{"id":4202,"date":"2019-08-01T09:00:49","date_gmt":"2019-08-01T12:00:49","guid":{"rendered":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/?p=4202"},"modified":"2019-08-22T09:24:57","modified_gmt":"2019-08-22T12:24:57","slug":"tempos-dificeis-para-os-sindicatos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/tempos-dificeis-para-os-sindicatos\/","title":{"rendered":"Tempos dif\u00edceis para os sindicatos"},"content":{"rendered":"\n<h2 class=\"wp-block-heading\">*Publicado na Edi\u00e7\u00e3o 225 do JU<\/h2>\n\n\n\n<h5 class=\"wp-block-heading\"><strong>Sindicalismo<\/strong> | Em um cen\u00e1rio que alia desemprego com novas formas de trabalho, o movimento sindical brasileiro busca formas de sobreviver<\/h5>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-image\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"665\" height=\"444\" src=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Fl\u00e1vio-Dutra-1507-recorte.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-4203\" srcset=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Fl\u00e1vio-Dutra-1507-recorte.jpg 665w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Fl\u00e1vio-Dutra-1507-recorte-175x117.jpg 175w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Fl\u00e1vio-Dutra-1507-recorte-300x200.jpg 300w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Fl\u00e1vio-Dutra-1507-recorte-500x334.jpg 500w, https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/wp-content\/uploads\/2019\/07\/Fl\u00e1vio-Dutra-1507-recorte-165x110.jpg 165w\" sizes=\"(max-width: 665px) 100vw, 665px\" \/><figcaption>Categorias do setor privado, como comerci\u00e1rios, calculam em at\u00e9 70% a redu\u00e7\u00e3o no or\u00e7amento com as mudan\u00e7as na contribui\u00e7\u00e3o sindical (Foto: Fl\u00e1vio Dutra\/JU)<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Para que serve um sindicato? Quem representa? Qual a perspectiva do\nmovimento sindical no Brasil? Em um panorama de altos \u00edndices de desemprego e\ninformalidade, aliado a mudan\u00e7as profundas na legisla\u00e7\u00e3o que regula as rela\u00e7\u00f5es\nde trabalho, in\u00fameras quest\u00f5es se levantam sobre a representa\u00e7\u00e3o do trabalhador\ne a articula\u00e7\u00e3o entre direitos e emprego. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O argumento de que a redu\u00e7\u00e3o de direitos trabalhistas traria mais empregos \u2013 uma bandeira levantada com destaque pelo governo federal eleito em 2018 \u2013 ganhou for\u00e7a e repercuss\u00e3o na sociedade com a crise econ\u00f4mica e pol\u00edtica que assola o Brasil nos \u00faltimos anos e se constitui um vi\u00e9s que incita a desregulamenta\u00e7\u00e3o das leis trabalhistas num contexto hist\u00f3rico afeito ao liberalismo, segundo an\u00e1lise do professor Fernando Coutinho Cotanda, do Programa de P\u00f3s-gradua\u00e7\u00e3o em Sociologia da UFRGS. \u201cA partir dos anos 1970, o capitalismo sofreu uma crise muito grande de lucratividade.\u201d A busca por sa\u00eddas para essa crise, de acordo com o docente, foi o processo conhecido como \u2018reestrutura\u00e7\u00e3o produtiva\u2019: as empresas lan\u00e7aram m\u00e3o de recursos inovativos na produ\u00e7\u00e3o e nas rela\u00e7\u00f5es de trabalho. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">&#8220;Junto \u00e0s modifica\u00e7\u00f5es tecnol\u00f3gicas e organizacionais, as vit\u00f3rias pol\u00edticas do campo liberal ou ultraliberal nos anos 1980 \u2013 como na Europa e nos EUA \u2013 fragilizaram a posi\u00e7\u00e3o dos sindicatos, pois de suas agendas constava um processo de desregulamenta\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es de trabalho. Ent\u00e3o, desde aquela d\u00e9cada, est\u00e1 em curso no mundo um pensamento hegem\u00f4nico que busca desregulamentar as rela\u00e7\u00f5es de trabalho e inverter o polo protetivo \u2013 antes do lado do trabalhador e agora parece que quem tem que ser protegidas s\u00e3o as empresas, pois s\u00e3o geradoras de emprego.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><strong>Leia tamb\u00e9m:<br><\/strong><a rel=\"noreferrer noopener\" aria-label=\"Uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho: as novas configura\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de trabalho trazidas pelos aplicativos configuram um processo de precariza\u00e7\u00e3o (abre numa nova aba)\" href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/uberizacao-do-trabalho\/\" target=\"_blank\"><strong>Uberiza\u00e7\u00e3o do trabalho: as novas configura\u00e7\u00f5es das rela\u00e7\u00f5es de trabalho trazidas pelos aplicativos configuram um processo de precariza\u00e7\u00e3o<\/strong><\/a><strong><br><br><\/strong><a href=\"https:\/\/www.ufrgs.br\/jornal\/tradicao-e-modernidade-na-organizacao-dos-estivadores\/\"><strong>Estivadores: um s\u00e9culo de organiza\u00e7\u00e3o sindical<\/strong><\/a><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Esse vi\u00e9s, em parte\nfreado no Brasil do in\u00edcio dos anos 2000 com as vit\u00f3rias eleitorais da esquerda\ne do movimento sindical, agora ganha for\u00e7a no pa\u00eds, de acordo com a an\u00e1lise de\nCotanda. \u201cEu diria que o movimento sindical brasileiro est\u00e1 se fragilizando. Se\npegarmos a hist\u00f3ria do movimento sindical e fizermos um paralelo com a abertura\npol\u00edtica do Brasil p\u00f3s-ditadura militar, o que percebemos \u00e9 que houve um\nascenso do movimento sindical e tamb\u00e9m das for\u00e7as partid\u00e1rias de esquerda.\nNeste momento em que vivemos um per\u00edodo especial p\u00f3s-golpe, essas for\u00e7as est\u00e3o\nse fragilizando, e os sindicatos junto, porque a imagem do movimento sindical\nbrasileiro \u00e9 muito associada ao Partido dos Trabalhadores. Quando surgem o\nmensal\u00e3o e outros esc\u00e2ndalos pol\u00edticos, fragiliza-se a imagem das centrais\nsindicais.\u201d&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A an\u00e1lise \u00e9 compartilhada por Cl\u00e1udio Correa, diretor do Sindicato dos Empregados no Com\u00e9rcio de Porto Alegre (Sindec-POA) e integrante da dire\u00e7\u00e3o da For\u00e7a Sindical no Rio Grande do Sul. Atuando h\u00e1 28 anos como dirigente, avalia que, para o sindicalismo, o per\u00edodo atual \u00e9 um dos mais dif\u00edceis que j\u00e1 presenciou. \u201cOs pol\u00edticos brasileiros acham que todo movimento sindical \u00e9 petista, mas est\u00e3o extremamente enganados. Na For\u00e7a Sindical, temos gente do PC do B, Democratas, PSDB, PT, tudo que \u00e9 partido, porque os trabalhadores s\u00e3o plurais. <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A vis\u00e3o de que o movimento sindical \u00e9 petista nos traz preju\u00edzo, porque os erros e atos irrespons\u00e1veis dos governos de esquerda abriram uma porta enorme para o ataque \u00e0s institui\u00e7\u00f5es. Hoje existe na sociedade esse entendimento de que as institui\u00e7\u00f5es, como as universidades, por exemplo, s\u00e3o manipuladas pela esquerda. E est\u00e1 bem claro que este governo n\u00e3o considera seu maior advers\u00e1rio o PT, mas o movimento sindical brasileiro.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A confus\u00e3o entre\nmovimento sindical e partidos de esquerda atinge tamb\u00e9m o trabalhador, segundo\nCl\u00e1udio. Para resolver esse quadro, a aposta n\u00e3o \u00e9 nenhuma novidade: trabalho\nde base \u2013 uma frente de atua\u00e7\u00e3o que sofreu grande impacto com as medidas\naplicadas pela reforma trabalhista de 2017. \u201cO trabalhador n\u00e3o se sindicaliza\npela causa, mas por interesse social. Oferec\u00edamos ao comerci\u00e1rio aux\u00edlio\nodontol\u00f3gico e jur\u00eddico, creche, col\u00f4nia de f\u00e9rias\u2026 Tudo isso foi encerrado,\nporque nosso or\u00e7amento caiu em cerca de 70% ap\u00f3s a reforma. Imagine uma\nestrutura que recebe 20 milh\u00f5es de reais por ano e de uma hora pra outra\nprecise conviver com 5 milh\u00f5es ou menos.\u201d <\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Um dos maiores s\u00edmbolos do movimento sindical no Brasil, a Central \u00danica dos Trabalhadores (CUT), afirma ter sofrido um impacto menor, muito em fun\u00e7\u00e3o de contar em seus quadros com um expressivo n\u00famero de sindicatos de servidores p\u00fablicos, categoria que tem os maiores \u00edndices de filia\u00e7\u00e3o. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O presidente da regional ga\u00facha da CUT, o metal\u00fargico Claudir Nespolo, lembra que a entidade historicamente foi contr\u00e1ria \u00e0 obrigatoriedade da contribui\u00e7\u00e3o e aponta que a alternativa para contrabalan\u00e7ar a redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento foi investir nas filia\u00e7\u00f5es. \u201cSempre defendemos que o sindicato de luta tem que associar o trabalhador, convenc\u00ea-lo de que \u00e9 importante pagar para ter um instrumento de defesa. Individualmente, ele n\u00e3o vai conseguir resolver os grandes problemas, por isso tem que se juntar e defender a entidade. Ent\u00e3o, se a entidade tinha muito s\u00f3cio, dependia menos do imposto.\u201d A Central estipula em cerca de 30% a m\u00e9dia de redu\u00e7\u00e3o do or\u00e7amento de seus filiados. A orienta\u00e7\u00e3o foi de que o corte fosse feito essencialmente em estrutura para se manter o m\u00e1ximo do poder de articula\u00e7\u00e3o pol\u00edtica.&nbsp; <\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Perspectivas<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O futuro da mobiliza\u00e7\u00e3o sindical \u00e9 incerto, at\u00e9 porque o cen\u00e1rio do presente ainda n\u00e3o foi completamente compreendido pelas entidades, segundo an\u00e1lise de Cotanda. Al\u00e9m dos obst\u00e1culos financeiros, h\u00e1 um desafio que o professor considera mais importante: o de se reinventar. A aposta para manter o sindicalismo atual deve ser de incorporar pautas modernas. \u201cO n\u00famero de entidades sindicais no Brasil \u00e9 alt\u00edssimo, mas o \u00edndice de trabalhadores formais sindicalizados \u00e9 baixo. Isso significa que os sindicatos se mobilizam mais para criar entidades cujos trabalhadores estejam formalizados, por\u00e9m t\u00eam uma dificuldade imensa de ir na dire\u00e7\u00e3o dos trabalhadores que n\u00e3o est\u00e3o formalizados. Essa \u00e9 a mudan\u00e7a de curso que o movimento tem que fazer se quiser sobreviver.<\/p>\n\n\n\n<blockquote class=\"wp-block-quote is-layout-flow wp-block-quote-is-layout-flow\"><p> &#8220;E agora as entidades dos trabalhadores se defrontam com uma nova pergunta: \u2018Pra que serve o sindicato?\u2019. Ter\u00e3o que tentar convencer os trabalhadores a aderirem a um sindicato, e surge uma s\u00e9rie de outras complica\u00e7\u00f5es. Por que o sindicato ainda \u00e9 predominantemente patriarcal, controlado geralmente por homens de 30, 40, 50 anos? Ter\u00e3o, portanto, que ir em dire\u00e7\u00e3o aos jovens, ter uma discursividade que consiga torn\u00e1-los sujeitos, assim como as mulheres, afora toda uma pauta identit\u00e1ria que ficava fora da discuss\u00e3o sindical.\u201d <\/p><cite>Fernando Cotanda<\/cite><\/blockquote>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Outro n\u00f3 a se solucionar diz respeito \u00e0s novas formas de trabalho. A CUT realiza em 2019 seu 13.\u00ba Congresso Nacional e, segundo Claudir, foca a reflex\u00e3o na moderniza\u00e7\u00e3o do sindicalismo. \u201cO ponto principal [do encontro] n\u00e3o \u00e9 a resist\u00eancia aos ataques \u2013 o que tamb\u00e9m est\u00e1 previsto \u2013, mas quem representamos. Porque o aumento da terceiriza\u00e7\u00e3o na reforma trabalhista, junto com o trabalho em casa, a uberiza\u00e7\u00e3o, o trabalho por conta pr\u00f3pria, os Microempreendedores Individuais (MEI) \u2013 tudo isso gera uma classe trabalhadora fragmentada ao m\u00e1ximo, que nem sabe onde est\u00e1 o patr\u00e3o. <br><\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">O atual padr\u00e3o sindical exige que se saiba quem \u00e9 o patr\u00e3o e onde ele est\u00e1 para conseguir reunir e negociar. Ent\u00e3o n\u00e3o sabemos ainda como lidar com essas novas formas de trabalho, n\u00e3o sabemos como mobilizar.\u201d<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A CUT tenta\norganizar em Porto Alegre um sindicato de trabalhadores em aplicativos, mas a\niniciativa ainda \u00e9 incipiente. \u201cA entidade est\u00e1 em processo de legaliza\u00e7\u00e3o, e\ntememos que o aplicativo possa querer desligar o cara que se filiar. Isso\ncaracterizaria ass\u00e9dio? Seria uma pr\u00e1tica antissindical? Tudo isso \u00e9 novo,\ninclusive pra justi\u00e7a. A realidade \u00e9 que \u00e9 uma m\u00e3o de obra extremamente\nprecarizada, s\u00f3 que os trabalhadores n\u00e3o concordam em ser chamados de\nprecarizados; acham que s\u00e3o empreendedores\u201d, reflete Claudir.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Cen\u00e1rio no pa\u00eds <\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">Segundo a Secretaria de Trabalho do Minist\u00e9rio da Economia, no Brasil existem 16.953 entidades sindicais, sendo 11.647 de trabalhadores e 5.306 de empregadores. O IBGE aponta que, em 2017, 85% dos trabalhadores formais n\u00e3o eram filiados a nenhuma entidade.<\/p>\n\n\n\n<h6 class=\"wp-block-heading\">Entenda a mudan\u00e7a na contribui\u00e7\u00e3o sindical<\/h6>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\">A reforma trabalhista de 2017 deu fim \u00e0 obrigatoriedade da contribui\u00e7\u00e3o equivalente a um dia de trabalho. Agora a contribui\u00e7\u00e3o deve ser autorizada por cada trabalhador. O que est\u00e1 em discuss\u00e3o:<br><em><br>ACORDADO X LEGISLADO: <\/em><br>a Reforma prev\u00ea que o acordo entre patr\u00e3o e empregado se sobreponha \u00e0 lei, e os sindicatos sustentam que uma assembleia pode representar a decis\u00e3o dos trabalhadores.  O governo federal editou a Medida Provis\u00f3ria 873, definindo que a autoriza\u00e7\u00e3o deveria ser individual de cada trabalhador, mas o texto n\u00e3o foi apreciado no tempo determinado e perdeu validade em julho.<br><br><em>FORMA DE CONTRIBUI\u00c7\u00c3O: <\/em><br>a MP 873 ainda proibia o desconto da contribui\u00e7\u00e3o em folha, obrigando o pagamento por boleto. A a\u00e7\u00e3o prejudicava os sindicatos, que arcavam com os custos banc\u00e1rios. O PSL prepara projeto de lei que visa retomar o impedimento de desconto em folha.<\/p>\n\n\n\n<p class=\"wp-block-paragraph\"><br><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Sindicalismo | Em um cen\u00e1rio que alia desemprego com novas formas de trabalho, o movimento sindical brasileiro busca formas de sobreviver Para que serve um sindicato? Quem representa? Qual a perspectiva do movimento sindical no Brasil? 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