{"id":31664,"date":"2021-05-06T09:15:14","date_gmt":"2021-05-06T12:15:14","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=31664"},"modified":"2021-06-01T12:38:20","modified_gmt":"2021-06-01T15:38:20","slug":"modos-de-assistencia-ao-nascimento-explicitam-os-diferentes-aspectos-que-compoem-a-humanizacao-do-parto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/modos-de-assistencia-ao-nascimento-explicitam-os-diferentes-aspectos-que-compoem-a-humanizacao-do-parto\/","title":{"rendered":"Modos de assist\u00eancia ao nascimento explicitam os diferentes aspectos que comp\u00f5em a humaniza\u00e7\u00e3o do parto"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Maternidade | A autonomia e o protagonismo das mulheres d\u00e1 espa\u00e7o para gestantes encararem ang\u00fastias e prazeres que precisam enfrentar<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Ilustra\u00e7\u00e3o de capa: Ancestral (Milena Castro<\/em>)<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O nascimento \u00e9 um instante radical de transforma\u00e7\u00f5es. D\u00e1 origem a muitas coisas \u2014 nasce uma pessoa, uma m\u00e3e, uma fam\u00edlia. O modo como se nasce evidencia aspectos sociais, culturais e pol\u00edticos referentes \u00e0 sociedade da qual aquele ser passa a fazer parte.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No momento do nascer se encontram fatores que influenciar\u00e3o a vida de um novo ser humano sem que ele tenha sequer a chance de escolher, uma vez que ali convergem muitas inst\u00e2ncias, esferas e hist\u00f3rias. Entre elas, a hist\u00f3ria de sua fam\u00edlia, o ambiente em que ele ser\u00e1 acolhido, a forma\u00e7\u00e3o dos profissionais ali presentes. Cada nascimento \u00e9 \u00fanico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Existem dois modos principais de nascer: um natural, o parto, e um cir\u00fargico, a ces\u00e1rea. Em 2020, nasceram 2.687.651 pessoas no Brasil. Destas, 57,26% vieram ao mundo por meio de cesariana, alternativa empregada com o objetivo de diminuir o \u00edndice de mortalidade materna e neonatal. A Organiza\u00e7\u00e3o Mundial da Sa\u00fade indica que a demanda das popula\u00e7\u00f5es seria de em torno de 15% de cesarianas. Mas como esse quadro se inverteu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na d\u00e9cada de 1980, come\u00e7ou a se desenhar no pa\u00eds o que hoje se conhece como &#8220;epidemia das cesarianas&#8221;, como mostra a <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/nascernobrasil.ensp.fiocruz.br\/?us_portfolio=nascer-no-brasil\" target=\"_blank\">Pesquisa Nascer no Brasil (2014)<\/a> realizada pela Escola Nacional de Sa\u00fade P\u00fablica Sergio Arouca (ENSP-Fiocruz). No setor de financiamento p\u00fablico, entre 42% e 46% dos nascimentos aconteciam por via cir\u00fargica, taxa que, no setor privado e de conv\u00eanios, tinha uma m\u00e9dia de 82%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Antes do desenvolvimento da medicina moderna, o \u00edndice de mortalidade materna durante os partos era alto (em torno de 5%). Muitos rec\u00e9m-nascidos tamb\u00e9m n\u00e3o sobreviviam. Durante o s\u00e9culo XX, consolidou-se o mito de que o nascimento por ces\u00e1rea \u00e9 mais seguro para a m\u00e3e e para o beb\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Martha Goldani, ginecologista e m\u00e9dica obstetra, mostra que as coisas n\u00e3o s\u00e3o bem assim. \u201cA ces\u00e1rea, por ser uma cirurgia, tem muito mais chance de complica\u00e7\u00f5es tanto para a m\u00e3e quanto para o rec\u00e9m-nascido.\u201d Entre os riscos, ela cita: maior chance de infec\u00e7\u00e3o, hemorragia, trombose, sequelas e maior risco em uma gesta\u00e7\u00e3o futura, se a parturiente quiser ter outros filhos. \u201cSempre que a estamos falando da m\u00e3e, \u00e9 muito melhor o parto normal\u201d, afirma Martha.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cNos estudos mais recentes, vimos tamb\u00e9m que para o rec\u00e9m-nascido faz muita diferen\u00e7a ter nascido de parto ou ter nascido de ces\u00e1rea, especialmente quando se fala em um contexto de ces\u00e1rea agendada ou ces\u00e1rea eletiva\u201d<\/em><\/p><cite><em>Martha Goldani<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O contexto social e o imagin\u00e1rio pessoal e coletivo interferem na constru\u00e7\u00e3o das diferen\u00e7as entre os modos de nascer. Sondre Schneck, professor da <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/eenf\/\" target=\"_blank\">Escola de Enfermagem da UFRG<\/a><a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/eenf\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">S<\/a>, exp\u00f5e que a preval\u00eancia da ces\u00e1rea enquanto via de nascimento consolidou a ideia de que caso houvesse alguma intercorr\u00eancia no parto vaginal com o beb\u00ea ou com a m\u00e3e, a mulher seria a respons\u00e1vel por sua escolha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sondre descreve o modelo de nascimento predominante no Brasil assim: \u201cUm sistema muito produtor de cesarianas, pouco produtor de parto vaginal, e produtor de um parto vaginal com muitas viola\u00e7\u00f5es e maus-tratos nas mulheres, determinado por renda, classe, escolaridade, cor; as mulheres acessam a cesariana como uma contraprodu\u00e7\u00e3o a essa viol\u00eancia\u201d. O resultado desse modelo \u00e9 um cen\u00e1rio desanimador da experi\u00eancia do parto e a culpabiliza\u00e7\u00e3o das mulheres.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00fania Laia da Mata, tamb\u00e9m professora da Escola de Enfermagem da UFRGS, explica que o modelo brasileiro \u00e9, tamb\u00e9m, tecnocr\u00e1tico. A valoriza\u00e7\u00e3o do uso da alta tecnologia faz com que o nascimento seja um processo centrado no servi\u00e7o hospitalar e na atua\u00e7\u00e3o m\u00e9dica, em lugar  de priorizar o corpo e a subjetividade da gestante, sua fisiologia e suas decis\u00f5es. \u201cIsso inclui as mais diferentes interven\u00e7\u00f5es no parto e no nascimento, e isso inclui a cesariana\u201d, diz J\u00fania.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mariana Schubert, que tem um filho de seis anos, sentiu na pele \u2014 e no \u00fatero \u2014 a press\u00e3o desse sistema. \u201cA gente tem muito pouco conhecimento. Quando eu comecei a fazer o acompanhamento do pr\u00e9-natal, eu falei para o m\u00e9dico que queria ter parto normal, mas que n\u00e3o sabia se ia conseguir porque a minha m\u00e3e n\u00e3o teve parto normal\u201d, confidencia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E n\u00e3o teve. Seu primeiro filho nasceu de cirurgia. Depois da primeira gravidez, ela sentiu que precisava redescobrir quem era. Durante a pandemia, em meio ao seu processo de autoconhecimento, Mariana descobriu que estava gr\u00e1vida e decidiu que essa gesta\u00e7\u00e3o seria diferente. \u201cEu quero que essa menina seja criada de uma forma diferente da que eu fui\u201d, afirma. Para ela, esse processo come\u00e7aria pelo modo de nascer.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos fatores que motiva as mulheres a escolherem a ces\u00e1rea \u00e9 o medo da dor. \u00c9 o que acredita J\u00fania: \u201c\u00c9 muito comum a gente ouvir na sociedade ocidental que as mulheres n\u00e3o querem sofrer, parir com dor. Porque, dentro desse modelo obst\u00e9trico, essas mulheres s\u00e3o muitas vezes internadas precocemente, ficam sozinhas em algumas institui\u00e7\u00f5es, ouvem as frases mais agressivas, sofrem toques por mais de um profissional.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&#8220;N\u00f3s aprendemos a ter medo do parto e do nascimento na nossa sociedade ocidental, diante do modelo que n\u00f3s temos e diante do que a m\u00eddia tamb\u00e9m coloca quando assistimos a um trabalho de parto na TV<\/em>&#8220;<\/p><cite><em>J\u00fania Laia da Mata<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sofrer interven\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias, embora comuns no atendimento obst\u00e9trico, tamb\u00e9m gera sofrimento e dor. Essa dor, que muitas vezes se situa no \u00e2mbito emocional, mais do que no f\u00edsico, \u00e9 resultado de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/relatos-de-atendimento-hostil\/\" target=\"_blank\">viol\u00eancia obst\u00e9trica<\/a>, e \u00e9 importante que a mulher e quem estiver acompanhando o parto <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jordi\/172-violenciaobstetrica\/violencia-obstetrica\/\" target=\"_blank\">saiba identificar quais s\u00e3o os casos de viol\u00eancia<\/a>. Inclusive, a presen\u00e7a de um acompanhante, escolhido pela gestante, antes, durante e depois do trabalho de parto, \u00e9 um direito garantido pela <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2004-2006\/2005\/lei\/l11108.htm\" target=\"_blank\">Lei n.\u00b0 11.108\/2005<\/a>.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A doula Margela Krumennauer acredita na necessidade de mudar o modelo \u2014 que, al\u00e9m de prejudicial \u00e0s mulheres e aos rec\u00e9m-nascidos, sobrecarrega os profissionais da sa\u00fade. \u201cEles est\u00e3o exaustos. Muitas vezes eles n\u00e3o t\u00eam muito tempo. Eu entendo que na maioria das vezes n\u00e3o \u00e9 feito propositalmente, no sentido de querer violentar aquela mulher\u201d, assevera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mudar o modelo de assist\u00eancia ao nascimento, entretanto, n\u00e3o cabe apenas \u00e0s mulheres, \u00e0s gestantes e \u00e0s m\u00e3es. Nem mesmo aos profissionais da sa\u00fade. \u00c9 uma luta de responsabilidade (e em benef\u00edcio) de toda a sociedade. \u201cEst\u00e1 errado o modelo, est\u00e1 errada a sobrecarga desses profissionais. N\u00e3o existe um \u2018vil\u00e3o\u2019 nessa hist\u00f3ria\u201d, diz Margela.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Margela se define como questionadora e buscadora. Ela, assim como outras doulas, parteiras, enfermeiras e enfermeiros obst\u00e9tricos, m\u00e9dicas e m\u00e9dicos, questionou, buscou e encontrou caminhos para um nascer mais humano.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Por um nascer humano<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu sou formada enfermeira obst\u00e9trica desde 2004, mas tamb\u00e9m sou formada naquele modelo intervencionista, com ocitocina, com episiotomia. Depois, aquilo foi me incomodando e eu fui tentando mudar\u201d, relata Claudiana Querino Preve, que trabalha no Hospital Concei\u00e7\u00e3o, em Porto Alegre. Seu despertar para um modelo humanizado de aten\u00e7\u00e3o ao nascimento come\u00e7ou dentro da institui\u00e7\u00e3o, a partir do questionamento das pr\u00e1ticas que observava e praticava. \u201cPara qu\u00ea abrir uma <em>episio <\/em>que tu corta sete m\u00fasculos do per\u00edneo da mulher se tu n\u00e3o precisa fazer isso, se muitas vezes mal lacera a pele no parto? Hoje em dia, <em>episio<\/em> \u00e9 uma das interven\u00e7\u00f5es de \u00faltima escolha\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claudiana conta que, no Hospital Concei\u00e7\u00e3o, a humaniza\u00e7\u00e3o do nascimento come\u00e7a desde a chegada da gestante. Desde o in\u00edcio, durante o trabalho de parto, tudo \u00e9 explicado, inclusive durante o expulsivo (fase em que a m\u00e3e faz for\u00e7a para o beb\u00ea nascer), ou no caso de uma cesariana ser indicada. \u201cEla vai se sentindo mais segura porque tem um profissional do lado, explicando tudo pelo que ela est\u00e1 passando e vai passar\u201d, diz a enfermeira obst\u00e9trica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A rela\u00e7\u00e3o constru\u00edda com as gr\u00e1vidas \u00e9 de confian\u00e7a e de cuidado. O tempo todo, elas s\u00e3o incentivadas e apoiadas em suas decis\u00f5es, tudo isso a fim de garantir que a mulher tenha o processo mais fisiol\u00f3gico poss\u00edvel, dentro do que ela desejar.&nbsp; \u201c\u00c9 centrado nos desejos dela, no conforto da paciente\u201d, reitera Claudiana. O acompanhante est\u00e1 presente em todo o processo e impera o respeito ao plano de parto \u2014 documento no qual a gestante expressa suas vontades com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s etapas do pr\u00e9-parto, parto e p\u00f3s-parto, a fim de comunicar suas prefer\u00eancias \u00e0 equipe que a acompanhar\u00e1. Ele deve ser feito pela gestante em conjunto com os pr\u00e9-natalistas das Unidades de Sa\u00fade ou pelo profissional obstetra que realiza seu atendimento.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Martha Goldani informa que os pilares da humaniza\u00e7\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas: a medicina baseada em evid\u00eancias, a transdisciplinaridade \u2014 atua\u00e7\u00e3o conjunta de enfermeiras, doulas, m\u00e9dicas e fisioterapeutas \u2014 e a autonomia da mulher. Mas essa experi\u00eancia n\u00e3o se resume ao parto em si. A humaniza\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o ao nascimento se d\u00e1 desde a pr\u00e9-concep\u00e7\u00e3o e se estende at\u00e9 ao p\u00f3s-parto. Al\u00e9m disso, n\u00e3o se resume a uma quest\u00e3o fisiol\u00f3gica, como atenta o enfermeiro Sondre.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cExiste uma categoria de aspectos fisiol\u00f3gicos que valoriza as express\u00f5es do corpo, dos horm\u00f4nios da mulher, mas tamb\u00e9m h\u00e1 outras categorias \u2014 como a mulher poder fazer escolhas, autonomia, protagonismo \u2014 que s\u00e3o diferentes de o corpo estar funcionando.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Sondre Schneck<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Goldani chama a aten\u00e7\u00e3o para um <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.unasus.gov.br\/noticia\/voce-conhece-recomendacoes-da-oms-para-o-parto-normal\" target=\"_blank\">conjunto de interven\u00e7\u00f5es<\/a> ineficazes ou at\u00e9 mesmo prejudiciais \u00e0 mulher em trabalho de parto, como \u00e9 o caso do uso rotineiro do enema (lavagem intestinal), da tricotomia (raspagem de pelos pubianos) e da episiotomia, por exemplo. No Hospital Concei\u00e7\u00e3o, entre 7 e 8% dos partos t\u00eam episiotomia \u2014 n\u00famero que j\u00e1 esteve perto de 100%.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A humaniza\u00e7\u00e3o n\u00e3o implica que a mulher n\u00e3o possa usar esses m\u00e9todos, nem que tenha que passar por sofrimento f\u00edsico. \u201cPara o parto ser humanizado n\u00e3o significa que a mulher tenha que ter uma dor intensa, chegar ao seu limiar de dor e ainda n\u00e3o serem oferecidos os m\u00e9todos dispon\u00edveis. N\u00e3o. A equipe toda entende que os m\u00e9todos est\u00e3o ali, eles podem ser utilizados, mas no momento certo\u201d, informa Tais Silva, doula no Hospital Concei\u00e7\u00e3o. Em um parto humanizado, os profissionais est\u00e3o a servi\u00e7o do protagonismo da mulher e do tempo do beb\u00ea.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery aligncenter columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1.jpg\" alt=\"\" data-id=\"31932\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?attachment_id=31932\" class=\"wp-image-31932\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1.jpg 450w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1-88x117.jpg 88w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1-413x550.jpg 413w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia2_ArquivoPessoal_BX-1-375x500.jpg 375w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"600\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1.jpg\" alt=\"\" data-id=\"31933\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?attachment_id=31933\" class=\"wp-image-31933\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1.jpg 450w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1-225x300.jpg 225w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1-88x117.jpg 88w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1-413x550.jpg 413w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Taispandemia3_Arquivopessoal_BX-1-375x500.jpg 375w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">A doula e t\u00e9cnica em enfermagem Tais Silva prestando assist\u00eancia ao parto e nascimento no Hospital Concei\u00e7\u00e3o em Porto Alegre (Foto: Tais Silva\/Arquivo Pessoal)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A humaniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m tem a ver com respeito ao tempo do nascer. Implica em se desapegar de interven\u00e7\u00f5es aplicadas para acelerar o trabalho de parto. Significa desconstruir o \u201cmito da efici\u00eancia\u201d, a ideia de que quanto mais acelerado o trabalho de parto, melhor \u2014 para o hospital (que tem rotatividade de leitos), para o m\u00e9dico (que tem uma agenda profissional e pessoal) e para a paciente (que tem pressa em conhecer o beb\u00ea).&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Foi isso que Mariana sentiu em sua primeira gesta\u00e7\u00e3o. Na quadrag\u00e9sima semana, seu filho ainda n\u00e3o tinha nascido, n\u00e3o era tempo dele. Ent\u00e3o, em uma sexta \u00e0 noite, quando sabia que seu m\u00e9dico estaria de plant\u00e3o, ela foi ao posto de sa\u00fade e marcou a ces\u00e1rea para domingo de manh\u00e3. \u201cA gente acha que \u00e9 tudo no nosso tempo, sempre\u201d, relata, em uma frase que \u00e9 um desabafo e um ensinamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na segunda gravidez, decidiu que tentaria ter um parto normal de qualquer forma. \u201cO meu corpo foi preparado para ter esse parto\u201d, afirma Mariana. O caso dela \u00e9 uma VBAC (Vaginal Birth After Cesarean ou parto vaginal ap\u00f3s ces\u00e1rea). Apesar de ser um <a href=\"https:\/\/www.bbc.com\/portuguese\/noticias\/2015\/01\/150119_cesarea_epidemia_mdb_lk\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">mito<\/a>, muitos acreditam que, para quem teve uma ces\u00e1rea, o pr\u00f3ximo parto deve ser uma ces\u00e1rea.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mariana, que no in\u00edcio da gesta\u00e7\u00e3o n\u00e3o tinha plano de sa\u00fade pela empresa em que trabalha, fez o acompanhamento pr\u00e9-natal no posto de sa\u00fade de sua cidade. Depois, quando a empresa alterou os crit\u00e9rios do conv\u00eanio e Mariana foi inclu\u00edda, ela buscou atendimento privado especializado em partos humanizados. \u201cTu fica com medo de cair em um hospital, pelo SUS, e pegar uma equipe que n\u00e3o acha que aquilo \u00e9 o melhor\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img decoding=\"async\" width=\"450\" height=\"606\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/MarianaGeestando_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31918\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/MarianaGeestando_BX.jpg 450w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/MarianaGeestando_BX-223x300.jpg 223w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/MarianaGeestando_BX-87x117.jpg 87w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/MarianaGeestando_BX-408x550.jpg 408w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/MarianaGeestando_BX-371x500.jpg 371w\" sizes=\"(max-width: 450px) 100vw, 450px\" \/><figcaption>Mariana vivendo a segunda gesta\u00e7\u00e3o (Foto: Mariana <em>Schubert<\/em>\/Arquivo pessoal)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Clarissa de Baumont teve um parto humanizado, no Hospital M\u00e3e de Deus, em janeiro deste ano. Antes de engravidar, ela sequer sabia o que era a humaniza\u00e7\u00e3o. Depois, quando come\u00e7ou a pesquisar sobre a realidade dos nascimentos no Brasil, encontrou um cen\u00e1rio desanimador. \u201cFiquei muito preocupada em passar por viol\u00eancia obst\u00e9trica e interven\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias\u201d, confessa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Garantir que seu parto fosse como ela queria foi mais dif\u00edcil do que ela imaginava. \u201cEu achava que bastava querer ter um parto normal\u201d, declara. Ent\u00e3o, foi em busca de uma m\u00e9dica e de uma equipe que pudessem atend\u00ea-la da forma como desejava durante o parto, e que, antes disso, lhe dessem acolhimento \u2014 algo que ela encontrou na terceira m\u00e9dica. \u201cEssa escolha do m\u00e9dico era para mim t\u00e3o importante quanto ter conhecimento das coisas, porque eu sabia que teria dificuldade de dizer que sabia mais que o m\u00e9dico, se ele quisesse for\u00e7ar uma ces\u00e1rea\u201d. Ela tamb\u00e9m contratou uma equipe de parto multidisciplinar, algo que o plano de sa\u00fade n\u00e3o cobre.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&nbsp;\u201cO nascimento \u00e9 um choque, \u00e9 um trauma. E que esse trauma possa ser o melhor poss\u00edvel para o beb\u00ea tamb\u00e9m. Porque ele faz o seu trabalho no trabalho de parto. Ele tem que achar o seu caminho.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Clarissa de Baumont<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E, assim que o beb\u00ea encontra esse caminho, chega a um ambiente muito diferente daquele com o qual estava acostumado. Tais informa que os beb\u00eas que n\u00e3o podem ficar direto com as m\u00e3es demoram mais tempo para se organizar do que os que nascem e j\u00e1 t\u00eam o contato pele a pele. A respira\u00e7\u00e3o se normaliza mais rapidamente, por exemplo.&nbsp;Em seus atendimentos, Tais oferece ao acompanhante que corte o cord\u00e3o umbilical do beb\u00ea, e ela sente que ali se forma um la\u00e7o. No Hospital Concei\u00e7\u00e3o, as medidas e o peso dos rec\u00e9m-nascidos s\u00e3o tiradas na presen\u00e7a da m\u00e3e e de seu acompanhante. <\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Uma refer\u00eancia para a mudan\u00e7a<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2011, um movimento iniciado por enfermeiras obst\u00e9tricas dentro do Hospital Concei\u00e7\u00e3o em Porto Alegre come\u00e7ou a mudar o modelo de assist\u00eancia ao parto em busca da humaniza\u00e7\u00e3o do nascimento. As profissionais lutavam por uma maior participa\u00e7\u00e3o no atendimento aos partos e reivindicavam uma s\u00e9rie de mudan\u00e7as, desde recursos e infraestrutura (como bolas de pilates e utiliza\u00e7\u00e3o de banquetas) at\u00e9 as pr\u00e1ticas como um todo.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A partir do Projeto<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/aps.saude.gov.br\/ape\/cegonha\" target=\"_blank\"> Rede Cegonha<\/a>, o Hospital passou, progressivamente, a fazer adequa\u00e7\u00f5es e promover a mudan\u00e7a de modelo \u2014 focada na assist\u00eancia humanizada, no protagonismo da mulher, na garantia de sua autonomia e na defesa de m\u00e9todos n\u00e3o invasivos. A reivindica\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o maior dos enfermeiros obst\u00e9tricos foi atendida. De 5% na \u00e9poca, a taxa de participa\u00e7\u00e3o desses profissionais nos nascimentos passou a 35%. Seu desejo era, desde o in\u00edcio, que pudessem assistir ao parto n\u00e3o s\u00f3 quando o m\u00e9dico n\u00e3o podia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O resultado das mudan\u00e7as apareceu, ao longo do tempo, na diminui\u00e7\u00e3o das taxas de ces\u00e1rea, de episiotomia, de analgesia do parto e outras interven\u00e7\u00f5es, tornando o Hospital Concei\u00e7\u00e3o uma refer\u00eancia para o estado no atendimento humanizado. Isso se deve, de modo significativo, \u00e0 pr\u00f3pria forma\u00e7\u00e3o dos enfermeiros obst\u00e9tricos que, diferente dos m\u00e9dicos, tem um olhar menos intervencionista.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a OMS, o enfermeiro \u00e9 o profissional mais habilitado a atender o parto de risco habitual (baixo risco), porque ele interv\u00e9m menos nesse processo fisiol\u00f3gico. \u201cSe a mulher est\u00e1 com dor, primeiro a gente vai oferecer uma massagem, um banho de aspers\u00e3o, a gente vai conversar, vai explicar o que est\u00e1 se passando\u201d, informa Claudiana. Ela foi uma das protagonistas da luta iniciada h\u00e1 10 anos no hospital.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As mudan\u00e7as foram tamb\u00e9m na estrutura f\u00edsica do hospital: salas de PPP (pr\u00e9-parto, parto e p\u00f3s-parto) foram constru\u00eddas e inauguradas em 2017. A paciente fica na sala desde o in\u00edcio at\u00e9 o fim do parto, experienciando mais privacidade, um ambiente mais acolhedor e tendo espa\u00e7o para acompanhante. O acolhimento j\u00e1 come\u00e7a no nome da sala. Escolhidos pelos funcion\u00e1rios, as salas de PPP receberam nomes como Dandara, Maria e Iracema, refor\u00e7ando que todas as mulheres s\u00e3o bem-vindas naquele espa\u00e7o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Martha Goldani, o movimento que aconteceu no Concei\u00e7\u00e3o \u00e9 um importante indicador de que a presen\u00e7a dos enfermeiros melhora a experi\u00eancia da mulher. O enfermeiro tem a possibilidade de estar mais pr\u00f3ximo \u00e0 parturiente durante o processo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cN\u00f3s, m\u00e9dicos obstetras, temos que parar de olhar para as enfermeiras com a ressalva de perder mercado para elas. N\u00e3o \u00e9 um conflito de quem \u00e9 melhor, a gente tem que se associar e trabalhar em conjunto porque essa \u00e9 a melhor assist\u00eancia prestada \u00e0 paciente.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Martha Goldani<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Claudiana conta o exemplo de uma paciente com v\u00e1rias placas na coluna, que se precisasse de anestesia teria de ser geral. Ela estava bastante nervosa,&nbsp; com uma contra\u00e7\u00e3o em cima da outra, com medo de precisar passar pela anestesia.&nbsp; Claudiana optou por fazer compressas no quadril e em menos de uma hora nasceu o beb\u00ea de parto natural.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando mudou o modelo de refer\u00eancia de atendimento ao parto no Concei\u00e7\u00e3o, toda a equipe recebeu treinamento. As t\u00e9cnicas de enfermagem foram treinadas para usos de t\u00e9cnicas n\u00e3o farmacol\u00f3gicas para a dor. Uma das forma\u00e7\u00f5es ofertadas foi o curso de Doulas do SUS, do qual Tais Silva participou da primeira edi\u00e7\u00e3o. Ser doula, segundo ela, \u00e9 trabalhar para a m\u00e3e.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&nbsp;\u201cEu t\u00f4 ali para refor\u00e7ar a identidade dela e dizer que ela pode ter aquele momento da melhor forma poss\u00edvel.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Tais Silva<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando chega uma m\u00e3e no Concei\u00e7\u00e3o, ela \u00e9 recepcionada pelas t\u00e9cnicas de enfermagem e enfermeiras. Passa pelo primeiro contato com o m\u00e9dico e depois com a doula. Ent\u00e3o, \u00e9 explicado o modelo de atendimento. Cada mulher tem seu espa\u00e7o. L\u00e1, a gestante explica o que ela quer e o que ela n\u00e3o quer, respeitando seu plano de parto \u2014 caso exista. \u201cO que tu gostaria de fazer agora?\u201d \u00e9, segundo Tais, a pergunta-guia para seu trabalho no hospital.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Parto domiciliar planejado<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A humaniza\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m acontece fora dos hospitais. \u00c9 poss\u00edvel ter um parto domiciliar, planejado, com acompanhamento das equipes de sa\u00fade e sem interven\u00e7\u00f5es m\u00e9dicas a menos que sejam necess\u00e1rias. Entretanto, essa op\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda menos acess\u00edvel do que o parto hospitalar. Renata Conversani, que teve dois partos em casa, sabe bem disso. \u201cVi que realmente para ter um parto normal \u00e9 uma dificuldade. Se eu quisesse s\u00f3 isso j\u00e1 ia ser dif\u00edcil, porque os m\u00e9dicos j\u00e1 marcam a ces\u00e1rea antes, j\u00e1 assustam as gestantes\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um exemplo cl\u00e1ssico do agendamento de ces\u00e1reas \u00e9 com rela\u00e7\u00e3o \u00e0s datas comemorativas. As duas filhas de Renata nasceram durante feriados: Beatriz, no carnaval, e Helena, no dia 20 de setembro. S\u00e3o datas emblem\u00e1ticas, pois dificilmente as ces\u00e1reas s\u00e3o marcadas em feriados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Beatriz nasceu dois dias depois do in\u00edcio das contra\u00e7\u00f5es. O primeiro parto foi demorado e cansativo, e Renata tem poucas lembran\u00e7as dele. As enfermeiras estiveram presentes durante todo o tempo. Quando viram que demoraria, perguntaram se Renata n\u00e3o queria ir ao hospital, mas ela recusou.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cEu estava certa de que enquanto n\u00e3o houvesse nenhum perigo para a crian\u00e7a ou para mim eu ia manter a posi\u00e7\u00e3o de parto normal, e mantive. A dor n\u00e3o me abalou.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Renata Conversani<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entre as vantagens do parto domiciliar, Renata cita o conforto e a intimidade. \u201cNada melhor que, depois que nasceu a crian\u00e7a, tu estar na tua casa, estar no teu espa\u00e7o, n\u00e3o ter ningu\u00e9m estranho ali entrando, te incomodando. Tu est\u00e1 com a crian\u00e7a, s\u00f3 a fam\u00edlia, e \u00e9 bem menos perigoso, eu penso.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O pensamento de Renata encontra respaldo cient\u00edfico. A professora da Escola de Enfermagem da UFRGS, J\u00fania Laia da Mata, afirma que os riscos de se ter um parto domiciliar planejado s\u00e3o semelhantes ao de parir em um hospital, al\u00e9m de ser mais barato para o sistema de sa\u00fade, j\u00e1 que n\u00e3o envolve a interna\u00e7\u00e3o da gestante. J\u00fania \u00e9 uma das fundadoras do <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/giepdp\/\" target=\"_blank\">Grupo Interdisciplinar de Estudos e Pesquisas sobre Parto Domiciliar Planejado (GIEPDP)<\/a>, que tem o prop\u00f3sito de criar ci\u00eancia e visibilizar essa modalidade de nascimento, n\u00e3o apenas para a comunidade acad\u00eamica, mas para a sociedade. Para ir al\u00e9m da Universidade, o grupo promove reuni\u00f5es mensais abertas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O parto domiciliar planejado (ou PDP) n\u00e3o \u00e9 um parto desassistido \u2014 sendo esse um dos principais mitos em torno desse modo de nascer. Ele tem o envolvimento de profissionais de sa\u00fade interdisciplinares, dos campos da enfermagem, medicina, doulagem e fisioterapia. Al\u00e9m disso, existem crit\u00e9rios para que uma gesta\u00e7\u00e3o possa terminar em um PDP. Alguns deles s\u00e3o que a resid\u00eancia em que ele ocorre n\u00e3o pode estar a mais de trinta minutos de um hospital, caso aconte\u00e7a alguma intercorr\u00eancia, e que a gesta\u00e7\u00e3o seja de risco habitual. Para saber se o parto domiciliar \u00e9 poss\u00edvel, a gestante deve conversar com os profissionais que realizam seu pr\u00e9-natal.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, n\u00e3o h\u00e1 uma regulamenta\u00e7\u00e3o que norteie os profissionais que atendem ao parto domiciliar planejado. O PDP tamb\u00e9m n\u00e3o integra o rol de procedimentos do SUS e das operadoras de sa\u00fade. Por isso, uma das frentes do GIEPDP \u00e9 o ativismo a fim de promover pol\u00edticas p\u00fablicas. Para J\u00fania, a sociedade s\u00f3 tem a ganhar com isso. &#8220;A aten\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 mais particularizada, as interven\u00e7\u00f5es s\u00e3o menores, o n\u00edvel de satisfa\u00e7\u00e3o materno e familiar tamb\u00e9m \u00e9 maior. Ent\u00e3o por que n\u00e3o inserir esse modelo no nosso Sistema \u00danico de Sa\u00fade?&#8221;, questiona a cientista.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cO nosso sonho \u00e9 promover pesquisas que, quem sabe no futuro, possam sustentar diretrizes que possibilitem inserir essa mobilidade de nascimentos dentro do rol de procedimentos do SUS.\u201d&nbsp;<\/em><\/p><cite><em>J\u00fania Laia da Mata<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Pr\u00e1ticas ancestrais do nascer<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Iracema Nascimento, parteira e l\u00edder Kaingang, pede licen\u00e7a aos Encantados antes de falar sobre a natureza. Ent\u00e3o, ela explica que, durante o trabalho de parto, as pr\u00e1ticas usadas pela parteira s\u00e3o os ensinamentos que vieram de seus av\u00f3s, e que a l\u00edder espiritual repassa a seus filhos e netos. Entre eles, a import\u00e2ncia da movimenta\u00e7\u00e3o da gestante.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando Iracema estava gr\u00e1vida do primeiro filho, por exemplo, sua sogra encheu um cesto com milho catete, que Iracema socava para fazer canjica. O movimento do quadril, dos bra\u00e7os, das costas e das pernas, necess\u00e1rio para movimentar o pil\u00e3o, tamb\u00e9m alivia as sensa\u00e7\u00f5es da gestante. Outro ensinamento ancestral \u00e9 a import\u00e2ncia e presen\u00e7a do acompanhante. \u201cA m\u00e3e que vai ganhar o beb\u00ea j\u00e1 se sente segura porque ela sabe que tem algu\u00e9m do lado dela\u201d, diz.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Iracema aprendeu com sua av\u00f3 que a mulher deve parir de c\u00f3coras. O acompanhante fica atr\u00e1s para ajudar a segurar a m\u00e3e, para o beb\u00ea nascer tranquilo. A parteira que vai receber o beb\u00ea fica em frente \u00e0 barriga com um vestido longo. O beb\u00ea, ent\u00e3o, cai em cima do vestido longo da parteira. E Iracema, que carrega a miss\u00e3o do nascimento em seu pr\u00f3prio nome, agradece: \u201cA M\u00e3e Terra me aben\u00e7oou nisso\u201d.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&nbsp;\u201cQuando o beb\u00ea cai no meu colo, menina!, eu agrade\u00e7o o mundo para vir essa vida. Parece que eu renovo com esse beb\u00ea quando vem no meu colo. \u00c9 muito, muito lindo\u201d<\/em><\/p><cite><em>Iracema Nascimento<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para os kaingang, \u00e9 importante que o local do parto seja silencioso. \u201cQuando tu est\u00e1 em um lugar em sil\u00eancio, e todos os Encantado est\u00e3o em ti. As Encantadas te acompanham. E onde tem barulho tu n\u00e3o vai sentir que tem algu\u00e9m, porque o barulho, para a gente, interv\u00e9m muito\u201d, conta.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"647\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31900\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX-300x211.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX-166x117.jpg 166w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX-768x540.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX-465x327.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/amamentando_MilenaCastro_BX-695x489.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Amamentando (Ilustra\u00e7\u00e3o: Milena Castro)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da parteira, outra figura que presta assist\u00eancia \u00e0 mulher \u00e9 a doula. Centrada na rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e, em um v\u00ednculo que \u00e9 fortalecido ao longo da gesta\u00e7\u00e3o, a doula tem o papel de oferecer assist\u00eancia com m\u00e9todos n\u00e3o farmacol\u00f3gicos na hora do parto, mas tamb\u00e9m amparo emocional e espiritual. Algumas institui\u00e7\u00f5es hospitalares permitem que a doula tamb\u00e9m esteja presente no trabalho de parto. \u00c9 importante verificar as diretrizes vigentes em cada hospital.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Yasmine Lopes \u00e9 formada na parteria tradicional. Ela oferece ervas, fitoterapia, massagens e benzeduras. Em seu papel de doula, Yasmine tamb\u00e9m oferece escuta e palavras de for\u00e7a.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cAs parteiras s\u00e3o essas mulheres que v\u00eam antes de toda institui\u00e7\u00e3o. A profiss\u00e3o de parteira foi a primeira profiss\u00e3o, qui\u00e7\u00e1, da Terra. Porque uma das demandas principais do ser humano \u00e9 nascer.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Yasmine Lopes<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A doula Margela Krummenauer explica que o curso de doula \u00e9 na verdade uma sensibiliza\u00e7\u00e3o ao nascimento, um processo complexo que transcende a esfera corp\u00f3rea. \u201cEle \u00e9 fisiol\u00f3gico, sim, porque somos mam\u00edferas, todos os mam\u00edferos parem. S\u00f3 que a gente tem a quest\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o, que \u00e9 muito importante na nossa vida, e no parto n\u00e3o \u00e9 diferente\u201d, comenta.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"614\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31911\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Doula_Margela2_BX-695x464.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Margela prestando assist\u00eancia em um trabalho de parto antes da pandemia. (Fotos: Natalia Zwetsch)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A atua\u00e7\u00e3o de Margela tamb\u00e9m consiste em informar e empoderar as mulheres para a hora do parto. Ela repassa informa\u00e7\u00f5es cient\u00edficas, de maneira simplificada, para que a parturiente tenha ferramentas para argumentar sobre seus desejos e vontades \u00e0 equipe que a atende. \u201cEu sempre oriento que a mulher se atente se a equipe est\u00e1 discutindo com base nas evid\u00eancias ou n\u00e3o\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A doulagem refor\u00e7a que a autonomia sobre o parto cabe \u00e0 mulher que o protagoniza. \u201cA quem pertence o parto em primeiro lugar? Ele \u00e9 da humanidade, ele pertence a n\u00f3s, as mulheres\u201d, afirma Margela.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Parto e prazer?<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Historicamente, o prazer sentido pelo corpo das mulheres \u00e9 um assunto varrido para debaixo do tapete. Elas foram por muito tempo restritas ao lugar daquelas que devem dar o prazer, oferecer, e n\u00e3o experienciar para si. No contexto do trabalho de parto, em que a narrativa do sofrimento e da dor \u00e9 vigente e sistem\u00e1tica, falar em prazer \u00e9 reivindicar novas formas de viver e compreender a experi\u00eancia de parir.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cO parto pode ser prazeroso\u201d, afirma Claudiana. \u201cO que acontece, muitas vezes, \u00e9 que as pessoas chegam assustadas com o que j\u00e1 ouviram, com hist\u00f3rias pregressas, como \u2018a minha m\u00e3e sofreu muito para ter meu irm\u00e3o&#8217;, \u2018minha v\u00f3 teve todos os filhos de ces\u00e1rea, ent\u00e3o n\u00e3o vou conseguir&#8217;.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Durante as assist\u00eancias que presta no Hospital Concei\u00e7\u00e3o, Claudiana luta, desde 2011, quando as mudan\u00e7as come\u00e7aram a gradativamente ocorrer na institui\u00e7\u00e3o, para que as mulheres possam movimentar-se mais durante o trabalho de parto. Diferente da imagem cl\u00e1ssica que temos da mulher deitada, de barriga para cima (posi\u00e7\u00e3o litot\u00f4mica), fazendo for\u00e7a, nem sempre essa \u00e9 a posi\u00e7\u00e3o mais confort\u00e1vel e favor\u00e1vel para parir. O respeito ao desejo de movimento e de ir ao encontro da melhor posi\u00e7\u00e3o para aquela mulher \u00e9 central da pr\u00e1tica humanizada.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201c\u00c9 fisiol\u00f3gico: a paciente tem vontade de se movimentar na hora das contra\u00e7\u00f5es. \u00c9 invi\u00e1vel uma gestante estar em contra\u00e7\u00e3o, em trabalho de parto e ficar parada. N\u00e3o tem como\u201d, explica a enfermeira. Claudiana prop\u00f5e \u00e0s gestantes para caminharem, se movimentarem, inclusive dan\u00e7arem. \u201cEnquanto algumas gostam de ouvir m\u00fasica rom\u00e2ntica, outras gostam de sambar, de dan\u00e7ar funk. E a gente tem todas as modalidades\u201d, graceja. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"640\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31898\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX-300x209.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX-168x117.jpg 168w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX-768x534.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX-465x323.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/hospital_MilenaCastro_BX-695x483.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption><br>Hospital (Ilustra\u00e7\u00e3o: Milena Castro)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A imagem de uma mulher dan\u00e7ando no hospital balan\u00e7ou estruturas e gerou muito desconforto quando ainda era uma novidade. Segundo Claudiana, no in\u00edcio do processo de mudan\u00e7a, houve resist\u00eancia de diferentes profissionais. Indagavam: \u201cPor que ela est\u00e1 dan\u00e7ando com a gestante?\u201d; \u201cPor que ela colocou a gestante na bola de pilates?\u201d; \u201cPor que ela est\u00e1 sentada e n\u00e3o deitada?\u201d; \u201cPor que j\u00e1 n\u00e3o faz uma ces\u00e1rea logo?\u201d. As pr\u00e1ticas eram constantemente questionadas at\u00e9 tornarem-se o modelo de assist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com J\u00fania, as evid\u00eancias cient\u00edficas hoje j\u00e1 mostram que a satisfa\u00e7\u00e3o materna est\u00e1 mais relacionada \u00e0 assist\u00eancia recebida durante o trabalho de parto do que ao pr\u00f3prio al\u00edvio da dor. Inclusive porque a dor, ela enfatiza, \u00e9 uma experi\u00eancia sensorial, mas tamb\u00e9m subjetiva. Tudo o que se aprendeu ao longo da vida, toda a hist\u00f3ria daquela pessoa vai influenciar nessa percep\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"614\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31910\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX-768x513.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/DoulaMargela1_BX-695x464.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Margela prestando assist\u00eancia em um trabalho de parto antes da pandemia. (Fotos: Natalia Zwetsch)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cO parto n\u00e3o precisa ser visto como sofrido, como sofrimento. Ele \u00e9 prazeroso. A taxa hormonal depois do parto \u00e9 muito maior que um orgasmo. Por mais que tenha aquele processo dif\u00edcil, ela consegue ter prazer quando olha para o filho dela e v\u00ea que conseguiu colocar no mundo. N\u00e3o foi o m\u00e9dico, n\u00e3o foi a enfermeira, foi ela. N\u00f3s s\u00f3 prestamos assist\u00eancia.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Claudiana Querino Preve<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A maior respons\u00e1vel pela descarga hormonal relacionada ao prazer e tamb\u00e9m conhecida como horm\u00f4nio do amor \u00e9 a ocitocina. No trabalho de parto, ela \u00e9 a respons\u00e1vel por fazer o \u00fatero se contrair, dilatar e expulsar o beb\u00ea. Sua libera\u00e7\u00e3o \u00e9 t\u00e3o poderosa que muitas mulheres relatam, inclusive, um esquecimento da dificuldade pela qual passaram.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Margela explica que n\u00e3o \u00e9 apenas uma quest\u00e3o f\u00edsica, mas relacionada aos efeitos que viver o trabalho de parto t\u00eam. <strong>\u201c<\/strong>At\u00e9 hoje n\u00e3o encontrei e n\u00e3o acompanhei uma mulher que n\u00e3o disse que doeu. Mas \u00e9 t\u00e3o poderoso, t\u00e3o visceral, que perpassa a quest\u00e3o da dor\u201d, explica. \u201c\u00c9 aquela experi\u00eancia de quase morte que te leva a enfrentar todos os teus obst\u00e1culos da vida, tanto os fisiol\u00f3gicos (que de uma maneira simples a gente chama de dor) quanto os emocionais.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cA sensa\u00e7\u00e3o prazerosa est\u00e1 tamb\u00e9m em acessar esse poder que passaram a vida inteira dizendo para gente que a gente n\u00e3o tinha.\u201d&nbsp;<\/em><\/p><cite><em>Margela Krumennauer<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A descarga hormonal do trabalho de parto \u00e9 importante no processo de vincula\u00e7\u00e3o m\u00e3e-beb\u00ea e tamb\u00e9m prepara a mulher para o p\u00f3s-parto (o puerp\u00e9rio). Isso assemelha-se ao que acontece com outros mam\u00edferos. Quando passam por uma cirurgia que separa a m\u00e3e dos filhotes, provavelmente ela ter\u00e1 dificuldade de reconhec\u00ea-los e de criar v\u00ednculos. \u201cParamos de nos questionar sobre isso porque inventaram um milh\u00e3o de coisas. Hoje, conseguimos dar mamadeira para os beb\u00eas, ent\u00e3o eles n\u00e3o v\u00e3o morrer se aquela m\u00e3e n\u00e3o se vincular, mas que tipo de sequelas aqueles dois seres v\u00e3o carregar deste processo?\u201d, indaga.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"716\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31915\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX-300x233.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX-150x117.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX-768x598.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX-465x362.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/SaberesAncestrais_Yasmine_BX-642x500.jpg 642w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Yasmine Lopes fazendo uso de medicinas n\u00e3o farmacol\u00f3gicas aprendidas com parteiras tradicionais (Foto: Larissa Kafruni\/Hist\u00f3rias do Nascer)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Toda vida aparece no parto&nbsp;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da dor, os desafios do trabalho de parto s\u00e3o tamb\u00e9m emocionais, sociais e psicol\u00f3gicos. Enquanto doula, Margela procura entender e perguntar sobre a hist\u00f3ria do nascimento daquela mulher, da hist\u00f3ria dos partos da fam\u00edlia. \u201cMuitas vezes a mulher est\u00e1 precisando vencer coisas al\u00e9m do fisiol\u00f3gico, s\u00e3o desafios emocionais. E se a gente n\u00e3o conhece o contexto dessa mulher, o hist\u00f3rico, se a gente n\u00e3o tem v\u00ednculo, faz muita diferen\u00e7a.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cTodas as coisas da vida aparecem no parto. \u00c9 um grande portal. A gente est\u00e1 morrendo para nascer a m\u00e3e daquela crian\u00e7a. E precisa, \u00e9 necess\u00e1rio.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Margela Krumennauer<\/em>&nbsp;<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o sutilezas que lembram que todos os profissionais envolvidos no parto e nascimento precisam entender que a pessoa que est\u00e1 ali n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a mente, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o corpo. \u201cAs mulheres e as fam\u00edlias est\u00e3o sujeitas a esse modelo que fragmenta o corpo\u201d, explica J\u00fania. Ela refor\u00e7a a import\u00e2ncia de enxergar a mulher como um ser integral, entendendo que h\u00e1 fatores que v\u00e3o interferir em todo trabalho de parto, como o ambiente, a presen\u00e7a de pessoas significativas, o modelo e a filosofia de cuidado.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">J\u00fania tenta levar essa discuss\u00e3o para a sala de aula, lugar onde muitas das pr\u00e1ticas e cren\u00e7as que depois s\u00e3o reproduzidas no nascimento acabam por ser cristalizadas. Para a professora, a m\u00e1xima principal \u00e9 \u201crespeitar o tempo da vida para ver a vida nascer.\u201d<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Eu sempre brinco com os meus alunos: \u2018Senta na m\u00e3o para n\u00e3o intervir desnecessariamente\u2019. Aprenda a olhar para essa mulher e para essa fam\u00edlia como inst\u00e2ncias que est\u00e3o integradas ao ambiente, ao modelo de cuidado, \u00e0s a\u00e7\u00f5es que est\u00e3o sendo oferecidas, \u00e0 hist\u00f3ria que essa pessoa tem, aos valores e \u00e0s cren\u00e7as que carrega consigo.\u201d<\/em><\/p><cite><em>J\u00fania Laia da Mata<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Yasmine, enquanto se tornava doula, tamb\u00e9m tornava-se m\u00e3e. Nas primeiras semanas do curso de forma\u00e7\u00e3o, descobriu a gesta\u00e7\u00e3o. Pariu em casa, em um parto domiciliar planejado, mas, devido ao baixo peso de sua beb\u00ea e a dificuldade de expuls\u00e3o da placenta, precisou ser transferida para o hospital. A experi\u00eancia acabou sendo muito distinta do que havia desejado e idealizado durante a gravidez, mas, passado um tempo, ela consegue perceber que enfrentou desafios para os quais n\u00e3o tinha se preparado. \u201cFoi um processo de muito aprendizado, porque, durante a gesta\u00e7\u00e3o, eu trabalhei muito para ter esse parto bonito, muito rom\u00e2ntico, essa est\u00e9tica que se tem do parto humanizado\u201d, conta Yasmine.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA gente imagina que vai ser com luz de velas, com massagem, e eu me deparei com muitos monstros enfrentados na gesta\u00e7\u00e3o. Vieram meus medos, vieram quest\u00f5es ancestrais.\u201d Por muito tempo, Yasmine chorava relatando como havia sido, uma frustra\u00e7\u00e3o grande por n\u00e3o ter parido como gostaria. Buscando guian\u00e7a das parteiras tradicionais que foram respons\u00e1veis por sua forma\u00e7\u00e3o na doulagem, ela ouviu que, quando a mulher n\u00e3o se trabalha durante a gesta\u00e7\u00e3o, \u00e9 muito prov\u00e1vel que as quest\u00f5es venham no parto ou no p\u00f3s-parto. \u201cE para mim veio ali, tudo no parto. Veio muito refletida nessa quest\u00e3o com a placenta.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31912\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/Todavidaaparecenoparto_Yasmine_BX-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Yasmine prestando assist\u00eancia a um trabalho de parto e nascimento antes da pandemia (Foto: Larissa Coiro)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A experi\u00eancia mudou inclusive a pr\u00e1tica de Yasmine como doula. Afastou-se um pouco do \u201cmercado do parto\u201d e come\u00e7ou a atender mulheres das redondezas de onde mora, na Vila Cruzeiro em Porto Alegre. As gestantes foram chegando, ouvindo sobre o trabalho que realizavam, procurando por aux\u00edlio e assist\u00eancia. S\u00e3o mulheres, em sua maioria, em situa\u00e7\u00f5es de extrema vulnerabilidade e que Yasmine atende de forma solid\u00e1ria.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela relata que tem sido uma viv\u00eancia transformadora e de muitas descobertas, porque agora atende mulheres que est\u00e3o em fragilidade emocional e que vivem situa\u00e7\u00f5es de depend\u00eancia qu\u00edmica e viol\u00eancia dom\u00e9stica, por exemplo. Yasmine observou que muitas dessas mulheres v\u00e3o parir muito facilmente. Intrigada com isso, ela tamb\u00e9m buscou orienta\u00e7\u00e3o com suas mestras e ouviu:&nbsp;\u201cFilha, a energia que vibra no parto, no expulsivo, para a mulher colocar um beb\u00ea no mundo \u00e9 a raiva. \u00c9 aquela energia do grito, do RAAAR<em>!\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Muitas vezes, de acordo com ela, as mulheres vivem a gesta\u00e7\u00e3o acreditando que tudo est\u00e1 bem, que est\u00e3o conectadas consigo, mas acabam se surpreendendo. N\u00e3o esperam vivenciar um lado sombrio de si durante o trabalho de parto. &#8220;E as mulheres que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de vulnerabilidade, por outro lado, est\u00e3o em contato com a sombra e a raiva o tempo inteiro\u201d, relata Yasmine. Elas precisam estar preparadas para tudo. A vida \u00e9 j\u00e1 muito hostil, com pouco acolhimento. Precisam dar conta de si, j\u00e1 que s\u00e3o colocadas em um lugar de mais responsabilidade consigo mesmas.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">O que muda com a pandemia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se tudo o que \u00e9 da vida aparece durante o parto, como parir quando se convive tanto com a morte? A pandemia do coronav\u00edrus imp\u00f4s mudan\u00e7as at\u00e9 mesmo na assist\u00eancia ao nascimento. A necessidade de manter distanciamento, mesmo em um processo que envolve tanto o toque, a presen\u00e7a e o afeto, impactou os profissionais e as gestantes.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse contexto, passar por uma cirurgia de alta complexidade (a ces\u00e1rea), n\u00e3o \u00e9 uma perspectiva muito animadora para Mariana. Em mar\u00e7o de 2021, pior m\u00eas da pandemia at\u00e9 a publica\u00e7\u00e3o desta reportagem, ela estava com oito meses de gesta\u00e7\u00e3o. Por isso, manteve-se firme em seu desejo de parir.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela, que \u00e9 funcion\u00e1ria no setor de gest\u00e3o de pessoas de uma empresa em Triunfo, onde mora, estava trabalhando em casa. Mariana trabalhou presencialmente at\u00e9 o surgimento das novas variantes do coronav\u00edrus, mais perigosas para mulheres gr\u00e1vidas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nas consultas de pr\u00e9-natal, ela foi recebida sozinha no consult\u00f3rio m\u00e9dico: acompanhantes n\u00e3o s\u00e3o permitidos. Enquanto escuta os batimentos card\u00edacos de sua filha, o marido espera do lado de fora do consult\u00f3rio. Para Mariana, a pandemia refor\u00e7ou ainda mais a import\u00e2ncia de ser atendida por um profissional com quem ela se sinta segura.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cPorque se ele [o m\u00e9dico] fala alguma coisa que te desestabiliza, ou que tu n\u00e3o concorde tanto, se tu t\u00e1 junto de algu\u00e9m tu te sente mais \u00e0 vontade para falar ou questionar.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Mariana Schubert<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Entretanto, a necessidade de, quando poss\u00edvel, ficar em casa para evitar o cont\u00e1gio pelo v\u00edrus parece ter ecoado no interesse das gestantes pelo parto domiciliar. \u201cAs mulheres e as fam\u00edlias apresentaram, principalmente ao longo de 2020, muita preocupa\u00e7\u00e3o em rela\u00e7\u00e3o ao nascimento no \u00e2mbito hospitalar. Principalmente quando n\u00e3o se sabia&nbsp; muito sobre o coronav\u00edrus, sobre os efeitos na sa\u00fade da mulher e do beb\u00ea\u201d, explica J\u00fania. O risco de contrair o v\u00edrus no hospital sempre existe. Al\u00e9m disso, gestantes s\u00e3o grupo de risco para as novas variantes e est\u00e3o no grupo priorit\u00e1rio para a vacina\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para a cientista, o parto domiciliar planejado poderia ser uma janela de possibilidade no contexto do colapso do sistema de sa\u00fade diante da pandemia. \u201cSe n\u00f3s tiv\u00e9ssemos estrat\u00e9gias governamentais que oferecessem a essas mulheres possibilidades de serem atendidas por equipes, dentro do SUS, no seu pr\u00f3prio domic\u00edlio, a gente ofereceria a\u00ed um menor risco de contamina\u00e7\u00e3o e poder\u00edamos desafogar o sistema\u201d, argumenta J\u00fania.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O distanciamento social tamb\u00e9m afastou doulas e parteiras de suas atividades presenciais. Ser doula envolve contato direto com a gestante, com seu corpo, com seus fluidos. \u201cMe fechei um pouco para esse caminho. Atendi alguns partos na pandemia, mas percebi que, enquanto doula, eu estava muito suscet\u00edvel a transmiss\u00e3o mesmo do coronav\u00edrus\u201d, conta Yasmine, que convive com os av\u00f3s, a m\u00e3e e a tia, e teve medo de ser vetor do v\u00edrus.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Iracema tem feito acompanhamentos por telefone. Embora n\u00e3o possa estar presente para receber as crian\u00e7as e auxiliar a m\u00e3e, mestra kaingang transmite energias e pensamentos positivos, aconselha e tranquiliza as gestantes. \u00c9 mais uma vida que est\u00e1 chegando.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&#8220;N\u00e3o \u00e9 que eu tenha medo de ir, \u00e9 que eu tenho que proteger eles. J\u00e1 se eu sair daqui n\u00e3o sei o que estou levando para aquela pessoa.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Iracema Nascimento<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Na outra ponta, o Hospital Concei\u00e7\u00e3o tem atendido apenas gestantes com covid-19. Em todos os hospitais, foi necess\u00e1rio adaptar os <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/rehuna.org.br\/recomendacovid19\/\" target=\"_blank\">protocolos de aten\u00e7\u00e3o ao nascimento<\/a>. Para n\u00e3o transmitir a doen\u00e7a, as gr\u00e1vidas ficam restritas ao quarto, ou ent\u00e3o circulam pelo corredor, de m\u00e1scara, quando n\u00e3o h\u00e1 muitas pessoas. \u201cPara as m\u00e3es com covid-19, \u00e9 mais dif\u00edcil, elas acabam ficando muito tempo sozinhas na sala\u201d, conta Tais. Os profissionais devem manter o distanciamento de dois metros das m\u00e3es. Cenas antes comuns, como dan\u00e7ar com as gestantes no corredor, n\u00e3o acontecem mais.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31908\" width=\"460\" height=\"460\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX-768x768.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX-150x150.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX-465x465.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/TaisPandemia1_Arquivopessoal_BX-500x500.jpg 500w\" sizes=\"(max-width: 460px) 100vw, 460px\" \/><figcaption><br>A rotina da unidade obst\u00e9trica e da maternidade do Hospital Concei\u00e7\u00e3o foi transformada com a chegada da pandemia. Atualmente o hospital atende apenas gestantes com Covid-19 (Foto: Tais Silva\/Arquivo Pessoal)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma manh\u00e3, ao chegar no hospital, Tais soube que uma m\u00e3e que havia passado pela ces\u00e1rea no turno da noite n\u00e3o resistiu ao procedimento. \u201cMesmo n\u00e3o sabendo quem era ela, mesmo n\u00e3o conhecendo o rosto dela, aquilo me doeu\u201d, conta. As m\u00e3es j\u00e1 n\u00e3o fazem contato pele a pele com seus filhos quando est\u00e3o contaminadas. Na ces\u00e1rea, o atendimento tamb\u00e9m \u00e9 diferenciado.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cQuando chega uma m\u00e3e com covid-19 h\u00e1 uma tens\u00e3o. Porque a gente d\u00e1 todo o apoio, todo o suporte, tudo que a gente pode fazer. Mas esse contato, segurar a m\u00e3o por segurar e ficar olhando no olho e dizer \u2018t\u00f4 aqui\u2019, isso \u00e0s vezes a gente n\u00e3o t\u00e1 podendo fazer.\u201d<\/em><\/p><cite><em>Tais Silva<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ainda assim, existem relatos positivos, como o de Clarissa. Em 6 de janeiro, ela come\u00e7ou a ter contra\u00e7\u00f5es e a contabilizar a frequ\u00eancia. A doula chegou em sua casa \u00e0s 9h. As contra\u00e7\u00f5es eram um pouco irregulares e n\u00e3o paravam. \u201cMinha ideia era ir para o hospital s\u00f3 para ganhar. Ter todo trabalho de parto em casa\u201d, conta. Tanto \u00e9 que Clarissa foi ao hospital M\u00e3e de Deus quando j\u00e1 estava com nove cent\u00edmetros de dilata\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m de diminuir o risco de contamina\u00e7\u00e3o pelo coronav\u00edrus, ir mais tarde ao hospital \u00e9 uma pr\u00e1tica que pode evitar interven\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No hospital, a m\u00e9dica estava aguardando do lado de fora porque est\u00e1 acostumada que suas pacientes cheguem l\u00e1 quase parindo. \u201cEu desci do carro e a bolsa rompeu\u201d. Por conta da pandemia, a doula e a enfermeira obst\u00e9trica contratadas por Clarissa n\u00e3o puderam estar presentes na sala de parto. L\u00e1, Clarissa encontrou um ambiente com luz baixa, temperatura agrad\u00e1vel, e aromatizadores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cEu tinha seguran\u00e7a de que elas sabiam o que eu queria e n\u00e3o queria\u201d, afirma. Quarenta minutos depois, Elias nasceu e foi entregue aos bra\u00e7os da m\u00e3e.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Informa\u00e7\u00e3o para decidir, autonomia para parir&nbsp;<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conversamos por chamada de v\u00eddeo com Mariana no dia 9 de abril. Apesar das preocupa\u00e7\u00f5es com a pandemia e da proximidade cada vez maior de Maria Luisa chegar ao mundo, ela relatou estar tranquila para viver o desejado e planejado parto. Alguns dias antes da conversa, ela havia sa\u00eddo de Triunfo em dire\u00e7\u00e3o a Porto Alegre para a consulta de acompanhamento com o m\u00e9dico. Foi j\u00e1 com malas prontas \u2014 preparada caso Malu decidisse nascer durante o deslocamento.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diferente de quando gestava seu primeiro filho, desta vez, prestes a fechar as 38 semanas, ouviu do m\u00e9dico palavras encorajadoras: ele disse que o que ela precisava fazer naquele momento era se empoderar para o parto, trabalhar o pensamento de que ela ia conseguir. \u201c\u00c9 uma coisa bem bacana de tu ouvir de um m\u00e9dico\u201d, revela. Recebeu, ainda, orienta\u00e7\u00f5es para uma indu\u00e7\u00e3o natural do parto, como a ingest\u00e3o de t\u00e2maras, \u00f3leo de pr\u00edmula, exerc\u00edcios para o fortalecimento do assoalho p\u00e9lvico, shake natural. Ela confessa que se surpreendeu: <em>\u201cPorque m\u00e9dico geralmente d\u00e1 rem\u00e9dio, n\u00e9?\u201d<\/em><\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-large\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"622\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-31902\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX-300x203.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX-173x117.jpg 173w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX-768x519.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX-465x314.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/espelho_MilenaCastro_BX-695x470.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Espelho (Ilustra\u00e7\u00e3o: Milena Castro)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto ela se prepara, o companheiro Patric tamb\u00e9m. Gra\u00e7as ao programa Empresa Cidad\u00e3 e \u00e0 <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2015-2018\/2016\/lei\/l13257.htm\" target=\"_blank\">Lei n\u00b0 13.257\/16<\/a>, o esposo de Mariana foi beneficiado com uma licen\u00e7a paternidade ampliada \u2014 o que tamb\u00e9m a deixou mais tranquila, sabendo que teria apoio integral nos primeiros dias de puerp\u00e9rio. O crit\u00e9rio para receber \u00e9 a realiza\u00e7\u00e3o, por parte do pai, de uma esp\u00e9cie de \u201ccursinho\u201d online, <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/www.blog.saude.gov.br\/index.php\/cursos-e-eventos\/51522-ms-e-avasus-lancam-curso-voltado-a-paternidade\" target=\"_blank\">idealizado pelo SUS e pelo Minist\u00e9rio da Sa\u00fade<\/a>, sobre paternidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><span class=\"has-inline-color has-vivid-cyan-blue-color\"><strong>Leia mais:<\/strong> <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/relato-de-parto-mariana-schubert\/\">Em 22 de abril, Mariana come\u00e7ou a sentir as primeiras contra\u00e7\u00f5es. Saiba como foi o parto<\/a><\/span><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o \u00e9 a toa que pensar sobre a humaniza\u00e7\u00e3o do nascimento seja, constantemente, verificar as leis existentes, os programas p\u00fablicos e governamentais e o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es. A promo\u00e7\u00e3o de autonomia de um parto e nascimento deve ser vista em di\u00e1logo com as esferas da sociedade. Segundo J\u00fania, para promovermos mudan\u00e7as no modo de nascer e na assist\u00eancia ao parto, \u00e9 preciso trabalhar com as frentes da pol\u00edtica p\u00fablica governamental, das diretrizes e protocolos. \u201cH\u00e1 tamb\u00e9m a quest\u00e3o do suporte aos profissionais de sa\u00fade. A quest\u00e3o da forma\u00e7\u00e3o da obstetr\u00edcia que precisava ser revista na medicina, na enfermagem \u2014 quem trabalha com obstetr\u00edcia precisa ter no m\u00ednimo uma forma\u00e7\u00e3o human\u00edstica. E a outra frente \u00e9 que precisamos trabalhar com educa\u00e7\u00e3o em sa\u00fade.\u201d&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A informa\u00e7\u00e3o \u00e9 um caminho central. Muitos dos mitos em torno do parto e nascimento s\u00e3o perpetrados pela falta de educa\u00e7\u00e3o sobre o assunto. Desde a escola, aprende-se uma vis\u00e3o estritamente biol\u00f3gica do dito \u2018sistema reprodutor\u2019. Na maioria das vezes, s\u00f3 volta-se a pensar nisso de novo quando a pessoa ou algu\u00e9m pr\u00f3ximo engravida.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>&#8220;As mulheres e as fam\u00edlias precisam saber o que \u00e9 o parto, o que \u00e9 o nascimento, como ele se d\u00e1, os direitos reprodutivos e desconstruir os mitos que acabam influenciando nos p\u00e9ssimos indicadores obst\u00e9tricos que a gente tem nesse pa\u00eds<\/em>.&#8221;<\/p><cite><em>J\u00fania Laia da Mata&nbsp;<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 diferente quando uma mulher chega em um servi\u00e7o de sa\u00fade dizendo \u2018eu desejo isso, eu sei que determinada conduta n\u00e3o \u00e9 indicada\u2019. O conhecimento nesse caso, n\u00e3o s\u00f3 por parte da gestante, mas tamb\u00e9m de quem a acompanha, pode ser fundamental para evitar interven\u00e7\u00f5es desnecess\u00e1rias, experi\u00eancias que violentem aquela mulher e aquele beb\u00ea. Esse conhecimento \u00e9 um direito e deve vir como pol\u00edtica p\u00fablica.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Margela fala que sua atua\u00e7\u00e3o como doula tem um vi\u00e9s pol\u00edtico muito grande e sinaliza: \u201cPrecisamos reivindicar nossos direitos, apresentar nossa insatisfa\u00e7\u00e3o, exigir de quem nos representa que esse modelo mude. N\u00e3o vai vir de cima\u201d. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela recomenda que as mulheres procurem os canais para relatarem suas experi\u00eancias, seja via SUS seja via rede suplementar. As ouvidorias, muitas vezes esquecidas, existem e devem ser acionadas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">E informa\u00e7\u00e3o de qualidade e embasada cientificamente est\u00e1 cada vez mais dispon\u00edvel para o acesso de pessoas interessadas no assunto. Tais decidiu criar um espa\u00e7o no Instagram para compartilhar como era sua rotina enquanto m\u00e3e e enfermeira. Hoje, com mais de 7 mil seguidores, leva n\u00e3o s\u00f3 o cotidiano do hospital e do SUS, como tamb\u00e9m seus conhecimentos como doula e t\u00e9cnica em enfermagem. \u201cEu sou rede de apoio para outras mulheres\u201d, explica Tais sobre o trabalho que realiza na Internet. Com o nome @<a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/mamaedebombons\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">maedebombons<\/a>, a enfermeira do Concei\u00e7\u00e3o busca proporcionar identifica\u00e7\u00e3o com outras m\u00e3es negras, dando suporte e mostrando que existe espa\u00e7o para falarem sobre isso juntas.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O trabalho de Tais lembra que autonomia n\u00e3o \u00e9 desamparo \u2014 pelo contr\u00e1rio, \u00e9 saber, que est\u00e1 amparada para fazer suas escolhas. Martha e Tais trabalham juntas no Hospital Concei\u00e7\u00e3o e, para ambas, n\u00e3o h\u00e1 mais volta no caminho da humaniza\u00e7\u00e3o. \u201cTanto particular e conv\u00eanios devem se adequar. As institui\u00e7\u00f5es devem ficar mais abertas a essas pr\u00e1ticas. \u00c9 uma demanda que vem partindo cada vez mais das pacientes\u201d, explica Martha.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ela observa j\u00e1 mudan\u00e7as nas novas gera\u00e7\u00f5es de m\u00e9dicos que est\u00e3o chegando. Est\u00e3o mais atentos a todos esses debates e est\u00e3o embasados cientificamente, escutando mais as gestantes a quem prestam assist\u00eancia.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>\u201cQuanto mais mulheres existirem contando umas para as outras sobre suas experi\u00eancias positivas com o parto, mais pacientes v\u00e3o querer ter o parto\u201d<\/em><\/p><cite><em>Martha Goldani<\/em><\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">T\u00e3o importante quanto poder desejar o parto \u00e9 saber que, independentemente da via do nascimento, as duas pessoas envolvidas \u2014 m\u00e3e e bebe \u2014 ser\u00e3o respeitadas. O beb\u00ea sai do ambiente uterino, contido, onde n\u00e3o sente fome, nem frio e, muitas vezes, encontra um ambiente hostil. \u201cMesmo em partos normais, essa passagem \u00e9 frequentemente feita de forma violenta. E \u00e9 poss\u00edvel, mesmo quando a gente precisa realizar uma cesariana, que se reduza o impacto da passagem da vida intrauterina para a extrauterina\u201d, sinaliza a doula.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cA forma como acolhemos os beb\u00eas e as fam\u00edlias nesse momento que \u00e9 \u00fanico, impactante e transformador vai influenciar muito na humanidade\u201d, lembra J\u00fania. O parto n\u00e3o \u00e9 um evento t\u00e9cnico. Vai refletir em quest\u00f5es de sa\u00fade, emocionais e psicol\u00f3gicas de toda uma sociedade. Prestar um suporte qualificado, amoroso, gentil e atualizado para essas pessoas que est\u00e3o gestando n\u00e3o \u00e9 tarefa apenas dos profissionais da sa\u00fade. &#8220;Esse n\u00e3o \u00e9 um assunto para a gente conhecer s\u00f3 porque quer ter um filho. N\u00e3o \u00e9 para a gente, \u00e9 para a sociedade inteira\u201d, completa Margela.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-left has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><strong>Milena Castro de Oliveira <\/strong>(@milenacastroart) \u00e9 estudante de Artes Visuais na UFRGS, trabalha com diversos recursos para criar suas obras.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Maternidade | A autonomia e o protagonismo das mulheres d\u00e1 espa\u00e7o para gestantes encararem ang\u00fastias e prazeres que precisam enfrentar *Ilustra\u00e7\u00e3o de capa: Ancestral (Milena Castro) O nascimento \u00e9 um instante radical de transforma\u00e7\u00f5es. D\u00e1 origem a muitas coisas \u2014 nasce uma pessoa, uma m\u00e3e, uma fam\u00edlia. O modo como<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/modos-de-assistencia-ao-nascimento-explicitam-os-diferentes-aspectos-que-compoem-a-humanizacao-do-parto\/\">Leia 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