{"id":3503,"date":"2019-05-19T11:56:52","date_gmt":"2019-05-19T14:56:52","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=3503"},"modified":"2025-06-10T14:55:43","modified_gmt":"2025-06-10T17:55:43","slug":"representatividade-negra-em-maria-firmina-dos-reis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/representatividade-negra-em-maria-firmina-dos-reis\/","title":{"rendered":"Representatividade negra em Maria Firmina dos Reis"},"content":{"rendered":"\n<p style=\"color:#a28028\" class=\"has-text-color has-medium-font-size wp-block-paragraph\">\u201cMeteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infort\u00fanio e de cativeiro no estreito e infecto por\u00e3o de um navio. Trinta dias de cru\u00e9is tormentos e de falta absoluta de tudo quanto \u00e9 mais necess\u00e1rio \u00e0 vida passamos nessa sepultura at\u00e9 que abordamos as praias brasileiras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p style=\"color:#a28028;font-size:12px\" class=\"has-text-color wp-block-paragraph\"><em>&#8211; Trecho do romance<\/em> \u00darsula<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cMesquinho e humilde livro \u00e9 este que vos apresento, leitor.\u201d \u00c9 assim que Maria Firmina dos Reis abre o romance \u00darsula, que data de 1859. Nascida na ilha de S\u00e3o Lu\u00eds, no Maranh\u00e3o, no ano de 1825, a autora \u00e9 pioneira ou at\u00e9 mesmo revolucion\u00e1ria em diversos aspectos, n\u00e3o s\u00f3 na literatura brasileira, como na vida em sociedade da \u00e9poca. Foi a primeira mulher a ser aprovada em concurso p\u00fablico para o cargo de professora do prim\u00e1rio. Mais ainda: era mulher, e mulher negra, em um per\u00edodo marcado pelo regime escravocrata e pelo paternalismo. Sustentava-se sozinha, tinha espa\u00e7o nos jornais da \u00e9poca com seus escritos e publicou o romance que \u00e9 uma das leituras obrigat\u00f3rias da UFRGS desde 2019. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Com tanto protagonismo e hist\u00f3ria, por que ent\u00e3o Maria Firmina dos Reis \u00e9 t\u00e3o pouco estudada na literatura, principalmente dentro das escolas, e fica de fora do c\u00e2none? Ademais, o que poderia significar esse pref\u00e1cio que denomina a pr\u00f3pria obra como \u201cmesquinha\u201d? \u2013 ainda que, no prosseguimento da abertura, Maria Firmina expresse a inten\u00e7\u00e3o de \u201cdar a lume\u201d o romance independentemente do \u201cindiferentismo glacial de uns\u201d e do \u201criso mofador de outros\u201d.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Resgate<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A professora R\u00e9gia Agostinho, do Departamento de Hist\u00f3ria da Universidade Federal do Maranh\u00e3o, relata o esquecimento da escritora ap\u00f3s sua morte, ainda que reconhecida por figuras do per\u00edodo em seu estado. A relativa \u201cperda\u201d da obra de Maria Firmina \u00e9 um dos fatores que contribui para o seu desconhecimento no pa\u00eds. \u201cEm 1975, Nascimento de Moraes Filho e Hor\u00e1cio de Almeida, o qual encontra \u00darsula num sebo do Rio de Janeiro em 1962, preparam uma edi\u00e7\u00e3o fac-similar. Em sua pesquisa descobrem que uma maranhense \u2013 como estava assinado no livro \u2013 era Maria Firmina dos Reis. A partir desse per\u00edodo, ela retorna para os estudos acad\u00eamicos para ter a merecida notoriedade\u201d, conta a docente.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com R\u00e9gia, a perman\u00eancia em solo maranhense pode ser outro motivo para que Maria Firmina n\u00e3o tivesse maior alcance: \u201cEscritores como Gon\u00e7alves Dias e Castro Alves, ambos nordestinos, mudaram-se para os grandes centros: S\u00e3o Paulo e Rio de Janeiro\u201d, complementa a professora. Ela aponta, tamb\u00e9m, o fato de a escritora ser mulher e negra \u2013 algo que Roberta Flores Pedroso, mestra em Literatura pela UFRGS, afirma ser o principal motivo para o seu apagamento por todo esse tempo. Para ela, \u00e9 tamb\u00e9m o que norteia a interpreta\u00e7\u00e3o do pref\u00e1cio. \u201cN\u00e3o tem como n\u00e3o levar em considera\u00e7\u00e3o a vida dela: \u00e9 uma mulher fora daquele s\u00e9culo. Sua capacidade intelectual ultrapassa o comum da literatura daquele momento, que consistia em apenas apresentar um pr\u00f3logo. No pref\u00e1cio, para mim, h\u00e1 uma forte ironia\u201d, declara Roberta. \u00c9 prov\u00e1vel, seguindo esse racioc\u00ednio, que abrir \u00darsula dessa maneira fosse um subterf\u00fagio lingu\u00edstico de sofisticada ironia para quem conhecia muito bem seu espa\u00e7o e seus leitores.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">\u00c0 frente de seu tempo<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os registros dos jornais do Maranh\u00e3o evidenciam a presen\u00e7a da obra, com congratula\u00e7\u00f5es \u00e0 mulher por t\u00ea-la escrito, por\u00e9m sem an\u00e1lise consistente; h\u00e1, portanto, certo distanciamento por parte do c\u00edrculo masculino de literatos.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algemira Mendes, professora na Universidade Estadual do Piau\u00ed e doutora em Letras pela PUCRS, entende o romance como \u201cum contraponto ao que era escrito na \u00e9poca, aos modelos de romantismo at\u00e9 ent\u00e3o\u201d. Ainda que tenha a presen\u00e7a da religiosidade e do nacionalismo, desprende-se do tradicional final feliz. \u201cO livro \u00e9 rom\u00e2ntico pelo fio condutor, do folhetinesco entre \u00darsula e Tancredo, mas com uma nova proposta de t\u00e9rmino da trama. H\u00e1 quem diga que seria um romance g\u00f3tico, mas \u00e9 discut\u00edvel\u201d, analisa Algemira. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A professora tematiza a forma como Maria Firmina d\u00e1 voz ao negro \u2013 diferente de obras consideradas abolicionistas, como Navio Negreiro, de Castro Alves. Est\u00e1 em discuss\u00e3o, inclusive, se o romance \u00darsula seria escravista ou abolicionista. J\u00e1 Roberta Pedroso diz que, independentemente de algumas quest\u00f5es t\u00e9cnicas, como a classifica\u00e7\u00e3o do romance \u2013 g\u00f3tico, rom\u00e2ntico ou realista \u2013, importante \u00e9 que, hoje, \u201c\u00darsula tem leitores. E leitores negros\u201d. \u201cMaria Firmina traz as rememora\u00e7\u00f5es da m\u00e3e Susana e do pai Antero, que vieram direto da \u00c1frica, nessa figura do gri\u00f4, que \u00e9 o personagem s\u00e1bio de mais idade. Essas personagens, somando-se a T\u00falio, em minha opini\u00e3o, s\u00e3o as verdadeiras protagonistas do romance\u201d, afirma.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u00darsula mostra-se uma obra de humaniza\u00e7\u00e3o do escravizado. Roberta ressalta a \u201cautonomia das personagens negras no sentido de falarem suas experi\u00eancias sem o interm\u00e9dio de um narrador\u201d, numa \u00e9poca em que os leitores eram majoritariamente brancos.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"425\" height=\"425\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Maria-Firmina-Autoria-Luan-Dresch.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3504\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Maria-Firmina-Autoria-Luan-Dresch.jpg 425w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Maria-Firmina-Autoria-Luan-Dresch-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Maria-Firmina-Autoria-Luan-Dresch-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Maria-Firmina-Autoria-Luan-Dresch-110x110.jpg 110w\" sizes=\"(max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><figcaption>Arte: Luan Dresch<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background has-very-light-gray-background-color wp-block-paragraph\"><strong>Luan Dresch<\/strong> \u00e9 bacharel em Artes Visuais pela UFRGS. Sua produ\u00e7\u00e3o \u00e9 tra\u00e7ada por uma exist\u00eancia negra, queer, gay e utiliza enquanto linguagem o v\u00eddeo, a performance, a fotografia, a escultura e a instala\u00e7\u00e3o.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cMeteram-me a mim e a mais trezentos companheiros de infort\u00fanio e de cativeiro no estreito e infecto por\u00e3o de um navio. 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