{"id":40299,"date":"2021-11-18T09:29:00","date_gmt":"2021-11-18T12:29:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=40299"},"modified":"2021-11-22T14:15:13","modified_gmt":"2021-11-22T17:15:13","slug":"mesmo-sendo-maioria-na-populacao-brasileira-negros-ainda-tem-baixa-representatividade-no-meio-academico","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/mesmo-sendo-maioria-na-populacao-brasileira-negros-ainda-tem-baixa-representatividade-no-meio-academico\/","title":{"rendered":"Mesmo sendo maioria na popula\u00e7\u00e3o brasileira, negros ainda t\u00eam baixa representatividade no meio acad\u00eamico"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Ci\u00eancia | Embora existam avan\u00e7os no acesso ao ensino superior e \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, pesquisadores negros diagnosticam causas e apontam contradi\u00e7\u00f5es que fazem com que sua presen\u00e7a na academia represente realidade contr\u00e1ria ao percentual da popula\u00e7\u00e3o brasileira<\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\">*<em>Foto: Cabe\u00e7a, Mestre Cida Lima. Cer\u00e2mica (Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Cursando o terceiro ano de doutorado em Comunica\u00e7\u00e3o, o jornalista e servidor da Faculdade de Educa\u00e7\u00e3o da UFRGS Wagner Machado da Silva tem no radar de sua pesquisa entender o fator estrutural que mant\u00e9m o racismo nos ambientes acad\u00eamico e profissional, analisando a  pouca presen\u00e7a dos doutores negros na comunica\u00e7\u00e3o. \u201cEntre as expectativas da tese est\u00e1 a inten\u00e7\u00e3o de confirmar ou refutar que h\u00e1 (in)visibilidade dos doutores negros na comunica\u00e7\u00e3o ga\u00facha e que isso ocorre pelo fator estrutural e pela manuten\u00e7\u00e3o do racismo nesses ambientes, hegemonicamente brancos&#8221;, observa. Em paralelo, prop\u00f5e a descoloniza\u00e7\u00e3o da comunica\u00e7\u00e3o para garantir a pluralidade do conhecimento e a conviv\u00eancia equitativa e respeitosa entre distintas corporeidades, racionalidades e est\u00e9ticas.\u00a0<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados confirmados pelo acad\u00eamico mostram que, nos doutorados em Comunica\u00e7\u00e3o de quatro universidades do Rio Grande do Sul \u2013 UFSM, Unisinos, PUCRS e UFRGS \u2013, entre 2015 e 2020, dos cerca de 400 que terminaram ou est\u00e3o em fase de conclus\u00e3o, somente 30 s\u00e3o negros (ou seja, 7,5% dos estudantes). O percentual \u00e9 inversamente proporcional \u00e0 quantidade de pretos e pardos no Brasil, que corresponde a 56,2% da popula\u00e7\u00e3o, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estat\u00edstica (IBGE).&nbsp; No Rio Grande do Sul, um estado majoritariamente branco, conforme a Pesquisa Nacional por Amostra de Domic\u00edlio (PNAD-Cont\u00ednua), os negros representam 18,2% da popula\u00e7\u00e3o.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Nessas mesmas universidades, h\u00e1 81 professores formando mestre e doutores, mas apenas dois s\u00e3o negros. Muitas vezes a ci\u00eancia reivindica supostas caracter\u00edsticas de neutralidade, objetividade, universalidade, imparcialidade e racionalidade, mas o corpo docente demonstra que a teoria n\u00e3o est\u00e1 alinhada \u00e0 pr\u00e1tica \u00e0 medida que h\u00e1 uma narrativa hegem\u00f4nica por parte de quem dissemina o saber.<\/p><cite>Wagner Machado da Silva<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um levantamento de junho de 2020 feito pela Liga de Ci\u00eancia Preta Brasileira mostra que, dentre os alunos de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o, 2,7% s\u00e3o pretos, 12,7% s\u00e3o pardos, 2% s\u00e3o amarelos, menos de 0,5% \u00e9 ind\u00edgena e 82,7% s\u00e3o brancos. A an\u00e1lise aconteceu a partir de dados da Plataforma Lattes, servi\u00e7o do CNPq que re\u00fane informa\u00e7\u00f5es curriculares, grupos de pesquisa e institui\u00e7\u00f5es das \u00e1reas de ci\u00eancia e tecnologia no Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo Wagner, o dado fica ainda mais acachapante quando se amplia o olhar para fora da p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o. \u201cH\u00e1 somente&nbsp;20 professores negros que atuam nos cursos de Comunica\u00e7\u00e3o no Rio Grande do Sul. Ou seja, dos 754 docentes, apenas 2,65% s\u00e3o pretos e pardos\u201d, cita. No Brasil, conforme dados divulgados pela revista <a href=\"https:\/\/revistapesquisa.fapesp.br\/impacto-na-ciencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Pesquisa<\/a>, da FAPESP, dos 80.115 doutores e mestres formados em 2020, 9.909 s\u00e3o pardos e 2.746 pretos. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Os dados se avultam ao se saber que o Brasil \u00e9 o segundo pa\u00eds do mundo em popula\u00e7\u00e3o negra, ficando atr\u00e1s apenas da Nig\u00e9ria, no continente africano. No entanto, mesmo constituindo a maioria dos brasileiros, o desejo de branqueamento ainda inviabiliza a presen\u00e7a de pessoas pretas em diversos campos da sociedade, inclusive na educa\u00e7\u00e3o, ressalta Wagner. &#8220;\u00c9 fundamental o fortalecimento efetivo da educa\u00e7\u00e3o antirracista, assim como o reconhecimento da rela\u00e7\u00e3o entre o silenciamento da hist\u00f3ria e das culturas africana, afro-brasileira, ind\u00edgena e o eurocentrismo do conhecimento\u201d. Para combater o preconceito&nbsp;e a pouca presen\u00e7a do negro na ci\u00eancia, aponta o pesquisador da comunica\u00e7\u00e3o, \u201co ideal seria fomentar o desejo de mudan\u00e7a quanto \u00e0 rela\u00e7\u00e3o entre a inferioriza\u00e7\u00e3o da identidade negra e a falsa ideia de superioridade branca\u201d.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Al\u00e9m de tudo, destaca o jornalista, a hist\u00f3ria relatada nos livros n\u00e3o conta que o povo negro conseguiu se libertar da escraviza\u00e7\u00e3o, ainda que tenha sido conduzido \u00e0s periferias da sociedade, impulsionando o processo de marginaliza\u00e7\u00e3o que hoje resulta em v\u00e1rios \u00edndices do pa\u00eds. Ele enumera que o negro tem mais chances de ser assassinado, \u00e9 maioria no sistema carcer\u00e1rio, tem remunera\u00e7\u00e3o menor e menos acesso a servi\u00e7os de sa\u00fade e educa\u00e7\u00e3o que os brancos. \u201cO resultado \u00e9 o racismo estrutural \u2013 termo usado para descrever sociedades alicer\u00e7adas no privil\u00e9gio de algumas ra\u00e7as em detrimento das outras\u201d, resumindo que, quanto mais a pele for clara, maior a tend\u00eancia de ascens\u00e3o. &#8220;Com isso, as pessoas negras ficaram, por muito tempo, e ainda hoje est\u00e3o, \u00e0 margem da ci\u00eancia. N\u00e3o h\u00e1 um pertencimento dessa etnia nas universidades, e os poucos que conseguem adentrar esse espa\u00e7o de poder, muitas vezes, s\u00e3o subjugados\u201d, salienta.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Fatores de desequil\u00edbrio<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Barreiras culturais, baixa visibilidade e falta de estat\u00edsticas da atua\u00e7\u00e3o de pessoas negras na p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o est\u00e3o entre os fatores de desiquil\u00edbrio apontados pelos pesquisadores. A pesquisadora membro da diretoria da Sociedade Brasileira de F\u00edsica, da Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadoras Negras (ABPN), integrante da<em> National Organization of Gay and Lesbian Scientists and Technical Professionals<\/em> e professora da Universidade Federal da Bahia Katemari Rosa lembra que a quest\u00e3o racial \u00e9 algo muito recente, no sentido de coleta de dados, no Brasil. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 comunidade acad\u00eamica, foi em 2013 que o Conselho Nacional de Desenvolvimento Cient\u00edfico e Tecnol\u00f3gico (CNPq) colocou o box \u201cra\u00e7a\u201d no curr\u00edculo Lattes, onde s\u00e3o coletados os dados dos pesquisadores e pesquisadoras do Brasil e, segundo Katemari, &#8220;por onde a gente constr\u00f3i os censos da comunidade cient\u00edfica brasileira\u201d. No final de 2015, foi a primeira vez que o CNPq teve dados em que a quest\u00e3o racial estava presente. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Ainda somos poucos na ci\u00eancia, sem d\u00favida, particularmente nas universidades p\u00fablicas. O que dificulta bastante \u00e9 que n\u00e3o temos nem como contar mais precisamente quantos somos, porque n\u00e3o h\u00e1 um censo hist\u00f3rico estruturado na \u00e1rea. <br><span style=\"font-size: revert; color: initial;\"><\/span><\/p><cite>Katemari Rosa<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Wagner analisa os n\u00fameros j\u00e1 existentes e refor\u00e7a a necessidade de que haja uma inquieta\u00e7\u00e3o por mudan\u00e7a e de que se perceba que \u00e9 preciso se fomentarem discuss\u00f5es sobre as rela\u00e7\u00f5es \u00e9tnico-raciais, com a inten\u00e7\u00e3o de romper o sil\u00eancio que ainda existe nos curr\u00edculos acad\u00eamicos sobre as popula\u00e7\u00f5es minorizadas. Isso porque a educa\u00e7\u00e3o tem papel central para a compreens\u00e3o do processo de reconfigura\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es sociais no Brasil, sobretudo no que se refere \u00e0 supera\u00e7\u00e3o do modelo exclusivista, fator que comp\u00f5e um dos expressivos indicadores da desigualdade racial. \u201cSem d\u00favida, h\u00e1 um desequilibro conveniente. H\u00e1 poucos negros na academia e pouca visibilidade das pesquisas produzidas por eles. Muito dessa indiferen\u00e7a, acredito, se d\u00e1 pela dificuldade de quebrar estigmas, ascender e sobreviver a esse conjunto de pr\u00e1ticas que nega, dificulta e elimina a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento constru\u00edda por pessoas negras.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Invisibilidade existe, embora os negros estejam por tudo. \u201cEstamos em muitos espa\u00e7os, mas em geral n\u00e3o ocupamos postos de poder nem estrat\u00e9gicos. \u00c9 urgente que se mude essa realidade, afinal somos a maioria neste pa\u00eds\u201d, avalia Katemari. Al\u00e9m disso, a professora ressalta que, sendo a minoria no ambiente acad\u00eamico \u2013 muitas vezes \u00fanica em um espa\u00e7o rodeado por brancos \u2013, todo debate \u00e9tnico-racial recai sobre essa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Imagina se a gente pudesse s\u00f3 se dedicar ao foco da pesquisa, n\u00e3o ficar discutindo quest\u00f5es raciais. Isso nos sobrecarrega muito e \u00e9 algo com que um pesquisador branco n\u00e3o precisa ser preocupar, por exemplo.<\/p><cite>Katemari Rosa<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Katemari tamb\u00e9m cita as barreiras culturais enfrentadas pelos negros na ci\u00eancia. \u201cEm geral, n\u00e3o temos acesso ao capital cultural porque ainda somos as primeiras gera\u00e7\u00f5es do movimento na pesquisa. Falar outras l\u00ednguas, como o ingl\u00eas, n\u00e3o \u00e9 natural nem f\u00e1cil para n\u00f3s.\u201d O ambiente de pesquisa e a rela\u00e7\u00e3o com as pessoas n\u00e3o negras s\u00e3o outros obst\u00e1culos. \u201cSer arrogante \u00e9 um jeito de ser na ci\u00eancia, assim como se abster das rela\u00e7\u00f5es pessoais. S\u00e3o formas de ser j\u00e1 naturalizadas no meio acad\u00eamico, sendo muito diferentes das rela\u00e7\u00f5es interpessoais que as pessoas negras vivem no cotidiano. Na minha \u00e1rea, que \u00e9 a f\u00edsica, tem-se uma cultura \u2013 sobre o que pessoas n\u00e3o negras falam em tom de piada e com honra \u2013 do isolamento e da nega\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es interpessoais, o que acaba sendo um choque para a gente&#8221;, relata. Diante disso, ela se pergunta: &#8220;Como navegar nesse meio com naturalidade?&#8221;.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Racismo estrutural e resist\u00eancia<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O racismo estrutural por s\u00e9culos garantiu aos brancos o controle dos espa\u00e7os de poder no Brasil: na pol\u00edtica, na economia, na produ\u00e7\u00e3o intelectual e na m\u00eddia. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>A representa\u00e7\u00e3o dos afrodescendentes nessas esferas ainda n\u00e3o valoriza a heterogeneidade da popula\u00e7\u00e3o brasileira. Sobretudo pela ideologia do branqueamento, baseada nas perspectivas europeia e estadunidense, resultando na baixa autoestima de muitos pretos. Por\u00e9m, proporcionalmente poucos, existimos e resistimos. Estamos espalhados, fazendo ci\u00eancia e combatendo o racismo acad\u00eamico.<\/p><cite>Wagner Machado da Silva<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Nesse caminho, um dos exemplos de uni\u00e3o \u00e9 a ABPN \u2013 Associa\u00e7\u00e3o Brasileira de Pesquisadores Negros. A organiza\u00e7\u00e3o prop\u00f5e-se a congregar os pesquisadores negros brasileiros que trabalham com temas de interesse direto das popula\u00e7\u00f5es negras no Brasil e a possibilitar publica\u00e7\u00f5es de teses, disserta\u00e7\u00f5es, artigos, revistas de interesse direto dessa popula\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Katemari, que tamb\u00e9m \u00e9 membro da ABPN, destaca que a organiza\u00e7\u00e3o re\u00fane pesquisadores de excel\u00eancia em v\u00e1rias \u00e1reas e cresceu muito nos \u00faltimos anos. \u201cEla vai al\u00e9m da refer\u00eancia na \u00e1rea cient\u00edfica, tem um diferencial e uma singularidade especial: \u00e9 muito acolhedora e faz com que o negro se sinta em casa. O clima \u00e9 muito bom, s\u00f3 quem \u00e9 negro entende. Ou seja, \u00e9 uma outra forma poss\u00edvel de se pensar e de fazer ci\u00eancia a partir de outras formas de se organizar e de se relacionar com o fazer da pesquisa e com a produ\u00e7\u00e3o de conhecimento.\u201d Nesse contexto, o objetivo \u00e9 que a ci\u00eancia e a universidade busquem uma sociedade mais emp\u00e1tica no sentido global. \u201cQue n\u00f3s, enquanto seres humanos, consigamos ter mais empatia, pensar no outro, independentemente de quem seja o outro\u201d, projeta a pesquisadora.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Exemplos como esses potencializam a forma de fazer ci\u00eancia e ajudam a reparar entraves hist\u00f3ricos e barreiras culturais enfrentados pelos negros na academia, como a homogeneiza\u00e7\u00e3o do pensamento cient\u00edfico, a desqualifica\u00e7\u00e3o do conhecimento produzido pelos negros, a inferioriza\u00e7\u00e3o intelectual e a deslegitima\u00e7\u00e3o da pessoa negra como produtora do saber. Sem superar essas limita\u00e7\u00f5es, a ci\u00eancia seguir\u00e1 sendo um reduto de pessoas brancas e de n\u00e3o valoriza\u00e7\u00e3o do saber de outras etnias, argumenta Wagner. \u201cNo \u00e2mbito acad\u00eamico, muitas vezes as refer\u00eancias bibliogr\u00e1ficas s\u00e3o apresentadas a partir do olhar euroc\u00eantrico, e isso abre poucos precedentes para se conhecerem outros autores importantes para a forma\u00e7\u00e3o, apagando o conhecimento de outros continentes.\u201d O pesquisador tamb\u00e9m acrescenta a dificuldade de ingresso e de escolha do tema de pesquisa por parte dos p\u00f3s-graduandos negros, pois ainda s\u00e3o escassas as linhas de pesquisa que contemplem quest\u00f5es \u00e9tnico-raciais, bem como orientadores que se interessem por esses temas.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Conforme Katemari, nos Estados Unidos as pol\u00edticas raciais est\u00e3o mais avan\u00e7adas, talvez n\u00e3o tanto na cultura e no pensamento, mas nas a\u00e7\u00f5es. L\u00e1 a popula\u00e7\u00e3o negra \u00e9 de cerca de 10%, e a discuss\u00e3o das pautas raciais na \u00e1rea da f\u00edsica est\u00e1 muito melhor do que aqui. \u201cH\u00e1 recursos financeiros dispon\u00edveis, e voc\u00ea v\u00ea que nos projetos h\u00e1 pessoas negras e trans, por exemplo\u201d, observa, ressaltando que eles for\u00e7am a mudan\u00e7a na a\u00e7\u00e3o. \u201c\u00c9 poss\u00edvel que os estadunidenses n\u00e3o estejam t\u00e3o mais avan\u00e7ados na forma de pensar, mas t\u00eam pr\u00e1ticas efetivas para enfrentar o problema, o que for\u00e7a a mudan\u00e7a. Aqui isso ainda tem pouco, a\u00ed a situa\u00e7\u00e3o \u00e9 mais dif\u00edcil de mudar.\u201d No Brasil, h\u00e1 o entendimento de que o ensino fundamental \u00e9 para todos, por\u00e9m, no superior, o acesso deve ser limitado e privil\u00e9gio de poucos.<\/p>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Avan\u00e7os<\/strong><\/h5>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Apesar de todas as contradi\u00e7\u00f5es e limita\u00e7\u00f5es apontadas, as conquistas e os avan\u00e7os com as a\u00e7\u00f5es afirmativas s\u00e3o motivos para comemora\u00e7\u00e3o e esperan\u00e7a no Novembro Negro. A ge\u00f3loga e mestranda do Instituto de Geoci\u00eancias da UFRGS Maysa da Silva Sobrinho de Lima lembra que n\u00e3o foram raros os momentos em que era a \u00fanica presen\u00e7a negra em dado lugar, mas vem percebendo que isso vem mudando nos espa\u00e7os acad\u00eamicos que compartilha, o que a deixa motivada e com senso de pertencimento. \u201cV\u00e1rios fatores que contribu\u00edram\/contribuem para essa mudan\u00e7a no meio cient\u00edfico, como as discuss\u00f5es acerca do assunto e a representatividade, que sa\u00edram do campo das humanas e se espalharam por todas as \u00e1reas, estando presentes desde a minha gradua\u00e7\u00e3o at\u00e9 p\u00f3s. A pol\u00edtica de cotas \u00e9 outro ponto fundamental nesse processo, na medida em que diminuiu a desigualdade de acesso aos jovens negros no campo cient\u00edfico. Apesar de hoje estarmos melhores que ontem, ainda h\u00e1 muito o que ser feito e mudado para tornar nosso mundo igualit\u00e1rio\u201d, relata.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">\u201cPercebo que temos raz\u00f5es para comemorar o m\u00eas de novembro, pois, ao longo dos anos, ocorreram muitos avan\u00e7os na perspectiva das a\u00e7\u00f5es afirmativas e do acesso de pretos e pardos ao ensino superior e \u00e0 p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o.&nbsp; Ao mesmo tempo, mais que comemorar, o Novembro Negro precisa ser um momento de reflex\u00e3o e tamb\u00e9m um sinal de alerta para ficarmos atentos aos retrocessos dessas mesmas pol\u00edticas de inclus\u00e3o que possibilitaram o aumento de pessoas negras no \u00e2mbito da pesquisa\u201d, pondera Wagner. Ao mesmo tempo que se ressaltam as conquistas, entretanto, \u00e9 preciso entender que o cen\u00e1rio atual est\u00e1 longe do ideal. &nbsp;\u201cAs conquistas e a busca por um maior espa\u00e7o de representa\u00e7\u00e3o ocorrem pela luta de negros e negras e tamb\u00e9m de pessoas que disponibilizaram a branquitude para buscar maior equidade na sociedade brasileira. Nada pode ser visto como benevol\u00eancia, mas, sim, como justi\u00e7a social.\u201d<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-gallery columns-1 is-cropped wp-block-gallery-1 is-layout-flex wp-block-gallery-is-layout-flex\"><ul class=\"blocks-gallery-grid\"><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"681\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-1024x681.jpg\" alt=\"\" data-id=\"40358\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/flavio-dutra-9005-2\/\" class=\"wp-image-40358\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-1024x681.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-768x511.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-465x309.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2-695x462.jpg 695w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9005-2.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure><\/li><li class=\"blocks-gallery-item\"><figure><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2.jpg\"><img decoding=\"async\" width=\"1024\" height=\"685\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-1024x685.jpg\" alt=\"\" data-id=\"40360\" data-full-url=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2.jpg\" data-link=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/flavio-dutra-9024-2\/\" class=\"wp-image-40360\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-1024x685.jpg 1024w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-300x201.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-768x514.jpg 768w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-465x311.jpg 465w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2-695x465.jpg 695w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2021\/11\/Fla\u0301vio-Dutra-9024-2.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/a><\/figure><\/li><\/ul><figcaption class=\"blocks-gallery-caption\">Wagner Machado e Maysa da Silva Sobrinho de Lima s\u00e3o servidores t\u00e9cnico-administrativos da UFRGS e pesquisadores de p\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o (Fotos: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A Lei de Cotas que estabeleceu que 50% das matr\u00edculas de institutos e universidades federais devem ser destinadas a estudantes de escolas p\u00fablicas \u00e9 uma pol\u00edtica que contribuiu para melhorar o acesso de negros e ind\u00edgenas \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Em artigo publicado em 2019 (<a href=\"https:\/\/www.scielo.br\/j\/cp\/a\/KSvkm3DG3pPZYvpXxQc6PFh\/?format=pdf&amp;lang=pt\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">O perfil discente das universidades federais mudou p\u00f3s-lei de cotas?<\/a>), o soci\u00f3logo Adriano Souza Senkevics e a economista espanhola Ursula Mattioli Mello avaliam o impacto da mudan\u00e7a do perfil dos estudantes na gradua\u00e7\u00e3o. Eles cruzaram dados do Censo da Educa\u00e7\u00e3o Superior e do Exame Nacional do Ensino M\u00e9dio (Enem) e compararam caracter\u00edsticas de quem ingressou entre 2012 e 2016, considerando crit\u00e9rios como proced\u00eancia escolar, autodeclara\u00e7\u00e3o de cor e ra\u00e7a e renda domiciliar per capita.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">No estudo, os autores sustentam que a pol\u00edtica de cotas foi respons\u00e1vel por mais de 50% do aumento da presen\u00e7a de negros e ind\u00edgenas no ensino superior do pa\u00eds, embora reconhe\u00e7am que a amplia\u00e7\u00e3o de vagas nas universidades e a oferta de cursos em per\u00edodo noturno tamb\u00e9m produziram mudan\u00e7as no perfil do aluno. Para Katemari, h\u00e1 raz\u00f5es para comemorar, mesmo que as conquistas sejam tardias e pequenas. Ela acredita que a organiza\u00e7\u00e3o e os movimentos negros, ao longo das d\u00e9cadas, foram fundamentais para a implementa\u00e7\u00e3o das pol\u00edticas de contas raciais.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O Estatuto da Igualdade Racial, que completou uma d\u00e9cada de exist\u00eancia no ano passado, tamb\u00e9m \u00e9 citado como ponto relevante para o avan\u00e7o da inclus\u00e3o da popula\u00e7\u00e3o negra na sociedade, apesar das ressalvas. \u201cAinda ocupamos postos de trabalho mais prec\u00e1rios, somos mais assassinados que as pessoas brancas, vivemos em condi\u00e7\u00f5es piores e temos menos acesso \u00e0 educa\u00e7\u00e3o. Acredito que esse abismo racial segue existindo, apesar do dispositivo legal que \u00e9 o estatuto, porque o racismo ainda \u00e9 uma quest\u00e3o mal resolvida no Brasil. Embora seja crime, h\u00e1 pouca penaliza\u00e7\u00e3o. E, quando ocorre, recai em discrimina\u00e7\u00e3o e preconceito, que tem menor poder de puni\u00e7\u00e3o\u201d, analisa Wagner.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Ali\u00e1s, ele enfatiza que \u00e9 preciso entender que o racismo \u00e9 uma ferida aberta na sociedade e que tamb\u00e9m se trata de um problema de pessoas n\u00e3o negras. \u201c\u00c9 hora, portanto, de promover a presen\u00e7a real de negros e negras no mercado de trabalho, nas universidades. O reflexo ser\u00e1 positivo, e esse esfor\u00e7o de inclus\u00e3o oportuniza n\u00e3o apenas a carreira ou a vida pessoal desses comunicadores, mas amplia a diversidade nos espa\u00e7os profissionais\u201d, conclui o doutorando. Na mesma linha, Maysa acrescenta: \u201cTemos um longo caminho a percorrer, mas o importante \u00e9 que j\u00e1 come\u00e7amos a andar em dire\u00e7\u00e3o a um mundo mais igualit\u00e1rio e representativo. Sonho com o dia em que todos os espa\u00e7os sejam a real representa\u00e7\u00e3o da nossa sociedade, sem distin\u00e7\u00f5es ou estranhamentos\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Como s\u00edntese da luta, da resist\u00eancia e da esperan\u00e7a, Wagner traz a m\u00fasica <a href=\"https:\/\/www.youtube.com\/watch?v=QJ8Zp_HYsbI\">Eu sou<\/a>, de WD:<\/p>\n\n\n\n<pre class=\"wp-block-verse\">Eu sou<br>A voz da resist\u00eancia preta<br>Eu sou<br>Quem vai empretar minha bandeira<br>Eu sou<br>E ningu\u00e9m isso vai mudar<br>Tudo come\u00e7ou dar certo<br>Quando eu aprendi me amar<\/pre>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"WD | Eu Sou (Clipe Oficial)\" width=\"1440\" height=\"810\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/QJ8Zp_HYsbI?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; 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