nas redes sociais. O que essa propaganda revela?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Lembro que a propaganda mostrava v\u00e1rios estudantes com seus dispositivos eletr\u00f4nicos. Acho, em primeiro lugar, que a gente precisa montar um sistema educacional que em casos emergenciais, como a pandemia, tenha condi\u00e7\u00f5es de continuar algumas atividades de forma remota. Mas para isso precisa desenvolver uma estrutura, tem que distribuir equipamentos, ensinar as pessoas a usar. Isso precisa ser um projeto educacional. As pessoas acham ainda que a pandemia vai passar e tudo vai voltar ao normal. Apesar de n\u00e3o ser da \u00e1rea das ci\u00eancias biol\u00f3gicas, sei que os pesquisadores n\u00e3o se perguntavam \u2018se\u2019 viria uma pandemia, mas \u2018quando\u2019. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Ent\u00e3o, a gente precisa organizar uma sociedade que saiba fazer o distanciamento social com menos preju\u00edzo, especialmente na educa\u00e7\u00e3o &#8211; e n\u00e3o foi o que aconteceu. Outra quest\u00e3o \u00e9 que a pandemia aumentou e revelou ainda mais as desigualdades sociais e raciais no Brasil.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a propaganda, acho que ela tinha uma mensagem subliminar que dizia \u201cvoc\u00ea que tem condi\u00e7\u00f5es e \u00e9 da classe privilegiada aproveite a oportunidade, o privil\u00e9gio\u201d. Quando o nosso presidente vai \u00e0 televis\u00e3o em rede nacional e diz que ele tem hist\u00f3rico de atleta e que seria apenas uma gripezinha, ele est\u00e1 dizendo que somos uma sociedade de fortes e fracos. E est\u00e1 dizendo que os fracos que pere\u00e7am.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Seria poss\u00edvel pensar em um segundo movimento de ocupa\u00e7\u00f5es, agora com pautas relacionadas as quest\u00f5es trazidas pela rela\u00e7\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o com a pandemia?&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m das quest\u00f5es das identidades, da politiza\u00e7\u00e3o e do projeto para o Ensino Superior, penso que podemos retomar a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o que \u00e9 latente nesses sujeitos. A experi\u00eancia das ocupa\u00e7\u00f5es est\u00e1 presente na subjetividade dessas pessoas e, no momento, em que surgir a oportunidade, elas v\u00e3o participar dos procesos de novo. \u00c9 uma pergunta que fizemos durante a pesquisa, mas grande parte fala que a t\u00e1tica n\u00e3o funcionaria mais, porque a repress\u00e3o j\u00e1 era forte antes e hoje seria ainda mais. Mas a disposi\u00e7\u00e3o \u00e0 luta \u00e9 algo presente e acredito que esses sujeitos possam vir a ser protagonistas de novos movimentos com novas t\u00e1ticas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E \u00e9 importante lembrar que as ocupa\u00e7\u00f5es, apesar de darem nome ao movimento, estavam associadas a outras t\u00e1ticas. Os estudantes em S\u00e3o Paulo em 2015 s\u00f3 conseguiram vencer o projeto do Alckmin quando sa\u00edram das escolas e come\u00e7aram a trancar as avenidas. Foi o &#8216;tranca\u00e7o&#8217; que derrotou. N\u00e3o tenho clareza de qual t\u00e1tica seria e ser\u00e1 melhor agora em um momento de pandemia, mas vejo com clareza a pauta: uma defesa da democracia e uma luta contra o fascismo. Essa pauta \u00e9 emergente.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista| Soci\u00f3logo ligado \u00e0 Unifal comenta a experi\u00eancia da escola no ensino m\u00e9dio, os avan\u00e7os e desafios do Enem e as ocupa\u00e7\u00f5es da escolas em 2015 e 2016 *Foto: Arquivo pessoal Professor da Universidade Federal de Alfenas (UNIFAL), Luis Ant\u00f4nio Groppo pesquisa a Sociologia da Educa\u00e7\u00e3o e da Juventude a<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-ensino-medio-carece-da-construcao-da-sua-identidade-afirma-o-pesquisador-luis-antonio-groppo\/\">Leia 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