{"id":3518,"date":"2019-05-19T14:42:23","date_gmt":"2019-05-19T17:42:23","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=3518"},"modified":"2025-06-10T14:57:20","modified_gmt":"2025-06-10T17:57:20","slug":"os-sentimentos-universais-em-shakespeare","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/os-sentimentos-universais-em-shakespeare\/","title":{"rendered":"Os sentimentos universais em Shakespeare"},"content":{"rendered":"\n<p class=\"has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"color:#ff2f6e\">\u201cHamlet: A Dinamarca \u00e9 uma pris\u00e3o!<br>Rosencrantz: Ent\u00e3o o mundo tamb\u00e9m.<br>Hamlet: Uma enorme pris\u00e3o, cheia de c\u00e9lulas, solit\u00e1rias e masmorras \u2013<br>a Dinamarca \u00e9 das piores.<br>Rosencrantz: N\u00e3o pensamos assim, meu senhor.<br>Hamlet: Ent\u00e3o pra voc\u00eas n\u00e3o \u00e9. N\u00e3o existe nada que seja bom ou ruim:<br>o que faz as coisas parecerem assim \u00e9 o pensamento. Pra mim \u00e9 uma pris\u00e3o.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-color wp-block-paragraph\" style=\"color:#ff2f6e;font-size:12px\"><em>&#8211; Trecho da obra<\/em> Hamlet<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Ser ou n\u00e3o ser, eis a quest\u00e3o.\u201d A famosa express\u00e3o, que at\u00e9 hoje, trezentos anos depois, recebe diversas interpreta\u00e7\u00f5es \u2013 tendo sido parodiada, inclusive, pelo manifesto antrop\u00f3fago dos artistas modernistas brasileiros: <br> \u201cTupy or not Tupy, that is the question\u201d \u2013, est\u00e1 em uma das obras mais celebradas do dramaturgo e ator ingl\u00eas William Shakespeare: Hamlet. As pe\u00e7as do \u201cvelho bardo\u201d, nascido em 1564, ainda s\u00e3o um campo de pesquisa na literatura, na psicologia e nas artes c\u00eanicas pelos temas universais e atemporais. Na pr\u00f3xima edi\u00e7\u00e3o do vestibular da UFRGS, Hamlet ser\u00e1 o \u00fanico texto selecionado que n\u00e3o pertence \u00e0 literatura de l\u00edngua portuguesa. Isso porque, agora, a Universidade passa a denominar a prova Literatura em L\u00edngua Portuguesa, o que possibilita a utiliza\u00e7\u00e3o de tradu\u00e7\u00f5es de obras relevantes. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A trama se passa na Dinamarca do s\u00e9culo IX e \u00e9 constru\u00edda em cinco atos. Depois de voltar da Inglaterra, o jovem pr\u00edncipe Hamlet fica sabendo que o fantasma de seu pai tem rondado o reino para falar com ele. Quando o antigo rei conta que Cl\u00e1udio, seu irm\u00e3o, agora casado com a m\u00e3e do pr\u00edncipe, o assassinou para roubar o trono, Hamlet come\u00e7a a fingir-se de louco para arquitetar sua vingan\u00e7a, que culmina na morte de quase todas as personagens principais. Segundo a professora de l\u00edngua inglesa do Instituto de Letras da UFRGS Sandra Maggio, as tem\u00e1ticas abordadas nas obras de Shakespeare geram identifica\u00e7\u00e3o com os leitores e espectadores, mesmo depois de tantos anos. \u201cEle \u00e9 um grande criador de tipos: imediatamente ligamos suas personagens a emo\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que qualquer ser humano conhece.\u201d Assim como a vingan\u00e7a \u00e9 associada a Hamlet, a ambi\u00e7\u00e3o est\u00e1 em Macbeth, e o amor, em Romeu e Julieta.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Voz alta<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cShakespeare n\u00e3o \u00e9 apenas para ler, \u00e9 para assistir tamb\u00e9m.\u201d \u00c9 assim que o professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM) e tradutor de Hamlet para o portugu\u00eas Lawrence Flores Pereira define a experi\u00eancia de tomar contato com o texto do dramaturgo. Por ser uma pe\u00e7a de teatro, n\u00e3o h\u00e1 a presen\u00e7a do narrador que conduz a hist\u00f3ria: a cada cena, o leitor precisa visualizar as personagens atuando no imagin\u00e1rio. Por isso, Lawrence recomenda que a obra seja lida em voz alta. \u201cVoc\u00ea refaz o teor emotivo das falas e refaz a ironia, o sarcasmo, a tristeza\u201d, detalha. Segundo o tradutor, as pe\u00e7as de Shakespeare apresentam cria\u00e7\u00f5es complexas, como Hamlet que, ao longo da pe\u00e7a, encena outras personalidades, o chamado \u201cteatro do engano\u201d. \u201cO pr\u00edncipe reflete a complexidade moderna, trazendo alguns elementos psicol\u00f3gicos. A determina\u00e7\u00e3o de se vingar, por exemplo, esbarra na necessidade que ele tem de convencer a m\u00e3e de que sua vingan\u00e7a \u00e9 justa. Ele consegue atuar na frente de Pol\u00f4nio [conselheiro do tio e pai da amada Of\u00e9lia], mas nunca para a m\u00e3e\u201d, explica.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m da capacidade de representar os sentimentos  humanos, o dramaturgo contribuiu para a l\u00edngua inglesa. De acordo com Sandra, depois de Shakespeare, sua estrutura, seu formato e sua morfologia se modificaram. \u201cComo estrat\u00e9gia de sonoridade, por exemplo, se a frase estava muito comprida, ele engolia uma s\u00edlaba e trocava por ap\u00f3strofe. Se ficava muito curta, ele acrescentava uma s\u00edlaba (ed, eth)\u201d, explica.  <\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Modos de falar<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por meio da linguagem, Shakespeare tamb\u00e9m d\u00e1 o tom de suas personagens. Em Hamlet, um di\u00e1logo entre Of\u00e9lia e seu pai, Pol\u00f4nio, deixa claro como o jeito de falar foi pensado para que o p\u00fablico logo entendesse quem eles eram. \u201cPol\u00f4nio fala a linguagem do sabich\u00e3o, do homem que conhece a vida. J\u00e1 Of\u00e9lia, que \u00e9 jovem, fala muito menos e de um jeito cadenciado, nos moldes da poesia l\u00edrica da \u00e9poca, o que demonstra que ela tem a idealidade do amor\u201d, esclarece Lawrence. Apaixonada pelo pr\u00edncipe, Of\u00e9lia enlouquece ap\u00f3s a morte do pai e comete suic\u00eddio. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos anos, as obras de Shakespeare foram adaptadas de acordo com o contexto da \u00e9poca. Atualmente, a influ\u00eancia de Hamlet \u00e9 facilmente percebida em produ\u00e7\u00f5es como o desenho O Rei Le\u00e3o, dos est\u00fadios Disney, e o livro Enclausurado, de Ian McEwan, em que o narrador-feto escuta do \u00fatero os planos da m\u00e3e e do tio para matar o pai.<br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para Sandra, a leitura de Hamlet proporciona, al\u00e9m do conhecimento hist\u00f3rico, a renova\u00e7\u00e3o e a perman\u00eancia do cl\u00e1ssico. \u201cRevisitar essa obra que foi criada h\u00e1 419 anos, a partir da nossa compreens\u00e3o de hoje, possibilita novos horizontes de interpreta\u00e7\u00e3o. Isso nos ajuda a reavaliar verdades e valores\u201d, conclui.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"425\" height=\"425\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Ofelia-Autoria-Ana-Paula-Pollock.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-3519\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Ofelia-Autoria-Ana-Paula-Pollock.jpg 425w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Ofelia-Autoria-Ana-Paula-Pollock-117x117.jpg 117w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Ofelia-Autoria-Ana-Paula-Pollock-300x300.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/05\/Ofelia-Autoria-Ana-Paula-Pollock-110x110.jpg 110w\" sizes=\"(max-width: 425px) 100vw, 425px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Arte: Ana Paula Pollock<\/figcaption><\/figure>\n<\/div>\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-very-light-gray-background-color has-background wp-block-paragraph\"><strong>Ana Paula Pollock<\/strong> \u00e9 estudante de Artes Visuais na UFRGS. Sua produ\u00e7\u00e3o perpassa linguagens como v\u00eddeo, gravura, pintura, instala\u00e7\u00e3o e performance.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cHamlet: A Dinamarca \u00e9 uma pris\u00e3o!Rosencrantz: Ent\u00e3o o mundo tamb\u00e9m.Hamlet: Uma enorme pris\u00e3o, cheia de c\u00e9lulas, solit\u00e1rias e masmorras \u2013a Dinamarca \u00e9 das piores.Rosencrantz: N\u00e3o pensamos assim, meu senhor.Hamlet: Ent\u00e3o pra voc\u00eas n\u00e3o \u00e9. 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