{"id":32520,"date":"2021-05-27T09:01:00","date_gmt":"2021-05-27T12:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=32520"},"modified":"2021-05-27T10:14:14","modified_gmt":"2021-05-27T13:14:14","slug":"entre-misseis-civis-e-os-ecos-da-nakba-no-seculo-xxi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/entre-misseis-civis-e-os-ecos-da-nakba-no-seculo-xxi\/","title":{"rendered":"Entre m\u00edsseis, civis e os ecos da Nakba no s\u00e9culo XXI"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | A professora do Departamento de Antropologia Denise Jardim faz um compilado hist\u00f3rico sobre o conflito entre israelenses e palestinos<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Denise Jardim<br>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 23 out. 2006 \u2013 Em Porto Alegre, descendente de imigrantes palestinos ora em mesquita no Centro Hist\u00f3rico da capital.<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 12 de maio, a cidade de Tel Aviv, Israel, sofre um ataque a\u00e9reo. Por certo, esse poderia ser o come\u00e7o de uma narrativa, se pud\u00e9ssemos come\u00e7ar pelo fim. Destaco algumas informa\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas para assimilarmos a profus\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es jornal\u00edsticas, considerando que, invariavelmente, os rep\u00f3rteres correspondentes falam de suas bases em Israel e quase nunca na Cisjord\u00e2nia ou Faixa de Gaza. Ofere\u00e7o assim um ponto de vista, o de quem v\u00ea cair misseis em sua pr\u00f3pria casa, todavia com lentes mais precisas do que aquelas que nos oferecem de imediato, real\u00e7ando que n\u00e3o s\u00e3o meras \u201cvendetas\u201d hist\u00f3ricas. Temos muito a aprender sobre a periculosidade de uma pol\u00edtica estatal baseada na profus\u00e3o de vigil\u00e2ncia armada e na produ\u00e7\u00e3o cotidiana do terror a civis.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O hist\u00f3rico de enfrentamentos na regi\u00e3o atravessa o s\u00e9culo XX e tem muitas chaves de entendimento e teorias que saem rapidamente das gavetas para explicar o confronto entre \u201cdois Estados\u201d. N\u00e3o existem dois Estados. Os conflitos cont\u00ednuos podem ser mais bem compreendidos quando os reinscrevemos na hist\u00f3ria do colonialismo europeu dos s\u00e9culos XIX e XX, que resultou na pr\u00e1tica de esvaziamento compuls\u00f3rio da Palestina hist\u00f3rica de seus habitantes aut\u00f3ctones para dar lugar ao projeto de \u201cpartilha do protetorado\u201d ingl\u00eas. Esse \u00e9 um termo elegante para se referir ao colonialismo sem o explicitar. Na pr\u00e1tica, as constantes ocupa\u00e7\u00f5es da Palestina hist\u00f3rica se atualizaram, assim como a resist\u00eancia de seus habitantes aut\u00f3ctones, e se consolidam atrav\u00e9s de uma constru\u00e7\u00e3o jur\u00eddico-administrativa baseada em uma ocupa\u00e7\u00e3o militar que pode ser datada na Nakba (15 de maio de 1948). O dia da cat\u00e1strofe, como \u00e9 lembrado, refere-se ao dia em que mais de 750 mil palestinos foram retirados de seus territ\u00f3rios pela dissemina\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o do avan\u00e7o militar sobre civis e do terror da presen\u00e7a de for\u00e7as armadas, patrocinadas por for\u00e7as internacionais, incluindo a\u00ed os part\u00edcipes das for\u00e7as das Na\u00e7\u00f5es Unidas na regi\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A cria\u00e7\u00e3o de um Estado desenhado como um bra\u00e7o colonialista se anuncia desde a brit\u00e2nica Declara\u00e7\u00e3o de Balfour (1917), um modo de implementa\u00e7\u00e3o da proposta Sionista, substituindo o dom\u00ednio otomano e unindo for\u00e7as internacionais para a conquista brit\u00e2nica da Palestina hist\u00f3rica. Sabemos que o lugar estrat\u00e9gico do canal de Suez, inaugurado em 1869, marca um per\u00edodo da soberania europeia em muitas regi\u00f5es do norte da \u00c1frica, \u00cdndia e Oriente M\u00e9dio. Com promessas atualizadas da repara\u00e7\u00e3o ao antissemitismo europeu que produziu o terror do holocausto na Segunda Guerra Mundial, esse Estado criado por for\u00e7as internacionais se imp\u00f4s sobre as cabe\u00e7as da popula\u00e7\u00e3o aut\u00f3ctone, representando a ocupa\u00e7\u00e3o mais longa de nosso s\u00e9culo, com ra\u00edzes no colonialismo do s\u00e9culo XX. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Trata-se de um experimento de Estado altamente militarizado na vida cotidiana, que faz dessa \u201cnormalidade\u201d uma vida regida pelo medo que atravessa as decis\u00f5es pol\u00edtico-partid\u00e1rias. E tamb\u00e9m por essa renova\u00e7\u00e3o de conflitos s\u00e3o conduzidas coaliz\u00f5es parlamentares em Israel, ao sabor de situa\u00e7\u00f5es-estopim, conflitos de ocasi\u00e3o bem cultivados<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os estudos de fontes p\u00fablicas para a an\u00e1lise historiogr\u00e1fica, liberados pela Inglaterra nos anos 90 por lei de acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, possibilitaram que uma gera\u00e7\u00e3o de historiadores formados pelo israelense Benny Morris pudesse acessar e demonstrar as pr\u00e1ticas de terror utilizadas na reocupa\u00e7\u00e3o da palestina hist\u00f3rica e direcionadas a vitimar civis durante a Nakba (1948).<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No contexto do per\u00edodo do Tratado de Oslo (1993), o grupo de pesquisadores era, como refere Illan Pappe, tornado pela pol\u00edtica israelense um exemplo de uma nova postura de Israel perante a negocia\u00e7\u00e3o do reconhecimento m\u00fatuo entre estados nacionais na Palestina hist\u00f3rica. Segundo o pr\u00f3prio Illan Pappe, a propaganda sionista com matizes de boa vontade e de esquerda teve um tempo bem limitado. Hoje Illan Pappe est\u00e1 exilado e atua como professor na Universidade de Exeter, no Reino Unido. Depois de Edward Said, falecido em 2003, o considero uma das vozes mais contundentes para o entendimento da forma\u00e7\u00e3o do Estado de Israel como um projeto sionista de limpeza \u00e9tnica, t\u00edtulo de seu livro j\u00e1 editado em portugu\u00eas em 2020.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para entender o momento atual, \u00e9 necess\u00e1rio lembrar que Netanyahu assumiu com a elei\u00e7\u00e3o parlamentar realizada em mar\u00e7o deste ano e em abril estava incumbido de formar maioria para governar. As guerras fabricadas n\u00e3o aquecem somente o mercado das armas e das tecnologias de controle, das portas de detec\u00e7\u00e3o de metais que est\u00e3o em todos os shoppings e no meio dos caminhos da cidadela de Jerusal\u00e9m, contrastando com as fei\u00e7\u00f5es arqueol\u00f3gicas dos lugares de visita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica da \u00e1rea judaica. Os conflitos de ocasi\u00e3o t\u00eam sido produzidos como importantes ferramentas tanto de hegemonia pol\u00edtica quanto de concomitante destrui\u00e7\u00e3o de bairros palestinos e como modos de fomentar o terror e o medo a civis, n\u00e3o importando seu credo ou nacionalidade. Nesse caso, o estado Israelense n\u00e3o pode ser mais visto como um res\u00edduo do passado, mas anuncia uma forma de governar contempor\u00e2nea e baseada na viol\u00eancia e na ideia de uma na\u00e7\u00e3o constitu\u00edda pelo exclusivismo de uma \u00fanica ra\u00e7a. Em outros tempos, dir\u00edamos que isso \u00e9 uma forma bem conhecida, mas deve ser estudada, pois \u00e9 uma forma repaginada de racismo de Estado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto a m\u00eddia hegem\u00f4nica reverbera a ideia de \u201cconflito irrevers\u00edvel\u201d, \u201cguerra iminente\u201d, cabe-me evidenciar os conflitos em sua atualidade e trazer alguns questionamentos sobre como nos colocamos como \u201cfruidores\u201d da quantidade de informa\u00e7\u00f5es veiculadas e o que deixamos de indagar e a ter acesso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Caberia, sim, indagar sobre as tais \u201cfalhas de um escudo antia\u00e9reo israelense\u201d, que d\u00e3o a falsa ideia de for\u00e7as b\u00e9licas de igual calibre.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>No momento, pouco somos informados a respeito das pr\u00e1ticas de desalojo dos bairros palestinos em Jerusal\u00e9m e do avan\u00e7o impressionante da especula\u00e7\u00e3o imobili\u00e1ria atrav\u00e9s de a\u00e7\u00f5es jur\u00eddico-administrativas para remo\u00e7\u00e3o de palestinos. <\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O epis\u00f3dio estopim de que temos not\u00edcia reitera um conflito quase \u201cnatural\u201d entre jovens ortodoxos de direita com palestinos que confraternizavam ap\u00f3s o Ramad\u00e3, real\u00e7ando confiss\u00f5es religiosas antag\u00f4nicas. Mas a a\u00e7\u00e3o policial que antecede a licen\u00e7a estatal para humilhar os palestinos-israelenses como \u201cestrangeiros\u201d e os impedir de uma livre circula\u00e7\u00e3o em espa\u00e7os p\u00fablicos deve ser considerada como uma pr\u00e1tica estatal racista.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00c9 necess\u00e1rio reposicionar a banaliza\u00e7\u00e3o midi\u00e1tica do uso da palavra \u201cguerra\u201d para o momento atual, absolutamente inadequada. N\u00e3o h\u00e1 dois estados, e sim um Estado de Israel e um arquip\u00e9lago de cidades palestinas que v\u00eam sendo ocupadas e que t\u00eam suas conex\u00f5es por terra inviabilizadas para uma vida cotidiana que requer passes e documentos para cruzar checkpoints para alcan\u00e7ar outras localidades palestinas. Assim, se torna aud\u00edvel a resist\u00eancia palestina \u00e0 ocupa\u00e7\u00e3o colonialista. Tamb\u00e9m somos testemunhos, contudo, de um dos maiores paradoxos da hist\u00f3ria: o surgimento de um Estado, israelense, que \u00e9 um verdadeiro laborat\u00f3rio internacional de pr\u00e1ticas e t\u00e9cnicas militares de controle da popula\u00e7\u00e3o civil.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/3296337995365996\">Denise Jardim<\/a> \u00e9 antrop\u00f3loga e professora do Departamento de Antropologia e do PPG em Antropologia Social.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | A professora do Departamento de Antropologia Denise Jardim faz um compilado hist\u00f3rico sobre o conflito entre israelenses e palestinos *Por: Denise Jardim*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 23 out. 2006 \u2013 Em Porto Alegre, descendente de imigrantes palestinos ora em mesquita no Centro Hist\u00f3rico da capital. 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