{"id":3302,"date":"2019-05-20T14:26:08","date_gmt":"2019-05-20T17:26:08","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=3302"},"modified":"2019-08-22T09:29:02","modified_gmt":"2019-08-22T12:29:02","slug":"o-outro-lado-da-historia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-outro-lado-da-historia\/","title":{"rendered":"O outro lado da hist\u00f3ria"},"content":{"rendered":"\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"567\" height=\"377\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/GSD_6498_GustavoDiehl-WEB.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3304\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/GSD_6498_GustavoDiehl-WEB.jpg 567w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/GSD_6498_GustavoDiehl-WEB-150x100.jpg 150w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/GSD_6498_GustavoDiehl-WEB-300x199.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/GSD_6498_GustavoDiehl-WEB-500x332.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/GSD_6498_GustavoDiehl-WEB-165x110.jpg 165w\" sizes=\"(max-width: 567px) 100vw, 567px\" \/><figcaption>Paulo S\u00e9rgio Silva \u00e9 professor de Hist\u00f3ria da Escola Municipal Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha (Foto: Gustavo Diehl\/ Secom)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Educa\u00e7\u00e3o<\/strong> | Lei que prev\u00ea ensino de hist\u00f3ria e cultura africana, afro-brasileira e ind\u00edgena, em vigor h\u00e1 mais de 15 anos, segue enfrentando desafios para sua implementa\u00e7\u00e3o<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"has-drop-cap wp-block-paragraph\">\u201cTodos aqui t\u00eam bunda?\u201d A curiosa provoca\u00e7\u00e3o desperta surpresa e algumas risadas nos educadores que participam da forma\u00e7\u00e3o oferecida pela Secretaria Municipal de Educa\u00e7\u00e3o (SMED) de Porto Alegre. Depois de alguns segundos, a coordenadora de Igualdade Racial e Diversidade da institui\u00e7\u00e3o, Patr\u00edcia Pereira, completa seu racioc\u00ednio: \u201cClaro que todos aqui t\u00eam bunda. E essa \u00e9 mais uma contribui\u00e7\u00e3o africana para a l\u00edngua portuguesa. A origem da palavra \u00e9 uma refer\u00eancia ao povo Mbunda, um dos tantos explorados e escravizados pelos portugueses\u201d. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O exemplo foi usado por Patr\u00edcia durante evento que tem como objetivo adequar as pol\u00edticas pedag\u00f3gicas das 99 escolas mantidas pelo munic\u00edpio e das 216 institui\u00e7\u00f5es particulares conveniadas para que cumpram o artigo 26-A da Lei de Diretrizes e Bases da Educa\u00e7\u00e3o Nacional, que determina o ensino de cultura e hist\u00f3ria afro-brasileira, africana e ind\u00edgena. Estabelecido em 2003 e reformulado pela Lei n.\u00ba 11.645, de 2008, o artigo ainda encontra obst\u00e1culos na pr\u00e1tica. \u201cH\u00e1 muitos professores que n\u00e3o tiveram esse estudo na forma\u00e7\u00e3o inicial e n\u00e3o foram atr\u00e1s. Existe muita resist\u00eancia, principalmente nos professores mais antigos e em pessoas ligadas a religi\u00f5es. Tem pessoas que questionam at\u00e9 a escravid\u00e3o e o holocausto. Se a terra \u00e9 plana, tudo \u00e9 poss\u00edvel\u201d, pondera.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A coordenadora lembra que o conhecimento produzido historicamente no continente africano pode ser usado em todas as \u00e1reas: \u201c\u00c0s vezes algum professor me pergunta: \u2018Mas como vou usar hist\u00f3ria da \u00c1frica para ensinar matem\u00e1tica?\u2019. Essa desinforma\u00e7\u00e3o se combate com conhecimento, porque nesses casos eu pergunto: \u2018Onde surgiu a matem\u00e1tica? E a geometria? Qual o primeiro estudo aritm\u00e9tico que tem no mundo? J\u00e1 ouviu falar no osso de Lebombo? [Descoberto na Suazil\u00e2ndia, o osso de Lebombo \u00e9 considerado o mais antigo artefato matem\u00e1tico de que se tem conhecimento. Acredita-se que o osso de babu\u00edno com entalhes fosse usado para registrar a passagem do tempo e c\u00e1lculos. Sua idade \u00e9 estimada em 35 mil anos.] Est\u00e1 tudo na \u00c1frica, que \u00e9 o ber\u00e7o da humanidade. \u00c0s vezes o professor cobra conhecimento cient\u00edfico, mas o que considera ci\u00eancia? Pede para tratarmos de civiliza\u00e7\u00f5es, mas qual o conceito de civiliza\u00e7\u00e3o? Hoje em dia h\u00e1 dados dispon\u00edveis, muito dif\u00edcil n\u00e3o achar material, s\u00f3 se n\u00e3o quiser. Mas a\u00ed \u00e9 porque o preconceito \u00e9 maior que a vontade de conhecimento\u201d. <br><\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Perspectiva<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Professor da rede p\u00fablica desde 1998, Paulo S\u00e9rgio Silva confirma a falha na forma\u00e7\u00e3o dos educadores. \u201cNa faculdade n\u00e3o tive nenhuma cadeira sobre hist\u00f3ria da \u00c1frica. Fui aprender em cursos de fora, assim como com a milit\u00e2ncia do movimento negro. E boa parte da reflex\u00e3o sobre o ensino da cultura e hist\u00f3ria africanas e afro-brasileiras n\u00e3o surge da academia, mas desses movimentos sociais. A primeira vers\u00e3o da lei \u00e9 de 2003; j\u00e1 estamos em 2019 e ano passado a Universidade colocou uma disciplina obrigat\u00f3ria sobre hist\u00f3ria da \u00c1frica na licenciatura.\u201d<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essas lacunas se refletem n\u00e3o s\u00f3 no ensino, mas no interesse despertado nos alunos. \u201c\u00c9 importante resgatar a hist\u00f3ria da \u00c1frica com um vi\u00e9s positivo, e n\u00e3o s\u00f3 a partir da escravid\u00e3o, como \u00e9 usual nas escolas. Um aluno olha pra tr\u00e1s e vai dizer: \u2018O meu tatarav\u00f4 apanhava, eu n\u00e3o quero ver isso, \u00e9 s\u00f3 desgra\u00e7a e sofrimento\u2019. E n\u00e3o vai querer refletir sobre isso\u201d, observa. Para Paulo, \u00e9 essencial mostrar as grandes potencialidades desenvolvidas no continente ao longo do tempo, lembrar que antes da Gr\u00e9cia antiga, antes do Imp\u00e9rio romano havia o imp\u00e9rio da N\u00fabia, o reino de Kush e o Egito, que muitas vezes \u00e9 tratado como se n\u00e3o fosse na \u00c1frica. \u201cA perspectiva hist\u00f3rica ensinada na universidade \u00e9 euroc\u00eantrica, ent\u00e3o acaba se relegando a um plano inferior toda a contribui\u00e7\u00e3o de outros lugares, como da \u00c1frica, da \u00c1sia e dos povos origin\u00e1rios das Am\u00e9ricas\u201d, aponta o professor, que leciona na Escola Municipal Dr. Liberato Salzano Vieira da Cunha.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Localizada no bairro Sarandi, zona norte da capital, a institui\u00e7\u00e3o abriga muitos alunos que vivem na pele a liga\u00e7\u00e3o que une passado e presente de comunidades desfavorecidas historicamente. \u201c\u00c9 importante aprender a hist\u00f3ria, porque a gente vive um sistema de explora\u00e7\u00e3o do capital que tem uma estrutura pol\u00edtico-econ\u00f4mica que coloca o continente africano em situa\u00e7\u00e3o de desvantagem. Boa parte dos nossos alunos de escola p\u00fablica tem condi\u00e7\u00e3o pol\u00edtica e socioecon\u00f4mica semelhante a dessas pessoas.\u201d<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Fiscaliza\u00e7\u00e3o<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os ind\u00edcios de resist\u00eancia na implementa\u00e7\u00e3o da lei levaram \u00e0 necessidade de fiscaliza\u00e7\u00e3o da pr\u00e1tica cotidiana das escolas. Em 2012, um grupo de educadores e agentes da Procuradoria do estado constituiu o Grupo de Trabalho (GT) 26-A.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira a\u00e7\u00e3o do grupo foi enviar um question\u00e1rio aos \u00f3rg\u00e3os municipais de educa\u00e7\u00e3o para aferir o cumprimento da regra. Segundo o procurador do estado Jorge Terra, integrante do GT, a a\u00e7\u00e3o \u00e9 importante para demarcar a obrigatoriedade do ensino das quest\u00f5es hist\u00f3ricas e culturais africanas e ind\u00edgenas. \u201cO fato \u00e9 que algumas pessoas da educa\u00e7\u00e3o j\u00e1 tratavam com a legisla\u00e7\u00e3o e sab\u00edamos que havia iniciativas pontuais. O que \u00e9 confundido com cumprir a lei. \u00c9 bom que se diga que ela n\u00e3o \u00e9 direcionada ao professor, mas aos gestores da Educa\u00e7\u00e3o, porque tem que estar no curr\u00edculo, no plano pol\u00edtico-pedag\u00f3gico, e a\u00ed, sim, chegar ao plano de aula do professor. Ent\u00e3o envolve secret\u00e1rios de educa\u00e7\u00e3o, prefeitos e coordenadores. N\u00f3s n\u00e3o capacitamos professores para trabalhar estas tem\u00e1ticas, mas auditores\u201d, destaca.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"> O procurador lembra um caso que considera emblem\u00e1tico para ilustrar a falta de compreens\u00e3o do tema por alguns gestores de escolas. \u201cUm munic\u00edpio nos respondeu que estava cumprindo a determina\u00e7\u00e3o porque trabalhava com a obra <em>Menina bonita do la\u00e7o de fita<\/em>, um livro infantil em que um coelho quer ser preto porque se apaixonou por uma menina negra\u201d, relembra at\u00f4nito.  <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A n\u00e3o inclus\u00e3o de tem\u00e1ticas \u00e9tnico-raciais \u00e9 descumprimento da lei e pode inclusive impedir o funcionamento das institui\u00e7\u00f5es, como lembra Patr\u00edcia. Para avaliar o cumprimento da norma, foi feito um levantamento dos documentos legais das escolas de Porto Alegre. \u201cSe a escola n\u00e3o tiver nos seus documentos legais essas previs\u00f5es, n\u00e3o renova a autoriza\u00e7\u00e3o de abertura, o que \u00e9 necess\u00e1rio a cada 5 ou 8 anos, dependendo da modalidade da institui\u00e7\u00e3o.\u201d Isso para garantir que se concretize o que est\u00e1 previsto na Constitui\u00e7\u00e3o, a forma\u00e7\u00e3o do cidad\u00e3o a partir da educa\u00e7\u00e3o b\u00e1sica. \u201cEste \u00e9 o n\u00edvel de responsabilidade que temos. O produto da escola e do trabalho do educador tem que ser um cidad\u00e3o. Que cidad\u00e3o est\u00e1 saindo da escola?\u201d, questiona-se.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-very-light-gray-background-color wp-block-paragraph\"><em><strong>Olhar de rep\u00f3rter<\/strong><br><br>O fator mais interessante nesta pauta foram as entrevistas. As tr\u00eas fontes falaram com muito embasamento e demonstraram como a quest\u00e3o tratada \u00e9 cara a eles. Algu\u00e9m poder\u00e1 apontar, e estar\u00e1 correto, que isso \u00e9 um desdobramento do racismo que os entrevistados, os tr\u00eas negros, vivem e observam cotidianamente. Mas disto eles extra\u00edram for\u00e7a e conseguem ser lutadores contra o racismo e em prol do resgate hist\u00f3rico das popula\u00e7\u00f5es africanas, afro-brasileiras e ind\u00edgenas. <\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Educa\u00e7\u00e3o | Lei que prev\u00ea ensino de hist\u00f3ria e cultura africana, afro-brasileira e ind\u00edgena, em vigor h\u00e1 mais de 15 anos, segue enfrentando desafios para sua implementa\u00e7\u00e3o \u201cTodos aqui t\u00eam bunda?\u201d A curiosa provoca\u00e7\u00e3o desperta surpresa e algumas risadas nos educadores que participam da forma\u00e7\u00e3o oferecida pela Secretaria Municipal de<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/o-outro-lado-da-historia\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":8,"featured_media":3380,"comment_status":"closed","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[382],"tags":[279,280,281,278,282],"ppma_author":[2951],"class_list":["entry","author-emerson-trindade-acosta","post-3302","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-uncategorized","tag-cultura-africana","tag-cultura-afro-brasileira","tag-cultura-indigena","tag-educacao","tag-historia"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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