{"id":35574,"date":"2021-08-05T09:15:00","date_gmt":"2021-08-05T12:15:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=35574"},"modified":"2021-08-05T15:16:18","modified_gmt":"2021-08-05T18:16:18","slug":"a-pobreza-e-uma-forma-de-opressao-politica-afirma-a-professora-andreza-aruska-de-souza-santos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-pobreza-e-uma-forma-de-opressao-politica-afirma-a-professora-andreza-aruska-de-souza-santos\/","title":{"rendered":"\u201cA pobreza \u00e9 uma forma de opress\u00e3o pol\u00edtica\u201d, afirma a professora Andreza Aruska de Souza Santos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil na Universidade de Oxford analisa a fragmenta\u00e7\u00e3o do controle da epidemia de covid-19 no pa\u00eds e aponta como a vulnerabilidade social e pol\u00edtica aprofundaram os efeitos da crise sanit\u00e1ria<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em><em>*Por: Felipe Ewald e Ana Pl\u00e1<\/em><br>*Foto de capa: Andreza Aruska de Souza Santos\/Arquivo pessoal<em><br><\/em><\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesta sexta-feira, 6 de agosto, a professora da Universidade de Oxford <a href=\"https:\/\/www.lac.ox.ac.uk\/people\/dr-andreza-de-souza-santos\">Andreza Aruska de Souza Santos<\/a> ministra a <a href=\"https:\/\/youtube.com\/user\/ufrgstv\">Aula Magna<\/a> do primeiro semestre de 2021. O foco ser\u00e1 seu mais recente estudo abarcando 5.568 munic\u00edpios. A pesquisa busca compreender mais profundamente n\u00e3o s\u00f3 como cada munic\u00edpio enfrentou a pandemia, mas tamb\u00e9m quais grupos sociais foram mais afetados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil, a docente tem uma agenda de pesquisas focada no perfil econ\u00f4mico dos munic\u00edpios brasileiros, principalmente naqueles que se concentram em um \u00fanico setor da economia, como, por exemplo, na minera\u00e7\u00e3o. Seu interesse estava voltado para os impactos da atividade mineradora na sa\u00fade quando estourou a pandemia. O grupo interdisciplinar que se formava naquele momento voltou-se, ent\u00e3o, para a resposta das autoridades municipais \u00e0 crise sanit\u00e1ria.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sobre o que voc\u00ea vai tratar na Aula Magna?<\/strong><br>A covid-19 teve uma grande intersec\u00e7\u00e3o com a minha agenda de pesquisa, porque eu j\u00e1 estava estudando munic\u00edpios \u2013 com enfoque em sa\u00fade, migra\u00e7\u00e3o, etc. A gente teve a aus\u00eancia de uma coordena\u00e7\u00e3o nacional, e a\u00ed o que cada munic\u00edpio fez acabou sendo muito importante para a gente entender em que momento da pandemia a gente estava, como tudo isso funcionava. Na aula magna vou mostrar um pouco dessa fragmenta\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de controle da pandemia no Brasil: sobre em que momento essa pandemia foi, realmente, fragmentada, se os munic\u00edpios conseguiram ter algum tipo de coordena\u00e7\u00e3o, por quanto tempo, como que foi depois esse processo de reabertura, que tipo de pol\u00edticas p\u00fablicas foram mais adotadas nesses munic\u00edpios, principalmente durante a segunda rodada de lockdowns no in\u00edcio deste ano. Outra discuss\u00e3o que fa\u00e7o \u00e9 sobre a quest\u00e3o da informalidade, da precariza\u00e7\u00e3o que j\u00e1 vinha ocorrendo no Brasil e que acabou tendo um impacto muito grande na pandemia. N\u00e3o s\u00f3 tais pol\u00edticas s\u00e3o fragmentadas, o que dificulta \u00e0s pessoas entenderem o que elas t\u00eam de fazer, mas a pr\u00f3pria pobreza dificulta a compreens\u00e3o de como essas pessoas v\u00e3o poder ficar em casa, quem vai poder ficar em casa e, se ficar em casa, [aquele] \u00e9 um lugar seguro.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Os munic\u00edpios brasileiros estavam preparados para responder \u00e0 crise sanit\u00e1ria?<\/strong><br>Eu acho que a gente tem um precedente \u00e0 covid-19, que s\u00e3o as quest\u00f5es de desigualdade social, econ\u00f4mica e de g\u00eanero. A pandemia tornou muito mais vis\u00edveis essas quest\u00f5es, que j\u00e1 eram existentes. O que a gente pode colocar, e que os munic\u00edpios j\u00e1 tinham, era, por exemplo, o SUS, a aten\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, o plano de vacina\u00e7\u00e3o. H\u00e1, ent\u00e3o, outras quest\u00f5es que j\u00e1 ocorriam no Brasil, que tinham j\u00e1 uma tradi\u00e7\u00e3o. Por exemplo, a epidemiologia: eu acho que, desde a zika, a gente tinha grupos de pesquisa muito bem formados. Tudo isso ajudou na resposta \u2013 se a gente n\u00e3o tivesse laborat\u00f3rios, se a gente n\u00e3o tivesse os grupos de pesquisa, se a gente n\u00e3o tivesse pessoas que j\u00e1 tinham essa experi\u00eancia acumulada, teria seria muito mais dif\u00edcil. Mas a gente j\u00e1 veio com quest\u00f5es preexistentes, como a desigualdade, a pobreza e, tamb\u00e9m, o desmonte de algumas estruturas de ci\u00eancia. Acho que tem coisas que a gente pode falar que j\u00e1 eram existentes e que ajudaram muito, mas, realmente, a gente vinha num momento de precariza\u00e7\u00e3o e que tornou o Brasil um pa\u00eds suscet\u00edvel a essa explos\u00e3o de casos que a gente teve.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Nos \u00faltimos anos, o governo federal vem se esfor\u00e7ando pra reduzir as inst\u00e2ncias de participa\u00e7\u00e3o, extinguindo conselhos, por exemplo. Os munic\u00edpios seguem essa mesma tend\u00eancia?<\/strong><br>Para muitas decis\u00f5es locais, \u00e9 obrigat\u00f3rio passar por conselhos participativos. Voc\u00ea tem que ter conselhos deliberativos. Esses conselhos, ent\u00e3o, acabam existindo e t\u00eam um impacto grande na pol\u00edtica local \u2013 estudei muito a quest\u00e3o de licenciamento ambiental de grande impacto, como, por exemplo, na \u00e1rea da minera\u00e7\u00e3o. Esses conselhos acabam tendo um papel muito grande para discutir essas a\u00e7\u00f5es locais, discutir o impacto, discutir medidas compensat\u00f3rias. Mas nesse tipo de pol\u00edtica local \u00e9 muito importante que se discuta caso a caso. A gente tem munic\u00edpios que est\u00e3o muito preparados para fazer essa discuss\u00e3o e outros que t\u00eam um plano diretor participativo, mas que n\u00e3o conseguem muito sair do papel, n\u00e3o t\u00eam uma sociedade civil organizada e engajada. A gente sabe que num munic\u00edpio como S\u00e3o Paulo, que \u00e9 enorme, se voc\u00ea participa da pol\u00edtica local, ela n\u00e3o necessariamente tem um impacto grande na sua vida pessoal, na sua vida econ\u00f4mica. Num munic\u00edpio pequeno, voc\u00ea participa da pol\u00edtica local, depois voc\u00ea vai ao banco, a pessoa com quem voc\u00ea brigou \u00e9 o seu gerente, \u00e9 o seu vizinho. Ent\u00e3o h\u00e1 outros tipos de repercuss\u00e3o, outros tipos de reservas. Essa rela\u00e7\u00e3o tem vieses demogr\u00e1ficos muito importantes, tamb\u00e9m, de uma cultura local, pol\u00edtica, de quest\u00f5es econ\u00f4micas. As inst\u00e2ncias do conselho e da democracia participativa, das associa\u00e7\u00f5es de bairro continuam. Acho que o Brasil tem uma tradi\u00e7\u00e3o nesse modelo, e n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o simples assim desmont\u00e1-lo. Mas tamb\u00e9m n\u00e3o d\u00e1 pra falar no todo, do que est\u00e1 acontecendo em todos os munic\u00edpios nessa quest\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Mas a gente consegue ter algum par\u00e2metro sobre o que que acontece quando existe mais participa\u00e7\u00e3o e quando existe menos participa\u00e7\u00e3o? Que consequ\u00eancias isso tem dentro do munic\u00edpio?<\/strong><br>Claro. Acho que s\u00e3o duas coisas. O que leva a ter mais participa\u00e7\u00e3o e o que leva a ter menos participa\u00e7\u00e3o e, depois, que tipo de consequ\u00eancia isso tem. Ent\u00e3o preciso primeiro pensar no que leva a ter mais participa\u00e7\u00e3o. Essa \u00e9 a pergunta de um milh\u00e3o de d\u00f3lares. E eu acho que, outra vez, s\u00e3o v\u00e1rias quest\u00f5es que t\u00eam uma intersec\u00e7\u00e3o. No Brasil, a gente est\u00e1 acostumado a ver a participa\u00e7\u00e3o pol\u00edtica vindo de uma cobran\u00e7a de servi\u00e7os p\u00fablicos. As periferias se formam numa aus\u00eancia, num v\u00e1cuo do Estado. Essas pessoas, ent\u00e3o, v\u00e3o se mobilizar para cobrar servi\u00e7o postal, circula\u00e7\u00e3o de \u00f4nibus, asfalto&#8230; E assim, ao fim e ao cabo, estaria a legaliza\u00e7\u00e3o das casas, a formaliza\u00e7\u00e3o dos bairros, que muitas vezes surgem de uma ocupa\u00e7\u00e3o irregular.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A gente tem essa tradi\u00e7\u00e3o de olhar a pobreza com essa mobiliza\u00e7\u00e3o social, mas \u00e9 muito mais complexo que isso. A gente achar que ter uma agenda de necessidades sempre gera mobiliza\u00e7\u00e3o \u00e9 uma vis\u00e3o incompleta. Uma coisa \u00e9 voc\u00ea ter a necessidade, outra \u00e9 voc\u00ea ter a capacidade de mobilizar e manter a mobiliza\u00e7\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Brasil nunca tem uma aus\u00eancia do que protestar, n\u00e9? N\u00e3o nos falta o que pedir, o que pode melhorar. Essa agenda est\u00e1 sempre l\u00e1. O que a gente tem de olhar, ent\u00e3o, \u00e9 essa capacidade de se organizar politicamente e de manter essa organiza\u00e7\u00e3o. Em 2013, 2012, a gente tinha uma grande capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o, porque a gente tinha uma agenda de necessidade de melhora. Com a expans\u00e3o econ\u00f4mica no Brasil, voc\u00ea tinha cidades, por exemplo, que estavam se expandindo no ciclo do petr\u00f3leo, no ciclo das commodities, cidades que estavam crescendo. E a\u00ed voc\u00ea tem o solo urbano que vai ficando muito caro. Com isso, o acesso \u00e0 moradia fica muito caro, e as pessoas come\u00e7am a ir pra periferia. E quem est\u00e1 indo para as periferias? S\u00e3o pessoas que, \u00e0s vezes, t\u00eam carteira assinada, trabalho, renda e educa\u00e7\u00e3o. A gente viu que teve um maior acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o superior nesse per\u00edodo. Houve a expans\u00e3o das universidades e do cr\u00e9dito educacional. Ent\u00e3o voc\u00ea tem essa agenda de necessidades de melhora e, ao mesmo tempo, pessoas que t\u00eam essa capacidade, esse capital pol\u00edtico de mobiliza\u00e7\u00e3o &#8211; porque t\u00eam emprego e educa\u00e7\u00e3o e acabam se mobilizando.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Hoje voc\u00ea tem uma agenda de necessidade de melhorias, principalmente, porque h\u00e1 um empobrecimento da popula\u00e7\u00e3o, mas a capacidade de mobiliza\u00e7\u00e3o n\u00e3o necessariamente melhorou. Voc\u00ea tem uma vulnerabilidade das rela\u00e7\u00f5es de trabalho, uma precariza\u00e7\u00e3o \u2013 f\u00e9rias e outros direitos que tendiam a ser mais est\u00e1veis e agora s\u00e3o negoci\u00e1veis. Voc\u00ea tem jornadas intermitentes e v\u00e1rias outras quest\u00f5es que deixam o trabalhador mais inseguro.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ent\u00e3o essa capacidade de protesto pela qual o Brasil \u00e9 muito famoso precisa ser entendida nesses pormenores. Quando essa capacidade est\u00e1 l\u00e1? A homogeneiza\u00e7\u00e3o desses grupos sociais, a politiza\u00e7\u00e3o desses grupos, a capacidade de segurar, de manter a mobiliza\u00e7\u00e3o hoje est\u00e1, realmente, muito dif\u00edcil com a vulnerabilidade da sociedade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E quais as consequ\u00eancias dessa redu\u00e7\u00e3o da participa\u00e7\u00e3o?<\/strong><br>Primeiro, essa sensa\u00e7\u00e3o de que as pessoas n\u00e3o est\u00e3o protestando. Na verdade, a gente tem que entender: nem sempre ter protesto \u00e9 sinal de que est\u00e1 tudo ruim, porque voc\u00ea ter essa capacidade de mobilizar fala muito sobre o momento da sociedade. E, ao n\u00e3o se ter protesto, o que acontece: a pobreza, ela \u00e9 uma forma de opress\u00e3o pol\u00edtica. Isso \u00e9 uma forma de entender essa n\u00e3o participa\u00e7\u00e3o; \u00e9 preciso entender esses aspectos de vulnerabilidade social, pol\u00edtica e econ\u00f4mica. Isso \u00e9 importante. Uma das consequ\u00eancias disso \u00e9 a gente fazer essa leitura desse momento da sociedade brasileira.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Outra quest\u00e3o \u00e9: at\u00e9 que ponto a mobiliza\u00e7\u00e3o da sociedade tem um impacto direto na pol\u00edtica brasileira? Quando voc\u00ea n\u00e3o tem essa mobiliza\u00e7\u00e3o, que tipo de licen\u00e7as os governantes t\u00eam? Porque \u00e9 uma forma de<em> accountability<\/em> social, das m\u00eddias. E voc\u00ea acaba n\u00e3o tendo, tanto assim, essa resposta na rua.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Acho que muito est\u00e1 por vir para a gente tentar entender esse sil\u00eancio na sociedade brasileira, esse \u201cn\u00e3o protesto\u201d. Eu acho que a gente tem ouvido muitas vozes nas redes sociais. A gente tem que entender quem s\u00e3o essas vozes, quem se pronuncia, quem consegue falar, e a gente tem que, tamb\u00e9m, se acostumar a estudar esse \u201cn\u00e3o protesto\u201d numa sociedade t\u00e3o famosa por essa cacofonia. A leitura das ruas, a gente tem que come\u00e7ar a entender o que isso significa. E, como eu disse, isso n\u00e3o significa que est\u00e1 tudo bem, n\u00e3o significa um consentimento, porque a gente pode entender que h\u00e1 outras formas de opress\u00e3o pol\u00edtica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea acha que a informalidade e a precariza\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho afetaram no sentido do agravamento da pandemia?<\/strong><br>Quando h\u00e1 uma demanda menor [no caso dos servi\u00e7os por aplicativos], o que isso acarreta \u00e0s fam\u00edlias, quando v\u00e1rias acabaram indo para esse mercado? Se h\u00e1 uma queda na demanda, h\u00e1 uma queda na renda, porque n\u00e3o h\u00e1 uma garantia de trabalho, n\u00e3o h\u00e1 um piso salarial, direitos garantidos. A rela\u00e7\u00e3o \u00e9 muito clara e r\u00e1pida. Ent\u00e3o a gente v\u00ea um empobrecimento da sociedade que dependia muito desse ganha-p\u00e3o. Al\u00e9m da exposi\u00e7\u00e3o a situa\u00e7\u00f5es de risco, como corridas para hospital sabendo que est\u00e3o carregando uma pessoa possivelmente contaminada. A gente viu muitos motoristas seriamente implicados no cont\u00e1gio.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Temos neste momento um presidente que est\u00e1 o tempo inteiro minando o processo eleitoral. Te parece que a gente vive uma deteriora\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es?<\/strong><br>Sim, acredito que h\u00e1 uma amea\u00e7a \u00e0s institui\u00e7\u00f5es e aos processos que at\u00e9 ent\u00e3o a gente achava consolidados, como as elei\u00e7\u00f5es &#8211; uma amea\u00e7a ao processo democr\u00e1tico, \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o das urnas, cujos efeitos a gente n\u00e3o tem um precedente muito \u00f3bvio de contesta\u00e7\u00e3o da forma das elei\u00e7\u00f5es: j\u00e1 h\u00e1 um an\u00fancio de que as elei\u00e7\u00f5es, se acontecerem em um certo formato, seu resultado n\u00e3o ser\u00e1 aceito. A gente viu isso nos Estados Unidos, com Trump. O que est\u00e1 por vir no Brasil \u00e9 extremamente preocupante e n\u00e3o democr\u00e1tico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Como voc\u00ea percebe a rea\u00e7\u00e3o internacional \u00e0 situa\u00e7\u00e3o tanto pol\u00edtica quanto sanit\u00e1ria no Brasil?<\/strong><br>O Brasil \u00e9 um pa\u00eds que chama muita aten\u00e7\u00e3o: tem dimens\u00f5es continentais, traz v\u00e1rias inova\u00e7\u00f5es. O Brasil tem estudos de caso muito positivos e muito negativos. Ultimamente os aspectos negativos t\u00eam chamado mais aten\u00e7\u00e3o, como a eros\u00e3o democr\u00e1tica, a deteriora\u00e7\u00e3o das institui\u00e7\u00f5es, as quest\u00f5es ambientais e tamb\u00e9m as quest\u00f5es sanit\u00e1rias com a pandemia. A imagem do Brasil ficou muito deteriorada. A gente v\u00ea que tem um interesse muito grande sobre o Brasil, uma demanda muito grande pra falar, dar entrevistas, explicar o que est\u00e1 acontecendo. A pauta tem sido muito negativa.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Sua atua\u00e7\u00e3o numa universidade do Reino Unido foi uma op\u00e7\u00e3o ou uma necessidade? Como se deu teu percurso profissional?<\/strong><br>N\u00e3o foi uma necessidade. Foi um percurso tra\u00e7ado com muita alegria. Sa\u00ed do Brasil para realizar o sonho de morar fora, fui estudar na Alemanha. Ganhei uma bolsa e tive a oportunidade de ficar para estudar um pouco mais. Nesses estudos pude ir pra \u00cdndia, pra \u00c1frica do Sul, depois pra \u00c1ustria. Um passo foi levando a outro. Acabei descobrindo v\u00e1rios lugares do mundo. Principalmente por ter ido pra \u00cdndia e \u00c1frica do Sul, isso gerou um novo olhar sobre o Brasil. Quando voc\u00ea est\u00e1 na Europa, essa compara\u00e7\u00e3o \u00e9 muito distante. Quando se vai pra \u00c1frica do Sul e \u00cdndia, \u00e9 como se voc\u00ea estivesse no Brasil, mas em outro lugar ou outro momento. Ent\u00e3o voc\u00ea consegue se colocar em situa\u00e7\u00f5es em que n\u00e3o se colocaria no Brasil, de inseguran\u00e7a \u2013 porque no Brasil, voc\u00ea sabe que \u00e9 violento, mas sabe seu caminho. De repente voc\u00ea est\u00e1 na \u00c1frica do Sul e n\u00e3o sabe exatamente onde evitar, aonde ir, e come\u00e7a a entender quest\u00f5es urbanas de viol\u00eancia muito na pele. Na \u00cdndia, por exemplo, a quest\u00e3o de g\u00eanero vem com muito mais for\u00e7a. Foi bastante provocativo intelectualmente morar e estudar nesses lugares \u2013 meu dia a dia era uma etnografia, era um estudo, era como se eu fosse um objeto de pesquisa naquele contexto. Isso foi gerando uma curiosidade, um estilo de vida que voc\u00ea adota de investiga\u00e7\u00e3o de trabalho de campo, de viagem. Isso virou fazer o que amo. Uma porta foi abrindo outra; tive a chance de fazer um doutorado, um p\u00f3s-doutorado aqui em Oxford e, quando estava terminando, abriu uma vaga pra professora. Foram ciclos que abriram outros ciclos, mas n\u00e3o foi uma necessidade. Na verdade, era at\u00e9 o contr\u00e1rio. Sa\u00ed do Brasil em 2006, ano em que tinha muita coisa acontecendo. Todos os meus colegas de gradua\u00e7\u00e3o ou passaram em concurso p\u00fablico, ou fizeram mestrado e doutorado e hoje s\u00e3o professores. Meus pais n\u00e3o queriam que eu sa\u00edsse do pa\u00eds. Me falaram: \u201cQue loucura voc\u00ea sair do Brasil!\u201d. Tinha muita oportunidade. Ent\u00e3o n\u00e3o foi necessidade, foi at\u00e9 um ato quase rebelde sair naquele momento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Ocupar essa posi\u00e7\u00e3o de diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil na Universidade de Oxford te coloca numa responsabilidade de dar a ver a situa\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e0 comunidade internacional?<\/strong><br>Acredito que tem um impacto grande, porque, sendo brasileira, isso por si j\u00e1 mostra um pouco dessa forma\u00e7\u00e3o da nova gera\u00e7\u00e3o da ci\u00eancia brasileira \u2013 fiz a gradua\u00e7\u00e3o no Brasil e sou muito grata a isso. Tamb\u00e9m traz uma interse\u00e7\u00e3o, um acesso da comunidade internacional ao que est\u00e1 sendo produzido no Brasil, a uma an\u00e1lise sobre o pa\u00eds. As pessoas se interessam, t\u00eam muita oportunidade de entrevista e participa\u00e7\u00e3o em confer\u00eancias. Voc\u00ea consegue trazer a comunidade acad\u00eamica brasileira para esses holofotes internacionais. Tem essa quest\u00e3o de ser uma ponte entre pesquisadores internacionais e brasileiros. Me vejo muito nesse papel de conectar pessoas: existem n\u00e3o s\u00f3 ve\u00edculos de comunica\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m acad\u00eamicos que me procuram: \u201cEstou fazendo uma pesquisa nesse tema e preciso de um colaborador no Brasil\u201d. A\u00ed voc\u00ea consegue juntar as pontas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Teu interesse de pesquisa segue sendo o Brasil. Como voc\u00ea se mant\u00e9m conectada? Como est\u00e1 sua agenda de pesquisa?<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Minha pesquisa \u00e9 muito relacionada ao Brasil e a esses pa\u00edses a que tenho mais acesso, como \u00c1frica do Sul e \u00cdndia. Fiz muita etnografia, mas com a pandemia usei muito a coleta de dados mais quantitativos. No futuro, espero voltar a fazer trabalho de campo no Brasil, mas tamb\u00e9m acho que tem muito a se estudar em outros lugares. Hoje temos uma facilidade digital, d\u00e1 pra gente se conectar muito com o que est\u00e1 acontecendo fora. Mas nada substitui um bom trabalho de campo. Enquanto ele estiver dif\u00edcil de fazer, acho muito importante lembrar do papel das colabora\u00e7\u00f5es entre cientistas de diversos locais \u2013 n\u00e3o tem porque estar numa universidade na Europa e fazer a pesquisa sobre o Brasil sozinho. Hoje publico com pessoas que foram meus informantes. A gente faz muita colabora\u00e7\u00e3o com parcerias acad\u00eamicas e n\u00e3o acad\u00eamicas, como entidades municipais. \u00c9 poss\u00edvel fazer a leitura da realidade com dados, mas \u00e9 bem melhor fazer com quem est\u00e1 vivendo \u2013 o papel da colabora\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial. A pandemia abriu muito a porta pra isso.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Vimos recentemente o ataque \u00e0 est\u00e1tua do Borba Gato em S\u00e3o Paulo. Que significados esse epis\u00f3dio pode evocar? De que outras formas poder\u00edamos nos confrontar com esses monumentos e mem\u00f3rias para que deixe de se perpetuar a viol\u00eancia ligada a essas figuras?<\/strong><br>Na pesquisa que fa\u00e7o com munic\u00edpios mineiros e a quest\u00e3o da minera\u00e7\u00e3o, estudei muito o patrim\u00f4nio hist\u00f3rico, at\u00e9 porque a gente via muito essa quest\u00e3o de compensa\u00e7\u00e3o pelos danos causados pela minera\u00e7\u00e3o voltadas para a restaura\u00e7\u00e3o do patrim\u00f4nio hist\u00f3rico. Nem sempre isso era proporcional, porque voc\u00ea v\u00ea o dano sendo causado de um lado e o restauro sendo colocado em outro lugar, no centro hist\u00f3rico \u2013 e \u00e9 muito dif\u00edcil algu\u00e9m ser contra quest\u00f5es culturais e educacionais. Era como se voc\u00ea preservasse o passado, mas n\u00e3o estava entregando um futuro pra essas comunidades. E esse passado que se est\u00e1 preservando tamb\u00e9m precisa ser visto na sua viol\u00eancia: que mem\u00f3rias a gente est\u00e1 preservando e que outras a gente esqueceu?<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A quest\u00e3o das est\u00e1tuas mostra a seletividade da mem\u00f3ria cultural urbana: que monumentos a gente acabou erguendo?, que hist\u00f3rias a gente se permitiu lembrar?, qual foi a ideia dessa forma\u00e7\u00e3o da mem\u00f3ria brasileira, da forma\u00e7\u00e3o nacional? Essa mem\u00f3ria sempre teve medo desse passado que tinha essas divis\u00f5es \u2013 um pa\u00eds com divis\u00f5es regionais, raciais, econ\u00f4micas e sociais, e que busca esse pertencimento nacional por meio de mitos de um brasilianismo que \u00e9 muito forjado por esse outro, que \u00e9 o colonizador. Temos as revolu\u00e7\u00f5es contra o imp\u00e9rio, mas n\u00e3o questionamos quem eram os brasileiros, o que era essa brasilidade &#8211; quest\u00f5es que acabaram sendo jogadas pra debaixo do tapete. Acho que seria importante a gente contextualizar melhor a hist\u00f3ria. Temos uma aus\u00eancia de her\u00f3is e biografias que realmente representem a sociedade brasileira em toda a sua complexidade. Se trouxermos isso \u00e0 tona, acho que o peso dessa escolha que fizemos no in\u00edcio do s\u00e9culo passado acaba diminuindo. N\u00e3o necessariamente voc\u00ea precisa derrubar as est\u00e1tuas, mas pode erguer outras. Mas a quest\u00e3o de derrubar tamb\u00e9m precisa ser colocada. Aqui em Oxford tem a discuss\u00e3o sobre a est\u00e1tua de Cecil Rhodes, que teve um passado colonial: o que se discute \u00e9 se ela precisa mesmo estar ali naquele lugar. Uma coisa \u00e9 estar num museu, onde se pode trazer uma narrativa, outra \u00e9 estar na rua onde est\u00e1 sendo celebrada. As situa\u00e7\u00f5es precisam ser olhadas caso a caso. \u00c9 preciso fazer uma etnografia da rela\u00e7\u00e3o das pessoas com esses monumentos. Por exemplo, a est\u00e1tua de Tiradentes eu n\u00e3o vejo gerar uma rea\u00e7\u00e3o negativa, mas a de Borba Gato em S\u00e3o Paulo gerou.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Diretora do Centro de Estudos sobre o Brasil na Universidade de Oxford analisa a fragmenta\u00e7\u00e3o do controle da epidemia de covid-19 no pa\u00eds e aponta como a vulnerabilidade social e pol\u00edtica aprofundaram os efeitos da crise sanit\u00e1ria<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-pobreza-e-uma-forma-de-opressao-politica-afirma-a-professora-andreza-aruska-de-souza-santos\/\">Leia 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