{"id":33856,"date":"2021-07-01T09:02:00","date_gmt":"2021-07-01T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=33856"},"modified":"2021-07-01T12:50:25","modified_gmt":"2021-07-01T15:50:25","slug":"a-antropologia-de-um-terreiro-amazonico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-antropologia-de-um-terreiro-amazonico\/","title":{"rendered":"A antropologia de um terreiro amaz\u00f4nico"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Doutorando em Antropologia, Hermes de Sousa Veras especula o caminho de sua disserta\u00e7\u00e3o junto a um terreiro de Mina Nag\u00f4 em Ananindeua (PA), agora transformada em livro, at\u00e9 a estante de seu principal informante<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Hermes de Sousa Veras<br>*Foto de capa: Karina Martins<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Amaz\u00f4nia \u00e9 umas das regi\u00f5es que mais sofre de percep\u00e7\u00f5es preconceituosas e deformadas sobre a sua realidade e o seu contexto. Geralmente o restante do pr\u00f3prio Brasil ignora a diversidade \u00e9tnico-racial e cultural que h\u00e1 nela. Sabe-se, por meio de uma extensa bibliografia, que n\u00e3o se pode compreender a Amaz\u00f4nia ignorando a exist\u00eancia de popula\u00e7\u00f5es, comunidades e tradi\u00e7\u00f5es diversas resultantes da di\u00e1spora africana. Essa \u00eanfase j\u00e1 \u00e9 dada pelos estudos amaz\u00f4nicos h\u00e1 algum tempo, perpassando por Nunes Pereira e Vicente Salles e desembocando na importante contribui\u00e7\u00e3o de Marilu Campelo, Raimundo de Jesus e Z\u00e9lia Amador de Deus em <em>Entre os rios e as florestas<\/em>: <em>perspectivas, mem\u00f3rias e narrativas de negros em movimento<\/em> (2014).\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A minha pesquisa de mestrado \u00e9 tribut\u00e1ria desses estudos e foca nas religi\u00f5es de matriz africana na Amaz\u00f4nia paraense. Comentarei neste espa\u00e7o a passagem dessa pesquisa para a sua publica\u00e7\u00e3o em livro.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A transforma\u00e7\u00e3o da disserta\u00e7\u00e3o <em>O sacerdote e o aprendiz: etnografia, experi\u00eancia e ritual em um terreiro de Mina Nag\u00f4 na Amaz\u00f4nia (Ananindeua-PA)<\/em> &#8211; pesquisa de mestrado desenvolvida no Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Antropologia da Universidade Federal do Par\u00e1 sob a orienta\u00e7\u00e3o do professor Agenor Sarraf Pacheco e defendida no ano de 2015 &#8211; em <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.editoraletramento.com.br\/produto\/o-sacerdote-e-o-aprendiz-antropologia-de-um-terreiro-amazonico-538\" target=\"_blank\"><em>O sacerdote e o aprendiz: antropologia de um terreiro amaz\u00f4nico<\/em><\/a> se deu basicamente em uma nova revis\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o do texto, al\u00e9m de consulta cont\u00ednua ao terreiro, centro irradiador da pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O Terreiro de Mina Deus Esteja Contigo foi fundado em 1988 por Pai \u00c1lvaro Pizarro, sacerdote que nasceu em S\u00e3o Paulo. No sudeste, vivenciou diversas religi\u00f5es, especialmente a umbanda, na regi\u00e3o do ABCD paulista, e o budismo. Em certa altura de sua vida, passou por diversos eventos que o trouxeram para Bel\u00e9m do Par\u00e1. Dessa forma, um homem branco do sudeste se muda para o Norte para ser iniciado nas tradi\u00e7\u00f5es de pajelan\u00e7a e de matriz africana do lugar. O terreiro, localizado na periferia da Grande Bel\u00e9m, mais especificamente em Ananindeua, \u00e9 de na\u00e7\u00e3o Mina Nag\u00f4. Comp\u00f5e e transforma os fundamentos passados por M\u00e3e Maraj\u00f3, uma curadora marajoara e experiente da na\u00e7\u00e3o Mina amplamente conhecedora da pajelan\u00e7a amaz\u00f4nica. Tamb\u00e9m recebeu fundamenta\u00e7\u00e3o de um experiente babalorix\u00e1 de na\u00e7\u00e3o Ketu.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A disserta\u00e7\u00e3o, dividida em quatro cap\u00edtulos, ensaiou a rela\u00e7\u00e3o entre a hist\u00f3ria de vida do sacerdote e a estrutura ritual apresentada no terreiro, principalmente as giras: toques de tambor fundamentados nos orix\u00e1s, nos caboclos e caboclas, encantados e encantadas e outras entidades espirituais, assim como na mesa branca, ritual de fundo kardecista praticado dentro do terreiro. Al\u00e9m disso, dissertou sobre aquilo que denominei apreens\u00e3o cosmol\u00f3gica de livros. Pai \u00c1lvaro, sendo leitor, me sugeria leituras e emprestava livros. Primeiro, trouxe obras cl\u00e1ssicas dos estudos de religi\u00f5es de matriz africana no Par\u00e1; depois, alguns livros de teologia umbandista. Sendo um tema amplamente discutido na bibliografia, mas menos abordado nas pesquisas emp\u00edricas, trouxe para a disserta\u00e7\u00e3o a percep\u00e7\u00e3o de Pai \u00c1lvaro sobre a leitura e os livros e o modo como as concep\u00e7\u00f5es cosmol\u00f3gicas do terreiro atravessavam essa elabora\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sendo que as entidades e outros seres atuantes na comunidade do terreiro tangenciam toda a pesquisa e sua escrita, n\u00e3o deixei de consultar a pr\u00f3pria Dona Maria Padilha, que irradia Pai \u00c1lvaro, sobre a possibilidade de publicar a pesquisa em formato de livro. Maria Padilha disse que poderia, mas havia a necessidade de acrescentar \u201calgumas coisas, retirar outras\u201d. Assim, antes mesmo de enviar para a temporada de originais da editora Letramento de Belo Horizonte, reli o trabalho, alterando alguns equ\u00edvocos e atualizando parte de algumas informa\u00e7\u00f5es. Consultei o jogo de b\u00fazios com Pai \u00c1lvaro sobre o livro, e ele foi dado como realidade, sendo aceito tanto pela editora quanto pela comunidade do terreiro. Toda essa preocupa\u00e7\u00e3o percorre a pesquisa.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O livro mant\u00e9m os cap\u00edtulos e t\u00edtulos. As altera\u00e7\u00f5es foram pontuais e de revis\u00e3o e prepara\u00e7\u00e3o. O percurso interessa porque ao longo da etnografia Pai \u00c1lvaro menciona, como j\u00e1 disse, outras obras. Durante o trabalho de campo, a antrop\u00f3loga Ana\u00edza Vergolino, que defendeu a sua disserta\u00e7\u00e3o sobre a Federa\u00e7\u00e3o Esp\u00edrita Umbandista e dos cultos afro-brasileiros do Par\u00e1 (FEUCAPEB) em 1976 na UNICAMP, publicou a sua pesquisa em livro, intitulado <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.editorapakatatu.com.br\/product-page\/tambor-das-flores\" target=\"_blank\"><em>Tambor das flores<\/em><\/a>. Isso foi bastante comentado por Pai \u00c1lvaro e lemos e comentamos o livro conjuntamente. A transforma\u00e7\u00e3o dessa pesquisa em um material que compor\u00e1 a estante de Pai \u00c1lvaro elabora, portanto, um c\u00edrculo metaetnogr\u00e1fico, em que se alimentam de forma c\u00e9lere as express\u00f5es orais e escrita, sendo a passagem da oralidade para a escrita sempre uma opera\u00e7\u00e3o complexa e que n\u00e3o exclui o agenciamento dos seres que comp\u00f5em o terreiro.&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sobre a altera\u00e7\u00e3o do subt\u00edtulo do escrito, j\u00e1 existia na disserta\u00e7\u00e3o a proposta de que o terreiro e as Comunidades Tradicionais de Terreiro (CTTro), para utilizarmos a categoria expressa no livro <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/feminismosplurais.com.br\/produto\/intolerancia-religiosa\/\" target=\"_blank\"><em>Intoler\u00e2ncia religiosa<\/em><\/a>, escrito por Sidney Nogueira, doutor em semi\u00f3tica e babalorix\u00e1, possuem sua pr\u00f3pria antropologia. Sabemos que o conhecimento n\u00e3o \u00e9 fragmentado para essas comunidades, por conseguinte poderia dizer que o terreiro possui outras ci\u00eancias. Como ainda acredito que a antropologia \u00e9 esse comp\u00f3sito hol\u00edstico que percorre as experi\u00eancias e formas de estar, habitar e produzir o mundo, n\u00e3o \u00e9 de todo mal, contudo, considerar que um terreiro faz a sua peculiar antropologia e, por consequ\u00eancia, nos ensina a aprender com a diferen\u00e7a.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"683\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Karina-Martins_2021-06-30-at-12.01.09-1024x683.jpeg\" alt=\"\" data-id=\"33984\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Karina-Martins_2021-06-30-at-12.01.09.jpeg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/karina-martins_2021-06-30-at-12-01-09\/\" 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O ensaio, realizado entre 2017 e 2019 pela fot\u00f3grafa paraense Karina Martins, \u00e9 parte de sua pesquisa documental sobre religi\u00f5es de matriz africana, sincretismo religioso e manifesta\u00e7\u00f5es de cultura popular<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/0623441518771115\" target=\"_blank\">Hermes de Sousa Veras<\/a> \u00e9 antrop\u00f3logo e escritor, aluno de doutorado em Antropologia Social pela UFRGS.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<section id=\"section-b5be7ab6-ce3d-4920-9a00-4e0b63a30c04\" class=\"wp-block-gutentor-author-profile gutentor-section  gutentor-author author-profile-template1 has-gutentor-block-shape-top has-gutentor-block-shape-bottom\"><div class=\"gutentor-block-shape-top\"><span><svg viewBox=\"0 0 1280 140\" preserveAspectRatio=\"none\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><g><path d=\"M0 140h1280C573.08 140 0 0 0 0z\" style=\"transform: rotate(180deg); transform-origin:50% 50%;\"\/><\/g><\/svg><\/span><\/div><div class=\"grid-container\"><div class=\"gutentor-block-header\"><div class=\"gutentor-section-title text-center\"><h2 class=\"gutentor-title\">Especial Amaz\u00f4nia<\/h2><\/div><\/div><div class=\"gutentor-grid-item-wrap\"><div class=\"gutentor-single-item\"><div class=\"gutentor-single-item-content\"><div class=\"gutentor-single-item-image-box\"><div class=\"gutentor-image-thumb\"><img decoding=\"async\" class=\"normal-image\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/Karina-Martins_2021-06-30-at-12.01.24.jpeg\" alt=\"\"\/><\/div><\/div><div class=\"gutentor-author-content\"><div class=\"gutentor-author-detail\"><\/div><div class=\"gutentor-single-item-desc\"><p class=\"gutentor-single-item-desc\">As imagens publicadas com este artigo s\u00e3o de <a href=\"https:\/\/www.instagram.com\/karina_martins___\/\">Karina Martins<\/a>, fot\u00f3grafa de Bel\u00e9m do Par\u00e1, onde reside e trabalha. Karina tem forma\u00e7\u00e3o em livre em fotografia, com pesquisa documental sobre religi\u00f5es de matriz africana, sincretismo religioso e manifesta\u00e7\u00f5es de cultura popular. Tamb\u00e9m trabalha po\u00e9ticas visuais com lugares de afeto e mem\u00f3ria, usando a fotografia experimental como suporte.<\/p><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><\/div><div class=\"gutentor-block-shape-bottom\"><span><svg viewBox=\"0 0 1280 140\" preserveAspectRatio=\"none\" xmlns=\"http:\/\/www.w3.org\/2000\/svg\"><g><path d=\"M0 140h1280C573.08 140 0 0 0 0z\" style=\"transform: rotate(180deg); transform-origin:50% 50%;\"\/><\/g><\/svg><\/span><\/div><\/section>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Doutorando em Antropologia, Hermes de Sousa Veras especula o caminho de sua disserta\u00e7\u00e3o junto a um terreiro de Mina Nag\u00f4 em Ananindeua (PA), agora transformada em livro, at\u00e9 a estante de seu principal informante<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-antropologia-de-um-terreiro-amazonico\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":33986,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[887,2320,2319,2317,2318,2316],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-33856","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-antropologia","tag-estudos-afro-brasileiros","tag-etnografia","tag-mina-nago","tag-tambor-de-mina","tag-umbanda"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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