{"id":37579,"date":"2021-09-23T09:02:00","date_gmt":"2021-09-23T12:02:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=37579"},"modified":"2025-04-04T19:45:27","modified_gmt":"2025-04-04T22:45:27","slug":"os-perigos-da-poluicao-informacional","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/os-perigos-da-poluicao-informacional\/","title":{"rendered":"Os perigos da polui\u00e7\u00e3o informacional"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Professor do departamento de Filosofia, Eros Moreira de Carvalho reflete sobre as consequ\u00eancias da prolifera\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, obst\u00e1culo \u00e0 nossa capacidade de refletir, avaliar evid\u00eancias, formar cren\u00e7as e adquirir e transmitir conhecimento de modo respons\u00e1vel<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Eros Moreira de Carvalho <br>*Foto de capa: Fl\u00e1vio Dutra\/JU<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O advento das novas tecnologias digitais trouxe consequ\u00eancias positivas e negativas para a nossa condi\u00e7\u00e3o enquanto agentes do conhecimento. \u00c9 ineg\u00e1vel, por exemplo, que a internet colaborou para a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento em dois sentidos relevantes. Ela tanto facilitou o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o quanto ampliou as oportunidades para a produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o do conhecimento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Hoje cientistas e intelectuais t\u00eam acesso a acervos que v\u00e3o muito al\u00e9m das bibliotecas f\u00edsicas de suas universidades. Esse acesso mais amplo permitiu inclusive que cientistas dos pa\u00edses mais perif\u00e9ricos, como o Brasil, pudessem mais facilmente fazer ci\u00eancia com base em bibliografia t\u00e3o atual quanto aquela que \u00e9 usada nos grandes centros mundiais de pesquisa. Nem precisamos enfatizar a revolu\u00e7\u00e3o que essa democratiza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o representou e representa na vida de pessoas que mal podem contar com uma biblioteca p\u00fablica na sua localidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As tecnologias digitais tamb\u00e9m aprofundaram a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento ao possibilitar que mais pessoas participem da produ\u00e7\u00e3o do conhecimento. Grupos sociais e pessoas que n\u00e3o tinham acesso \u00e0s m\u00eddias tradicionais puderam encontrar um espa\u00e7o nas m\u00eddias digitais para elaborar e difundir os seus saberes e culturas. Por mais que assimetrias de poder na produ\u00e7\u00e3o e difus\u00e3o do conhecimento ainda persistam, elas foram atenuadas pelas tecnologias digitais.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ao mesmo tempo, as tecnologias digitais trouxeram obst\u00e1culos e dificuldades para a ag\u00eancia epist\u00eamica. Por ag\u00eancia epist\u00eamica entendo a nossa capacidade de refletir, avaliar evid\u00eancia, formar cren\u00e7as e adquirir e transmitir conhecimento de modo respons\u00e1vel.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Estar atento a poss\u00edveis vieses, buscar informa\u00e7\u00e3o antes de formar uma opini\u00e3o, variar as fontes de informa\u00e7\u00e3o, dar a devida aten\u00e7\u00e3o e credibilidade ao testemunho dos peritos s\u00e3o algumas das maneiras pelas quais exercemos responsavelmente a ag\u00eancia epist\u00eamica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Dois obst\u00e1culos muito preocupantes \u00e0 ag\u00eancia epist\u00eamica respons\u00e1vel s\u00e3o a personaliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o e a polui\u00e7\u00e3o informacional. O primeiro diz respeito \u00e0 personaliza\u00e7\u00e3o dos sistemas de busca dispon\u00edveis na internet e tamb\u00e9m dos feeds de not\u00edcias nas redes sociais. A partir das buscas, cliques e \u201ccurtidas\u201d do usu\u00e1rio, que fornecem informa\u00e7\u00f5es diretas e indiretas sobre os seus gostos, prefer\u00eancias e mesmo a sua ideologia, esses sistemas criam um perfil que servir\u00e1 de filtro para futuras buscas ou not\u00edcias a serem apresentadas ao usu\u00e1rio. Assim, o agente tender\u00e1 a encontrar apenas as not\u00edcias ou informa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o congruentes com os seus interesses e a sua ideologia ou vis\u00e3o de mundo, criando as chamadas \u201cbolhas de informa\u00e7\u00e3o\u201d. Essa \u00e9 uma maneira de dificultar a forma\u00e7\u00e3o de cren\u00e7a n\u00e3o enviesada, por mais que o agente esteja atento a poss\u00edveis vieses.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A personaliza\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m fomenta os v\u00edcios intelectuais da arrog\u00e2ncia e da mente fechada. Como tenderemos a encontrar apenas as informa\u00e7\u00f5es que confirmam as nossas cren\u00e7as e concep\u00e7\u00f5es, acabamos ficando ainda mais seguros delas, o que pode nos levar a desdenhar perspectivas de interlocutores que s\u00e3o contr\u00e1rias \u00e0s nossas, em vez que aproveitar o dissenso como uma oportunidade para a reflex\u00e3o e a investiga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">As novas tecnologias digitais n\u00e3o ampliaram apenas o acesso \u00e0 informa\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m e sobretudo o acesso \u00e0 desinforma\u00e7\u00e3o. Assim como a polui\u00e7\u00e3o sonora dos centros urbanos torna quase imposs\u00edvel discriminar os sons das coisas, a polui\u00e7\u00e3o informacional limita a nossa capacidade de adquirir nova informa\u00e7\u00e3o na medida em que n\u00e3o conseguimos mais discrimin\u00e1-la do excesso de desinforma\u00e7\u00e3o que polui o ambiente; \u00e9 como procurar uma agulha no palheiro. Se antes pod\u00edamos confiar em algumas poucas fontes de informa\u00e7\u00e3o e conhecimento, agora temos de distinguir, entre uma infinidade de fontes, quais s\u00e3o confi\u00e1veis e quais n\u00e3o s\u00e3o. Como faz\u00ea-lo se as pr\u00f3prias informa\u00e7\u00f5es sobre quais fontes s\u00e3o e quais fontes n\u00e3o s\u00e3o confi\u00e1veis tamb\u00e9m se encontram misturadas com desinforma\u00e7\u00e3o sobre o que \u00e9 e o que n\u00e3o \u00e9 confi\u00e1vel? N\u00e3o \u00e9 uma tarefa imposs\u00edvel, mas tornou-se muito mais dif\u00edcil manter-se como um agente epist\u00eamico respons\u00e1vel.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o podemos subestimar o alcance da polui\u00e7\u00e3o informacional. Ela criou oportunidades para que pessoas mal-intencionadas coloquem obst\u00e1culos \u00e0 capacidade do leigo de aprender com peritos. Por exemplo, embora haja <a href=\"https:\/\/iopscience.iop.org\/article\/10.1088\/1748-9326\/8\/2\/024024\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">consenso cient\u00edfico<\/a> sobre o aquecimento global ter primordialmente causas antropog\u00eanicas, apenas 26% da popula\u00e7\u00e3o do Reino Unido acredita nisso, segundo um <a href=\"https:\/\/yonderconsulting.com\/poll\/bbc-poll-on-climate-change\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">levantamento da BBC<\/a> de 2010. Entra em cena a agnotologia, o estudo das estrat\u00e9gias da produ\u00e7\u00e3o da ignor\u00e2ncia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando buscamos aprender pelo testemunho, temos de avaliar a credibilidade do falante ou da fonte de informa\u00e7\u00e3o. Al\u00e9m disso, quando se trata de um assunto cient\u00edfico ou especializado, temos de saber se a comunidade cient\u00edfica relevante j\u00e1 tem um consenso sobre o assunto. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ora, para minar a aprendizagem do leigo e mant\u00ea-lo na ignor\u00e2ncia, pode-se confundi-lo quanto ao consenso cient\u00edfico ou quanto \u00e0 credibilidade da comunidade cient\u00edfica. No caso da discuss\u00e3o em torno do aquecimento global, ambas as estrat\u00e9gias s\u00e3o usadas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A produ\u00e7\u00e3o de aparente dissenso cient\u00edfico junto \u00e0 opini\u00e3o p\u00fablica sobre assuntos em rela\u00e7\u00e3o aos quais h\u00e1 muitos interesses econ\u00f4micos investidos \u00e9 uma estrat\u00e9gia antiga e que foi usada pela ind\u00fastria tabagista no s\u00e9culo passado. Como disse um executivo da \u00e1rea sobre a pesquisa relacionando o h\u00e1bito de fumar ao c\u00e2ncer de pulm\u00e3o: \u201c<a href=\"https:\/\/blogs.lse.ac.uk\/politicsandpolicy\/doubt-is-our-product\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A d\u00favida \u00e9 o nosso produto<\/a>\u201d. Estrat\u00e9gia similar \u00e9 usada pelos agentes por tr\u00e1s de interesses econ\u00f4micos que s\u00e3o amea\u00e7ados caso a hip\u00f3tese antropog\u00eanica seja levada a s\u00e9rio pela opini\u00e3o p\u00fablica e pelos pol\u00edticos. \u00c9 sabido inclusive, segundo um <a href=\"https:\/\/reutersinstitute.politics.ox.ac.uk\/sites\/default\/files\/research\/files\/Poles%20Apart%20the%20international%20reporting%20of%20climate%20scepticism.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">relat\u00f3rio<\/a> da Reuters de 2011, que a produ\u00e7\u00e3o de aparente dissenso sobre a hip\u00f3tese antropog\u00eanica \u00e9 uma t\u00e1tica mais empregada para manipular a opini\u00e3o p\u00fablica nos EUA e no Reino Unido, onde h\u00e1 interesses fort\u00edssimos da ind\u00fastria ligada \u00e0 produ\u00e7\u00e3o de g\u00e1s, \u00f3leo de xisto e de carv\u00e3o, do que em pa\u00edses como Brasil, Fran\u00e7a, China e \u00cdndia.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em 2009, hackers vazaram milhares de e-mails de pesquisadores associados ao Climate Research Unity, gerando o esc\u00e2ndalo conhecido como \u201c<a href=\"http:\/\/g1.globo.com\/mundo\/noticia\/2010\/04\/climategate-nova-investigacao-absolve-cientistas-de-ma-fe.html\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">climategate<\/a>\u201d. Segundo os cr\u00edticos, esses e-mails provariam que os cientistas conspiraram em favor da tese antropog\u00eanica. Supostas confiss\u00f5es de manipula\u00e7\u00e3o e rejei\u00e7\u00e3o de dados dos cr\u00edticos \u00e0 hip\u00f3tese antropog\u00eanica estariam presentes nestes e-mails. V\u00e1rias <a href=\"https:\/\/books.google.com.br\/books\/about\/The_Climate_Files.html?id=3jxSAQAAIAAJ&amp;redir_esc=y\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">comiss\u00f5es independentes<\/a> examinaram o caso, mas n\u00e3o encontraram evid\u00eancia de m\u00e1 conduta cient\u00edfica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Neste caso, cria-se um obst\u00e1culo para que o leigo aprenda do perito inundando a opini\u00e3o p\u00fablica com desinforma\u00e7\u00e3o que ataca a credibilidade da comunidade cient\u00edfica. A situa\u00e7\u00e3o \u00e9 ainda mais dr\u00e1stica porque os leigos avaliam a credibilidade do cientista a partir de um estere\u00f3tipo do que \u00e9 a boa conduta cient\u00edfica. A fil\u00f3sofa Miranda Fricker chamou a aten\u00e7\u00e3o, no livro <em><a href=\"https:\/\/oxford.universitypressscholarship.com\/view\/10.1093\/acprof:oso\/9780198237907.001.0001\/acprof-9780198237907\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Epistemic Injustice<\/a><\/em>, para o fato de que a avalia\u00e7\u00e3o da credibilidade do falante \u00e9 sempre mediada por estere\u00f3tipos. Estere\u00f3tipos em si mesmos n\u00e3o precisam ser negativos ou err\u00f4neos. Quando, no entanto, se baseiam em um preconceito, isto \u00e9, quando s\u00e3o contr\u00e1rios \u00e0 evid\u00eancia, eles ter\u00e3o consequ\u00eancias dr\u00e1sticas para a avalia\u00e7\u00e3o de credibilidade do falante. \u00c9 o que acontece, explica a fil\u00f3sofa, em sociedades sexistas. A voz da mulher acaba recebendo menos aten\u00e7\u00e3o do que deveria porque a avalia\u00e7\u00e3o da sua credibilidade \u00e9 mediada por preconceitos que retratam a mulher como menos capaz. Isso gera o que ela chama de \u201cinjusti\u00e7a testemunhal\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Algo semelhante acontece quando o leigo avalia a credibilidade do cientista com base em um estere\u00f3tipo equivocado do que \u00e9 a boa conduta cient\u00edfica. Na imagem popular, o cientista deveria sempre levar a s\u00e9rio qualquer hip\u00f3tese contr\u00e1ria \u00e0s vigentes e considerar todos os dados dispon\u00edveis. Por exemplo, os cientistas do clima n\u00e3o deveriam desconsiderar a hip\u00f3tese de que atividade an\u00f4mala do sol \u00e9 a causa principal do aquecimento global. Devido a essa imagem popular, muita gente viu as trocas entres cientistas nos e-mails que vazaram como evid\u00eancia de que estavam conspirando e agindo de m\u00e1-f\u00e9, pois eles de fato confessam descartar hip\u00f3teses muito improv\u00e1veis. No entanto, como a filosofia da ci\u00eancia de Thomas Kuhn nos ensina, a boa conduta cient\u00edfica exige um certo grau de dogmatismo e comprometimento com o paradigma vigente. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o conseguir\u00edamos aprofundar o conhecimento em uma \u00e1rea de estudo se a todo instante tiv\u00e9ssemos que discutir todos os pressupostos da disciplina e considerar todas as hip\u00f3teses poss\u00edveis sobre o tema. As mais ex\u00f3ticas devem ser descartadas ou ignoradas.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m disso, qualquer dado, para ser considerado, precisa atender a crit\u00e9rios m\u00ednimos de validade e objetividade. Os dados que os cientistas do clima, nas trocas de e-mails, relataram ter rejeitado s\u00e3o dados que n\u00e3o atendiam a esses crit\u00e9rios. Neste caso, o problema n\u00e3o estava na conduta dos cientistas do clima, mas na imagem equivocada que o leigo tem do que seria a conduta cient\u00edfica correta.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">N\u00e3o bastasse o estere\u00f3tipo equivocado que o leigo tem sobre a boa conduta cient\u00edfica, os valores e cren\u00e7as relacionados a sua identidade tamb\u00e9m afetam a sua avalia\u00e7\u00e3o de credibilidade dos cientistas. Segundo um estudo de <a href=\"https:\/\/www.nature.com\/articles\/nclimate1547\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Kahan et al<\/a>., quando a alega\u00e7\u00e3o de um perito vai contra os valores e comprometimentos mais arraigados de uma pessoa, ela implicitamente procura raz\u00f5es para desconfiar da credibilidade do perito. Entra em a\u00e7\u00e3o uma esp\u00e9cie de mecanismo de defesa daquilo que lhe \u00e9 mais sagrado, a sua identidade. Por exemplo, a afirma\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 aquecimento global por fatores antropog\u00eanicos parece levar \u00e0 prescri\u00e7\u00e3o de que a atividade econ\u00f4mica deve ser mais regulamentada. Uma pessoa que tem uma ideologia liberal e individualista enxerga a hip\u00f3tese antropog\u00eanica como uma amea\u00e7a \u00e0 sua identidade cultural e naturalmente procurar\u00e1 raz\u00f5es para n\u00e3o confiar no perito. Seus valores jogam contra a credibilidade do cientista, n\u00e3o necessariamente contra a ci\u00eancia. Isso explica por que se pode encontrar resist\u00eancia \u00e0 hip\u00f3tese antropog\u00eanica mesmo entre pessoas bem letradas e informadas. Como salienta Kahan, esse obst\u00e1culo \u00e0 capacidade da pessoa de aprender com o perito n\u00e3o \u00e9 superado fornecendo mais informa\u00e7\u00f5es para ela. A dificuldade aqui n\u00e3o diz respeito \u00e0 falta de informa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\">\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para aqueles interessados em fabricar ignor\u00e2ncia, esse fen\u00f4meno \u00e9 uma mina de ouro. Basta fomentar associa\u00e7\u00f5es entre hip\u00f3teses que se quer atacar e prescri\u00e7\u00f5es que s\u00e3o contr\u00e1rias aos valores mais arraigados dos leigos ou de grupos sociais mais espec\u00edficos para que estes procurem raz\u00f5es para duvidar da credibilidade dos cientistas que defendem essas hip\u00f3teses. Essa estrat\u00e9gia funciona mesmo com leigos bem informados e que talvez tenham uma imagem mais correta da boa conduta cient\u00edfica.<\/p>\n<\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A capacidade do leigo de aprender com o perito \u00e9 muito prec\u00e1ria. Ela pode ser facilmente abalada por desinforma\u00e7\u00e3o, tanto desinforma\u00e7\u00e3o que tira proveito da sua imagem equivocada do que deveria ser a boa conduta cient\u00edfica quanto desinforma\u00e7\u00e3o que tira proveito dos seus valores mais arraigados.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Parece paradoxal que a \u00e9poca em que a democratiza\u00e7\u00e3o do conhecimento atinge n\u00edveis surpreendentes, potencializando e beneficiando inclusive o pr\u00f3prio desenvolvimento da ci\u00eancia, \u00e9 tamb\u00e9m a \u00e9poca em que h\u00e1 mais obst\u00e1culos para que consigamos aprender com a ci\u00eancia e usufruir do conhecimento que ela fornece. Basta notar o qu\u00e3o dif\u00edcil tem sido, em plena pandemia, fazer com que as melhores recomenda\u00e7\u00f5es cient\u00edficas para o enfrentamento da emerg\u00eancia sanit\u00e1ria circulem e sejam acatadas pela opini\u00e3o p\u00fablica.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O desafio que temos \u00e0 frente n\u00e3o \u00e9 apenas educacional, embora esfor\u00e7os nessa \u00e1rea sejam fundamentais, mas tamb\u00e9m pol\u00edtico e institucional; temos de aprender a lidar melhor com as novas tecnologias digitais e eventualmente regulament\u00e1-las para evitar os seus efeitos mais perversos. Como salienta a fil\u00f3sofa sueca <a href=\"https:\/\/vimeo.com\/232815833\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">\u00c5sa Wikforss<\/a>, as tecnologias digitais s\u00e3o um fen\u00f4meno muito recente na hist\u00f3ria da humanidade. Ainda estamos descobrindo os seus efeitos, positivos e negativos, e teremos de aprender a us\u00e1-las mais sabiamente.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator has-css-opacity is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><a href=\"http:\/\/lattes.cnpq.br\/9199277921479932\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Eros Moreira de Carvalho<\/a> \u00e9 professor associado do departamento de Filosofia da UFRGS.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Professor do departamento de Filosofia, Eros Moreira de Carvalho reflete sobre as consequ\u00eancias da prolifera\u00e7\u00e3o da informa\u00e7\u00e3o, obst\u00e1culo \u00e0 nossa capacidade de refletir, avaliar evid\u00eancias, formar cren\u00e7as e adquirir e transmitir conhecimento de modo respons\u00e1vel<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/os-perigos-da-poluicao-informacional\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":37603,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[2539,967,76,2542,2541,2544,2540,2538,2543],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-37579","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo","tag-agencia-epistemica","tag-desinformacao","tag-filosofia","tag-fontes-de-informacao","tag-mudanca-climatica","tag-perito","tag-personalizacao-da-informacao","tag-poluicao-informacional","tag-validade"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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