{"id":28287,"date":"2021-02-25T11:08:00","date_gmt":"2021-02-25T14:08:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=28287"},"modified":"2021-02-25T11:10:03","modified_gmt":"2021-02-25T14:10:03","slug":"aumento-do-tempo-de-exposicao-dos-filhos-as-telas-e-alternativa-para-pais-em-trabalho-remoto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/aumento-do-tempo-de-exposicao-dos-filhos-as-telas-e-alternativa-para-pais-em-trabalho-remoto\/","title":{"rendered":"Aumento do tempo de exposi\u00e7\u00e3o dos filhos \u00e0s telas \u00e9 alternativa para pais em trabalho remoto"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Tecnologia | Com o novo agravamento da pandemia e o retrocesso no retorno \u00e0s aulas presenciais, as crian\u00e7as ficam expostas a um uso prolongado dos aparelhos, o que pode trazer preju\u00edzos ao seu desenvolvimento<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 13 abr. 2020<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pequeno Eric tem visto mais TV do que costumava assistir antes da pandemia. \u00c0s vezes, a televis\u00e3o at\u00e9 fica ligada o dia todo, mas sem que ele d\u00ea bola. Sua m\u00e3e, Aline Rodrigues, conta que ele chega a passar quatro horas por dia em frente ao aparelho. \u00c9 mais do que antes, porque seria o hor\u00e1rio da escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aline \u00e9 estudante de Engenharia Civil da UFRGS, trabalha como or\u00e7amentista de obras e \u00e9 volunt\u00e1ria na ONG Sop\u00e3o Solid\u00e1rio. Al\u00e9m disso, \u00e9 m\u00e3e de dois filhos: Eric, de 5 anos, e Anthony, de 9. Ela conta que n\u00e3o tem sido f\u00e1cil, principalmente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 maternidade. Se antes as crian\u00e7as sa\u00edam para a escola, corriam bastante, ficavam mais cansados e dormiam mais cedo, agora eles dormem um pouco mais tarde, enquanto a m\u00e3e continua acordando cedo. \u201cT\u00e1 bem cansativo\u201d, desabafa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso das telas pelos filhos \u00e9 visto como sa\u00edda para aqueles momentos em que precisa de concentra\u00e7\u00e3o total em algo, como algum trabalho da faculdade. Ela costuma deixar que vejam v\u00eddeos em seu celular durante esses per\u00edodos, o que prende mais a aten\u00e7\u00e3o deles. Apesar disso, Aline se preocupa com a exposi\u00e7\u00e3o excessiva e tenta encorajar outras atividades recreativas, como andar de bicicleta no p\u00e1tio ou a pintura de desenhos que ela mesma imprime. \u201cAt\u00e9 desapeguei da bagun\u00e7a: a mesa j\u00e1 est\u00e1 toda pintada\u201d, brinca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Seu filho Eric j\u00e1 foi personagem de uma reportagem quando ainda tinha 1 ano e 3 meses. Nessa \u00e9poca, o garoto j\u00e1 conseguia mexer no celular. Fazia&nbsp; grava\u00e7\u00f5es, tirava foto, postava.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu achava bonitinho, achava legal. Ele n\u00e3o era viciado, mas sabia mexer. Depois fiquei pensando que o celular \u00e9 o a\u00e7\u00facar atual, ent\u00e3o comecei a for\u00e7ar ele gradualmente a n\u00e3o ter tanto acesso.\u201d<\/p><cite>Aline Rodrigues<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 Antonella come\u00e7ou a ser atra\u00edda pelas telas ainda com 4 meses de vida, como relata Aline Cunha, professora e vice-diretora da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS e m\u00e3e da pequena, agora com 1 ano e 4 meses. Nesse per\u00edodo de pandemia, Aline tem trabalhado de forma remota e dividido os cuidados da filha com o marido, mas tamb\u00e9m observa um aumento do tempo de uso da televis\u00e3o. Quando nenhum dos dois pode ficar com a filha, Antonella \u00e9 colocada sentada no carrinho, vendo desenho. \u201cNesses momentos, ela fica muito quieta, mesmo que a gente procure disponibilizar v\u00e1rios brinquedos para ela.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aline observa que a atra\u00e7\u00e3o da filha pelo celular tamb\u00e9m \u00e9 grande. &#8220;Quando o celular est\u00e1 na nossa m\u00e3o, ela estica o pesco\u00e7o e fica olhando o que tem, parece que fica esperando que a gente coloque alguma coisa para ela assistir\u201d, relata a m\u00e3e surpresa. Antonella, como muitas crian\u00e7as, j\u00e1 entende que no celular existe um mundo de possibilidades.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Impactos do aumento da exposi\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Michel Desmurget, neurocientista franc\u00eas e autor do livro <em>A f\u00e1brica de cretinos digitais<\/em>, afirma que a exposi\u00e7\u00e3o excessiva de crian\u00e7as \u00e0s telas pode trazer s\u00e9rios malef\u00edcios \u00e0 forma\u00e7\u00e3o intelectual das novas gera\u00e7\u00f5es, inclusive a <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/geral-54736513\" target=\"_blank\">diminui\u00e7\u00e3o do quociente de intelig\u00eancia (QI)<\/a> em rela\u00e7\u00e3o a gera\u00e7\u00f5es anteriores, quando a tela n\u00e3o estava ou estava menos presente.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo das gera\u00e7\u00f5es, a m\u00e9dia do QI humano aumentou, o que estaria ligado \u00e0s melhores condi\u00e7\u00f5es \u00e0s quais as pessoas t\u00eam acesso ao longo da vida na era moderna, principalmente nos pa\u00edses economicamente mais desenvolvidos. No entanto, estudos recentes, como os de Desmurget, t\u00eam demonstrado que o QI das gera\u00e7\u00f5es atuais de crian\u00e7as e jovens tem diminu\u00eddo. Apesar de altera\u00e7\u00f5es socioecon\u00f4micas terem grande impacto, a percep\u00e7\u00e3o dessa diminui\u00e7\u00e3o nas gera\u00e7\u00f5es nativas digitais tem se mostrado em pa\u00edses que se mant\u00eam constantes, como Noruega, Dinamarca, Finl\u00e2ndia, Holanda e Fran\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Giana Bitencourt Frizzo, pesquisadora do PPG em Psicologia da UFRGS, antes da pandemia de covid-19, j\u00e1 buscava entender o impacto das telas para o desenvolvimento infantil e para a intera\u00e7\u00e3o familiar. Em virtude do isolamento social e com o impedimento de fazer pesquisas presenciais com os pais, ela buscou entender qual impacto as telas poderiam ter nesse novo cen\u00e1rio. Com a conveni\u00eancia de ter dados do per\u00edodo anterior, Giana p\u00f4de comparar os dois momentos e percebeu o aumento do tempo de uso das telas pelas crian\u00e7as, o que geralmente vinha alinhado \u00e0 perda de suportes pelo grupo familiar \u2013 como desemprego, falta de renda, aus\u00eancia de outros familiares \u2013 e tamb\u00e9m ao maior estresse dos pais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Giana relata que, antes da pandemia, os pais que participavam da pesquisa diziam oferecer as telas \u00e0s crian\u00e7as como forma de poder descansar, se distrair ou para fazer algum trabalho em casa. Agora, no home office, os pais relatam dar as telas aos filhos para poder trabalhar e dar conta de tarefas dom\u00e9sticas. \u201c\u00c9 quase como se fosse a nova bab\u00e1 eletr\u00f4nica\u201d, observa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Independentemente do aumento na pandemia, o uso inadequado das telas j\u00e1 preocupava antes e, em pesquisas, Giana notou indicativos de preju\u00edzos \u00e0 forma\u00e7\u00e3o em todos os dom\u00ednios avaliados: cognitivo, lingu\u00edstico e socioemocional. Quanto maior o uso, maior a frequ\u00eancia de problemas nesses dom\u00ednios. No entanto, ressalta que n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o tempo de uso que deve preocupar, mas tamb\u00e9m o tipo de conte\u00fado consumido e a falta de intera\u00e7\u00e3o com outras coisas.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Preju\u00edzos diversos fazem parte da preocupa\u00e7\u00e3o dos pais<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gustavo Corte Real \u00e9 pai da Cec\u00edlia, de 5 anos e 3 meses. Diretor de Programas da UFRGSTV, ele conta que, mesmo antes de a filha nascer, j\u00e1 pensava nessas quest\u00f5es. Desde que a namorada e ele souberam da gravidez, procuraram ler e estudar sobre o assunto. Gustavo lembra de uma vez em que foi a um restaurante com a namorada quando Cec\u00edlia ainda estava na barriga. Observaram uma crian\u00e7a, com pouco mais de um ano, sentada na cadeirinha e assistindo a um desenho no celular para que os pais pudessem almo\u00e7ar. \u201cDesde cedo a gente estipulou alguns objetivos: o primeiro deles, que ela jamais seria esse tipo de crian\u00e7a que, pros pais poderem comer tranquilos no restaurante, a gente ia ter que tocar um celular na cara dela.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dos muitos materiais e livros que leram antes do nascimento da filha, alguns falavam sobre o tempo de exposi\u00e7\u00e3o, e decidiram que Cec\u00edlia veria no m\u00e1ximo duas horas por dia de televis\u00e3o. Esse tempo j\u00e1 \u00e9 maior do que o recomendado pela Organiza\u00e7\u00e3o Mundial de Sa\u00fade, de uma hora por dia para crian\u00e7as em torno dos 5 anos. Com a filha passando mais tempo em casa durante a pandemia, o tempo aumentou. Antes Cec\u00edlia ficava das 9 \u00e0s 16h na creche, e os hor\u00e1rios de televis\u00e3o eram das 17 \u00e0s 19h. Agora, Gustavo conta que chega a quatro horas por dia, que incluem os momentos em que nem ele nem a namorada est\u00e3o completamente dispon\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m do tempo, outras quest\u00f5es tamb\u00e9m preocupam Gustavo, como a dist\u00e2ncia da tela e o conte\u00fado visto pela filha. \u201cEla s\u00f3 v\u00ea desenho na TV da sala, a uma dist\u00e2ncia de dois metros, n\u00e3o v\u00ea no celular nem no tablet. Tamb\u00e9m desde cedo a gente tinha crit\u00e9rios para o desenho: fizemos uma sele\u00e7\u00e3o dos que seriam legais para ela ver e nunca deixamos ela assistir a desenho na TV aberta ou que pudesse ter comercial, publicidade infantil, porque \u00e9 uma coisa muito ruim\u201d, pontua.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a neuropediatra e professora de Medicina na UFRGS Renata Kieling, existem janelas de desenvolvimento em que o uso da tela preocupa mais. \u201cA gente nunca teve isso de, por exemplo, com 1 ano de idade, um per\u00edodo ainda muito formativo, as crian\u00e7as receberem um bombardeio de luz e som pela tela. O efeito disso n\u00e3o \u00e9 uma coisa que a gente consegue dizer, mas temos uma preocupa\u00e7\u00e3o de que isso n\u00e3o seja bom\u201d, pondera. Al\u00e9m disso, assevera que \u00e9 importante olhar com ainda mais aten\u00e7\u00e3o para as crian\u00e7as que j\u00e1 possuem atrasos no desenvolvimento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cTudo \u00e9 multifatorial, mas algumas crian\u00e7as precisam de um cuidado redobrado. Por exemplo, crian\u00e7as que t\u00eam certos atrasos no desenvolvimento: para falar, se comunicar, interagir. Essas crian\u00e7as que preocupam os pais no sentido de que o desenvolvimento n\u00e3o esteja bem s\u00e3o exatamente as crian\u00e7as a que se deveria dar mais aten\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao uso de tela. Se ela que est\u00e1 \u00f3tima n\u00e3o tem dificuldades na regula\u00e7\u00e3o da emo\u00e7\u00e3o e do comportamento, se se comunica bem, n\u00e3o traz preocupa\u00e7\u00f5es desse tipo, provavelmente v\u00e1 conseguir regular seu uso de tela.\u201d<\/p><cite>Renata Kieling.<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A docente ainda observa que n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel compreender o que \u00e9 o efeito da tela isoladamente. \u201cMuito do que a gente observa \u00e9 de que as coisas est\u00e3o associadas. Muitas vezes a crian\u00e7a que tem menos oportunidade de outros est\u00edmulos \u00e9 a mesma que est\u00e1 mais tempo na tela.\u201d E pondera que n\u00e3o existe tempo suficiente dessa experi\u00eancia humana de exposi\u00e7\u00e3o para que possa ser bem compreendida pelos estudos.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"612\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-28541\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/02\/Flavio-Dutra-8386-695x462.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>\u00a0Na Vila Planet\u00e1rio, em Porto Alegre, crian\u00e7as se divertem brincando com jogos no aparelho celular (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 13 abr. 2020)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">&#8220;No meu tempo as coisas eram diferentes&#8221;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se essa \u00e9 uma m\u00e1xima muito escutada, no caso de alguns pais ela n\u00e3o \u00e9 dita em v\u00e3o. A estudante de Engenharia Civil Aline Rodrigues lembra que passava grande parte dos seus dias de inf\u00e2ncia na rua. \u201cA minha m\u00e3e s\u00f3 me chamava pra comer e tomar banho de noite.\u201d Hoje nota que, mesmo quando pode levar os filhos para a rua, eles n\u00e3o t\u00eam os mesmos interesses que ela tinha quando pequena: subir em \u00e1rvore, apanhar fruta do p\u00e9.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mas se, por um lado, o passado proporcionava maior liberdade para poder estar e brincar na rua, por outro, as telas j\u00e1 estavam presentes. Gustavo Corte Real lembra de passar as manh\u00e3s da inf\u00e2ncia assistindo a desenhos na televis\u00e3o pequena e em preto e branco da casa dos av\u00f3s, onde passava a maior parte do tempo quando os pais estavam trabalhando.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEu fui uma crian\u00e7a que cresceu na rua brincando muito. Mas, ao mesmo tempo, eu tinha bastante tela tamb\u00e9m. Antigamente os meus av\u00f3s n\u00e3o tinham preocupa\u00e7\u00e3o com distanciamento da tela, por exemplo. Essa coisa que a gente tem hoje de ficar a mais de dois metros. Antes era aquela cena cl\u00e1ssica da crian\u00e7a sentada no ch\u00e3o com a cara grudada na TV, at\u00e9 porque ela era menor&#8230; a\u00ed tu tinha que ficar grudado.\u201d<\/p><cite>Gustavo Corte Real<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a pedagoga Aline Cunha, as diferen\u00e7as se mostram no tamanho da tela \u2013 grande, com imagens muito coloridas, muito movimento, com som de qualidade \u2013, mas tamb\u00e9m na rela\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as com essa tela a cada gera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Aline lembra de mostrar uma foto da filha Antonella para a m\u00e3e e comentar: \u201cOlha como ela est\u00e1 paradinha, assistindo \u00e0 TV\u201d, ao que recebeu de resposta: \u201cParece tu quando era pequena\u201d. Ela lembra de aguardar ansiosa para assistir a um dos poucos programas infantis que passava no seu aparelho cor de laranja e em preto e branco: o S\u00edtio do Pica-Pau Amarelo. Se para ela os desenhos eram poucos, hoje percebe um card\u00e1pio infinito dispon\u00edvel para a filha, com programa\u00e7\u00f5es intermin\u00e1veis nas plataformas de streaming ou nos canais exclusivamente infantis. Al\u00e9m disso, percebe que as rela\u00e7\u00f5es de trabalho das gera\u00e7\u00f5es anteriores para as atuais demonstram os contrastes.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cExistia outra realidade de trabalho na minha fam\u00edlia. Eu morava com meu av\u00f4 e minha av\u00f3, que eram aposentados, e a minha m\u00e3e, que ficava em casa. Essa \u00e9 uma diferen\u00e7a bem grande tamb\u00e9m. Hoje a Antonella n\u00e3o tem algu\u00e9m que possa estar o tempo todo com ela, ent\u00e3o a TV acaba cumprindo essa fun\u00e7\u00e3o, interagindo com ela num momento em que os dois pais est\u00e3o trabalhando.\u201d<\/p><cite>Aline Cunha<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>A falta de sociabilidade e a preocupa\u00e7\u00e3o com o p\u00f3s-pandemia<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Gustavo \u00e0s vezes encontra Cec\u00edlia na janela conversando com o guardador de carros da rua, com quem tem amizade. \u00c9 uma forma de exercer o grande poder de sociabilidade que o pai acredita que ela tem. Gustavo tamb\u00e9m relata que o que mais o preocupa durante esse per\u00edodo \u00e9 a falta de intera\u00e7\u00e3o da filha com outras pessoas, principalmente crian\u00e7as.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em raras vezes, ela marca uma reuni\u00e3o no Zoom com algum amigo. O pai tamb\u00e9m aproveita a solid\u00e3o das ruas no fim de semana para levar Cec\u00edlia para passear, andar de bicicleta, mas ainda percebe a tristeza da filha e a saudade dos colegas. Ele n\u00e3o sabe que reflexo isso pode ter depois do isolamento e se preocupa, apesar de ter esperan\u00e7a de que a filha lide bem com a situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00e1 Antonella nasceu pouco antes da pandemia e do isolamento e n\u00e3o teve muitas oportunidades de interagir com outras crian\u00e7as. \u201cAcho que a gente n\u00e3o tem conseguido dimensionar o quanto as crian\u00e7as t\u00eam sofrido pela falta de espa\u00e7os de conv\u00edvio, de brincadeira e de aprendizagem\u201d, emociona-se Aline ao contar que isso \u00e9 o que mais a preocupa enquanto m\u00e3e nesse momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O impacto ser\u00e1 maior para as crian\u00e7as entre 1 e 3 anos de idade, segundo Renata Kieling, justamente porque \u00e9 nesse momento que os diferentes est\u00edmulos s\u00e3o importantes para a forma\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m examina que s\u00e3o coisas necess\u00e1rias para o c\u00e9rebro se manter bem nesse per\u00edodo e que os pais devem, na medida do poss\u00edvel, buscar estar presentes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Giana Bitencourt tamb\u00e9m elenca algumas formas que seriam um bom uso de tela. O primeiro deles \u00e9 saber o que a crian\u00e7a acessa, n\u00e3o deixar que ela use totalmente sozinha. Usar os filtros infantis para desenhos e conte\u00fados <em>on demand<\/em> tamb\u00e9m \u00e9 importante. Al\u00e9m disso, buscar interagir com os conte\u00fados consumidos pela crian\u00e7a, questionando os desenhos, os jogos e fugindo do uso passivo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cSe tem pouco tempo e, por exemplo, vai precisar fazer o almo\u00e7o, n\u00e3o precisa deixar a crian\u00e7a na tela enquanto isso. Engaja ela na atividade que tu vai fazer. Pede para ela te ajudar a arrumar a mesa, nem que seja levar um guardanapo\u2026 Os pais n\u00e3o precisam ser ref\u00e9ns dos filhos durante a pandemia, eles podem integrar as crian\u00e7as em alguma atividade de acordo com a idade.\u201d<\/p><cite>Giana Bitencourt Frizzo<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c0s vezes, ela pondera, os pais est\u00e3o t\u00e3o acostumados a colocar os filhos na frente de uma tela, \u201cporque \u00e9 mais f\u00e1cil ou porque est\u00e3o cansados\u201d, e perdem a oportunidade de brincar, de transformar um momento do dia a dia em algo mais l\u00fadico.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tecnologia | Com o novo agravamento da pandemia e o retrocesso no retorno \u00e0s aulas presenciais, as crian\u00e7as ficam expostas a um uso prolongado dos aparelhos, o que pode trazer preju\u00edzos ao seu desenvolvimento 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