{"id":28633,"date":"2021-03-04T09:02:00","date_gmt":"2021-03-04T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=28633"},"modified":"2021-03-04T16:13:06","modified_gmt":"2021-03-04T19:13:06","slug":"e-tanta-coisa-para-tao-pouco-corpo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/e-tanta-coisa-para-tao-pouco-corpo\/","title":{"rendered":"\u00c9 tanta coisa para t\u00e3o pouco corpo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, Luciano Bedin da Costa sugere que, para lidar com o agravamento da pandemia, pensemos sobre o que j\u00e1 passamos e as solu\u00e7\u00f5es que encontramos<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Luciano Bedin da Costa<br>*Foto de capa:  Leonardo Savaris<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>H\u00e1 exatamente um ano viv\u00edamos os primeiros sinais da chegada da covid-19 no Brasil.<\/strong> O que primeiramente era uma not\u00edcia vinda de longe passou a ser um alerta, uma preocupa\u00e7\u00e3o, um desespero e, enfim, um esgotamento. Se as imagens da China, especialmente de Wuhan, eram ainda imagens long\u00ednquas para n\u00f3s, foi preciso que o v\u00edrus chegasse \u00e0 It\u00e1lia para que nos d\u00e9ssemos conta de que o problema viria a ser rapidamente nosso. <em>Se a It\u00e1lia, que era a It\u00e1lia, estava vivendo aquele caos sanit\u00e1rio, imagina a gente no Brasil <\/em>\u2013 era o que pens\u00e1vamos. As imagens dos primeiros lockdowns europeus nos deixavam sem palavras. As ruas vazias de Roma, Paris, Lisboa e Barcelona n\u00e3o deixavam d\u00favidas de que era apenas uma quest\u00e3o de tempo. <em>Quando chegar aqui, ser\u00e1 uma cat\u00e1strofe com propor\u00e7\u00f5es inimagin\u00e1veis<\/em>. Os n\u00fameros e gr\u00e1ficos cada vez maiores e crescentes mostravam uma realidade incontorn\u00e1vel. H\u00e1 um ano viv\u00edamos com essa sensa\u00e7\u00e3o de que o pior estaria por vir, mesmo sem saber o que de fato seria esse pior.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E o v\u00edrus enfim chegou \u00e0s nossas casas. <\/strong>Das telas dos nossos celulares e televis\u00f5es acompanh\u00e1vamos em tempo real o n\u00famero de mortos e infectados em cada um dos estados brasileiros, a situa\u00e7\u00e3o em cidades e bairros, at\u00e9 que fossem tomadas as primeiras medidas sanit\u00e1rias que acabariam por impactar de maneira decisiva em nossas vidas. H\u00e1 um ano o v\u00edrus chegava enfim \u00e0s nossas casas n\u00e3o mais como uma not\u00edcia vinda de longe, mas como uma presen\u00e7a com a qual ter\u00edamos que efetivamente lidar. Conviver com a amea\u00e7a do v\u00edrus implicaria viver uma vida jamais vivida ou mesmo imaginada. Ansiedade e ang\u00fastia passaram a fazer parte do vocabul\u00e1rio sentimental dos nossos corpos confinados \u2013 confinamentos f\u00edsicos e tamb\u00e9m ps\u00edquicos. Mesmo para aquelas e aqueles que n\u00e3o tinham a chance de praticar o isolamento social restava o medo de ser infectada(o) e de infectar as pessoas que amavam se, ao retornarem de seus trabalhos, trouxessem o v\u00edrus para dentro de suas casas. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Quem estava na rua se sentia culpada(o), querendo a todo custo retornar para casa. Quem estava em casa se sentia angustiada(o), querendo a todo custo sair para a rua. O certo \u00e9 que ningu\u00e9m se sentia de fato confort\u00e1vel no lugar onde estava. Na psicologia dizemos que a experi\u00eancia de n\u00e3o caber no espa\u00e7o onde se est\u00e1 \u00e9 um tipo de sofrimento capaz de enlouquecer. E acabamos enlouquecendo, alguns mais, outros menos. Em conversa com uma estudante de gradua\u00e7\u00e3o da UFRGS, ouvi uma frase que me marcou bastante e que parecia traduzir muito bem essa experi\u00eancia de n\u00e3o pertencimento. <em>\u00c9 tanta coisa para t\u00e3o pouco corpo<\/em>, me dizia a estudante em meio a crises de p\u00e2nico e noites insones.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E a\u00ed entramos em uma s\u00e9rie de rituais para tentar lidar com o tanto de intensidade que nos invadia.<\/strong> Viramos seres mascarados, tivemos que nos tornar pessoas obsessivas. Colocar m\u00e1scara, lavar m\u00e1scara. Colocar sapato, tirar sapato. Fizemos do \u00e1lcool gel nosso arroz com feij\u00e3o. E viramos espectadores de lives, tentando buscar uma normalidade de prazer como se viv\u00eassemos uma esp\u00e9cie de f\u00e9rias for\u00e7adas. Na ambiguidade que marca o ser humano \u2013 sim, somos seres marcados por sentimentos contradit\u00f3rios, j\u00e1 dizia Freud \u2013, ficamos um pouco euf\u00f3ricas(os) no in\u00edcio do isolamento social. Enfim t\u00ednhamos tempo para limpar e organizar a casa, para curtir nossos gatos, cachorros e fam\u00edlia. Apelamos \u00e0s tele-entregas de todos os tipos. Nunca comemos tanto e de tantos tipos bolos, pizzas e fast-foods . Nos tornamos tamb\u00e9m <em>gourmets<\/em>, aprendemos a cozinhar pratos novos com receitas que se espalhavam pela internet. Adquirimos coisas inimagin\u00e1veis pelos grandes sites de compras. O sup\u00e9rfluo, caracter\u00edstica principal da sociedade de consumo em que vivemos, tornou-se, enfim, palavra de ordem e de gozo. Compramos pijamas, moletons, moedores de caf\u00e9, m\u00f3veis, eletrodom\u00e9sticos, televis\u00f5es e tranqueiras de todos os tipos. Em meio \u00e0s tantas coisas que compr\u00e1vamos, nos torn\u00e1vamos tamb\u00e9m um pouco dessa tranqueira toda. Assim como as coisas que chegavam pelo correio, nos v\u00edamos tamb\u00e9m como produtos sup\u00e9rfluos. Experimentamos tamb\u00e9m diferentes pr\u00e1ticas f\u00edsicas e espirituais. Nos tornamos atletas de apartamento, ginastas de sala e quarto. Compramos tapetes, t\u00eanis e roupas de gin\u00e1stica, cada uma mais colorida que a outra. Baixamos aplicativos de medita\u00e7\u00e3o. Nos tornamos iogues de youtube. Nosso mantra cotidiano passou a ser o do <em>vai passar<\/em>.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Passamos a viver uma vida virtual.<\/strong> Aulas virtuais. Trabalho virtual. Reuni\u00f5es virtuais. Compras virtuais. Consultas virtuais. Lazeres virtuais. Amores virtuais. Nos tornamos seres virtuais. Nem mesmo nas reuni\u00f5es de fam\u00edlia deix\u00e1vamos a virtualidade de lado. Faz\u00edamos chamadas de v\u00eddeo para nossos pais, filhas(os) e av\u00f3s. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Tent\u00e1vamos aparecer sorrindo no quadradinho da tela para n\u00e3o deixar que as pessoas que tanto am\u00e1vamos soubessem da dor que sent\u00edamos com aquela dist\u00e2ncia toda. No fundo, sab\u00edamos que aquela vida virtual n\u00e3o era a mesma coisa, que est\u00e1vamos perdendo toda uma vida de verdade \u2013 aquilo que nos era mais precioso e a que at\u00e9 aquele momento talvez n\u00e3o tiv\u00e9ssemos dado tanta bola. Viv\u00edamos na pele a dor que era sentir saudade \u2013 uma dor que n\u00e3o nos deixava dormir, que apertava o nosso peito, que nos fazia chorar sem motivo aparente. Nos tornamos seres \u00e0 flor da pele.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>O final do ano chegou com a not\u00edcia da vacina<\/strong>. Voltamos a ficar euf\u00f3ricos, vimos uma grande luz no fim do t\u00fanel. Aquilo que no in\u00edcio do ano era apenas uma promessa acabou se tornando uma verdade. Assim como no in\u00edcio da pandemia vimos a realidade primeiramente de longe. A cada bra\u00e7o europeu ou estadunidense sendo vacinado, vibr\u00e1vamos junto. Mesmo em um pa\u00eds tristemente orientado pelo pensamento negacionista, era uma quest\u00e3o de tempo para que f\u00f4ssemos tamb\u00e9m vacinadas(os). E ainda por cima era final de ano, um sinal de que 2021 seria diferente e de que 2020 tinha enfim ficado para tr\u00e1s. E t\u00ednhamos as festas de Natal e r\u00e9veillon, e t\u00ednhamos tamb\u00e9m um ver\u00e3o a nos esperar. Esse mix de coisas boas nos encheu de coragem. Aproveitamos para fazer pequenos encontros presenciais com as pessoas amadas com o esp\u00edrito de que t\u00ednhamos enfim entendido o funcionamento do v\u00edrus e as estrat\u00e9gias para domin\u00e1-lo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E 2021, ent\u00e3o, chegou<\/strong>. Em lugar da vacina, o que presenciamos foi a chegada de uma segunda onda ainda mais violenta que a primeira. S\u00f3 que, em vez do mar, o que esta onda nos trouxe foi uma ang\u00fastia que ach\u00e1vamos j\u00e1 ter enterrado. Nos mesmos notici\u00e1rios que h\u00e1 um ano nos mostravam a chegada do v\u00edrus, passamos a assistir profissionais da sa\u00fade novamente desesperados diante de tantas pessoas \u00e0 merc\u00ea da fragilidade que \u00e9 ser brasileira(o) em um tempo como este. Nos sentimos tristes, desesperadas(os) e, principalmente, injusti\u00e7adas(os). O que mais tem\u00edamos em 2020, o tal colapso do sistema de sa\u00fade e sanit\u00e1rio, enfim, havia chegado. Passamos 2020 inteiro na imin\u00eancia do caos. A cada m\u00eas, a sensa\u00e7\u00e3o de que ele iria chegar. Em abril iria colapsar. Em maio. Em julho. N\u00e3o por ironia, foi preciso que o ano virasse para que o colapso de fato chegasse \u2013 junto com vacina (que paradoxo!). Quando ach\u00e1vamos que os ventos estavam, enfim, a nosso favor, o que vimos foi uma grande bandeira preta sendo acenada para n\u00f3s, muito pior do que o pior que t\u00ednhamos j\u00e1 experienciado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ser\u00e1 que iremos aguentar? <\/strong>A pergunta \u00e9 dif\u00edcil, mas tendo a respond\u00ea-la que sim. Cabe a cada um(a) de n\u00f3s avaliar o ponto onde se est\u00e1, o que foi poss\u00edvel construir ao longo de um ano de luta. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mais do que um <em>vai passar<\/em>, temos a mem\u00f3ria do que <em>j\u00e1 passamos<\/em>, das dificuldades enfrentadas e das solu\u00e7\u00f5es que encontramos para lidar com elas. Se tivermos que retornar aos nossos rituais, que assim seja. Assim como aprendemos com a filosofia que nunca nos banhamos em um mesmo rio \u2013 dado que estamos, junto com o rio, em permanente mudan\u00e7a \u2013, c\u00e1 estamos novamente confinadas(os) em casa ou obrigadas(os) a trabalhar em meio a tanto risco e ansiedade. No entanto, j\u00e1 n\u00e3o somos as(os) mesmas(os) de h\u00e1 um ano. Passamos por uma s\u00e9rie de provas que colocaram nosso corpo e mente em xeque. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se voc\u00ea est\u00e1 lendo este texto \u00e9 porque est\u00e1 viva(o), \u00e9 porque voc\u00ea sobreviveu \u00e0s mais de 250 mil vidas que injustamente n\u00e3o tiveram essa chance. Ainda concordo com a estudante de gradua\u00e7\u00e3o da UFRGS sobre <em>ser tanta coisa para t\u00e3o pouco corpo<\/em>. A diferen\u00e7a \u00e9 que agora sabemos um pouco mais do que nosso corpo \u00e9 capaz, de que, ao cuidarmos dele, estamos cuidando tamb\u00e9m das(dos) outras(os), e isso n\u00e3o \u00e9 pouco.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3277990625335032\">Luciano Bedin da Costa<\/a> \u00e9 professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Psicologia Social e Institucional da UFRGS. \u00c9 um dos editores de <em>O On\u00edrico: o primeiro jornal on\u00edrico-pol\u00edtico do Brazil<\/em>.&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o, Luciano Bedin da Costa sugere que, para lidar com o agravamento da pandemia, pensemos sobre o que j\u00e1 passamos e as solu\u00e7\u00f5es que encontramos *Por: Luciano Bedin da Costa*Foto de capa: Leonardo Savaris H\u00e1 exatamente um ano viv\u00edamos os primeiros sinais da chegada<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/e-tanta-coisa-para-tao-pouco-corpo\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":28833,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[1839,701,707,895,427,1991],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","post-28633","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-cognicao-corporificada","tag-covid-19","tag-pandemia","tag-psicologia","tag-saude-mental","tag-segunda-onda"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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