{"id":40333,"date":"2021-11-18T09:00:00","date_gmt":"2021-11-18T12:00:00","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=40333"},"modified":"2021-11-18T11:43:32","modified_gmt":"2021-11-18T14:43:32","slug":"a-potencia-de-uma-voz-negra-feminina","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-potencia-de-uma-voz-negra-feminina\/","title":{"rendered":"A pot\u00eancia de uma voz negra feminina"},"content":{"rendered":"\n<h4 class=\"wp-block-heading\">Artigo | Primeira bolsista negra do JU, a estudante de Jornalismo Karoline Costa reflete sobre suas experi\u00eancias no percurso de uma forma\u00e7\u00e3o profissional no qual n\u00e3o tinha refer\u00eancias <\/h4>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\" style=\"font-size:11px\"><em>*Por: Karoline Costa<br>*Foto: Karoline Costa, ex-bolsista do Jornal da Universidade, atualmente \u00e9 assessora parlamentar na C\u00e2mara de Vereadores de Buti\u00e1, cidade em que mora, em foto feita atrav\u00e9s do aplicativo Zoom (Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/em><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eu n\u00e3o me via na TV. Nos telejornais, eu n\u00e3o me via na bancada, sem protagonismo para a mulher preta. A falta de refer\u00eancia n\u00e3o me deixava imaginar que hoje eu seria uma graduanda em jornalismo a dois semestres de dist\u00e2ncia da formatura. Come\u00e7os s\u00e3o dif\u00edceis, t\u00eam a adapta\u00e7\u00e3o com a vida, a ruptura da antiga rotina, e eu sa\u00ed de uma cidade chamada Buti\u00e1, com pouco mais de 22 mil habitantes, a 84,1 km de Porto Alegre, para justamente desembarcar no Campus Sa\u00fade da UFRGS, mais precisamente na <a href=\"http:\/\/www.ufrgs.br\/fabico\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Faculdade de Biblioteconomia e Comunica\u00e7\u00e3o<\/a>, que logo aprendi a chamar de Fabico.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Pergunte a uma menina preta de 17 anos que mora no interior e nunca pisou em uma federal se ela se imagina se formando com menos de 25 anos em jornalismo. Eu nunca tive a aud\u00e1cia de me perguntar isso, pois era uma realidade t\u00e3o distante que me faltava imagina\u00e7\u00e3o para formular tal questionamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Eis a resposta da pergunta que nunca me fiz: eu vou me formar em jornalismo com menos de 25 anos em uma universidade federal. Mas isso vai muito al\u00e9m da pergunta e da resposta, pois o que encontrei dentro da academia foi um mundo de possibilidades. <\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O jornalismo me permitiu ser e estar em lugares jamais antes imaginados por esta (quase) jornalista que vos escreve. Narrar hist\u00f3rias reais \u00e9 o que tanto me fascina nessa profiss\u00e3o.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O est\u00e1gio obrigat\u00f3rio realizado no Jornal da Universidade, em 2019, aconteceu como uma alternativa. Eu ainda estava cursando o terceiro semestre quando me candidatei a uma vaga de bolsista; no entanto, eu precisaria ter conclu\u00eddo as disciplinas desse semestre para obter os cr\u00e9ditos necess\u00e1rios para disputar tal vaga. Surge, ent\u00e3o, a possibilidade de entrar no JU como estagi\u00e1ria, e foi o que aconteceu.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Quando eu entrei no JU \u2013 \u00e0 \u00e9poca mensal e impresso, mas em processo de converg\u00eancia para outras m\u00eddias, como as redes sociais \u2013, encontrei espa\u00e7o para explorar ao m\u00e1ximo a sensibilidade jornal\u00edstica dentro de mim. Diferente de outros est\u00e1gios que eu poderia ter feito em ve\u00edculos com not\u00edcias e mat\u00e9rias di\u00e1rias \u2013 o que chamamos no jarg\u00e3o jornal\u00edstico de <em>hard news<\/em> \u2013, no Jornal da Universidade, por ser mensal, havia a possibilidade de uma conex\u00e3o mais longa com as pautas \u2013 o chamado <em>slow news<\/em> \u2013, o que para uma estudante sem experi\u00eancia em reda\u00e7\u00e3o funcionou como um grande aprendizado.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O conhecido dito popular <em>a primeira vez a gente nunca esquece<\/em> se concretiza para mim depois da publica\u00e7\u00e3o da minha primeira reportagem no JU: <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/perfil-sergio-leite\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">o perfil do professor de Bot\u00e2nica Sergio Leite<\/a>. Foi um desafio fazer o perfil de um professor com tantas hist\u00f3rias para contar e tamanha intimidade com a Universidade. Mas t\u00e3o desafiador quanto selecionar o que eu considerava importante de pouco mais de tr\u00eas horas de entrevista \u2013 ou conversa \u2013 foi pesar o que era mais relevante.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>O que importa mais \u00e9 uma constante d\u00favida \u2013 enquanto escrevo esse artigo, seleciono as palavras que se sucedem. As escolhas s\u00e3o as presen\u00e7as, as visualidades, mas tamb\u00e9m s\u00e3o as aus\u00eancias, as invisibilidades.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Sair da minha zona de conforto e parar em um curso de Design ministrado na <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/arquitetura\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Faculdade de Arquitetura e Urbanismo<\/a> da UFRGS pelo professor convidado da <a href=\"https:\/\/www5.usp.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Universidade de S\u00e3o Paulo<\/a> (USP) Marcos da Costa Braga foi, sem d\u00favida, um dos maiores desafios ao longo do meu percurso no JU. <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/os-desafios-para-o-designer-no-mercado-de-trabalho\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">A entrevista<\/a> foi desafiadora por causa do meu distanciamento em rela\u00e7\u00e3o ao tema e de n\u00e3o ter um conhecimento pr\u00e9vio sobre design. Ainda assim foi igualmente instigante aprender um novo assunto.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Assuntos caros para mim s\u00e3o ao mesmo tempo mais dif\u00edceis e mais apaixonantes de escrever. Dif\u00edceis porque s\u00e3o temas que me tocam profundamente e que s\u00e3o sens\u00edveis \u00e0 sociedade. E apaixonantes porque s\u00e3o temas necess\u00e1rios e hist\u00f3rias das quais podemos tirar reflex\u00f5es, mesmo sendo uma ferida aberta em nosso pa\u00eds, como, por exemplo, o racismo. J\u00e1 como bolsista do JU, tive a oportunidade de <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/se-os-negros-nao-conseguem-avancar-a-sociedade-tambem-nao-avanca-afirma-jeferson-tenorio-um-dos-primeiros-cotistas-formados-pela-ufrgs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">entrevistar o professor e escritor Jeferson Ten\u00f3rio<\/a>, um dos primeiros cotistas formados pela UFRGS. Depois do assassinato de George Floyd e com a onda de protestos antirracistas se espalhando pelos Estados Unidos, Europa e chegando aqui no Brasil, a entrevista se baseou na reflex\u00e3o do professor sobre o racismo impiedoso e genocida que continua apagando nossa subjetividade e matando nossos corpos.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outra reportagem que me afetou especialmente foi contar sobre <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/projeto-de-extensao-promove-campanha-para-dar-visibilidade-as-estudantes-negras-da-ufrgs\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">a a\u00e7\u00e3o de extens\u00e3o que deu visibilidade para as estudantes negras da Universidade<\/a>. O projeto das <a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/meninasnaciencia\/\" target=\"_blank\" rel=\"noreferrer noopener\">Meninas na Ci\u00eancia<\/a>, muito mais do que trazer os dados da presen\u00e7a dessas estudantes \u2013 e me incluo nessa pesquisa, como respondente \u2013, trouxe o rosto delas, as hist\u00f3rias, as perspectivas de uma maior presen\u00e7a negra feminina em todas as \u00e1reas, pois, sim, somos minoria em todas as \u00e1reas.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p>Deixo pro final \u2013 contrariando os crit\u00e9rios de noticiabilidade aprendidos na faculdade \u2013 o que considero mais importante: eu fui a primeira estudante negra do Jornal da Universidade.<\/p><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Essa not\u00edcia caiu no meu colo depois de uma liga\u00e7\u00e3o do editor-chefe, Everton Cardoso. Em um primeiro momento comemorei, afinal fui pioneira no Jornal, a primeira bolsista negra depois de duas d\u00e9cadas de exist\u00eancia do JU. Mas logo em seguida veio a reflex\u00e3o: quantas mulheres negras jornalistas passaram pela Fabico e n\u00e3o tiveram a chance \u2013 por in\u00fameras raz\u00f5es \u2013 de fazer parte da hist\u00f3ria do JU? De trazer o olhar de quem est\u00e1 na base da pir\u00e2mide social e consegue enxergar opress\u00f5es e viv\u00eancias que quem est\u00e1 acima na escala de opress\u00e3o? Perco-me nesse pensamento.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A primeira li\u00e7\u00e3o que aprendi no curso de Jornalismo foi a objetividade. O jornalista trabalha com objetividade nas suas produ\u00e7\u00f5es, mas o que eu aprendi ao longo do curso e do trabalho que realizei no Jornal da Universidade foi que objetividade n\u00e3o \u00e9 sin\u00f4nimo de distanciamento. Em tempos em que a dist\u00e2ncia \u00e9 necess\u00e1ria, nunca se fez t\u00e3o urgente a proximidade. O que seria objetividade sen\u00e3o o jornalista se aproximar do tema e das hist\u00f3rias contadas a ponto de narr\u00e1-las o mais pr\u00f3ximo da realidade.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Agora eu me vejo na TV, nas bancadas dos telejornais. Me vejo na Universidade \u2013 mesmo nos cursos em que estou em menor n\u00famero estou presente. Me vejo no Jornal da Universidade. Me vejo na C\u00e2mara Municipal. Muitas que vieram antes de mim gritaram e n\u00e3o foram ouvidas, lutaram e n\u00e3o tiveram a oportunidade de tentar estar presentes em lugares de destaque. Mas hoje, ainda que abafada pelo silenciamento, eu ou\u00e7o a pot\u00eancia da voz negra feminina.<\/p>\n\n\n\n<hr class=\"wp-block-separator is-style-dots\"\/>\n\n\n\n<p class=\"has-background wp-block-paragraph\" style=\"background-color:#ebebeb\"><strong>Karoline Costa <\/strong>\u00e9 graduanda do 6.\u00b0 semestre de Jornalismo. Atualmente \u00e9 bolsista volunt\u00e1ria de inicia\u00e7\u00e3o cient\u00edfica da pesquisa &#8220;Ser mulher e ser pesquisadora no campo da Comunica\u00e7\u00e3o: entre pap\u00e9is sociais e desigualdades na esfera do trabalho e da produtividade acad\u00eamica&#8221;. O projeto \u00e9 realizado em uma parceria entre a UFRGS e UFSM, coordenado pelas professoras Laura Wottrich e Milena Freire.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Artigo | Primeira bolsista negra do JU, a estudante de Jornalismo Karoline Costa reflete sobre suas experi\u00eancias no percurso de uma forma\u00e7\u00e3o profissional, na qual antes n\u00e3o tinha refer\u00eancias para poder vislumbrar<span class=\"more-link\"><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/a-potencia-de-uma-voz-negra-feminina\/\">Leia mais<\/a><\/span><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":40407,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_themeisle_gutenberg_block_has_review":false,"page_builder":"","footnotes":"","_ppma_block_editor_authors":""},"categories":[53],"tags":[],"ppma_author":[2938],"class_list":["entry","author-gerente","has-excerpt","post-40333","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","category-artigo"],"pp_statuses_selecting_workflow":false,"pp_workflow_action":"current","pp_status_selection":"publish","yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v28.7 - 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