{"id":35988,"date":"2021-08-19T09:30:00","date_gmt":"2021-08-19T12:30:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=35988"},"modified":"2021-08-19T10:20:52","modified_gmt":"2021-08-19T13:20:52","slug":"dinamicas-sociais-trazem-novas-interpretacoes-de-monumentos-publicos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/dinamicas-sociais-trazem-novas-interpretacoes-de-monumentos-publicos\/","title":{"rendered":"Din\u00e2micas sociais trazem novas interpreta\u00e7\u00f5es de monumentos p\u00fablicos"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Hist\u00f3ria | O debate a respeito da retirada ou ressignifica\u00e7\u00e3o de est\u00e1tuas no espa\u00e7o p\u00fablico passa pela compreens\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o da sociedade com o passado se d\u00e1 de acordo com os valores do presente<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O inc\u00eandio da est\u00e1tua de Borba Gato no dia 24 de julho em S\u00e3o Paulo trouxe \u00e0 tona uma discuss\u00e3o que volta e meia surge e se destaca sobre o que fazer com o passado colonial e autorit\u00e1rio e sobre o que fazer com monumentos que para v\u00e1rios grupos s\u00e3o s\u00edmbolos de opress\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo da hist\u00f3ria, a derrubada de monumentos foi algo constante, sobretudo ap\u00f3s conflitos pol\u00edticos. Para Arthur \u00c1vila, professor do Departamento de Hist\u00f3ria da UFRGS e pesquisador de Hist\u00f3ria dos Estados Unidos, trata-se de uma maneira de o vencedor mostrar sua vit\u00f3ria para al\u00e9m dos campos de batalha. \u201cClaro que isso [a derrubada] pode parecer muito radical, evidentemente. Mas faz parte dessa din\u00e2mica o fato de as comunidades &#8211; n\u00e3o s\u00f3 as na\u00e7\u00f5es ou grupos espec\u00edficos, mas as comunidades multiformes &#8211; constru\u00edrem seus passados a partir de demandas do presente\u201d, explica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O historiador afirma que a rela\u00e7\u00e3o das sociedades com seu passado n\u00e3o \u00e9 est\u00e1tica, mas, sim, din\u00e2mica. Isso pode ser observado tanto na proposi\u00e7\u00e3o de retirada quanto na constru\u00e7\u00e3o de monumentos. Al\u00e9m, \u00e9 claro, dos diversos movimentos que v\u00eam questionando a necessidade de monumentos p\u00fablicos a figuras hist\u00f3ricas que participaram dos genoc\u00eddios de pessoas negras, povos ind\u00edgenas, etc.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Preservar para futuras gera\u00e7\u00f5es<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Num sentido amplo, podemos definir patrim\u00f4nio cultural ou hist\u00f3rico como tudo aquilo que a sociedade escolhe preservar para as futuras gera\u00e7\u00f5es por ser significativo na percep\u00e7\u00e3o hist\u00f3rica, ambiental, afetiva, etc. Desse modo, segundo a professora Zita Possamai, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Museologia e Patrim\u00f4nio da UFRGS, apenas a vontade de preservar a mem\u00f3ria n\u00e3o basta para que algo se torne um patrim\u00f4nio:<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cEm diversas situa\u00e7\u00f5es h\u00e1 disputas e conflitos em torno da preserva\u00e7\u00e3o ou da destrui\u00e7\u00e3o de determinados bens, pois, em muitos casos, especialmente nos contextos urbanos e ambientais, a n\u00e3o conserva\u00e7\u00e3o envolve interesses econ\u00f4micos bastante objetivos\u201d<\/p><cite>Zita Possamai<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No Brasil, segundo Zita, inicialmente procurou-se preservar como patrim\u00f4nio nacional os vest\u00edgios arquitet\u00f4nicos ligados a uma ideia de brasilidade barroca, em harmonia ao imagin\u00e1rio da elite intelectual que comandava a ag\u00eancia de preserva\u00e7\u00e3o nos anos 1930 e 1940. Desse modo, foram preservadas cidades mineiras, as miss\u00f5es jesu\u00edticas guarani e tantos outros bens ligados ao per\u00edodo colonial brasileiro.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao longo dos anos foram sendo incorporados ao Instituto do Patrim\u00f4nio Hist\u00f3rico e Art\u00edstico Nacional (IPHAN) diversos outros bens, cada um com suas especificidades, sendo o terreiro de candombl\u00e9 Casa Branca, localizado em Salvador, um tombamento-marco para a institui\u00e7\u00e3o da ruptura com a vis\u00e3o consagrada e preponderante de determinados valores arquitet\u00f4nicos como condi\u00e7\u00e3o para tombamentos. Al\u00e9m disso, tamb\u00e9m foi incorporada na legisla\u00e7\u00e3o a no\u00e7\u00e3o de Patrim\u00f4nio Imaterial, que permitiu valorizar saberes, fazeres, festividades e outros aspectos culturais que n\u00e3o necessariamente estejam representados de forma material.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Mudan\u00e7as de perspectiva<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Uma defini\u00e7\u00e3o simples de monumentos p\u00fablicos se refere ao fato de eles serem uma homenagem ou um s\u00edmbolo de uma determinada \u00e9poca, como a Torre Eiffel, de uma religi\u00e3o, como o Cristo Redentor, ou at\u00e9 mesmo de um evento que n\u00e3o queremos repetir,&nbsp; como o Memorial do Holocausto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tadeu Chiarelli,&nbsp; professor da Escola de Comunica\u00e7\u00e3o e Artes da Universidade de S\u00e3o Paulo, complementa essa defini\u00e7\u00e3o, acrescentando que monumentos tamb\u00e9m s\u00e3o documentos de um determinado grupo que, em certo momento, decidiu homenagear algu\u00e9m ou algum feito.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele explica que todo monumento, com o passar dos anos, tende a mudar seu significado. O que era importante para uma gera\u00e7\u00e3o, para outra pode deixar de ser: \u201cSe, no entanto, al\u00e9m da quest\u00e3o geracional, surgem os problemas de classe social e o problema racial, ent\u00e3o a situa\u00e7\u00e3o se torna ainda mais dif\u00edcil porque sobre a obra outros significados s\u00e3o agregados\u201d, relata.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">De acordo com Arthur, \u00e9 preciso ter em mente que n\u00e3o h\u00e1 uma \u00e9tica universal para tratar todas as figuras hist\u00f3ricas \u2013 para ele, seguir por esse caminho \u00e9 muito pouco produtivo. Obviamente existem personagens sobre os quais existe consenso de que n\u00e3o deveriam de maneira nenhuma receber homenagens. A constru\u00e7\u00e3o de monumentos e esculturas em espa\u00e7os p\u00fablicos, no entanto, sempre diz respeito a quem tem poder em determinado momento de impor quais figuras v\u00e3o ser homenageadas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cO her\u00f3i de alguns sempre vai ser o bandido de outros \u2013 essa \u00e9 uma quest\u00e3o fundamental pra gente entender. Ent\u00e3o, mais importante que ficar focando na figura em si \u00e9 pensar quais din\u00e2micas permitiram determinadas homenagens. Quais din\u00e2micas permitiram uma est\u00e1tua de Bento Gon\u00e7alves e de Castelo Branco na cidade de Porto Alegre?\u201d<\/p><cite>Arthur \u00c1vila<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Zita recorda o exemplo de um monumento em Porto Alegre ao General Jorge Vidella, genocida argentino condenado por seus crimes. Ela ressalta que houve uma mudan\u00e7a de perspectiva a seu respeito. Nos 1990, houve discuss\u00f5es sobre a retirada da placa que o homenageava na Pra\u00e7a Argentina, colocada nos anos de 1980 no mesmo espa\u00e7o em que estudantes se manifestaram contra a ditadura. Naquela ocasi\u00e3o, era defendida a sua simples remo\u00e7\u00e3o. A pesquisadora conta que o debate foi importante; a medida sugerida pelo poder p\u00fablico municipal, que inclu\u00eda uma alus\u00e3o \u00e0s Madres de La Plaza de Mayo (movimento de m\u00e3es argentinas que tiveram seus filhos assassinados ou desaparecidos durante a ditadura), entretanto, n\u00e3o foi adiante, tendo sido a placa inclusive furtada do local. \u201cPerdemos a oportunidade de transformar a Pra\u00e7a Argentina num \u2018lugar de mem\u00f3ria\u2019 da ditadura civil-militar em Porto Alegre, epis\u00f3dio que sofre um apagamento e um negacionismo perigoso nos dias de hoje\u201d, opina.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Atualmente, temos o Monumento \u00e0s Bandeiras e a est\u00e1tua de Borba Gato como exemplos de constru\u00e7\u00f5es cuja presen\u00e7a no espa\u00e7o p\u00fablico vem sendo questionada. Ambos representam a vis\u00e3o de um determinado grupo duma determinada \u00e9poca sobre os personagens homenageados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse sentido, o Monumento \u00e0s Bandeiras, constru\u00eddo por uma equipe de oper\u00e1rios comandada por Victor Brecheret, era previsto para ser inaugurado nas festividades do Centen\u00e1rio da Proclama\u00e7\u00e3o da Independ\u00eancia do pa\u00eds, ainda em 1920, mas s\u00f3 come\u00e7ou a ser constru\u00edda 16 anos depois, em 1936. Quando foi finalizada, S\u00e3o Paulo n\u00e3o era mais a mesma dos anos 1920. Nesse per\u00edodo, ocorreram a Revolu\u00e7\u00e3o de 1930 e a Revolu\u00e7\u00e3o Constitucionalista de 1932.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Tadeu conta que o Monumento foi uma a\u00e7\u00e3o das classes dominantes daquele per\u00edodo para rememorar o suposto car\u00e1ter&nbsp; heroico das bandeiras enquanto um fen\u00f4meno coletivo: grupo de pessoas (os bandeirantes) que sa\u00edam de S\u00e3o Paulo rumo ao interior do Brasil para conquistar todo o territ\u00f3rio. \u201c\u00c9 importante sublinhar que no projeto definitivo de Brecheret est\u00e3o representados brancos, pretos, ind\u00edgenas e mesti\u00e7os, al\u00e9m de imigrantes \u2013 ou seja, uma vis\u00e3o mais inclusiva dos \u2018bandeirantes\u2019 e de S\u00e3o Paulo. Mesmo assim, o governo federal e as for\u00e7as armadas parece que, \u00e0 \u00e9poca, n\u00e3o ficaram satisfeitas com essa homenagem que os paulistas faziam a seus antepassados\u201d, contextualiza.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Por muitas gera\u00e7\u00f5es, o Monumento foi objeto de admira\u00e7\u00e3o por paulistanos de distintas classes sociais, pontua Tadeu. Recentemente, entretanto, ocorreram diversas manifesta\u00e7\u00f5es contra a escultura pelo fato de que outras camadas da sociedade come\u00e7aram a enxergar o Monumento \u00e0s Bandeiras n\u00e3o mais como uma homenagem aos supostos her\u00f3is a quem devemos nosso territ\u00f3rio, mas a assassinos escravocratas e estupradores.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No caso da est\u00e1tua de Borba Gato, concebida por J\u00falio Guerra, localizada na entrada do bairro Santo Amaro na cidade de S\u00e3o Paulo, sua produ\u00e7\u00e3o contou com o aval de setores da cidade que apoiaram a homenagem a esse bandeirante que, durante muito tempo, foi visto como her\u00f3i e que hoje \u00e9 visto como um assassino de povos ind\u00edgenas e de pessoas negras escravizadas. Tadeu aponta um detalhe interessante: Julio Guerra, quando concebeu o monumento, optou por aproximar a obra estilisticamente a esculturas pequenas feitas de barro produzidas no Nordeste do pa\u00eds, como uma forma de homenagear a popula\u00e7\u00e3o nordestina que habitava o bairro onde a est\u00e1tua foi constru\u00edda, no in\u00edcio dos anos 1960.&nbsp;&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cGuerra era um escultor que cultuava uma produ\u00e7\u00e3o mais tradicional e conservadora, mas, para aquele monumento, ele optou por se aproximar das camadas populares. O que n\u00e3o impediu que sua obra, passados pouco mais de 50 anos, passasse a ser vista como uma homenagem das elites a um assassino\u201d<\/p><cite>Tadeu Chiarelli<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"690\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-36071\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1-156x117.jpg 156w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1-465x349.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1123-1-667x500.jpg 667w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"690\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-36070\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1-300x225.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1-156x117.jpg 156w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1-768x576.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1-465x349.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/08\/Fla\u0301vio-Dutra-1112-1-667x500.jpg 667w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>A escultura em bronze de Ant\u00f4nio Caringi, O La\u00e7ador, representa o ga\u00facho pilchado, s\u00edmbolo da import\u00e2ncia atribu\u00edda ao homem do campo no estado, e que, em Porto Alegre, est\u00e1 colocada na entrada da cidade. Acima, a escultura que homenageia o Marechal Castelo Branco, de autoria de Carlos Tenius. Inaugurada em 1979, \u00e9 vista no Parque Moinhos de Vento &#8211; Parc\u00e3o (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\">Os monumentos n\u00e3o s\u00e3o o passado<\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um discurso comumente visto nas redes sociais \u00e9 de que ao derrubar est\u00e1tuas estar\u00edamos apagando o passado, quase numa rela\u00e7\u00e3o de causa e efeito. Monumentos a Robert Lee e Stonewall Jackson foram derrubados e retirados de espa\u00e7os p\u00fablicos nos Estados Unidos. Nem por isso, afirma Arthur, os estadunidenses deixaram de lembrar ou estudar os confederados. Isso se d\u00e1 pelo simples fato de que as est\u00e1tuas n\u00e3o s\u00e3o o passado.&nbsp;\u201cMe parece que essa discuss\u00e3o \u00e9 muito moralizante. \u00c9 muito f\u00e1cil cair num discurso do tipo: &#8216;Vamos reescrever, vamos obliterar o passado, ningu\u00e9m vai mais se lembrar&#8217;. N\u00e3o, isso n\u00e3o existe\u201d, reitera.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro argumento recorrente nas discuss\u00f5es sobre a derrubada de monumentos p\u00fablicos \u00e9 o de que grupos que contestam a necessidade dessas est\u00e1tuas estariam sendo anacr\u00f4nicos ao exigir que personagens hist\u00f3ricos seguissem o mesmo padr\u00e3o \u00e9tico e moral dos dias de hoje. Arthur rebate apontando que toda rela\u00e7\u00e3o com passado \u00e9, a princ\u00edpio, anacr\u00f4nica. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>\u201cToda rela\u00e7\u00e3o com o passado imp\u00f5e uma recontextualiza\u00e7\u00e3o do passado. E o anacronismo significa tirar as coisas do seu tempo. Ent\u00e3o recontextualizar \u00e9 de alguma maneira tirar as coisas do seu tempo\u201d<\/p><cite>Arthur \u00c1vila<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ele acrescenta que h\u00e1 uma seletividade na base desse argumento. \u201cAnacronismo por anacronismo, por que n\u00e3o se condena o da d\u00e9cada de 60 dos que constru\u00edram a est\u00e1tua quando as bandeiras j\u00e1 n\u00e3o eram nem mais importantes\u201d, refor\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para ele, n\u00e3o se trata dos valores de Borba Gato ou de qualquer figura traum\u00e1tica do passado, mas, sim, dos nossos valores como sociedade: \u201cN\u00f3s queremos continuar com monumentos relacionados a passados autorit\u00e1rios, escravocratas, racistas? Ou n\u00f3s queremos ressignificar esse passado a partir de uma s\u00e9rie de outras coisas, como retirar as est\u00e1tuas, ou mesmo ressignific\u00e1-las nos lugares em que elas est\u00e3o?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Hist\u00f3ria | O debate a respeito da retirada ou ressignifica\u00e7\u00e3o de est\u00e1tuas no espa\u00e7o p\u00fablico passa pela compreens\u00e3o de que a rela\u00e7\u00e3o da sociedade com o passado se d\u00e1 de acordo com os valores do presente<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/dinamicas-sociais-trazem-novas-interpretacoes-de-monumentos-publicos\/\">Leia 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