{"id":3294,"date":"2019-05-20T13:31:48","date_gmt":"2019-05-20T16:31:48","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=3294"},"modified":"2025-06-10T15:50:16","modified_gmt":"2025-06-10T18:50:16","slug":"o-universo-intimista-em-lygia-fagundes-telles","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-universo-intimista-em-lygia-fagundes-telles\/","title":{"rendered":"O universo intimista em Lygia Fagundes Telles"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"color:#866343\" class=\"has-text-color has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u201c\u2013 N\u00e3o quero ser rude, m\u00e3ezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. A senhora falou em crueldade mental. Olha a\u00ed a crueldade m\u00e1xima, a m\u00e3e fica se preocupando se o filho ou filha \u00e9 ou n\u00e3o homossexual. Entendo que se aflija com droga e etc\u00e9tera, mas com o sexo do pr\u00f3ximo? Cuide do pr\u00f3prio e j\u00e1 faz muito, me desculpe, mas fico uma vara com qualquer intromiss\u00e3o na zona sul do outro. Lorena chama de zona sul.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#866343;font-size:12px\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\"><em>&#8211; Trecho do livro<\/em> As meninas<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em <em>As meninas<\/em>, Lygia Fagundes Telles rompe com a produ\u00e7\u00e3o predominante de personagens femininas caricatas, limitadas a desejos f\u00fateis, referidas como loucas e postas \u00e0 margem da hist\u00f3ria. Ela d\u00e1 vida a tr\u00eas protagonistas: Lorena, Lia e Ana Clara. Dos personagens masculinos, o leitor pouco toma conhecimento; n\u00e3o de forma que estejam completamente exclu\u00eddos da obra, mas por ocuparem um papel de coadjuvantes na narrativa. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conhecida como a dama da literatura brasileira, Lygia passou a compor a lista de leituras obrigat\u00f3rias do vestibular da UFRGS. Segundo Cristiane Alves, p\u00f3s-doutoranda pelo Instituto de Letras e professora de Literatura Brasileira, o romance As meninas traz um novo f\u00f4lego para o conjunto de obras selecionadas pela banca. \u201cA inclus\u00e3o desse livro no vestibular da UFRGS d\u00e1 visibilidade a uma importante obra do cen\u00e1rio liter\u00e1rio nacional, de uma autora viva e celebrada, refor\u00e7ando o lugar das mulheres na literatura brasileira.\u201d<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Nathielle Nogueira, graduanda em Letras na UFRGS, o livro traz um olhar cr\u00edtico que problematiza a condi\u00e7\u00e3o feminina da \u00e9poca retratada. \u201cAs meninas, al\u00e9m de registrar um contexto s\u00f3cio-hist\u00f3rico, tamb\u00e9m d\u00e1 um testemunho das possibilidades de ser mulher naquele momento\u201d, pontua. A vida da autora pode ter tido uma contribui\u00e7\u00e3o significativa para a constru\u00e7\u00e3o da perspectiva liter\u00e1ria no romance: Lygia foi estudante de Direito, numa \u00e9poca em que o curso era frequentado majoritariamente por homens. Ela ocupava uma das seis cadeiras que tinham mulheres matriculadas; em contrapartida, havia mais de 100 homens compondo a mesma classe. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com a publica\u00e7\u00e3o da obra em 1973, em pleno per\u00edodo da ditadura civil-militar brasileira, a escritora demonstra coragem \u2013 n\u00e3o apenas por contextualizar o regime, mas tamb\u00e9m por denunciar os m\u00e9todos de tortura utilizados pelo governo \u00e0 \u00e9poca. Lygia diz que o livro s\u00f3 passou pelo \u00f3rg\u00e3o de controle da ditadura porque o respons\u00e1vel pela an\u00e1lise da obra desistiu da leitura antes de chegar aos pontos de cr\u00edtica ao regime.  <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Mesmo tendo sido escrito h\u00e1 quase cinco d\u00e9cadas, o romance aborda tem\u00e1ticas que, ainda hoje, s\u00e3o consideradas tabu, como drogas, liberdade sexual da mulher, aborto, abuso infantil e homossexualismo. Cristiane opina que, ao tratar desses temas, Lygia escrevia n\u00e3o s\u00f3 para al\u00e9m do seu tempo, como tamb\u00e9m do nosso. \u201cApesar de algumas conquistas, a liberdade, a exist\u00eancia, os direitos, os lugares e os pap\u00e9is das mulheres seguem sendo postos em d\u00favida e, n\u00e3o raro, s\u00e3o alvo de amea\u00e7as e ataques nos mais diversos estratos\u201d, observa.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Fluxo de consci\u00eancia<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No ano seguinte \u00e0 publica\u00e7\u00e3o, a obra arrebatou um pr\u00eamio Jabuti, o mais tradicional trof\u00e9u da literatura brasileira. A cerim\u00f4nia reconheceu o estilo certeiro de Lygia ao mergulhar o leitor no universo intimista. A autora constr\u00f3i sua narrativa a partir da ferramenta de fluxo de consci\u00eancia, ou seja, as tr\u00eas protagonistas fazem uso da narra\u00e7\u00e3o em primeira pessoa, alternando suas falas, pensamentos e opini\u00f5es. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escolha pela forma narrativa com v\u00e1rias vozes auxilia na percep\u00e7\u00e3o das diferentes personalidades das meninas. Lorena, oriunda de uma fam\u00edlia rica e tradicional, expressa-se de modo mais culto e formal quando est\u00e1 em sua posi\u00e7\u00e3o de fala. Lia usa uma linguagem mais coloquial para expressar suas ideias pol\u00edticas e revolucion\u00e1rias. Ana Clara, que lida com seu v\u00edcio em drogas, por vezes se expressa por pensamentos e manifesta\u00e7\u00f5es confusos e embaralhados \u2013 absorvendo o leitor para seu pequeno mundo ca\u00f3tico e alucinado.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nem sempre a composi\u00e7\u00e3o dos fatos decorre de forma linear, mas a partir da introspec\u00e7\u00e3o das personagens em suas pr\u00f3prias viv\u00eancias. \u201cAs tr\u00eas personagens fazem uma narra\u00e7\u00e3o que retoma o passado por meio da mem\u00f3ria, o que, por sua vez, lhes confere certa liberdade para narrar os fatos do modo como desejarem. A obra, portanto, traz uma pluralidade de olhares, o que nos permite compreender diferentes formas de se relacionar com uma mesma realidade\u201d, comenta Nathielle.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A p\u00f3s-doutoranda pondera que, na an\u00e1lise da obra, \u00e9 indispens\u00e1vel atentar para o contexto hist\u00f3rico, pol\u00edtico e social em que se situa. \u201c\u00c9 importante, ao longo da leitura, identificar as caracter\u00edsticas e as hist\u00f3rias de cada uma das personagens, descobrir quem narra cada um dos cap\u00edtulos ou trechos\u2019\u2019, diz Cristiane. \u201cOs leitores podem fazer liga\u00e7\u00f5es entre a repress\u00e3o e os tabus dos anos 1970, examinando o que mudou e o que permanece. \u00c9 poss\u00edvel analisar o discurso atual, especialmente quando se volta para as mulheres, verificando o quanto ainda conserva de preconceitos e moralismos\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Lygia-Faguntes-Telles-Gabriela-Loss.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3295\"\/><figcaption>Arte: Gabriela Loss<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201c\u2013 N\u00e3o quero ser rude, m\u00e3ezinha, mas acho completamente absurdo se preocupar com isso. 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