{"id":34673,"date":"2021-08-05T09:03:00","date_gmt":"2021-08-05T12:03:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=34673"},"modified":"2021-08-05T14:22:32","modified_gmt":"2021-08-05T17:22:32","slug":"marco-temporal-e-paisagens-indigenas-destruidas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/marco-temporal-e-paisagens-indigenas-destruidas\/","title":{"rendered":"Marco Temporal e paisagens ind\u00edgenas destru\u00eddas"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza, professor de Antropologia, e Carmem L\u00facia Thomas Guardiola, pesquisadora do LAE\/UFRGS, analisam os retrocessos recentes nas pol\u00edticas de demarca\u00e7\u00e3o territorial de popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza e Carmem L\u00facia Thomas Guardiola<br>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Marco Temporal \u00e9 tese pol\u00edtica em defesa dos interesses de ruralistas, do agroneg\u00f3cio, de madeireiros, de mineradoras, de empreendedores hidrel\u00e9tricos e de garimpeiros a fim de anular os direitos garantidos pela Constitui\u00e7\u00e3o Federal (CF) de 1988 aos povos ind\u00edgenas quanto \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas especiais, principalmente \u00e0 regulariza\u00e7\u00e3o fundi\u00e1ria de suas Terras Ind\u00edgenas (TIs). A tentativa \u00e9 suprimir o Instituto de Indigenato herdado da legisla\u00e7\u00e3o colonial portuguesa (1680), estabelecendo serem os \u00edndios&nbsp;\u201cprim\u00e1rios e naturais senhores\u201d das terras por eles habitadas, anulando direito por ocupa\u00e7\u00f5es posteriores.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Desde maio de 2020, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu tanto os processos de reintegra\u00e7\u00e3o de posse contr\u00e1rios aos ind\u00edgenas quanto os&nbsp; pedidos de anula\u00e7\u00e3o dos processos demarcat\u00f3rios que proliferaram em todo pa\u00eds, estabelecendo o julgamento do Recurso Extraordin\u00e1rio n.\u00ba 1.017.365, interposto pela Funai em favor dos ind\u00edgenas para ter repercuss\u00e3o vinculante, servindo para todos os demais processos demarcat\u00f3rios. Trata-se do julgamento do pedido de reintegra\u00e7\u00e3o de posse por parte do estado de Santa Catarina contra o povo Xokl\u00e9ng no territ\u00f3rio L\u00e3kla\u00f1o em Ibirama, \u00e1rea de 37 mil hectares habitada por cerca de 2 mil ind\u00edgenas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A conjuntura pol\u00edtica e jur\u00eddica brasileira atual est\u00e1 desfavor\u00e1vel aos povos ind\u00edgenas. \u00c9 preocupante tamb\u00e9m para quem pesquisa e ensina ci\u00eancia nos campos da etnologia afroind\u00edgena e da etnoarqueologia, abordando temporalidades de longa dura\u00e7\u00e3o, mil\u00eanios&nbsp;de hist\u00f3ria amer\u00edndia antes de Pedro \u00c1lvares Cabral. A etnologia permite conhecer e difundir as diferen\u00e7as culturais origin\u00e1rias da Am\u00e9rica do Sul, repercutindo o que dizem essas outras vozes (origin\u00e1rias, negras, mesti\u00e7as) reiteradamente silenciadas, refletindo sobre a exist\u00eancia desses outros corpos submetidos aos rigores nefastos e violentos da civiliza\u00e7\u00e3o brasileira.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Enquanto o Executivo desmantela avan\u00e7os na prote\u00e7\u00e3o ambiental&nbsp;e na execu\u00e7\u00e3o de pol\u00edticas especiais duramente conquistadas pelos movimentos sociais desde a CF de 1988, o Legislativo se mobiliza em emendas constitucionais (por ex.: PEC 215) e em projetos de lei (por ex.: PL 490) que objetivam neutralizar e reverter os avan\u00e7os no reconhecimento de direitos diferenciados, principalmente suspender a homologa\u00e7\u00e3o final das Terras Ind\u00edgenas. O Judici\u00e1rio adia sistematicamente uma decis\u00e3o que lhe cabe assumir para definir de que lado da balan\u00e7a ele est\u00e1 posicionado: do lado do patriarcalismo euroc\u00eantrico ou do lado das matrias e fratrias negras e ind\u00edgenas?<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>N\u00e3o h\u00e1 como usar meias-palavras: o Marco Temporal \u00e9 tese etnocid\u00e1ria, talvez at\u00e9 mesmo genocida. Ela refuta que grupos ind\u00edgenas tenham direito de posse e usufruto permanente, exclusivo, inalien\u00e1vel, indispon\u00edvel e imprescrit\u00edvel das Terras Ind\u00edgenas que eles n\u00e3o ocupassem efetivamente em 05 de outubro de 1988, data de vig\u00eancia da CF. O Marco Temporal desconsidera tanto o ritmo multimilenar de mobilidade e itiner\u00e2ncia caracter\u00edstico da territorialidade tradicional amer\u00edndia (ocupa\u00e7\u00e3o intermitente de locais, deslocamentos circulares) quanto o fato de os grupos origin\u00e1rios sa\u00edrem de suas terras tradicionais por coer\u00e7\u00e3o e por viol\u00eancia praticadas pelos europeus e seus descendentes.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O genoc\u00eddio e o etnoc\u00eddio fazem parte da hist\u00f3ria do Brasil, e o Marco Temporal confirma essa regra. Aparentemente, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 derramamento de sangue, mas, como dizem os ind\u00edgenas: &#8220;Antes nos matavam com epidemias, depois com armas de fogo, hoje os brancos est\u00e3o nos matando com canetas&#8221;. Do ponto de vista da etnoarqueologia, repercutindo o reclamo dos povos origin\u00e1rios atuais, o Marco Temporal \u00e9 uma aberra\u00e7\u00e3o que escancara o imediatismo que configura nosso projeto de civiliza\u00e7\u00e3o. Interessa mais sugar a terra e seus recursos a curto prazo e baixo investimento, deixando um rastro de destrui\u00e7\u00e3o com alto custo em passivos ambientais e sociais. Se aprovado for, mais uma vez a caneta vai passar como trator por cima dos direitos origin\u00e1rios, fazendo terra arrasada daquelas que foram outrora as paisagens origin\u00e1rias americanas.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"586\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-35513\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1-300x191.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1-175x111.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1-768x489.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1-465x296.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-7196-1-695x443.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Na imagem de capa e acima, durante protesto em Porto Alegre, manifestantes questionam legisla\u00e7\u00e3o sobre demarca\u00e7\u00e3o de terras ind\u00edgenas (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 03 jul. 2021)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">S\u00e3o paisagens manejadas ao longo de centenas de gera\u00e7\u00f5es e milhares de anos, proliferando recursos em termos de biodiversidade. \u00c9 preciso acabar com o mito iluminista quanto \u00e0 suposta natureza intocada, segundo a qual os ind\u00edgenas seriam apenas passivos. Havia e h\u00e1 etnoconhecimentos profundos e origin\u00e1rios desprezados pelos descendentes de europeus. Manejos agroflorestais imemoriais dos amer\u00edndios que permitiram o aparecimento de pomares de castanheiras e a\u00e7aizeiros na Amaz\u00f4nia, do pequi no Cerrado, da Ju\u00e7ara na Mata Atl\u00e2ntica, dos pinheirais de arauc\u00e1ria no Planalto Meridional e dos ervais (erva-mate) e dos butiazais (palmares) no sul do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Mas \u00e9 poss\u00edvel ir ainda mais longe na cr\u00edtica quanto ao absurdo do Marco Temporal. Pelas perspectivas da antropologia, da psican\u00e1lise e da filosofia, \u00e9 poss\u00edvel entender a mentalidade de pol\u00edticos e dos megaempres\u00e1rios, mais uma vez confirmando a tese da esquizofrenia das elites descendentes de europeus nascidos nos pa\u00edses americanos, naquela dimens\u00e3o que o fil\u00f3sofo argentino Rodolf Kusch chama de Am\u00e9rica Profunda. Profundidade que \u00e9 ao mesmo tempo temporal e mental.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para abordar essa esquizofrenia,\u00a0trazemos a met\u00e1fora quanto aos dilemas subconscientes herdados pelo mesti\u00e7o desterrado, bastardo e deserdado pelo pai branco europeu, para paradoxalmente tomar esse pai denegado como espelho para repudiar ou velar sobre seu v\u00ednculo com a mulher \u00edndia ou negra que foi estuprada \u00e0 sua concep\u00e7\u00e3o. Usamos o exemplo do mesti\u00e7o, mas ele tamb\u00e9m tem alguma validade para o caso dos que n\u00e3o possuem aparente mesti\u00e7agem, mas radicados com interesses no Brasil. Como diz Eduardo Viveiros de Castro, no Brasil todo mundo \u00e9 \u00edndio, mesmo quem n\u00e3o \u00e9. Como estar\u00e3o as m\u00e3es e ancestrais origin\u00e1rias dos ju\u00edzes e ju\u00edzas na decis\u00e3o final quanto ao Marco Temporal?<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/1491464836839602\">Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza<\/a> \u00e9 etnoarque\u00f3logo e professor do Departamento de Antropologia.<br>Carmem L\u00facia Thomas Guardiola \u00e9 estudante de Ci\u00eancias Sociais e pesquisadora do Laborat\u00f3rio de Antropologia e Etnologia (LAE).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Jos\u00e9 Ot\u00e1vio Catafesto de Souza, professor de Antropologia, e Carmem L\u00facia Thomas Guardiola, pesquisadora do LAE\/UFRGS, analisam os retrocessos recentes nas pol\u00edticas de demarca\u00e7\u00e3o territorial de popula\u00e7\u00f5es origin\u00e1rias<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/marco-temporal-e-paisagens-indigenas-destruidas\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35512,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-34673","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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