{"id":36691,"date":"2021-11-11T09:18:00","date_gmt":"2021-11-11T12:18:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=36691"},"modified":"2021-11-20T15:17:52","modified_gmt":"2021-11-20T18:17:52","slug":"eva-schul-arte-e-politica-e-nao-tem-como-escapar-disso","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/eva-schul-arte-e-politica-e-nao-tem-como-escapar-disso\/","title":{"rendered":"Eva Schul: &#8220;Arte \u00e9 pol\u00edtica, e n\u00e3o tem como escapar disso&#8221;"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Entrevista | Inovadora e pioneira bailarina, core\u00f3grafa e professora fala sobre suas primeiras lembran\u00e7as da dan\u00e7a, as viol\u00eancias de g\u00eanero que enfrentou, as atuais crises brasileiras e como transformou sua arte em ve\u00edculo de den\u00fancia e transforma\u00e7\u00e3o da realidade<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>Foto: Eduardo Carneiro<\/em> <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eva Schul nasceu em 1948, em Cremona, no Norte da It\u00e1lia, em um abrigo americano para refugiados da Segunda Guerra Mundial. Primog\u00eanita do casal Melinda Hirsch de Schul e Nicolas Schul Filip, judeus h\u00fangaros sobreviventes do nazismo sem qualquer inten\u00e7\u00e3o de criar a pequena filha na fragilizada Europa de ent\u00e3o, Eva desembarcou com a fam\u00edlia na Am\u00e9rica do Sul ainda crian\u00e7a. Em solo sul-americano, a fam\u00edlia fixou moradia em Montevid\u00e9u, onde permaneceu at\u00e9 a mudan\u00e7a para Porto Alegre em 1956. Naquele ano, Eva tamb\u00e9m iniciou sua trajet\u00f3ria na dan\u00e7a, a partir do bal\u00e9 cl\u00e1ssico. Quatro anos depois, em 1960, ao participar do 1.\u00ba Congresso Nacional de Dan\u00e7a, em Curitiba, conheceu a dan\u00e7a moderna.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em seis d\u00e9cadas, a jovem bailarina transformou-se em uma das mais importantes figuras da dan\u00e7a brasileira. De sua carreira como dan\u00e7arina, core\u00f3grafa e formadora, destacam-se o aprendizado com mestres e mestras como Alwin Nikolais e Hanya Holm, o pioneirismo na pr\u00e1tica e no ensino de dan\u00e7a contempor\u00e2nea no Brasil, a cria\u00e7\u00e3o de mais de 100 coreografias, a forma\u00e7\u00e3o de artistas de renome nacional e internacional e a cria\u00e7\u00e3o e gest\u00e3o de espa\u00e7os de aprendizado e exerc\u00edcio de dan\u00e7a, como a \u00c2nima Companhia de Dan\u00e7a, criada pela artista em 1991, em Porto Alegre, e em funcionamento trinta anos depois.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Detentora de muitos feitos e diversas experi\u00eancias, Eva, nessa entrevista, fala sobre os primeiros momentos de encantamento com a dan\u00e7a, as intensas transforma\u00e7\u00f5es em sua arte em mais de 60 anos de carreira, o car\u00e1ter politizado de suas obras, a perversidade das opress\u00f5es de g\u00eanero que experienciou e denuncia. Tamb\u00e9m sobre o temor e a inquieta\u00e7\u00e3o em raz\u00e3o da pandemia, os sentimentos e o desejo por mudan\u00e7a em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s diversas crises que assolam Brasil e mundo, e a celebra\u00e7\u00e3o de suas muitas realiza\u00e7\u00f5es e contribui\u00e7\u00f5es por meio da mem\u00f3ria \u2013 a qual afirma ser a sua grande utopia.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39975\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-2-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Foto: Eduardo Carneiro<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea ingressou no universo da dan\u00e7a muito jovem. Quais s\u00e3o as suas primeiras mem\u00f3rias sobre dan\u00e7a?<\/strong><br>Na It\u00e1lia, a minha m\u00e3e e a minha tia tinham o h\u00e1bito de ir a teatros e cinemas. Elas foram criadas em um ambiente muito culto, diferentemente do meu pai, que vinha da classe oper\u00e1ria. Eles nem teriam se encontrado se n\u00e3o fosse a guerra. Dentro dessa perspectiva, a gente ia bastante a esses lugares no Uruguai. Um dos filmes que a gente viu uma vez foi &#8220;Os Sapatinhos Vermelhos&#8221;, com Moira Shearer. Um filme famos\u00e9rrimo, um musical em que ela cal\u00e7ava sapatinhos m\u00e1gicos e dan\u00e7ava loucamente. Ao mesmo tempo, no carnaval uruguaio, as pessoas montavam tablados pelas ruas, onde tocavam m\u00fasica e dan\u00e7avam, e eu sempre subia nesses palcos e dan\u00e7ava. Isso desde os tr\u00eas anos de idade. Quando nos mudamos para o Brasil, a minha m\u00e3e teve a oportunidade de me colocar em uma escola de bal\u00e9 que era pertinho da nossa casa, e eu logo despontei como a estrelinha dessa escola.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>E ap\u00f3s seis d\u00e9cadas de carreira, como a dan\u00e7a se transformou para voc\u00ea?<\/strong><br>Se transformou totalmente, em v\u00e1rios sentidos. Primeiro que eu fui deixando de ser int\u00e9rprete. Enquanto bailarina, eu dancei principalmente nas m\u00e3os do Nikolais e da Hanya, em Nova Iorque, nos anos 70. Na dan\u00e7a contempor\u00e2nea, sem ser as experi\u00eancias no exterior, eu fui bailarina apenas nas minhas pr\u00f3prias cria\u00e7\u00f5es. Porque quando eu voltei ao Brasil, ap\u00f3s 10 anos em Nova Iorque, eu percebi que eu n\u00e3o tinha lugar para dan\u00e7ar. Tudo era muito incipiente, baseado na dan\u00e7a cl\u00e1ssica, principalmente em Curitiba, onde eu fui parar. A dan\u00e7a expressionista, \u00e0 base de improvisa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o existia. Ent\u00e3o eu n\u00e3o tinha quem me dirigisse, n\u00e3o tinha onde fazer aula. A partir de um certo momento, eu comecei a usar as refer\u00eancias dos meus mestres e comecei a criar uma dan\u00e7a de maior assinatura, mais pessoal, e que foi ficando cada vez mais feminina. Porque eu queria falar sobre a minha rela\u00e7\u00e3o com o mundo, com as pessoas que me rodeavam, as quest\u00f5es humanas que me interessavam. E, depois, essa coisa mais panflet\u00e1ria. Eu fui me dando conta de que precisava sacudir o espectador, que ele n\u00e3o poderia sair de dentro do teatro isento, sair para ir ao barzinho beber. Se ele fosse ao barzinho beber, que sa\u00edsse com quest\u00f5es que ele discutiria at\u00e9 a madrugada.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;A minha vida toda foi em torno da minha carreira. Eu tive que abandonar o meu filho, que eu tive muito cedo, para viver esses 10 anos em Nova Iorque. A gente tem que fazer certas escolhas. A vida \u00e9 feita de escolhas. E a dan\u00e7a foi a grande escolha da minha vida&#8221;<\/p><cite>Eva Schul<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A sua obra habitualmente trata sobre quest\u00f5es urgentes na sociedade, como a viol\u00eancia contra a mulher, tema do espet\u00e1culo &#8220;Acuados&#8221;, de 2016. Como a arte pode transformar o mundo?<\/strong><br>Eu levanto muita bandeira, eu sou muito panflet\u00e1ria. Arte \u00e9 pol\u00edtica, e n\u00e3o tem como escapar disso. Se a minha arte n\u00e3o servir para mudar alguma coisa no mundo, nem que seja em uma pessoa que esteja na plateia, olho no olho comigo, ent\u00e3o, para mim, a minha arte n\u00e3o vale coisa alguma. Porque eu n\u00e3o quero alimentar fantasias. Eu n\u00e3o tenho qualquer desejo de trabalhar com lazer. A arte tem uma responsabilidade muito grande, que \u00e9 retratar o seu tempo, o seu <em>environment<\/em>, o seu meio, e trazer \u00e0 tona quest\u00f5es fundamentais na sociedade. Para mim, isso \u00e9 arte. Ela tem que sacudir, tem que tocar, tem que sensibilizar. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu sempre fa\u00e7o um bate-papo depois de apresentar os meus espet\u00e1culos para tentar avaliar se o p\u00fablico se sentiu tocado de alguma maneira. E o resultado \u00e9 impressionante, principalmente no interior. Uma vez, uma senhorinha, com 60 e poucos anos, disse para n\u00f3s que s\u00f3 depois de assistir &#8220;Acuados&#8221; que se deu conta que foi oprimida a vida toda pela viol\u00eancia oral do marido. Um grupo de senhores, em Santa Maria, todos tamb\u00e9m com 60 anos, falaram que sempre foram machistas e nunca se deram conta de que estavam cometendo viol\u00eancia. S\u00e3o todas coisas&nbsp;muito duras, muito dif\u00edceis. Eu vivi isso na minha fam\u00edlia, com tios que achavam supernormal fazer a mulher de empregada e coisas desse g\u00eanero.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39976\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-7-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption>Foto: Eduardo Carneiro<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Por que para voc\u00ea \u00e9 importante falar sobre as experi\u00eancias das mulheres?<\/strong><br>Eu fui uma rebelde em uma \u00e9poca em que isso era loucura. Eu fiz muitas coisas na minha vida que foram uma absoluta rebeldia, porque mulher n\u00e3o fazia essas coisas. Meu primeiro ex-marido era 14 anos mais velho que eu. Ele queria uma mulher-trof\u00e9u, por isso casou com uma mulherzinha bonitinha, bailarina. Se ele n\u00e3o aprovasse a minha roupa, ele se recusava a sair comigo. E eu me recusava a trocar. \u00c9 botar a mulher em uma camisa de for\u00e7a: tem que cozinhar, tem que fazer a limpeza da casa, tem que cuidar dos filhos. Em meus 73 anos, eu tive quatro maridos, e todos eles pensavam assim. Eu me separei de todos eles justamente porque eu nunca aceitei isso. Eu passei a vida toda em um cabo de guerra com os homens da minha vida. Tem que partir de n\u00f3s, mulheres, perceber que a gente n\u00e3o \u00e9 obrigada a seguir esses par\u00e2metros. Querem nos for\u00e7ar, querem nos impor, mas n\u00f3s temos que ter algum ve\u00edculo para denunciar o que est\u00e3o tentando fazer conosco. Para mim, essa den\u00fancia \u00e9 feita na minha obra.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Temos que tomar muito cuidado para que essas opress\u00f5es n\u00e3o se tornem parte de n\u00f3s, porque culturalmente elas j\u00e1 est\u00e3o registradas na gente&#8221;<\/p><cite>Eva Schul<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Obra essa atualmente documentada no site <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/carnedigital\/\">Carne Digital<\/a>, acervo virtual que documenta e difunde a sua trajet\u00f3ria. Quais s\u00e3o os significados desse projeto para voc\u00ea?<\/strong><br>Isso faz parte de ter idade, de ter muito tempo de carreira. Nada \u00e9 por acaso. Chegar ao ponto em que eu estou hoje na minha vida, aos 73 anos de idade, \u00e9 porque eu trabalhei muito e continuo trabalhando. Eu tenho a sorte de sempre trabalhar com gente jovem e criativa em torno de mim. Isso \u00e9 algo que alimenta. A vida \u00e9 feita de trocas, n\u00e3o existe nada que se fa\u00e7a sozinho. S\u00e3o essas trocas que fazem com que a gente continue podendo evoluir, n\u00e3o estabilize, n\u00e3o estacione, n\u00e3o vire m\u00famia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>J\u00e1 que estamos falando sobre a import\u00e2ncia das trocas, como tem sido viver em meio ao coronav\u00edrus? N\u00e3o poder estar plenamente nos palcos e nas salas de aulas, plenamente perto do p\u00fablico e dos seus alunos&#8230;<\/strong><br>Muito dif\u00edcil em muitos sentidos. Quando a gente fala de humanidade, a gente fala de pele, de olho, de escuta, de afeto, de toque. Com a minha idade, eu passei muito tempo realmente isolada. Nem a minha fam\u00edlia eu n\u00e3o via a n\u00e3o ser pela tela. Atualmente, n\u00e3o, porque estamos todos vacinados, nenhum de n\u00f3s tem vida social fora da fam\u00edlia. Mas, assim, a gente n\u00e3o pode se entregar e se deixar dominar por essas quest\u00f5es pand\u00eamicas. Ao mesmo tempo, \u00e9 imposs\u00edvel n\u00e3o se sentir esmagada dentro dessas condi\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Para mim, o virtual n\u00e3o \u00e9 o natural. Eu sou da era do r\u00e1dio, eu vi a TV nascer. Mas no dia seguinte ao dia em que entramos em quarentena eu j\u00e1 estava dando aulas pela internet&#8221;<\/p><cite>Eva Schul<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea est\u00e1 desenvolvendo algum novo projeto?<br><\/strong>Estou criando dois espet\u00e1culos curtos, de 30 minutos, que fazem parte de um projeto que iremos apresentar primeiro virtualmente. A gente s\u00f3 vai poder mostrar ele em cena, como gostar\u00edamos, depois de ter apresentado ele virtualmente. O projeto se chama &#8220;Persona&#8221;. A primeira metade \u00e9 um solo do Eduardo Severino, chamado &#8220;Macho Homem Fr\u00e1gil&#8221;. A segunda parte se chama &#8220;Autoimagem&#8221;, que trata sobre as m\u00e1scaras do dia a dia, as m\u00e1scaras que a gente veste, criando personas em nossas vidas.<\/p>\n\n\n\n<div class=\"wp-block-image\"><figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"920\" height=\"613\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-39974\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1.jpg 920w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1-465x310.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Cre\u0301dito-Eduardo-Carneiro_Eva-Schul-1-695x463.jpg 695w\" sizes=\"(max-width: 920px) 100vw, 920px\" \/><figcaption> Foto: Eduardo Carneiro <\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Eu gostaria de retomar a conversa sobre a sensa\u00e7\u00e3o de esmagamento que voc\u00ea citou. Esse sentimento tamb\u00e9m tem rela\u00e7\u00e3o com a atual situa\u00e7\u00e3o de crise do Brasil?<br><\/strong>Sem d\u00favida. Eu estou muito triste, muito decepcionada. Eu sobrevivi ao holocausto e sobrevivi a uma ditadura. Hoje eu me sinto totalmente esmagada pela ignor\u00e2ncia imperante. Esmagada por um desgoverno que ignora totalmente a ra\u00e7a humana, que descuida de absolutamente tudo que possa nos salvar. Se n\u00e3o houver uma contracultura muito violenta em breve, eu acho que n\u00f3s vamos sucumbir totalmente. Enquanto n\u00e3o houver uma rea\u00e7\u00e3o humanista fundamental, acho que o mundo realmente se encaminha para um fim n\u00e3o muito longe. Estou muito triste, principalmente porque tenho netos pequenos, que eu quero que tenham vidas maravilhosas. Espero poder fazer alguma diferen\u00e7a e chamar aten\u00e7\u00e3o cada vez mais para essas quest\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>&#8220;Eu n\u00e3o sou brasileira, mas eu sou absurdamente brasileira. N\u00e3o consigo nem cogitar viver fora sem ser para viver outras experi\u00eancias. Aqui foi o lugar que me acolheu e onde eu fui construindo as possibilidades na minha vida&#8221;<\/p><cite>Eva Schul<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>A transforma\u00e7\u00e3o desse mundo atual \u00e9 um grande desejo seu?<\/strong><br>Eu adoraria que o mundo se transformasse e que as coisas pudessem ter um rumo muito diferente. Que a humanidade acordasse e lembrasse que o mundo n\u00e3o gira em torno do pr\u00f3prio umbigo. Dentro do que eu pude fazer at\u00e9 agora, eu acho que ao menos estou deixando sementes em muitas pessoas para que elas n\u00e3o permitam o esquecimento. A minha grande utopia \u00e9 a mem\u00f3ria. Enquanto as pessoas lembrarem o passado, elas t\u00eam a possibilidade de tentar mudar o futuro. O Brasil ainda \u00e9 um pa\u00eds com um pensamento muito colonizado, ainda vive os preceitos trazidos pelos colonizadores. A quest\u00e3o ind\u00edgena e a quest\u00e3o negra recentemente come\u00e7aram a ser vistas, a serem trazidas \u00e0 tona. Meu deus, 500 anos n\u00e3o foram suficientes para as pessoas enxergarem isso?! Em um mundo capitalista, em um mundo em que dinheiro \u00e9 deus, jamais os seres humanos ser\u00e3o considerados os mesmos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Voc\u00ea afirmou que a sua grande utopia \u00e9 a mem\u00f3ria. Como voc\u00ea gosta de ser lembrada?<\/strong><br>Fundamentalmente, como uma educadora. Isso, para mim, \u00e9 o mais importante. Mas uma educadora de uma quest\u00e3o muito espec\u00edfica, que \u00e9 a quest\u00e3o humana. Eu ficaria muito triste se eu fosse reconhecida por quest\u00f5es t\u00e9cnicas ou coisa parecida. Se eu puder deixar um legado, que seja o respeito a nossa humanidade. Porque t\u00e9cnica \u00e9 algo que m\u00e1quinas podem nos substituir facilmente, e de maneira muito melhor. Mas temos que lembrar que n\u00f3s somos seres humanos sens\u00edveis e merecemos respeito. Lembrar que temos que nos preservar e tentar escapar desse deus-m\u00e1quina-dinheiro que tomou o mundo. Em prol do dinheiro, a gente vai, cada vez mais, abrindo m\u00e3o de quest\u00f5es fundamentais. Olha o que a gente vem fazendo com o planeta, com os direitos humanos, com a igualdade de g\u00eanero. Para mim, \u00e9 muito importante que as pessoas reconhe\u00e7am que \u00e9 essa a minha grande bandeira. O resto qualquer um faz. Eu consigo n\u00e3o ser med\u00edocre nas coisas que eu fa\u00e7o, mas eu nunca fui acima da m\u00e9dia. Eu fa\u00e7o coisas bem feitas, coisas boas. N\u00e3o sou nenhum g\u00eanio, mas sempre busquei qualidade. Sempre respeitei o meu p\u00fablico, as minhas ideias, os corpos das pessoas que os entregaram a mim. Para mim, s\u00e3o essas as coisas fundamentais.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Entrevista | Inovadora e pioneira bailarina, core\u00f3grafa e professora fala sobre suas primeiras lembran\u00e7as da dan\u00e7a, as viol\u00eancias de g\u00eanero que enfrentou, as atuais crises brasileiras e como transformou sua arte em ve\u00edculo de den\u00fancia e transforma\u00e7\u00e3o da realidade<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/eva-schul-arte-e-politica-e-nao-tem-como-escapar-disso\/\">Leia 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