{"id":30478,"date":"2021-04-29T09:02:00","date_gmt":"2021-04-29T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=30478"},"modified":"2021-04-29T16:52:04","modified_gmt":"2021-04-29T19:52:04","slug":"neoliberalismo-trabalho-e-o-tempo-que-nao-da-tempo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/neoliberalismo-trabalho-e-o-tempo-que-nao-da-tempo\/","title":{"rendered":"Neoliberalismo, trabalho e o tempo que n\u00e3o d\u00e1 tempo"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Confrontando diferentes formas de se pensar sobre a realidade de trabalhadores, Andr\u00e9 Dias Mortari, t\u00e9cnico administrativo da UFRGS, e Tayse Palitot, docente da UFOB, analisam o cen\u00e1rio contempor\u00e2neo<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Andr\u00e9 Dias Mortari e Tayse Palitot<br>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 28 mar. 2020<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo dados do <a href=\"https:\/\/www.ibge.gov.br\/busca.html?searchword=pnad\">IBGE<\/a> e do <a href=\"https:\/\/www.dieese.org.br\/sitio\/buscaDirigida?comboBuscaDirigida=TEMA%7Chttp%3A%2F%2Fwww.dieese.org.br%2F2012%2F12%2Fdieese%23T356953437\">DIEESE<\/a>, em 2019 a informalidade no Brasil atingiu 41,6% das\/os trabalhadoras\/es, maior patamar desde a reforma trabalhista. Enquanto em 2018, 71 mil pessoas foram contratadas pelo modelo de trabalho intermitente, em 2019 esse n\u00famero passou para mais de 155 mil. Entre 2014 e 2019 a taxa de sindicaliza\u00e7\u00e3o caiu de 16,1% para 11,2% das\/os trabalhadoras\/es e aumentou em 4,7 milh\u00f5es o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de extrema pobreza. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Trabalho por aplicativo, complementa\u00e7\u00e3o de renda nos finais de semana, bicos e toda forma de monetiza\u00e7\u00e3o das atividades cotidianas se tornaram uma sa\u00edda para sobreviv\u00eancia. Durante a pandemia, esse cen\u00e1rio tem se intensificado e atingido segmentos que pareciam n\u00e3o ser afetados por essa l\u00f3gica. Na universidade, trabalhadoras\/es e estudantes relatam que durante o trabalho e o ensino remoto n\u00e3o se acha mais tempo pra nada, \u00e9 um tempo que n\u00e3o d\u00e1 tempo. Contraditoriamente, muita gente se diz feliz, pois acredita que agora \u00e9 dona de seu pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cada dia mais pessoas t\u00eam organizado suas vidas seguindo uma forma de viver pronta, \u00e0 qual basta tentar se adaptar e seguir. A vida cotidiana entra nos circuitos do mercado e nas pr\u00e1ticas de gest\u00e3o, tornando-se um pequeno neg\u00f3cio. Nesse contexto, a \u00fanica transforma\u00e7\u00e3o poss\u00edvel \u00e9 a individual, inviabilizando o horizonte de mudan\u00e7as estruturais; estudar experi\u00eancias organizacionais a partir de diferentes premissas pode, portanto, contribuir para a supera\u00e7\u00e3o das estruturas que nos colocam nessa letargia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O neoliberalismo n\u00e3o \u00e9 um sistema que regula apenas as rela\u00e7\u00f5es econ\u00f4micas, ele constitui um conjunto de dispositivos, cren\u00e7as, discursos e pr\u00e1ticas que determinam um novo modo de organizar todas as esferas da vida social em um cen\u00e1rio de competi\u00e7\u00e3o generalizada. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nesse sentido, a raz\u00e3o neoliberal tende a transformar tudo a sua imagem, desde pol\u00edtica e trabalho at\u00e9 a a\u00e7\u00e3o social e a vida cotidiana com seus tempos e espa\u00e7os. No entanto, \u00e9 poss\u00edvel romper com a apar\u00eancia de inevitabilidade do qual ele se reveste. A constru\u00e7\u00e3o cotidiana de lutas sociais revela caminhos e formas de organizar que n\u00e3o se estruturam pela l\u00f3gica do mercado<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para o soci\u00f3logo franc\u00eas Henry Lefebvre, a vida cotidiana era muito mais do que passear com o cachorrinho pelo bairro. O autor foi cr\u00edtico de duas vertentes do pensamento. De um lado, o positivismo (assim como o empirismo), o qual ao mesmo tempo que buscava sua valida\u00e7\u00e3o pela concretude em que seus achados se davam, falhava por expressar a fragmenta\u00e7\u00e3o que a experi\u00eancia oferecia, incapaz de abranger o todo. De outro lado, estava a abstra\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica que, embora colocava em conex\u00e3o os elementos e fragmentos descobertos, n\u00e3o podia realizar-se em si mesma, andar solta, desconectada do concreto. Assim, o cotidiano representa a media\u00e7\u00e3o entre o abstrato e o concreto, permitindo criticar a pr\u00e1tica pelas ideias e as ideias pela pr\u00e1tica. Com isso, era poss\u00edvel criticar as mistifica\u00e7\u00f5es da vida cotidiana, ao mesmo tempo que concedia \u00e0 teoria o contato com as reais potencialidades, s\u00f3 extra\u00edveis do mundo vivido.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O autor defende que na busca de conforto e sensa\u00e7\u00e3o de harmonia \u00e9 comum desdramatizar as rela\u00e7\u00f5es cotidianas. As pessoas vivem em ambiguidade, agem em contradi\u00e7\u00e3o, embriagadas por ideologias que d\u00e3o a falsa impress\u00e3o de encaixe entre as diversas esferas da consci\u00eancia e da pr\u00e1tica. Dessa forma, agir em oposi\u00e7\u00e3o ao fluxo das estruturas impostas se torna uma tarefa improv\u00e1vel. N\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de falta de atitude, mas de falta de vis\u00e3o sobre caminhos poss\u00edveis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante a constru\u00e7\u00e3o cotidiana de atos, greves e ocupa\u00e7\u00f5es, novos tempos e espa\u00e7os se estabelecem em rela\u00e7\u00e3o ao cotidiano programado e repetitivo de trabalhadores e estudantes. Na organiza\u00e7\u00e3o desses eventos, os espa\u00e7os de debate e decis\u00e3o s\u00e3o desierarquizados, o que traz \u00e0 tona uma disputa que est\u00e1 a\u00ed para ser enfrentada e que existe coletivamente a op\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o de mudar a realidade. Assim, cria-se um terreno f\u00e9rtil em que o velho e o novo se confrontam, gerando movimento, com avan\u00e7os e trope\u00e7os.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, o contato com a pluralidade de conhecimentos, pr\u00e1ticas e problemas amplia a vis\u00e3o sobre o todo e concebe um entendimento mais social do mundo e de si mesmo. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nesse sentido, premissas que tomam as\/os sujeitas\/os como aut\u00f4nomas\/os, soberanas\/os, autocentradas\/os, determinadas\/os por si mesmas\/os, independentemente do social e das determina\u00e7\u00f5es estruturais, s\u00e3o desmistificadas pelas no\u00e7\u00f5es de representatividade, constru\u00e7\u00e3o coletiva, horizontalidade das rela\u00e7\u00f5es, car\u00e1ter social do trabalho e solidariedade. O processo de desaliena\u00e7\u00e3o e nova aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 complexo, afinal, a aliena\u00e7\u00e3o \u00e9 ampla, dial\u00e9tica, nunca total ou vazia e \u00e9 sempre relacionada a um quadro de refer\u00eancia.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em oposi\u00e7\u00e3o \u00e0 l\u00f3gica mecanizada e competitiva que v\u00ea nas pequenas tarefas ou na busca de dinheiro um objetivo em si, durante a constru\u00e7\u00e3o de lutas sociais ocorre um retorno \u00e0 condi\u00e7\u00e3o natural de exist\u00eancia. Sob esse ponto de vista, n\u00e3o provoca um rompimento com o cotidiano, mas a sua reconstru\u00e7\u00e3o, j\u00e1 que se vive em uma quebra continua. No trabalho alienado, as pessoas n\u00e3o conversam, interagem ou existem realmente uma com as outras; agem conforme regras e normas que embrutecem e automatizam suas a\u00e7\u00f5es. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante de rela\u00e7\u00f5es planificadas, a liberdade se restringe a escolhas banais, como a cor ou o tamanho. Qualquer op\u00e7\u00e3o fora disso gera confus\u00e3o e inseguran\u00e7a, o que deixa claro que ningu\u00e9m \u00e9 ensinado a ter liberdade. No entanto, durante a constru\u00e7\u00e3o cotidiana de eventos, as pessoas se reintegram ao curso natural das coisas, ao agir com as\/os outras\/os, ao conversar e atuar de uma forma n\u00e3o de ruptura, mas de encontro e reencontro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em tempos de pandemia, a teoriza\u00e7\u00e3o sobre organiza\u00e7\u00e3o, tomando as lutas e os movimentos sociais como objeto de estudo, abre caminho para a chegada de novos tempos. A cr\u00edtica da vida cotidiana revela sua mis\u00e9ria e sua riqueza, mas descrev\u00ea-la n\u00e3o \u00e9 o bastante, \u00e9 preciso transform\u00e1-la.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"681\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-1024x681.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31495\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988-695x462.jpg 695w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7988.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"681\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-1024x681.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31496\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995-695x462.jpg 695w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/04\/Flavio-Dutra-7995.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><figcaption>Durante a pandemia, o mercado de trabalho informal aumentou muito seu alcance. Dados do IBGE e do DIEESE apontam \u00edndices que v\u00eam crescendo velozmente desde a reforma trabalhista (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/buscatextual.cnpq.br\/buscatextual\/visualizacv.do?id=K8555010T6&amp;tokenCaptchar=03AGdBq25Ul3MJ_cx1TU5ubTmcGlRY3dB7kJhNyy8Y3I_22jAlL7ZlQwJIxsrYouE8I68_sJbUOKGI-_F8u4WkxlPWfjs9pjcIhNMDlS_uf9K2ZB0qRtT7KAk945_4YuQbTeZdJMId6KE07eE5YBvGe7Gvcv_2Uy7XEMHgxQdvZImmS24uz4W-fxOSR7xCJonolmQbr62H7etNdhZhxPvHVwXxn5piABCj6BKcvDZhEAROoHN0nz8UjpEwTPl0_diR85A6QerYByxpYiqGFI5NKYJi-4Zp5OESQJ3wdm7grcGasZRFVm2UEzFwJlmoK4zyg5ZgvPKEwu5E2XefxNVY3YLXkoj-q0RVyr-2spPj3l4-9pNii5ldDqnq7ryQ2_3Ijxhd9W9B2c9I-9r_tlmvfyzQoIwG3XIvCe72AYaFA5TgbdpSyOAIGzCFdV8nUyW9rTKWCRKfISVnZg1GO5htVmnSXllAlmjXHA\">Andr\u00e9 Dias Mortari<\/a> \u00e9 t\u00e9cnico administrativo em Educa\u00e7\u00e3o no PPGCOM e doutorando em Administra\u00e7\u00e3o.<br><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/4878254490867433\">Tayse Palitot<\/a> \u00e9 docente do curso de Direito da Universidade Federal do Oeste da Bahia (UFOB).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Confrontando diferentes formas de se pensar sobre a realidade de trabalhadores, Andr\u00e9 Dias Mortari, t\u00e9cnico administrativo da UFRGS, e Tayse Palitot, docente da UFOB, analisam o cen\u00e1rio contempor\u00e2neo *Por: Andr\u00e9 Dias Mortari e Tayse Palitot*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 28 mar. 2020 Segundo dados do IBGE e<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/neoliberalismo-trabalho-e-o-tempo-que-nao-da-tempo\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":31497,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[2084,2083,2080,2079,2082,2077,2081,707,784,2078],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","post-30478","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-alienacao","tag-estudo-remoto-emergencial","tag-henry-lefebvre","tag-lutas-sociais","tag-movimentos-sociais","tag-neoliberalismo","tag-organizacao","tag-pandemia","tag-trabalho-remoto","tag-vida-cotidiana"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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