{"id":35455,"date":"2021-08-05T09:01:00","date_gmt":"2021-08-05T12:01:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=35455"},"modified":"2021-08-05T14:22:17","modified_gmt":"2021-08-05T17:22:17","slug":"podemos-falar-de-genero-e-sexualidade-na-escola","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/podemos-falar-de-genero-e-sexualidade-na-escola\/","title":{"rendered":"Podemos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola?"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Doutoranda em Ci\u00eancias do Movimento Humano, Amanda D\u00f3ria de Assis reflete sobre o quanto, apesar de haver iniciativas e pol\u00edticas, \u00e9 preciso que a educa\u00e7\u00e3o sexual e a discuss\u00e3o sobre g\u00eanero perpassem a educa\u00e7\u00e3o<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Amanda D\u00f3ria de Assis <br>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/Arquivo JU 29 out. 2014<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A interroga\u00e7\u00e3o que intitula este texto \u00e9 para tentar dar contorno a este problema: discutir, trabalhar g\u00eanero na escola, uma vez que na atualidade s\u00e3o constantes as amea\u00e7as e fal\u00e1cias que assombram as\/os docentes e causam controv\u00e9rsias acerca do que podemos e devemos trabalhar na escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse dilema emerge deste tempo marcado por movimentos distintos: de um lado, grupos marginalizados historicamente que lutam por representatividade, equidade e justi\u00e7a social, tais como os movimentos negros, quilombolas, feministas, LGBTQIA+<em>)<\/em>; de outro, temos neoconservadores que buscam a manuten\u00e7\u00e3o de uma estrutura social e econ\u00f4mica pautada em uma sociedade patriarcal, branca, heteronormativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A escola tamb\u00e9m se tornou espa\u00e7o dessas disputas. Como efeito disso, nos \u00faltimos anos, tivemos documentos educacionais modificados, como o Plano Nacional de Educa\u00e7\u00e3o (PNE-2014-20201), que retirou da reda\u00e7\u00e3o final as express\u00f5es &#8216;g\u00eanero&#8217; e &#8216;orienta\u00e7\u00e3o sexual&#8217;. Isso, por\u00e9m, n\u00e3o significa que n\u00e3o possam ser abordadas na escola quest\u00f5es de g\u00eanero e sexualidades, pois&nbsp;a invisibilidade desses temas n\u00e3o apaga tudo que j\u00e1 foi produzido e constru\u00eddo at\u00e9 ent\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Se h\u00e1 algo que deva ser apagado, \u00e9 a falaciosa &#8216;ideologia de g\u00eanero&#8217; &#8211; termo que emerge do ceio da Igreja cat\u00f3lica, carregando ideias pejorativas com rela\u00e7\u00e3o aos estudos cient\u00edficos de g\u00eanero. Apesar disso, n\u00e3o podemos recuar. \u00c9 preciso reafirmar a import\u00e2ncia dos estudos de g\u00eanero e dos movimentos sociais que desestabilizam a sociedade patriarcal branca.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Assim, retomo brevemente que a consolida\u00e7\u00e3o do termo g\u00eanero como ferramenta anal\u00edtica ampliou significativamente as discuss\u00f5es sobre esse tema n\u00e3o somente no \u00e2mbito acad\u00eamico, mas em diferentes esferas sociais. H\u00e1 na atualidade uma explos\u00e3o de estudos de g\u00eanero: estudos feministas (negro, interseccional, transfeminismo), estudos sobre masculinidades, teoria queer &#8211; que implodem as barreiras morais e civis impostas pelo patriarcado branco. A pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de cidadania vem sendo alterada, como o reconhecimento jur\u00eddico de fam\u00edlias diversas, por exemplo.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No campo da educa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o in\u00fameras as leis e os documentos curriculares que sustentam o trabalhado de g\u00eanero na escola, como os <a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/seb\/arquivos\/pdf\/livro01.pdf\">Par\u00e2metros Curriculares Nacionais<\/a> (1997), a <a href=\"http:\/\/www.planalto.gov.br\/ccivil_03\/_ato2004-2006\/2006\/lei\/l11340.htm\">Lei Maria da Penha <\/a>(2006), as <a href=\"http:\/\/portal.mec.gov.br\/index.php?option=com_docman&amp;view=download&amp;alias=13448-diretrizes-curiculares-nacionais-2013-pdf&amp;Itemid=30192\">Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais<\/a> (2010).&nbsp; Ademais, na pr\u00f3pria <a href=\"http:\/\/basenacionalcomum.mec.gov.br\/\">Base Nacional Comum Curricular<\/a> (BNCC), de 2018, mesmo com a supress\u00e3o de &#8216;g\u00eanero&#8217; da reda\u00e7\u00e3o final desse documento, encontram-se muitas compet\u00eancias estipuladas a serem trabalhadas que visam o respeito \u00e0 diversidade e o pluralismo de ideias e a valoriza\u00e7\u00e3o dos direitos humanos. Ainda, esse documento est\u00e1 alinhado \u00e0 <a href=\"http:\/\/www.agenda2030.com.br\/\">Agenda 2030<\/a> da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas (ONU), que entre seus objetivos tem a supera\u00e7\u00e3o das desigualdades de g\u00eanero.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acrescento que \u00e9 urgente tratar de g\u00eanero e sexualidade na escola, uma vez que h\u00e1 a amplifica\u00e7\u00e3o dos discursos de \u00f3dio e o aumento estat\u00edstico das viol\u00eancias de g\u00eanero no Brasil. Em 2020, houve uma den\u00fancia de viol\u00eancia contra mulher a cada 5 minutos. A maioria das v\u00edtimas s\u00e3o mulheres declaradas pardas que t\u00eam de 35 a 39 anos. O Brasil \u00e9 o pa\u00eds que mais mata pessoas trans no mundo, sendo que muitas n\u00e3o chegam nem \u00e0 velhice, visto que a m\u00e9dia de idade de pessoas trans \u00e9 de 35 anos.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diante de tudo isso, na escola, al\u00e9m dos objetivos espec\u00edficos de cada disciplina, tamb\u00e9m devemos educar para supera\u00e7\u00e3o de desigualdades, educar para o acolhimento e respeito de todas, todos e todes. Historicamente, as rela\u00e7\u00f5es de g\u00eanero produzem desigualdades e viol\u00eancias diversas na sociedade.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No interior das escolas ainda s\u00e3o muitas as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas sexistas. O curr\u00edculo ainda prioriza narrativas que trazem vis\u00f5es de mundo de homens brancos ocidentais. Nos livros de hist\u00f3ria, por exemplo, est\u00e3o estampadas imagens de supostos her\u00f3is brancos. E as mulheres? E os homens negros, como s\u00e3o retratados na hist\u00f3ria?&nbsp; O ensino da l\u00edngua portuguesa, t\u00e3o valorizado nas avalia\u00e7\u00f5es em larga escala, \u00e9 extremamente excludente, reflete as rela\u00e7\u00f5es de saber e poder que constituem a sociedade. Um exemplo disso \u00e9 o g\u00eanero masculino como gen\u00e9rico para se referir a um grupo de pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os espa\u00e7os das escolas tamb\u00e9m ensinam binarismos de g\u00eanero. H\u00e1 marca\u00e7\u00f5es no ch\u00e3o das escolas endere\u00e7ando o lugar de meninos e meninas na fila. Do mesmo modo, nas dan\u00e7as tradicionais apresentadas pelas turmas dos anos iniciais, como nas festas juninas \u2013 meninas e meninos t\u00eam seus pap\u00e9is bem definidos.&nbsp;Nos recreios, a quadra fica com os guris, enquanto boa parte das gurias fica na pracinha ou sentadinha conversando. E qual \u00e9 lugar de n\u00e3o bin\u00e1rios na escola? Essa falta de espa\u00e7o, de identifica\u00e7\u00f5es e reconhecimentos das singularidades deve ser enfrentada seriamente nas escolas. Muitas pessoas trans n\u00e3o concluem o ensino fundamental, e entre os motivos est\u00e3o a exclus\u00e3o nos espa\u00e7os escolares e o preconceito enfrentado na escola.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-style-default is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Ainda, \u00e9 no interior dessas escolas que lidamos com frequentes casos de abuso sexual. Muitas vezes temos na escola crian\u00e7as e adolescentes abusadas\/os. Mesmo que essas situa\u00e7\u00f5es sejam encaminhadas para outras entidades, a escola tem sido o primeiro espa\u00e7o em que as v\u00edtimas conseguem relatar as viol\u00eancias. H\u00e1 tantos outros casos que nem identificamos.&nbsp; \u00c9 preciso, sim, falar de educa\u00e7\u00e3o sexual. Essa discuss\u00e3o n\u00e3o pode ser trabalhada apenas nos anos finais, ensinando sobre o sistema reprodutivo. Est\u00e1 mais do que na hora de adequar o curr\u00edculo \u00e0 realidade e \u00e0s demandas sociais.&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em suma, s\u00e3o muitas as situa\u00e7\u00f5es de desigualdade, viol\u00eancias e omiss\u00e3o na escola. Os livros, os espa\u00e7os escolares, as pr\u00e1ticas pedag\u00f3gicas s\u00e3o heteronormativos. No entanto, tamb\u00e9m \u00e9 l\u00e1 na escola o espa\u00e7o para subverter as normas de g\u00eanero, pois nela as crian\u00e7as&nbsp;podem ter acesso a outras narrativas sobre ser e estar no mundo. Que todas, todes e todos, enfim, possam encontrar na escola um espa\u00e7o plural. Para tanto, podemos e devemos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola, sim!<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/5660783295991543\">Amanda D\u00f3ria de Assis<\/a> \u00e9 doutoranda em Ci\u00eancias do Movimento Humano.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Doutoranda em Ci\u00eancias do Movimento Humano, Amanda D\u00f3ria de Assis reflete sobre o quanto, apesar de haver iniciativas e pol\u00edticas, \u00e9 preciso que a educa\u00e7\u00e3o sexual e a discuss\u00e3o sobre g\u00eanero perpassem a educa\u00e7\u00e3o<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/podemos-falar-de-genero-e-sexualidade-na-escola\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":35509,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[2006,301,2424,599,787],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-35455","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-curriculo","tag-escola","tag-estudos-de-genero","tag-feminismo","tag-genero"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - https:\/\/yoast.com\/product\/yoast-seo-wordpress\/ -->\n<title>Podemos falar de g\u00eanero e sexualidade na escola? 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