{"id":34298,"date":"2021-07-08T09:02:00","date_gmt":"2021-07-08T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=34298"},"modified":"2021-07-08T12:10:26","modified_gmt":"2021-07-08T15:10:26","slug":"sobre-o-direito-de-imaginar-e-criar-futuros","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/sobre-o-direito-de-imaginar-e-criar-futuros\/","title":{"rendered":"Sobre o direito de imaginar e criar futuros"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | O estudante de Hist\u00f3ria Jean Nunes Pinto e Nilton Mullet Pereira, professor da Faced, prop\u00f5em o uso de s\u00e9ries televisivas em sala de aula para refletir sobre o passado e o presente<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Jean Nunes Pinto e Nilton Mullet Pereira<br>*Foto de capa: Frames do trailer da s\u00e9rie Watchmen (2019), produzida pela HBO, dispon\u00edveis na plataforma Youtube<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O fascinante mundo das s\u00e9ries de televis\u00e3o tem criado formas muito sofisticadas de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/seer.ufrgs.br\/revistadolhiste\/article\/view\/63543\/36956\" target=\"_blank\">narrar o passado e de problematizar o presente<\/a>. S\u00e3o in\u00fameros os exemplos desses produtos culturais que habitam a televis\u00e3o h\u00e1 muito tempo e que agora est\u00e3o dispon\u00edveis tamb\u00e9m nas plataformas de <em>streaming<\/em>. Poder\u00edamos dar exemplos de uma quantidade significativa desses produtos culturais que nos convidam a pensar sobre o que aconteceu, sobre o que acontece ou, ainda, sobre o que poderia ter acontecido na hist\u00f3ria. O sucesso de <em>Game of Thrones,<\/em> <em>Outlander<\/em> ou <em>Vikings<\/em> mostra que os temas de reis e de rainhas, da nobreza ou mesmo dos mitos n\u00f3rdicos s\u00e3o os mais recorrentes, mas, certamente, as S\u00e9ries recobrem um universo de quest\u00f5es muito mais amplo.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O passado, o presente e a imagina\u00e7\u00e3o sobre o futuro s\u00e3o recortes que nos permitem supor que as S\u00e9ries podem ser f\u00e1bricas de hist\u00f3rias, de cr\u00edtica e de pensamento. Neste artigo, vamos examinar uma dessas S\u00e9ries, a norte-americana <em>Watchmen<\/em> (2019)<em>,<\/em> da rede HBO. <em>Watchmen<\/em> n\u00e3o apenas trata de um aspecto importante do passado dos Estados Unidos (<a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.cafehistoria.com.br\/o-massacre-de-tulsa\/\" target=\"_blank\">o massacre da comunidade negra em Tulsa, Oklahoma),<\/a> como nos faz questionar o presente (especificamente, o negacionismo hist\u00f3rico, o racismo e a discrimina\u00e7\u00e3o) e nos convida a imaginar o futuro. Este artigo prop\u00f5e um debate sobre como a Hist\u00f3ria, conte\u00fado de ensino da Escola B\u00e1sica, pode aprender com o tipo de rela\u00e7\u00e3o com o tempo que a S\u00e9rie nos proporciona, permitindo, num di\u00e1logo com a Hist\u00f3ria e com diversos outros saberes, aprender sobre o passado, sobre n\u00f3s mesmos e constituir alternativas para o futuro.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Watchmen: os quadrinhos e a S\u00e9rie<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os anos 1980 foram m\u00e1gicos e revolucion\u00e1rios para a arte dos quadrinhos. Em primeiro lugar, porque muitas das produ\u00e7\u00f5es deste per\u00edodo assumiram uma forte cr\u00edtica social, algo at\u00e9 ent\u00e3o incomum. Ademais, muitas dessas novas hist\u00f3rias eram escritas para um p\u00fablico adulto. A DC Comics, uma das maiores editoras de quadrinhos do mundo, controlada pela Warner Media, esteve \u00e0 frente desse processo. Ela foi respons\u00e1vel pela publica\u00e7\u00e3o de obras que se tornaram paradigm\u00e1ticas da nova \u201carte sequencial\u201d, caso de <em>Batman: O Cavaleiro das Trevas <\/em>(hist\u00f3ria de Frank Miller, com ilustra\u00e7\u00f5es de <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.google.com\/search?q=Frank+Miller&amp;stick=H4sIAAAAAAAAAOPgE-LVT9c3NEwqTyspTK9KV-LQz9U3yCpIydOSzE620k_Kz88GE1aZOTmlxSVFiSX5RYtYedyKEvOyFXyBgqlFO1gZAT7lpMlIAAAA&amp;sa=X&amp;ved=2ahUKEwiEsdzOuebqAhXTCtQKHZGqCJwQmxMoATAjegQICRAD\" target=\"_blank\">Frank Miller<\/a>, Lynn Varley, Klaus Janson) e de <em>Watchmen<\/em>, escrito por Alan Moore e com desenhos de Dave Gibbons.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2019, o roteirista e produtor Damon Lindelof, cocriador e produtor executivo da S\u00e9rie <em>Lost<\/em>, adaptou <em>Watchmen<\/em> para a televis\u00e3o. Em <em>Watchmen<\/em>, a S\u00e9rie televisiva, a detetive Angela Abar (Regina King) usa a identidade secreta da personagem Sister Night para investigar um antigo grupo de supremacistas brancos, mais conhecido como a S\u00e9tima Kavalaria, respons\u00e1vel, h\u00e1 d\u00e9cadas, por in\u00fameros ataques racistas nos Estados Unidos. A S\u00e9rie se passa em uma realidade alternativa na qual os Estados Unidos venceram a Guerra do Vietn\u00e3 e o transformaram em mais um estado americano, gra\u00e7as \u00e0 ajuda de um \u201csuper-her\u00f3i\u201d chamado Dr. Manhattan (Jonathan Osterman). Nessa realidade, os supremacistas brancos (que querem os poderes excepcionais do Dr. Manhattan) est\u00e3o infiltrados na pol\u00edtica e no poder, e a maioria dos \u201cverdadeiros her\u00f3is\u201d da hist\u00f3ria n\u00e3o possuem superpoderes; s\u00e3o pessoas comuns, via de regra, policiais que defendem a sociedade escondidos por tr\u00e1s de m\u00e1scaras, de modo a n\u00e3o serem reconhecidos. Esses acontecimentos ocorreriam 34 anos ap\u00f3s a hist\u00f3ria da HQ.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O centro da problem\u00e1tica que nos levou \u00e0 essa S\u00e9rie foi o fato de ela imaginar uma sociedade em que pessoas negras passaram a ter acesso aos bens, e isso despertou a ira de pessoas que n\u00e3o aceitavam tal situa\u00e7\u00e3o, particularmente os supremacistas brancos da S\u00e9tima Kavalaria. Desse modo, a rea\u00e7\u00e3o \u00e0 perda de privil\u00e9gios foi forte e violenta. A partir de um acontecimento muito triste na hist\u00f3ria dos EUA, o massacre de Tulsa, <em>Watchmen<\/em> se prop\u00f5e a imaginar como seria uma sociedade na qual, ap\u00f3s o referido massacre, pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o \u00e0 popula\u00e7\u00e3o negra passam a ser levadas a efeito. E a rea\u00e7\u00e3o a esse novo mundo imagin\u00e1rio e aos atentados contra a popula\u00e7\u00e3o negra &#8211; que se passam nos tempos atuais, em 2019 &#8211; foi o renascimento da KKK, na forma da S\u00e9tima Kavalaria, tendo como base discursos negacionistas que procuravam minimizar os efeitos da escraviza\u00e7\u00e3o e do racismo, num evidente processo de culpabiliza\u00e7\u00e3o das v\u00edtimas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O massacre de Tulsa foi o acontecimento hist\u00f3rico fonte das primeiras cenas do epis\u00f3dio inicial da S\u00e9rie. O bairro de Greenwood, em Tulsa, ficou conhecido, no in\u00edcio do s\u00e9culo XX, como a Wall Street Negra &#8211; <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/www.geledes.org.br\/o-massacre-que-destruiu-a-wall-street-negra-ha-quase-cem-anos-e-voltou-a-tona-na-serie-watchmen\/\" target=\"_blank\">\u201cuma das mais bem-sucedidas comunidades negras em um pa\u00eds que somente poucas d\u00e9cadas antes havia abolido a escravid\u00e3o\u201d<\/a> &#8211; e atraiu empreendedores e comerciantes negros. A prosperidade da comunidade negra de Tulsa e as tens\u00f5es raciais que faziam parte da vida dos estadunidenses est\u00e3o na base desse massacre. Em 1920, mais de mil estabelecimentos da Wall Street Negra foram saqueados e incendiados; historiadores apontam que aproximadamente 300 pessoas foram mortas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A S\u00e9rie explora adequadamente esse evento, uma vez que a ascens\u00e3o social e a qualidade de vida das popula\u00e7\u00f5es negras l\u00e1 nos anos 20 e aqui no s\u00e9culo XXI acendem e intensificam tanto o negacionismo quanto a rea\u00e7\u00e3o \u00e0s pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o e \u00e0s pol\u00edticas afirmativas existentes hoje n\u00e3o s\u00f3 nos EUA como no Brasil. A S\u00e9rie enfatiza, por exemplo, que no ano de 2019 foi <a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"https:\/\/brasil.elpais.com\/brasil\/2019\/10\/20\/cultura\/1571524326_479680.html\" target=\"_blank\">\u201caprovada uma lei sobre V\u00edtimas da Viol\u00eancia Racial que pretende reparar as v\u00edtimas e os descendentes de v\u00edtimas de crimes de \u00f3dio racial ao longo da hist\u00f3ria\u201d<\/a>. Essa pol\u00edtica de repara\u00e7\u00e3o \u00e9 alvo dos novos supremacistas brancos, a S\u00e9tima Kavalaria.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p><em>Watchmen<\/em> nos auxilia a mostrar para os estudantes o qu\u00e3o nefastas s\u00e3o as atitudes de supremacistas brancos e de todas as pessoas que, nos tempos atuais, desde sua suposta humanidade, continuam a prolongar as hierarquias raciais e sociais por meio da continuidade de discursos negacionistas. <em>Watchmen<\/em> mostra o que poderia acontecer se as a\u00e7\u00f5es afirmativas conseguissem atingir a todos que necessitam delas. Nessa sociedade imagin\u00e1ria, podemos ver pessoas negras com carros de classe m\u00e9dia, morando em um bairro suburbano, tendo uma qualidade de vida que est\u00e1 longe de ser a realidade de muitos brasileiros e de muitos estadunidenses. A S\u00e9rie se esfor\u00e7a em mostrar tamb\u00e9m que os negacionistas e supremacistas de todo o tipo negam a igualdade racial e social, agindo para sabotar essas conquistas.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O uso de uma S\u00e9rie como <em>Watchmen<\/em> pode ser um modo de, por um lado, deixar a sala de aula habitada por rela\u00e7\u00f5es com o passado que n\u00e3o apenas a mediada pela Hist\u00f3ria dos historiadores e, com humildade, podermos utilizar a pot\u00eancia imaginativa da arte para aprender hist\u00f3ria e para problematizar o presente. Por outro lado, a complexidade do modo como a S\u00e9rie aborda o tema do racismo, do negacionismo e do futuro nos permite potencializar a cria\u00e7\u00e3o e a a\u00e7\u00e3o dos jovens em rela\u00e7\u00e3o a si mesmos e ao seu mundo. Isso se d\u00e1 na medida em que s\u00e3o levados a pensar em seu lugar e no modo como se comportam diante do racismo e diante de um mundo constru\u00eddo na base de privil\u00e9gios para, ent\u00e3o, imaginar novos futuros.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-2 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Captura-de-Tela-2021-07-06-a\u0300s-10.36.28.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"516\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Captura-de-Tela-2021-07-06-a\u0300s-10.36.28.jpg\" alt=\"\" data-id=\"34446\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/07\/Captura-de-Tela-2021-07-06-a\u0300s-10.36.28.jpg\" 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trailer da s\u00e9rie Watchmen (2019), produzida pela HBO, dispon\u00edveis na plataforma Youtube<\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Imagina\u00e7\u00e3o e aula de Hist\u00f3ria combatendo o racismo<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Certamente, nos tempos p\u00f3s-pandemia, nossas aulas de Hist\u00f3ria ser\u00e3o levadas a debates muito importantes sobre a natureza do conhecimento que produzimos sobre o passado e sobre os modos pelos quais, hoje, esse conhecimento tem sido continuamente contestado por movimentos, nada recentes, que chamamos de negacionistas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Isso implica contestar as pr\u00e1ticas negacionistas e, ao mesmo tempo, devolver \u00e0 Hist\u00f3ria e ao seu ensino uma po\u00e9tica e uma pol\u00edtica da imagina\u00e7\u00e3o, ensejando que se possa ter o passado como uma abertura inesgot\u00e1vel para imaginar futuros.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, pensamos em aprender com outros modos de constituir rela\u00e7\u00f5es com o passado, como as S\u00e9ries televisivas ou as hist\u00f3rias em quadrinhos, que conseguem imaginar mundos que ainda n\u00e3o existem, mas que t\u00eam uma dimens\u00e3o pol\u00edtica e \u00e9tica de alta significa\u00e7\u00e3o para contestar a aridez e a clausura produzidas pelos negacionismos e pelo racismo, bem como pelas hierarquias sociais, raciais ou de g\u00eanero com as quais convivemos hoje. E, por isso, pensamos que <em>Watchmen<\/em> pode ser uma entrada muito rica no universo da imagina\u00e7\u00e3o, com uma forte cr\u00edtica \u00e0 realidade das rela\u00e7\u00f5es raciais de ontem e de hoje.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Logo, pensamos que imaginar o passado e o futuro n\u00e3o s\u00e3o atitudes desinteressadas, mas respostas alternativas aos problemas do nosso presente. Assim, imaginar o passado, desde a pesquisa historiogr\u00e1fica, implica um comprometimento \u00e9tico com o presente, com as pessoas e com os seres que habitam a Terra. Isso quer dizer que quando estudamos o passado nunca o fazemos sem uma inser\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m no presente e no futuro. O passado \u00e9 um repert\u00f3rio de experi\u00eancias que nos permitem aprender sobre ele e sobre n\u00f3s mesmos. \u00c9 o que nos ensina <em>Watchmen<\/em> ao tematizar o massacre de Tulsa. Quando nos pomos a assistir a uma S\u00e9rie como essa e a inseri-la em uma aula de Hist\u00f3ria, estamos em busca de oferecer de uma s\u00f3 vez a problematiza\u00e7\u00e3o do passado, do presente e do futuro. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>E a\u00ed podemos elaborar perguntas: como nos tornamos racistas?; como se constitu\u00edram rela\u00e7\u00f5es hier\u00e1rquicas baseadas na cor da pele?; como, ainda hoje, no Brasil, a desigualdade racial \u00e9 elemento central para o acesso aos bens p\u00fablicos e para a pr\u00f3pria prote\u00e7\u00e3o \u00e0 vida?; como, ainda hoje, pessoas negam que tenha ocorrido a escraviza\u00e7\u00e3o?; como podem existir movimentos que contestam as pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o e as pol\u00edticas afirmativas?.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desse modo, n\u00e3o \u00e9 de surpreender que o negacionismo tenha ganhado tanto espa\u00e7o nos tempos atuais. Como na imagina\u00e7\u00e3o de <em>Watchmen<\/em>, que cria os supremacistas da S\u00e9tima Kavalaria para frear o avan\u00e7o das pol\u00edticas de repara\u00e7\u00e3o e o bem-estar dos negros e das negras, o negacionismo, aqui, na realidade brasileira, produz efeitos catastr\u00f3ficos: h\u00e1 uma s\u00e9rie de tentativas de comprovar teses estranhas \u00e0 verdade hist\u00f3rica, tendo como base apenas opini\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o criadas a partir de documentos ou fontes da \u00e9poca &#8211; fontes estas que d\u00e3o seriedade e consist\u00eancia ao que se produz sobre a hist\u00f3ria e sobre a vida das pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos casos mais not\u00e1veis \u00e9 a ideia de que Zumbi, l\u00edder do quilombo dos Palmares, seria um dono ou propriet\u00e1rio de escravos. Tal opini\u00e3o n\u00e3o se vale de qualquer base emp\u00edrica, uma vez que a hist\u00f3ria de Zumbi ou mesmo os dados sobre sua personalidade s\u00e3o bastante dif\u00edceis de se determinar historicamente em fun\u00e7\u00e3o da falta de fontes para tanto. Al\u00e9m do mais, tal ideia n\u00e3o tem relev\u00e2ncia para o estudo da escraviza\u00e7\u00e3o de povos africanos no Brasil. O que nos parece, portanto, \u00e9 que tal no\u00e7\u00e3o tem como resultado a destitui\u00e7\u00e3o da imagem de Zumbi, o que tem como efeito a minimiza\u00e7\u00e3o dos danos da escravid\u00e3o \u00e0s pessoas negras no Brasil, passando a ideia de que a escraviza\u00e7\u00e3o era algo comum que at\u00e9 os negros o faziam. Ora, a escraviza\u00e7\u00e3o dos povos africanos na Am\u00e9rica e, particularmente, no Brasil foi uma pr\u00e1tica cruel e desumana, que servia aos interesses comerciais das na\u00e7\u00f5es europeias em seu processo de explora\u00e7\u00e3o das riquezas aqui encontradas. Em nada tal processo se assemelha ao que teria sido Palmares e em nada se assemelha aos prop\u00f3sitos e \u00e0 luta de Zumbi.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa associa\u00e7\u00e3o entre Zumbi e os senhores escravocratas (contra quem aquele lutava) \u00e9 uma a\u00e7\u00e3o que diminui a intensidade de um dos crimes mais hediondos da hist\u00f3ria da humanidade, cometidos na \u00e9poca colonial e imperial do Brasil. Os efeitos s\u00e3o muitos: perpetuar atitudes racistas; reproduzir o racismo estrutural; mitigar a\u00e7\u00f5es como as cotas em universidade p\u00fablicas e as criminaliza\u00e7\u00f5es de atitudes racistas; relativizar a viol\u00eancia sofrida pela popula\u00e7\u00e3o negra, tanto pela a\u00e7\u00e3o direta do governo como pela a\u00e7\u00e3o indireta, sendo que este faz quest\u00e3o de n\u00e3o estar presente, n\u00e3o fazendo investimentos em \u00e1reas da sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nos perguntamos, ent\u00e3o, o que a aula de Hist\u00f3ria tem a ver com isso? Como uma aula de Hist\u00f3ria pode fazer valer a pesquisa baseada em conceitos, m\u00e9todos e documentos frente a opini\u00f5es sem qualquer base te\u00f3rica e material\/real, mas que possuem um forte poder de persuas\u00e3o e acabam por ter ades\u00e3o de milhares de pessoas?<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando constru\u00edmos uma aula que incorpore elementos da realidade dos estudantes, n\u00e3o apenas questionamos discursos negacionistas, mas aumentamos o interesse e o sentido da hist\u00f3ria na vida desses estudantes, pois permitiremos que alunos e alunas consigam realizar conex\u00f5es da hist\u00f3ria que ensinamos com a sua realidade, o que dar\u00e1 um novo sentido \u00e0quele saber. Desse modo, as estudantes poder\u00e3o se apropriar dos saberes constru\u00eddos pela Hist\u00f3ria, problematizar o seu presente e imaginar novos futuros. A aula de Hist\u00f3ria que se utiliza das S\u00e9ries (ou do cinema, dos quadrinhos, dos jogos, etc.) se torna uma maneira de compreender a estrutura em que estamos inseridos por meio de linguagens dispon\u00edveis no mundo dos jovens, possibilitando que possamos combater as mazelas dessa estrutura.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2181590181219431\" target=\"_blank\">Jean Nunes Pinto<\/a> \u00e9 estudante de Hist\u00f3ria, bolsista de Inicia\u00e7\u00e3o Cient\u00edfica na UFRGS.<br><a rel=\"noreferrer noopener\" href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/2674881975631801\" target=\"_blank\">Nilton Mullet Pereira<\/a> \u00e9 professor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o e do ProfHist\u00f3ria \u2013 Mestrado Profissional em ensino de Hist\u00f3ria \u2013 IFCH \u2013 UFRGS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | O estudante de Hist\u00f3ria Jean Nunes Pinto e Nilton Mullet Pereira, professor da Faced, prop\u00f5em o uso de s\u00e9ries televisivas em sala de aula para refletir sobre o passado e o presente<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/sobre-o-direito-de-imaginar-e-criar-futuros\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":34443,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[1980,2346,2024,286,2345,2344],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-34298","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-ensino-de-historia","tag-imaginacao","tag-negacionismo","tag-racismo","tag-series","tag-watchmen"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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